terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Amanita


Saí daquele quarto meio zonzo, com uma sensação estranha de hiper-sensibilidade se espalhando pelo corpo, as mãos sensíveis aos toque dos dedos, o rosto sensível ao toque das mãos. Passou pela minha cabeça que aos poucos eu estivesse me transformando numa gosma, e que deveria escorrer para o primeiro esgoto que encontrasse. Não lembro o que pensei depois.
A vista foi escurecendo, abrindo e fechando, como que a trocar de lentes em câmera lenta.
Uma hora eram as sombras zoando frases hostis ao meu redor, noutra eram apenas as paredes enlodadas dos becos vis da boulevard of broken dreams que teimavam em balançar, me obrigando a ziguezaguear como um ébrio qualquer... Não, aquilo só podia ser algum efeito colateral da maldita amanita.                
Eles me avisaram que haveria uma metamorfose, mas eu não podia imaginar que viraria uma lesma...
Ajoelhei-me ao pé de um desses containers, pedi pela minha mama e em seguida vomitei. Deveria ter melhorado, mas não foi o que aconteceu. “Oh, mama, venha me buscar, estou com tanto... O que é aquilo?”              
À minha frente, saído das profundezas do inferno, havia um rato gigantesco, roendo uma corda velha que ligava o corredor de um lado ao outro. “Não faça isso maldito, você vai acabar..." – parei para refletir no absurdo que iria dizer. Eu estava prestes a alertar àquele rato da possibilidade daquela corda ser o único elo de ligação entre uma parede e outra; não obstante, antes que eu pudesse concluir a ilação a corda rebentou. 
“Mama” 
O tempo parou. Os sons ficaram abafados. Aos poucos a troca de lentes foi se acelerando e a minha vista foi voltando ao anormal costumeiro. Agora eu via tudo como num pixilation confuso, ora rápido, ora devagar – as vezes com o mesmo frame se repetindo por minutos a fio, até que a paisagem cansasse.
No final, quando o rato já havia fugido, as duas paredes do muro começaram a pendulear ao meu lado. Era assustador, tudo parecia dançar ao meu redor. As luzes dos postes entravam e saiam do beco, o container escorregava de um lado pro outro, as minhas costas arrastavam-se molemente, indo e vindo bem devagar, como se eu fosse uma...“Deus... uma lesma!” – e foi neste momento que tive a aterradora certeza de que já não podia mais me mexer como antes. Tentei me equilibrar, mas meu corpo escorreu e caiu sobre uma poça d'água. Nada funcionava corretamente. Eu estava, de fato, me tornando um molusco. Senti que meu pulmão parava de funcionar, foi uma sensação inacreditável: meus pés e mãos respiravam por mim, depois meu abdômen e coxas... aos poucos toda a minha pele emanava gás carbônico. Eu estava frio e viscoso... meus olhos estavam distantes, separados, acima da minha cabeça. Eu pude analisar o meu cabelo, a calvície se espalhando... pude olhar dentro do meu próprio olho (isso mesmo), e piscar para mim mesmo. E nessa hora sorri. Era algo realmente fantástico.
Eu já estava ficando tranqüilo quando notei que os muros permaneciam oscilando. Foi quando senti uma dor, e me dei conta de que havia muitas outras coisas para temer. Toda vez que a luz do poste me tocava eu sentia uma espécie de golpe, como se me jogassem um jato de amoníaco nas costas. Tive medo do que a luz do Sol poderia fazer. O lodo do beco tinha um cheiro bom, mas fermentava meu corpo, me deixava cada vez mais esmaecido... Os insetos pareciam maiores, a aquele container de repente passou a representar uma terrível zona selvagem, aonde todas as cadeias alimentares convergiam para mim. 
“E o rato?” 
Foi então que lembrei do roedor, que poderia voltar a qualquer momento e me devorar, em vingança aos maus pensamentos que lhe votei anteriormente. Fechei os olhos. Imaginei que estaria camuflado no lodo, e que se mantivesse-os fechados ele não seria capaz de me notar, como se a escurid... “O que foi isso?” Ouvi um estranho estalo e em seguida dezenas de cordas rebentando, uma após a outra. Por último, um rangido assombroso fez com que eu abrisse os olhos novamente.
Os muros estavam caindo, bem devagar, cada um para o seu lado, e a luz de centenas de postes invadia o beco. Me desesperei. Minha pele começou a secar e eu tentei gritar, mas o único som que conseguia produzir era um chiado que só podia ser ouvido por mim mesmo. Eu sentia o meu cérebro girar. Os muros estavam desmoronando, a luz estava entrando, eu morreria desidratado ali mesmo. “Espero que seja rápido” Quando as paredes caíram tomei mais um susto, dessa vez o último.
Centenas de pessoas caminhavam, todos bem vestidos, todos ocupados com seus telefones celulares ao ouvido... nenhuma me via, nenhuma podia me perceber. Eu deixei a morte chegar. Este é o triste destino das lesmas, viver e logo depois morrer, pois sentir-se vivo é mais do que o bastante para que a morte valha a pena. Crianças que brincavam na porta de uma lanchonete correram até o banquinho de areia onde eu estava encostado, a agonizar. Uma delas murmurou, "Uma lesma. Você sabe o que acontece se eu jogar sal nessa lesma?”, a outra respondeu que não. Eles correram até a lanchonete e voltaram. Eu já não me importava mais. Se tivesse de ser, que fosse logo. A criança abriu a mão, e os enormes cristais brancos foram caindo, saltando do espaço para tocar o meu corpo mole... “Viu? Ela derrete!”

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