Quando os xistos
estalavam, os únicos assuntos que os mais moços conseguiam manter eram
mulheres, bebidas e festas. Era um modo de aliviar a dor e o cansaço
psicológico das horas seguidas de trabalho árduo. Mas o velho Waldir tinha uma
postura diferente e não se metia muito nessas discussões: como os soldados o
poupavam, ele gastava mais tempo escovando o casaco do que conversando, o que
intrigava seus companheiros de camarata.
No primeiro dia de maio, depois de uma tarde inteira quebrando pedras, Wolfgang o encontrou escrevendo o próprio nome num pinheiro com uma estaca que improvisara. Estava esquálido como todos os outros, mas ereto, parecia um militar em continência. Wolfgang se aproximou e o cumprimentou levantando o ushanka.
No primeiro dia de maio, depois de uma tarde inteira quebrando pedras, Wolfgang o encontrou escrevendo o próprio nome num pinheiro com uma estaca que improvisara. Estava esquálido como todos os outros, mas ereto, parecia um militar em continência. Wolfgang se aproximou e o cumprimentou levantando o ushanka.
– Olá Wuff. – respondeu Waldir.
Wolfgang arrodeou
a árvore e, de soslaio, mirou o rosto do velho. Seus lábios estavam queimados
pelo frio.
– Eu sei onde tem vodka. –
disse.
Waldir o olhou de volta, avaliando-o.
– Não, obrigado.
– Você não gosta de vodka?
– Não.
– Mikhail e eu vamos roubar do
armazém esta noite. Já está tudo certo. Boris nos contou que há duas caixas em
baixo da cama do guarda novo, e esta noite ele vai à cidade farrear...
Enquanto Waldir falava, Wolfgang começou a riscar a árvore cada vez mais forte, praticamente anulando o som da voz do companheiro. Não ouviu, propositadamente, quando ele descreveu onde esconderiam a vodka e o que diriam caso fossem questionados sobre o sumiço. E Wolfgang, com seu egoísmo juvenil, nem percebeu o despeito do outro. Quando ele parou de falar, Waldir lhe sussurrou:
Enquanto Waldir falava, Wolfgang começou a riscar a árvore cada vez mais forte, praticamente anulando o som da voz do companheiro. Não ouviu, propositadamente, quando ele descreveu onde esconderiam a vodka e o que diriam caso fossem questionados sobre o sumiço. E Wolfgang, com seu egoísmo juvenil, nem percebeu o despeito do outro. Quando ele parou de falar, Waldir lhe sussurrou:
– Tolo. Você nunca ouviu dizerem que
o camarada Stalin tem olhos e ouvidos em toda parte?
Wolfgang congelou
por um tempo. Contudo, a lembrança do sabor da vodka voltou a lhe incendiar o
espírito. Retrucou:
– Não me importo com Stalin.
– Esta frase já seria suficiente para
nunca mais sair desta gulag.
Uma pasta de neve caiu entre os dois. Waldir o encarou firmemente. Embora falasse pouco, com o pouco que falava conseguia sair vencedor em quase toda discussão. Wolfgang pensou que aquela era uma boa hora para se calar, mas ainda perguntou:
Uma pasta de neve caiu entre os dois. Waldir o encarou firmemente. Embora falasse pouco, com o pouco que falava conseguia sair vencedor em quase toda discussão. Wolfgang pensou que aquela era uma boa hora para se calar, mas ainda perguntou:
– O que você está desenhando aí?
– Estou escrevendo meu nome.
Wolfgang saiu de trás da árvore e olhou a inscrição.
Wolfgang saiu de trás da árvore e olhou a inscrição.
– “Waldir Karamazov”.
– Nome de aristocrata, não? – Waldir
esboçou um sorriso irônico. Era um evento tão raro quanto estranho.
– Karamazov é um bonito nome. Mas
incomum para um judeu. De onde você vem, Waldir? Não vá me dizer que nasceu
aqui...
– Vim da Bessarábia. Mas estou aqui
há bastante tempo.
– Ouvi dizer que você foi o primeiro
a chegar ao campo.
– Não fui o primeiro, mas estava no
primeiro comboio. Sou o último que sobrou.
– O que aconteceu aos outros?
– Morreram tentando fugir.
Wolfgang acompanhava a estaca de Waldir, enquanto ela desenhava uma moldura cheia de arabescos ao redor do nome. Refletia sobre o que acabara de ouvir. Ainda não vira ninguém tentar fugir da gulag, mas sabia da fama de boa-mira dos guaritas e do estrago que seus rifles costumavam causar.
