Pedro decidira visitar
a mãe, Dona Leopoldina, para tentar convencê-la da sua necessidade urgente duma nova empregada
doméstica, pois seus 72 anos de idade estavam deixando as atividades do lar pra
lá de cansativas. Num sábado de manhã ele foi à casa da velha. Com medo de
um puxão de orelha, ajeitou o cabelo, abotoou o casaco, e só então tacou o dedo
na campainha.
“Blin Blón”
Dentro da casa o
barulho era bem maior e ecoava. Dona Leopoldina estava no fogão, despejando
duas generosas colheres de manteiga na frigideira, onde esperava fritar dois
ovos. Nesse momento, seu coração encheu-se de alegria.
“Pedroca!”
Ela soltou a margarina
na frigideira e correu para abrir o portão.
Dona Leopoldina ficara
viúva já havia quase um ano. Antes disso, a casa era sempre cheia de visitas,
de festas e de felicidade. Ela sempre fora uma dona de casa simples, mas nos últimos
anos da vida do seu marido, tão sofridos por causa do Alzheimer, as coisas
haviam ficado mais difíceis e ela não podia abrir mão de uma empregada
doméstica. Depois de uma longa pesquisa, e dezenas de candidatas rejeitadas,
finalmente contratou Neide, uma moça muito gentil, que cuidava do seu marido
como se fosse uma filha. A filha que sua esposa não lhe dera. No entanto, justo
no dia do aniversário de 86 anos, na hora dos parabéns, Seu Pedroca resolveu
morrer. Aí a velha surtou. A primeira reação, claro, foi derramar um oceano de
lágrimas e dizer que ia morrer. Depois, já à beira da insanidade, pintou uma
faixa preta enorme no muro de casa, queimou as roupas do velho e finalmente deu
as contas da pobre da Neide. “Posso me virar muito bem sozinha”, dizia
ela.
“Blin Blón”
Dona Leopoldina ia da
cozinha para a garagem, andando rápido, curvada sobre a sua bengala de cedro.
Atravessava a sala-de-estar, quando passou a mão pela cabeça e pensou: “Oh
céus, devo estar toda descabelada!”. Vaidosa que era, deu meia-volta e rumou
para o quarto, onde ficava o espelho e a escova de cabelo.
Lá fora seu filho
esperava pacientemente. Para ele a perda do pai também tivera um impacto
profundo, pois os dois eram muito parecidos, e muito próximos. Mas depois
disso, por ser filho único, sentira-se na obrigação de cuidar da sua mãe. Só
que ele não compreendia o que estava se passando: a cada visita que a fazia,
Dona Leopoldina demonstrava cada vez mais não dar a mínima para a sua presença.
Ignorava-o como se fosse um mero retrato pendurado na parede da sala...
A velha chegara ao
quarto. Ao parar na frente do espelho, deu-se conta de que estava muito
apertada. Pensou, "É melhor fazer logo xixi, já que estou tão perto
do banheiro. Depois vou lá e abro o portão."
No banheiro, ao passar
pelo espelho da pia, o reflexo chamou novamente a atenção para o cabelo
desarrumado. Ela se olhou por um momento, pensou em ir logo fazer xixi, mas
parou e continuou se olhando. Então voltou para o quarto para pegar a escova de
cabelo. Enquanto isso, seu filho a esperava lá fora, pensando nos argumentos
que usaria para conseguir dobrá-la. Porém, ao invés de achar a escova, Dona
Leopoldina achou foi seu vestido de noiva, que mesmo depois de tantos anos
ainda se mantinha perfeitamente conservado. Ao tomá-lo em mãos, suspirou
nostalgicamente.
“Blin Blón!”
A campainha soou
novamente e a fez voltar à realidade.
– Já vou, Pedroca!
Decidiu pôr o vestido
em cima da cama, para depois dar uma olhada com mais calma. Ao fazê-lo notou
que a cama estava bastante bagunçada. “É melhor arrumar pro
Pedroca!”
Dona Leopoldina arrumou a cama com
perfeição, e ao terminar suspirou aliviada. Já ia pro portão, quando a
campainha tocou novamente e a fez lembrar-se do cabelo, que por sua vez a fez
lembrar do xixi, que por fim a fez lembrar-se do vestido de noiva.
“Já sei, vou fazer uma
surpresa pra ele!”
Lá fora, depois de
muito chamar, Pedro resolveu usar sua cópia da chave, que nem mesmo sua mãe
sabia que ele tinha. Ao entrar na casa não estranhou o já típico silêncio, mas
o cheiro forte de manteiga torrada o pôs em alerta. Foi até a cozinha, apagou o
fogo e chamou:
– Mamãe!
Ninguém respondeu.
Pedro sentiu um frio percorrer sua espinha. Saiu a procurá-la por todos os
cômodos, um por um, e em todos que passava a única coisa que encontrava eram
teias-de-aranha e camadas espessas de poeira por cima dos móveis, denunciando o
abandono a que sua mãe se propusera.
Parado em frente a
porta do quarto, Pedro ouviu uma música tocando baixinho, que escapava por debaixo
da porta e trazia consigo uma estranha sensação de perda. Ao entrar deparou-se
com a inóspita cena: Dona Leopoldina estava deitada na cama, vestida de noiva,
de olhos cerrados, e com um sorriso confuso estampado no rosto. Fotografias em
preto-e-branco e polaróides de um colorido pálido se espalhavam ao seu redor.
Entre os dedos imóveis descansava a foto de sua tão remoída lua-de-mel em
Havana, de onde trouxera suas mais doces lembranças. O mar, a areia, o amor...
Todos os elementos pareciam se juntar melancolicamente ao seu sorriso num tom
que nunca mais poderia ser recomposto...
Dona Leopoldina estava
morta. Havia partido ao som de “Love me tender”, canção preferida do seu
marido, Pedroca. A luz da janela incidia sobre o seu rosto enrugado, e fazia cintilar
como nova a grinalda velha que havia encontrado entre as fotos, ainda enfeitada
com as flores de tecido azul.
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