Eu decorei as capitais e as bandeiras de todos os países, decorei a tabela periódica, li com quatro anos de idade os livros que o vestibular me obrigaria a reler. Disseram que o Gugu me queria no Domingo Legal, que pagaria passagens, hospedagem e cachê. Falaram que eu deveria estudar numa escola especial, com outras crianças especiais que, assim como eu, pareciam adultas. Eu cresci acreditando que era melhor do que todas as pessoas, que o futuro me reservava algo tão grandioso que era minha obrigação rejeitar a mediocridade dos que me cercavam. Tão cedo quanto pude vendi a alma ao futuro, sem sequer cogitar a possibilidade de ser criança. Aprendi a odiar a espera, me tornei ansioso e magro. Não comia direito porque ficava lendo na mesa, lia bulas de remédio, gnomos da prosperidade, lia onde não havia nada escrito, porque para mim sempre havia algo escrito. Aprendi o subtexto e a ironia antes de aprender a ser sincero, desenvolvi inflexões de âncora de jornal das oito só para questionar os professores. Nunca fiz natação, porque tinha o peito fraco. Mas joguei xadrez, venci todos os que jogaram contra mim em menos jogadas do que deveria. Não fiz amigos. Minha casa era um inferno, meu pai e sua nova esposa eram pessoas odiosas e frustradas e adoravam destratar a mim e ao meu irmão. Às vezes batiam muito em mim e no meu irmão. Perdi a conta das vezes que me escondi na biblioteca do colégio para não chegar em casa cedo. Perdi a conta dos livros que li por causa disso. Criei manias, trejeitos de maluco, tentei me incluir no grupo dos estranhos do colégio, mas eu era bonito demais para isso. Faltou dizer: embora magro e estranho, sempre fui bonito. Experimentei alguma popularidade por causa disso. Mas cansei, juro que cansei de ouvir as pessoas pedindo meus olhos verdes em troca de alguma coisa. Ganhei chupadas na orelha das amigas velhas da minha mãe: elas trocavam de roupa na minha frente e faziam danças sensuais. Uma delas pegou no meu pinto e perguntou se eu já tinha “namorado”. Eu acabei de lembrar disso. E lembrei também dos bolos de frigideira. Minha mãe fazia bolos de frigideira que até hoje são meu prato preferido, mas nem conto as vezes que a odiei por causa desses bolos. Eu tinha coragem de falar com a minha mãe, porque ela não era extremamente possessiva nem me batia muito. E eu era como o diabo pra ela, usava cada momento em que ela demonstrava fraqueza pra testar o desenvolvimento da minha dialética diabólica. Testei muitas falas de filme nela, e a fiz chorar. A fiz chorar por outros motivos também, o principal deles com certeza foi saudade. Passei a maior parte da infância longe dela. As cartas anormalmente cultas que eu a escrevia eram um reflexo do nosso distanciamento. Também eram como um treino, ela sempre escreveu muito bem e eu sempre quis ser o melhor em tudo. Aprendi a escrever. Enquanto em casa, ou na casa da mulher do meu pai, cada palavra de cada humilhação pela qual eu passava era despedaçada pelos meus argumentos mentais, mas cada palavra dos meus argumentos mentais se dissolvia quando tocava a minha língua. Eu vivia com medo, pensava em fugir várias vezes por dia, pensava também em me matar e até ensaiava, ora com faca peixeira, ora cheirando baygon. Meu irmão menor me segurou. Minha irmã menor ainda, fruto dessa casa, só dormia quando eu cantava “era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rowling Stones.” Quando acordava ela era como um papagaio do inferno repetindo todas as coisas nojentas que a mãe dizia. Eu queria matá-la, mas também queria levá-la embora pra um lugar melhor. Eu cresci, ela cresceu, todos cresceram e a maioria diminuiu. Os mesmos problemas de antigamente são disfarçados pela estabilidade financeira. Eu tenho dinheiro para bancar minha solidão e meu isolamento proposital. Não gosto da maioria das pessoas que conheço, sou traumatizado em tantos aspectos que todos os dias alguma reação minha me surpreende. Ontem comi uma garota que conheci ontem, e espero que ela não leia isso, mas também espero que ela leia, porque isto vai me jogar numa situação nova e eu não sei como vou agir. Talvez ela se sinta ainda mais atraída por mim, porque algumas pessoas são autodestrutivas. De qualquer modo, é bom aprender. Aprender para escrever. Sou como um vampiro que, por não temer a morte, vive apenas do prazer (desculpe a rima, não há como conter). Mas ao mesmo tempo sou como um monge numa busca intensa por mim mesmo. Até agora o meu nirvana só chegou através do ódio; começo a achar que o amor é que é uma faceta do ódio, e não o contrário como pensam os poetas. Ou como eu pensava quando me julgava poeta. Não sou poeta, sou a mesma coisa que sempre fui: uma criança adulta, um adulto velho, alguém precisando de uma turma especial para se encaixar. Vez em quando ainda sonho com as capitais do mundo, e no sonho sempre me perguntam qual a capital do Zimbabwe, e eu digo “Harare”, deixando o amigo, ou a namorada, ou o apresentador de TV estarrecido, porque ninguém sabe a capital do Zimbabwe, só aquelas crianças superdotadas que vão no Gugu.
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