Wolfgang acompanhava a estaca de Waldir, enquanto ela desenhava uma moldura cheia de arabescos ao redor do nome. Refletia sobre o que acabara de ouvir. Ainda não vira ninguém tentar fugir da gulag, mas sabia da fama de boa-mira dos guaritas e do estrago que seus rifles costumavam causar.
– Você nunca tentou fugir, Wald?
– Fugir para onde? – Esta
era uma boa pergunta e Wolfgang não soube respondê-la. Waldir continuou: –
Além do mais, não acho que deva fugir.
– Como assim? – Wolfgang levantou a
orelheira num gesto de incredulidade.
– Você ouviu bem. Eu sei que este não
é o melhor lugar do mundo, mas também eu não sou o melhor dos homens.
– Não estou te entendendo.
– A liberdade é para poucos, caro
Wuff.
– Claro que não! A liberdade é para
todos!
Waldir voltou a
riscar a árvore com força.
– Eu sou um homem da guerra, Wuff.
Matei mais de trinta pessoas no Trina e espionei meu próprio país para os
sérvios. Torturaram minha esposa e meu irmão por causa disso. Mereço mais do
que ninguém estar onde estou.
Wolfgang pareceu secar com aquelas palavras. Ao mesmo tempo em que julgava o que aquele velho acabara de lhe contar, o ódio quase crônico que tinha pelo Partido criava ali, na sua frente, nada menos do que um herói. Contudo, sua expressão retrocedeu ao mais puro pavor quando Waldir abriu o casaco e lhe revelou a insígnia dos bolcheviques.
Wolfgang pareceu secar com aquelas palavras. Ao mesmo tempo em que julgava o que aquele velho acabara de lhe contar, o ódio quase crônico que tinha pelo Partido criava ali, na sua frente, nada menos do que um herói. Contudo, sua expressão retrocedeu ao mais puro pavor quando Waldir abriu o casaco e lhe revelou a insígnia dos bolcheviques.
– Com mil demônios, Waldir! Que
diabos significa este broche?
– Meu total apoio à revolução.
– Você só pode ser louco.
– Você é muito jovem, Wuff. Quando
for mais velho aprenderá a pensar como um estadista. Nós prisioneiros somos tão
necessários à nação quanto o trabalhador que constrói panelas, ou a criança que
estuda álgebra. Só através nosso trabalho a verdadeira liberdade poderá chegar
para os novos soviéticos.
Wolfgang nunca ouvira aquele homem falar tanto e já estava arrependido de ter ouvido.
– Quer dizer que você apoia os homens que torturaram sua mulher e que te mantém como escravo há quinze anos?
Wolfgang nunca ouvira aquele homem falar tanto e já estava arrependido de ter ouvido.
– Quer dizer que você apoia os homens que torturaram sua mulher e que te mantém como escravo há quinze anos?
– Nada menos que isto.
Os dois se olharam por cerca de cinco segundos, até Waldir guardar a estaca no casaco e sentar-se numa pedra musgada que ficava ao lado. Wolfgang continuou de pé.
Os dois se olharam por cerca de cinco segundos, até Waldir guardar a estaca no casaco e sentar-se numa pedra musgada que ficava ao lado. Wolfgang continuou de pé.
– Nós somos necessários, meu jovem.
Por isso não podemos dar motivos para que tirem nossas vidas; temos de
trabalhar duro, falar pouco e sonhar o menos possível. Quando aprenderes isto,
conseguirás ser feliz.
Waldir apanhou
uma vareta de negrilho e desenhou uma estrela de seis pontas na neve. Em
seguida murmurou: “Viva o camarada Stalin...”.
Na noite deste mesmo dia, Wolfgang e Mikhail roubaram duas garrafas de vodka e enterraram em baixo da rede de Boris. Mas assim que seus companheiros dormiram, Wolfgang as desenterrou e levou para um ponto cego atrás do galpão principal. Rezando para que o guarita estivesse dormindo, saltou duas cercas, driblou os cães e correu para a floresta, perdendo-se no meio dos pinheiros roxeados pela lua de maio.
Algumas noites
depois, Mikhail leu em voz alta a carta que achara enterrada no lugar das
garrafas de vodka. Nela, Wolfgang contava que pretendia chegar à Alemanha, onde
encontraria seus avós nazistas e os imploraria por algum trabalho na fábrica de
sapatos. Ao final da leitura, Mikhail dobrou a carta cuidadosamente e guardou
na bota.
– Os recrutas vão gostar de ler isso.
Recluso, num canto apenumbrado da
camarata, Waldir comentou:
– Jovem tolo... A Alemanha fica a
2.000 quilômetros daqui.
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