Saí daquele quarto meio
zonzo, com uma sensação estranha de hiper-sensibilidade se espalhando pelo
corpo, as mãos sensíveis aos toque dos dedos, o rosto sensível ao toque das
mãos. Passou pela minha cabeça que aos poucos eu estivesse me transformando numa
gosma, e que deveria escorrer para o primeiro esgoto que encontrasse. Não
lembro o que pensei depois.
A vista foi
escurecendo, abrindo e fechando, como que a trocar de lentes em câmera lenta.
Uma hora eram as
sombras zoando frases hostis ao meu redor, noutra eram apenas as paredes
enlodadas dos becos vis da boulevard of broken dreams que teimavam em
balançar, me obrigando a ziguezaguear como um ébrio qualquer... Não, aquilo só
podia ser algum efeito colateral da maldita amanita.
Eles me avisaram que haveria
uma metamorfose, mas eu não podia imaginar que viraria uma lesma...
Ajoelhei-me ao pé de um
desses containers, pedi pela minha mama e em seguida vomitei. Deveria ter
melhorado, mas não foi o que aconteceu. “Oh, mama, venha me buscar, estou com tanto... O que
é aquilo?”
À minha frente, saído
das profundezas do inferno, havia um rato gigantesco, roendo uma corda velha
que ligava o corredor de um lado ao outro. “Não faça isso maldito, você vai acabar..." – parei para refletir no absurdo que
iria dizer. Eu estava prestes a alertar àquele rato da possibilidade daquela
corda ser o único elo de ligação entre uma parede e outra; não obstante, antes
que eu pudesse concluir a ilação a corda rebentou.
“Mama”
O tempo parou. Os sons
ficaram abafados. Aos poucos a troca de lentes foi se acelerando e a minha
vista foi voltando ao anormal costumeiro. Agora eu via tudo como
num pixilation confuso, ora rápido, ora devagar – as vezes com o mesmo frame se
repetindo por minutos a fio, até que a paisagem cansasse.
No final, quando o rato
já havia fugido, as duas paredes do muro começaram a pendulear ao meu lado. Era
assustador, tudo parecia dançar ao meu redor. As luzes dos postes entravam e
saiam do beco, o container escorregava de um lado pro outro, as minhas costas
arrastavam-se molemente, indo e vindo bem devagar, como se eu fosse uma...“Deus... uma lesma!” – e foi neste momento que tive a
aterradora certeza de que já não podia mais me mexer como antes. Tentei me
equilibrar, mas meu corpo escorreu e caiu sobre uma poça d'água. Nada
funcionava corretamente. Eu estava, de fato, me tornando um molusco. Senti que
meu pulmão parava de funcionar, foi uma sensação inacreditável: meus pés e mãos
respiravam por mim, depois meu abdômen e coxas... aos poucos toda a minha pele
emanava gás carbônico. Eu estava frio e viscoso... meus olhos estavam
distantes, separados, acima da minha cabeça. Eu pude analisar o meu cabelo, a
calvície se espalhando... pude olhar dentro do meu próprio olho (isso mesmo), e
piscar para mim mesmo. E nessa hora sorri. Era algo realmente fantástico.
Eu já estava ficando
tranqüilo quando notei que os muros permaneciam oscilando. Foi quando senti uma
dor, e me dei conta de que havia muitas outras coisas para temer. Toda vez que
a luz do poste me tocava eu sentia uma espécie de golpe, como se me jogassem um
jato de amoníaco nas costas. Tive medo do que a luz do Sol poderia fazer. O
lodo do beco tinha um cheiro bom, mas fermentava meu corpo, me deixava cada vez
mais esmaecido... Os insetos pareciam maiores, a aquele container de repente
passou a representar uma terrível zona selvagem, aonde todas as cadeias
alimentares convergiam para mim.
“E
o rato?”
Foi então que lembrei
do roedor, que poderia voltar a qualquer momento e me devorar, em vingança aos
maus pensamentos que lhe votei anteriormente. Fechei os olhos. Imaginei que
estaria camuflado no lodo, e que se mantivesse-os fechados ele não seria capaz
de me notar, como se a escurid... “O que foi isso?” Ouvi um estranho estalo e em
seguida dezenas de cordas rebentando, uma após a outra. Por último, um rangido
assombroso fez com que eu abrisse os olhos novamente.
Os muros estavam
caindo, bem devagar, cada um para o seu lado, e a luz de centenas de postes
invadia o beco. Me desesperei. Minha pele começou a secar e eu tentei gritar,
mas o único som que conseguia produzir era um chiado que só podia ser ouvido
por mim mesmo. Eu sentia o meu cérebro girar. Os muros estavam desmoronando, a
luz estava entrando, eu morreria desidratado ali mesmo. “Espero
que seja rápido” Quando
as paredes caíram tomei mais um susto, dessa vez o último.
Centenas de pessoas
caminhavam, todos bem vestidos, todos ocupados com seus telefones celulares ao
ouvido... nenhuma me via, nenhuma podia me perceber. Eu deixei a morte chegar.
Este é o triste destino das lesmas, viver e logo depois morrer, pois sentir-se
vivo é mais do que o bastante para que a morte valha a pena. Crianças que
brincavam na porta de uma lanchonete correram até o banquinho de areia onde eu
estava encostado, a agonizar. Uma delas murmurou, "Uma
lesma. Você sabe o que acontece se eu jogar sal nessa lesma?”, a outra
respondeu que não. Eles correram até a lanchonete e voltaram. Eu já não me
importava mais. Se tivesse de ser, que fosse logo. A criança abriu a mão, e os
enormes cristais brancos foram caindo, saltando do espaço para tocar o meu
corpo mole... “Viu? Ela derrete!”
Nenhum comentário:
Postar um comentário