terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Crítica: Lunar


Nome original: Moon
País: Inglaterra
Ano: 2009
Duração: 97 minutos
Gênero: Ficção científica
Direção: Duncan Jones
Roteiro: Duncan Jones, Nathan Parker
Elenco: Sam Rockwell, Kevin Spacey.

"Futuro não muito distante. A Terra enfrenta problemas com abastecimento de energia. Uma empresa descobre um novo tipo de combustível e passa a dominar tudo."
A premissa de Lunar, temos de convir, não é das mais originais. Depois de tantas histórias com bases semelhantes, fazer qualquer alusão a problemas ambientais parece ter virado o lugar comum da década. E embora de vez em quando uma nova abordagem venha dar novos trajes ao tema, freqüentemente torcemos o nariz, imaginando não passar de mais uma daquelas fatídicas mensagens de alerta, “Olha o que acontece se não cuidarmos da natureza”.

No entanto, adequar esta premissa a Lunar seria, no mínimo, esquecer 80% do filme. Não é necessário mais do que cinco minutos para percebermos que se trata de algo mais, de que estamos diante de uma ficção científica nos moldes do Kubrickiano “2001 – uma odisséia no espaço”, isto sem falar das muitas referências que vão surgindo ao longo da película, desde “O oitavo passageiro” até “Náufrago”. Lunar é um filme claustrofóbico e melancólico que, entre uma e outra virada surpreendente, ainda encontra tempo para levantar discussões importantíssimas sobre ética, ciência e até que ponto o “bem maior” é desculpa válida para sacrificar uma vida humana.

Lunar começa com a propaganda da empresa que dá nome ao filme (na versão portuguesa), a Lunar Industries. O comercial mostra as dificuldades pelas quais a Terra passou até a descoberta do Helio-3, gás solar encontrado no lado escuro da Lua e cuja capacidade de abastecimento transformou nosso planeta em um lugar limpo e agradável para se viver. Então somos apresentados a Tom Bell (Sam Rockwell), o astronauta designado para passar três anos administrando a coleta deste gás na Lua. Tom está barbudo e solitário. Sua única companhia é o robô GERTY (voz de Kevin Spacey), uma versão mais moderna e simpática do HAL 9000.

Três anos pode não parecer muito tempo para nós. Mas Tom está dentro de uma nave, na Lua. É um lugar branco e apático, onde ele vê o tempo passar a conta-gotas, numa lentidão desesperadora, enquanto espera voltar para casa e reencontrar a esposa e conhecer a filha, que nasceu quando já havia partido. Para piorar, Tom começa a ter sonhos e alucinações muito reais, como se suas lembranças estivessem se embaralhando na sua mente, que às vezes mais parece um filme mal editado...

A partir daí, falar de Lunar se torna cada vez mais difícil. O roteirista Nathan Park escolheu um jeito quase homeopático de contar sua história, resolvendo o mistério ao mesmo tempo em que o cria. Ainda na primeira metade do filme Tom descobre, com ajuda de si mesmo, que seu trabalho naquela nave trata-se, na verdade, de um programa de contenção de gastos. Tom descobre que seu sacrifício é bem maior do que ele imaginava.

Bem, como você está vendo, não é possível avançar nesta resenha sem fazer enigmas. Do contrário teríamos de revelar detalhes fundamentais da trama, que atrapalhariam sua experiência. Mas podemos afirmar, caro leitor, que você não estará preparado para o rumo que esta história ganha. Na sessão do Cineclube em que este filme foi exibido, a expressão grave e compenetrada dificilmente abandonava o rosto dos espectadores. A já habitual discussão que levantamos no final do filme tomou várias direções, inclusive filosóficas. Uma delas versou sobre o tema ética científica. Sim, Lunar é um filme que abre muito espaço para este assunto. Depois de revelado o real papel de Tom Bell na história, é impossível não se perguntar qual a fronteira que separa um teste científico de uma crueldade desnecessária. A quase ingenuidade do personagem diante da descoberta ajuda a acentuar a questão. É irônico, por exemplo, como o robô GERTY parece muito mais sensível do que as pessoas que arquitetaram aquele plano.

Sam Rockwell, numa atuação inspirada, representa com perfeição a agonia do seu personagem. Assim como o espectador, ele vai destrinchando o labirinto aos poucos, e suas reações perante as descobertas são as mais humanas possíveis. Destaque também para Kevin Spacey. Na voz plácida de GERTY ele mais parece um irmão mais velho que tenta proteger o caçula de alguma verdade dolorosa. Em certos instantes chega a aparentar empatia. Ao contrário da luz vermelha e quase indiferente de HAL, GERTY se manifesta através de emoticons (sim, iguaizinhos àqueles do mensseger), o que oferece alguns momentos de descontração à película.

A trilha sonora do filme é de Clint Mansell. O músico, para quem não sabe, foi o responsável pela fantástica trilha de “Réquiem para um sonho”, e em Lunar mostra mais uma vez seu talento excepcional para criar tensão. Sem grandes arroubos sonoros, cada nota trabalha em comunhão com o que se vê, ajudando a criar um cenário quase bucólico. Em verdade, em algumas cenas a banda beira o clichê, mas as notas românticas e exageradamente melódicas de piano são tão belas que não chegam, de forma alguma, a incomodar.

Por fim, a direção. Duncan Jones, até pouco tempo conhecido apenas por ser filho de David Bowie, fez com 5 milhões de dólares o que em Hollywood se faz com 100. Dono da idéia que deu origem ao roteiro, o estreante se mostrou muito seguro ao dar mais enfoque à parte humana do filme. Não que a técnica seja desprezada, não é isso, mas o que estamos vendo ali são diálogos existencialistas cuja profundidade praticamente subjuga a parte visual. Lunar foi realizado sem erros, sem toques de genialidade, mas cumprindo com honras a que considero a principal missão do cinema: entreter.

Embora tenha vencido o BAFTA, principal prêmio o cinema inglês, além de outros dezessete festivais ao redor do mundo, Lunar não teve distribuição nos cinemas brasileiros. Por isso chega até nós através deste jornal, cuja proposta é aproximar as pessoas da cultura ignorada pelos multiplexes e afins. Com uma história tocante e totalmente coerente, Lunar é um filme que entrará nas suas melhores listas e certamente ganhará, com o tempo, seu merecido espaço entre os amantes da sétima arte.

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