terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Continho


Trajano Júnior, o filho do Inspetor Trajano, era um jovem muito frustrado com a própria aparência. Não que ele fosse feio, claro que não, em verdade ele até era bem visado pelas garotas do colégio, que assobiavam para ele e lhe mandavam bilhetinhos, quase sempre respondidos com um gesto obsceno ou com um xingamento por escrito. O problema é que quando ele era pequeno, três pra quatro anos, o seu pai o chamava de “cabelo de bucha”, pois ele havia nascido com o cabelo crespo e revoltado, onde pente nenhum entrava, mesmo que tivesse um só dente. Dizia o pai, em meio a gozações de toda sorte, que o pêlo do filho era, de todo modo, geneticamente inexplicável, já que sua mãe – uma macumbeira maranhense com cara de polaca – tinha o cabelo liso que nem pêlo-de-milho, “e quanto a mim – dizia –, também não posso ter lhe legado tais genes, já que sou carequinha que nem um pirulito pop”. Por causa disso o menino passou a usar boné o dia inteiro, a noite inteira, o tempo inteiro, até para dormir e tomar banho. Claro que ele não gostava daquela situação, mas a vergonha era maior do que a coragem, e ele morria de medo do julgamento dos outros, que quase sempre é cruel e implacável com quem é diferente. Mas lá nos seus sonhos, onde o seu pai não estava, ele esperava ansiosamente o dia que aconteceria com ele que nem aconteceu na história do patinho feio. Ele chegava na frente do pai, tirava o boné em câmera lenta e lhe caía pelo rosto uma belíssima cabeleira loira e brilhante, como a daquela Barbie da sua irmã, e depois ele saía por aí cavalgando num corcel alado, ou então pilotando uma Harley Davidson cor-de-chumbo, que era mais fácil de conseguir.
Do outro lado da cidade, vivia uma menina chamada Esmeralda, que tinha acabado de chegar lá e ainda não conhecia ninguém, nem no bairro, nem na escola onde estudaria, a Escola Aquino Pinto. Há muita coisa para se falar sobre Esmeralda, pois ela era uma criatura por deveras pitoresca. Era baixinha, baixíssima, pouco mais de um metro de altura, e seu corpo era achatado e retangular que nem uma sanfona. Morava com a mãe, cujo nome verdadeiro ninguém sabe, nem a filha, pois ela só atende pelo codinome (ou nome-de-guerra) “Love Lue”, e com a vó, que não podia-se afirmar se estava viva ou não. Graças às piadas sobre a sua altura que tinha de aturar quando estudava na outra escola, Esmeralda começou a usar um par de sapatos de salto-alto altíssimos, que quase lhe dobravam a estatura e a deixavam com um aspecto mais esdrúxulo ainda. Eram desconfortáveis como pernas-de-pau, mas ela achava que se fosse alta as pessoas a olhariam nos olhos e parariam de lhe humilhar. Na primeira vez que ela saiu pra rua, para limpar o mato da calçada, as linguarudas de plantão da vizinhança a viram e já começaram a espalhar, “Tem um bicho morando lá na casa da falecida Marli”. Esmeralda, pobrezinha, mesmo acostumada com tais maldades, ficou triste e desapontada com a sua vida, pois reparou que não importava em que cidade estivesse, sempre seria tratada como uma besta de circo. E por falar em circo, esse era o seu grande sonho de criança: virar trapezista, e sair por aí, Brasil afora, num desses picadeiros mambembes onde os mais feios são os mais queridos.
Quando as aulas começaram, por acaso ou não, Esmeralda foi colocada na mesma sala de Trajano Júnior, numa carteira quebrada, logo ao lado, que praticamente os obrigava a manter algum contato. Mas manter algum contato não foi nenhum problema para os dois, pois desde a primeira troca de olhares já se sentiram amigos íntimos. E quando os dias passavam, a amizade dos dois só parecia aumentar, tanto que Esmeralda já estava ganhando até uma certa moral com as gurias do fundão, que na verdade a odiavam e só queriam se aproveitar da sua inocência, pois desejavam o filho do inspetor e não sabiam como fazer para conseguí-lo. Trajano, porém, estava notando que todos os seus amigos estavam se afastando, como se o fato d’ele ser amigo daquela garota o transformasse de repente numa companhia indesejável. E ele não ligava, porque, afinal de contas, se sentia muito mais feliz ao lado de Esmeralda, do que deles, que só sabiam falar de forró, cachaça, academia e adedonha. Trajano e Esmeralda conversavam sobre tudo, livros, filmes, música, mas do que mais gostavam de falar era sobre si mesmos. Uma vez Trajano a perguntou:
– Você sempre ficou sozinha na vida?
– Não... eu nunca tive ninguém, para depois ficar sozinha. E você?
– Não sei... Acho que sempre precisei de solidão. E nunca consegui. Sempre tinha alguém chato no meu pé, falando baboseira.
– Tipo o seu pai?
– É, tipo ele.
– Ele é o cara mais malacafento que já conheci.
– Malafacaoquê?
– Asqueiroso, abominável...
– Ah... – murmurou Trajano, esquecendo-se que aquilo era sobre o seu pai.
– Você me acha feia? – perguntou Esmeralda.
– Não sei, para falar a verdade acho que gosto da sua feiúra.
Esmeralda abaixou a cabeça.
– Eu te magoei? – disse Trajano.
– Não, não mesmo. É que nunca ninguém me disse algo assim, tão bonito...
– Quer que eu diga de novo?
Ela ergueu os olhos, e estava enrubescida.
– Me beija? – disse ela, com a voz tremida.
Trajano se assustou, pois achava que levaria mais tempo para conseguir um beijo dela. Estava nervoso e feliz, e um turbilhão de sentimentos invadia o seu corpo. Ele abraçou a menina e foi aproximando o rosto devagar. Mas no momento do beijo... Ops, a aba do boné bateu na testa dela e ambos sorriram sem graça.
– Tira o boné? – pediu Esmeralda.
– Não, si-sinto muito. – Trajano não conseguia disfarçar o nervosismo. – Não vou tirar o boné. Por quê você não tira o salto-alto?
– Não, isso não! – disse a menina, subitamente. – Eu nunca tiro o salto-alto!

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