terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Perto Demais


Quando assisti Closer pela primeira vez, fiquei pensando se um dia poderíamos medir o quanto de sinceridade é permitido para se manter uma relação. Eu tinha então 16 anos e estava passando por uma fase cheia de descobertas nesse sentido. Estava nervoso, porque uma menina do colégio havia me pedido em namoro e eu tinha aceitado apenas como uma forma de expulsar a angústia de nunca ter namorado. Eu tinha visto meu pai e minha mãe durante anos tentando manter um casamento que nunca, nem no começo, pareceu firme. Aprendi a odiar esse tipo de compromisso, e por isso projetava um futuro livre e solitário, cujas maiores metas não tinham relação nenhuma com amor.

Essa menina me pediu em namoro de um jeito doce e corajoso, mas parece que ela passava pelo mesmo problema que eu. Assim que aceitei, ela me deu um beijo e saiu correndo. Me deixou os três dias seguintes se perguntando se aquilo havia mesmo acontecido. Depois me mandou uma carta datilografada dizendo que havia sonhado comigo e que não parara de escutar o CD do U2 que eu a emprestara. Nesse momento pensei que talvez estivesse fazendo bem a ela, porque estava mostrando outro tipo de música além daquele forró de cabaré que ela gostava. Mas também pensei que estaria fazendo muito mal se minhas atitudes dessem a entender que eu também estava apaixonado.

Mas que diabos possuem nossa alma e que nos fazem, sem um pingo de remorso, se aproveitar da fragilidade dos outros. Depois da carta gastei muito mais tempo elaborando coisas bonitas para dizê-la do que meios de parecer frio. Por egoísmo, fui o melhor namorado que ela poderia ter. Até que o que eu menos (e mais!) queria aconteceu: ela disse “eu te amo”.

Desde cedo haviam me ensinado que essas palavras eram sagradas, importantes demais para se dizer a qualquer um. Mas deveriam ter me ensinado também a ser menos cínico e a dizer não. Se era cinismo ou generosidade, eu tive de fazer essa sacanagem e esse favor: “eu te amo também”, gorjeei. Ela sorriu o sorriso mais rural que eu me lembro de ter visto. E me beijou de língua.

O namoro já durava um mês quando a chamada da Tela Quente anunciou “Closer – Perto demais”. Adorei o nome, bem antes de perceber a redundância do aposto. E tinha a Natalie Portman de pernas abertas. Né.

Foi devastador. Não devia ter assistido. A sinceridade quase imoral daquela história tinha me deixado com um nó tão grande na garganta, que até hoje ele continua (vide meu pomo-de-adão avantajado). E pior: até esse dia eu era Daniel e todos os apelidos que os amigos haviam me dado. Mas nunca tinha sido Dan. Foi tudo culpa do Jude Law, aquele maldito, que ali expôs minha id como se fosse meu superego. E o nome da personagem dele era este, Dan, e Dan tinha que ser eu.

De todos os segredos que guardei, este foi o que tive menos oportunidades de contar. Por que não precisava: nunca fez diferença. Exceto por uma vez. Após mais de um ano de namoro, descobri que minha ex-namorada também amava este filme, e por motivos muito parecidos com os meus. Descobri também que ela adorava o Jude Law. Tanto que, cega de amores por mim, chegou a dizer que eu era parecido com ele. Ora, eu sempre quis ouvir isso. Mas não nesse sentido. Queria que alguém reparasse nas coincidências, no jeito de me portar como um sedutor cheio de fragilidades, na sobrancelha esquerda arqueada... Sei lá.

Queria que alguém notasse, por exemplo, que eu era um escritor amador assim como o Dan do filme, que era um jornalista assim como o Dan do filme (sim, é por causa de Closer), e que usava uns óculos de aros arredondados iguaizinhos aos do Dan do filme. E não do Harry Potter. ¬¬

Mas foi pedir demais. Afinal ninguém espera que seu melhor amigo seja uma mensagem subliminar ambulante. O resultado disso foi que tirei uma conclusão estúpida mas que até hoje implica nos meus pensamentos e aforismos enigmáticos: de muito perto ninguém consegue se ver. E o meu erro, meu maior erro, foi querer sempre estar perto demais.

Voltando ainda mais no tempo, aquela primeira menina acabou sendo a cobaia das minhas primeiras experiências como Dan. Ela tentava conversar comigo, mas percebia que eu estava ficando impaciente, porque meu rosto começava a deixar claro que não tinha saco pra ouvir as histórias dos irmãos agricultores dela. Então ela me perguntou por que eu estava tão besta. Respondi que cedo ou tarde teria de ir embora pra outra cidade e que não acreditava em amor à distância, por isso deveríamos terminar logo antes que pudéssemos sofrer. Suave como uma descarga.

Mas eis que, um tempo depois, começo a ler poesia e o Dan aparentemente narcisista se compreende melhor. Aprendi (e acho que inconscientemente) a mixar as duas personalidades, até ficar um sujeito empático o suficiente para não parecer frio, e convicto o bastante para não parecer tolo. De modo que a personagem domou o ator e o que era mentira virou verdade. Some-se a isso o romântico inveterado que me tornei – cujas raízes estou re-desenterrando agora, e o rei das piadas insensíveis e carinhos ousados, cujas autocríticas e cantadas cafonas beiram o “bonitinho”. Aí temos eu: o Dan do filme e todos os outros apelidos do Daniel. 

No fim, nem tudo é como Closer. Na verdade, quase nada é como Closer, cru e insípido. Bom seria se fosse, porque os maiores problemas da humanidade estariam nas despedidas, e não nos encontros. Vejo agora que a maior parte das relações (principalmente amorosas) são apenas mal-passadas e insossas. Mas os sentimentos, esses tem sabores bem distintos: o amor certamente é doce. A sinceridade é salgada. O fim é amargo. E a paixão... bem, a paixão é umami.

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