terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Todos poetas, todos livres

Importunado com tamanha insensibilidade, Amadeu tomou o púlpito da situação: 

– Nenhum astrônomo foi à Saturno, mas perguntem-no da beleza de seus anéis! O ourives, por exemplo, conhece muito de química, mas é na beleza do ouro que está sua maior motivação. E o que dizer do alquimista, que desvenda os segredos mais antigos e profundos, mas guarda sob o peito uma ambição capaz de superar todos eles: a vida eterna? Quem aqui nunca parou para imaginar como seria o paraíso? Aliás, das metáforas que os poetas fazem, qual delas não possui a mesma razão destas outras, que é tentar abarcar o absoluto, abraçar a eternidade? Meus amigos, há teoria sobre tudo, prática verdadeira há quase nada... Até os mais teóricos só se guiam pelos sonhos. Eles vão como poetas, praticando mais com o espírito do que com o corpo suas maiores paixões. Então eu peço, peço encarecidamente, deixem-me falar de amor em paz, a mim pouco importa que nunca o terei.

E, calado, retornou para onde sempre estivera: na platéia.

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