terça-feira, 13 de dezembro de 2011

As mulheres nuas de Campina Grande

Ao longe ouviu-se apitos de guardas seguidos por latidos de cães alvoroçados. O barulho vinha de longe. As pessoas foram parando seus afazeres para prestar atenção. Aos poucos, cabeças erguidas se multiplicaram e se aglomeraram nas ruas, nas fachadas dos prédios e nos corredores estreitos entre os barracos da feira.

Numa destas barracas estava o cego Deribaldo, o vendedor de rádios.

Incentivado por um estranho e breve momento de silêncio no mundo, Deribaldo ligou todos os seus radiozinhos de pilha de uma só vez. Tocava Nessun Dorma, na voz de Pavarotti.

Os apitos começaram a se confundir com os latidos e expandiram-se num um burburinho frenético, algo bem mais denso do que o de costume da feira, mas ao mesmo tempo permeado por um tom diferente, um tom mais... feminino?!

Os primeiros cães surgiram no topo da ladeira, logo seguidos por vários policiais que corriam em debanda, como fugissem à própria morte. As pessoas da rua apenas olhavam, estupefatas, as dezenas de mulheres e homens fardados caindo uns por cima dos outros, rolando ladeira abaixo agarrados aos seus cães. Por trás deles, as primeiras silhuetas confusas pelo Sol das cinco da tarde solucionavam o mistério: eram mulheres nuas. Moças, senhoras de idade, gordas, magras, pretas, brancas, amarelas, azuis, dezenas, centenas de mulheres correndo nuas em pêlo. Saltavam por cima dos policiais, chutavam os ciclistas e os derrubavam, embrenhavam-se entre as barracas de cominho e cheiro-verde...

Num repente a rua ficou tomada por mulheres tresloucadas, que corriam e gritavam como tresloucadas (que palavra legal), mas todas essas mulheres com um enigmático sorriso no rosto. Ma il mio mistero e chiuso in me, il nome mio nessun saprá! Aquele era o dia delas, o dia das mulheres nuas de Campina Grande, e elas só parariam nas águas do açude velho, onde se banhariam e se afogariam entre as tartarugas e jacarés perdidos, entre os espíritos dos jangadeiros que ali outrora alçavam suas redes e carregavam suas correntes. Era o dia das mulheres nuas de Campina Grande, para o amanhã julgar e admirar, temer e inspirar.

Dilegua, o notte!
Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle!
All'alba vinceró!
vinceró, vinceró!

Na barraca dos rádios de pilha, a música perdeu-se enfim entre os comentários pasmos das testemunhas. Logo estava tudo calmo, e ainda que parte das barracas estivesse no chão e os pintos coloridos fugissem pelos bueiros, a rua experimentou uma espécie de paz ancestral tão forte que fez as pessoas tomarem-se pelas mãos e se abraçarem, para logo depois irem para suas casas em silêncio, para pensar na vida.

O cego Deribaldo ergueu o rosto para o horizonte e notou pelo calor que o Sol se punha.

“Má hora”, murmurou, “Má hora para anoitecer”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário