terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Crítica: Thor


Por Daniel Magalhães*

Thor tem um roteiro de fantasia oitentista e não está nem aí para o realismo que virou moda nas adaptações de HQ nos últimos anos.

A princípio isto não é um demérito. Na verdade é algo até corajoso: nunca é fácil ir de encontro a uma estética sem parecer anacrônico ou deslocado. Mas vá lá, também vivemos numa época cuja experimentação parece tomar todos os âmbitos da sociedade. O grande defeito de Thor não está na abordagem, mas na execução. Mesmo com um roteiro puramente formuláico, seria possível disfarçá-lo sob cenas de ação mais inteligentes, diálogos mais inteligentes e direção de arte mais consciente. Thor, infelizmente, erra em tudo isso e se torna um filme estúpido.


Os carismáticos Chris Hemsworth (Thor) e Natalie Portman (Jane), embora tentem, definitivamente não conseguem superar as canastrices do roteiro. É até divertido ver a falta de reação da cientista quando o deus a surpreende na cozinha. Mas quando os personagens abrem a boca, não tem jeito, só saem abobrinhas. O filme inteiro é permeado por diálogos ridículos. Chega a dar vontade de sair do cinema quando, no clímax do longa, um personagem diz: "Thor, não!" e o outro, com a mesma pompa, brada: "Não, Thor!"

Felizmente, Anthony Hopkins (Odin) e Tom Hiddleston (Loki) ainda salvam o filme da idiotice completa quando dividem alguma cena. Suas impostações de vozes e movimentos de ombro, em certos momentos, dizem bastante dos anseios e dúvidas de seus personagens. Ao que, inevitavelmente, os diálogos vêm estragar. Mas o destaque mesmo fica para a jovem Kat Dennings (Darcy), óbvio alívio cômico do filme, cujo papel na história é.... fazer algumas piadas. E só.

A construção de Asgard, que vem sendo tão elogiada, realmente tem alguns bons momentos, quando o diretor de arte do filme parece lembrar de algumas regras de composição que aprendeu na escola. Porque durante a maior parte da projeção o que vemos é uma seqüência de panorâmicas e visões aéreas sobre um amontoado de formas geométricas em tons amarelos e vermelhos. É como se a equipe técnica do filme estivesse impressionada com a própria capacidade e desse uma de "matuto na capital". A direção de fotografia é igualmente infeliz ao empregar uma quantidade absurda de planos holandeses (aquele meio inclinado, ótimo para causar desconforto), além de alguns travellings sem sentido. Há cenas que simplesmente se perdem por causa desses cacoetes. Una-se a isto uma trilha sonora genérica e sem personalidade, empregada mais para cobrir o silêncio (que aqui parece incomodar a quem fez o filme) do que para tornar as cenas mais belas, ou ajudar no desenvolvimento da história.

E todos esses defeitos sob a supervisão do desatento Keneth Branagh, que tenta emular a solenidade do seu Hamlet (1996), mas tudo o que consegue é deixar seus personagens inverossímeis e chatos. Aliás, são tantos personagens que não sobra tempo para desenvolver nenhum, tornando parte deles praticamente obsoletos. Apenas para ilustrar a rasidade do filme, os amigos asgardianos de Thor são definidos assim: um é bobo, outro luta bem, um come muito, outro é mulher etc. Inteligência para quê, né?

Para finalizar, o que todos ja sabiam: "Thor" não faz [nada] além de preparar terreno para o filme dos Vingadores, sonho antigo da Marvel. Há inclusive alguns easter eggs divertidos, como a participação rápida do Gavião Arqueiro e da presença constante da misteriosa organização "SHIELD". Por isso não se surpreenda se algum fã dos quadrinhos cuspir pipoca na sua cabeça para deixar claro pro cinema inteiro que sabe quem é quem na história. Dito isto, boa sessão! E vá com alguém que possa te distrair.
Nota: 04/10

Nome original: Thor
País: EUA. 
Ano: 2011
Duração: 114 minutos
Gênero: Épico / Aventura
Direção: Kenneth Branagh
Roteiro: J. Michael Straczynski, Mark Protosevich
Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Anthony Hopkins, Tom Hiddleston, Kat Dennings, Stellan Skarsgård etc.

*Daniel Magalhães é estudante do 4º ano de jornalismo, 2º ano de Arte e Mídia, e pretende, muito em breve, se tornar um crítico de cinema profissional.

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