terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Febre

(...) A cortina chicoteava e os trovões se confundiam com o bater atormentado do seu coração. Geórgia azunhou os braços devagar, depois a barriga e o busto. A imaginação trabalhava ao ponto de aluciná-la, o suor, os gemidos, o teto do quarto misturava-se àquele teto espelhado, ela via-se, via-se como estava agora, seminua, fantástica visão remota, ela era a loba outra vez e seus olhos ardiam como ouro derretido. Geórgia se libertou dos lençóis, precisava de ar, precisava abrir-se, sentir-se toda, jogou o travesseiro pro lado, mas puxou-o de volta e o pôs entre as pernas. Cruzou-as. Cruzou-as mais forte. Sua boca salivava sedenta de si mesma enquanto o vento açoitava as plantas da varanda e entrava no quarto em forma de brisa, chegando às suas costas tão suave quanto aquela língua, ah, a língua... Os pêlos eriçavam quase como se pulsassem, a pele não precisa mais do que estímulo para se deixar ser decifrada, ela decifrara cada poro seu, ela a trouxera de volta, à tona, tantos anos frígidos agora pareciam uma tarde solitária, a carola se perdera com a violência do primeiro beijo, das unhas postiças desenhando em sua barriga enquanto as mechas ruivas escondiam o outro beijo, ah, o outro beijo... Geórgia beijou-se com os dedos da mão direita, os da esquerda estavam na boca, levavam saliva ao ventre e aos mamilos, quando o vento tocava sua pele umedecida ela gemia, seus ais eram os mesmos ais daquela noite, ela queria que fosse, repetia-os para sentir-se mais próxima, o que fazia inconsciente, porque a consciência, ou qualquer coisa aquém disso, estava apenas para o prazer simples e instintual, não é pecado algum se querer, ainda mais em noites quentes e chuvosas como esta, às vezes o melhor remédio contra a solidão é soltar a fera da imaginação na selva dos prazeres líbidos. Geórgia soltara sua loba e encontrara abrigo no meio da tempestade, nas lembranças ainda febris do encontro com Beladona. Esta espécie de esquizofrenia voluntária a fizera esquecer os rivotris, os augustos-curys e os velhos insones do quarto ao lado. Agora ela transpirava com a voz, gemia alto e arfava, podia-se suspeitar que os estalos da cortina fossem obra do seu pulmão, mas enfim, louvemos, o vento cessou, só a chuva resistia, ainda que adquirisse aquela postura constante e insistente das chuvas de inverno. Neste mar de sargaço em que Geórgia mergulhara com o último espasmo, havia agora um corpo que evanecia, ao passo em que o coração desritmava aos poucos, até retomar o compasso normal, como estava quinze minutos atrás, antes do trovão lhe trazer à memória a rolha do champagne explodindo e todo o resto que veio depois disso. (...)

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