O dia começou como qualquer outro dia, porque o Sol seguiu o mesmo trajeto ao qual estava acostumado e os passarinhos cantaram da mesma forma, saindo das árvores para os fios da rede elétrica e de lá para qualquer canto. Era uma cidade normal que vivia os resquícios da euforia de ter elegido a primeira prefeita mulher, negra, ateísta, bissexual, comunista e ex-prostituta da história: um fato a se comemorar por anos, pois demonstrava a coragem do povo desta cidade!
Nesse dia este orgulho estava particularmente acentuado, pois era o dia da posse da prefeita. Todos acordariam cedo para ir ver, na praça da matriz, o discurso inicial. Iriam com as faces mais generosas que conseguissem no café-da-manhã, para em nenhum momento parecer preconceituosos ou desdenhosos. É preciso muita cautela para não demonstrar essas coisas!
De modo que, à altura do discurso, a população estava toda à beira do palco, organizada simetricamente, numa imensa demonstração de civilidade e respeito. A prefeita subiu ao palco com ajuda, porque, além de tudo, era manca. Testou o microfone dizendo “Bom dia”, mas o microfone estava defeituoso e ela teve de dar bom dia muitas vezes, demonstrando o quanto era educada.
Enquanto todos batiam palma para sua polidez, ela pigarreava, impaciente. Até que um general reformado que estava lá atrás deu um tiro pra cima e gritou: “Atenção para o discurso da excelentíssima e magnânima primeira-prefeita-preta, pagã e ex-puta da história!”
A prefeita agradeceu e começou: “Bom dia. Meu discurso não será longo, porque não é com discursos que se administra uma cidade. É com decretos.” Alguns sussurros, mas nenhum identificável. Então a prefeita continuou: “Minha primeira ordem deverá ser atendida por cada cidadão. Caso haja alguma resistência fecharei as escolas por um semestre e demolirei a igreja”.
Mais sussurros, e desta vez eles vinham até de cima do palanque.
“É o seguinte”, disse a prefeita, “A partir de hoje ninguém deverá sentir vergonha um do outro. Todos deverão viver completamente à vontade com as demais pessoas, seja família, amigos, ou mesmo com desconhecidos. Exijo esta postura também para com os forasteiros. Será bom para propagar a idéia.”
O ex-general deu um tiro pra cima e mais uma vez pediu silêncio, sem perceber que ninguém havia falado. Sem querer, acertou uma pomba, que caiu aos pés da prefeita manca. “E tenho dito”, disse ela, chutando a pomba em cima das velhas que estavam à beira do palanque. E assim terminou seu discurso.
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