terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Bolo


Maria gostava de riscar a superfície da margarina com os dentes do garfo, porque aquelas listrinhas que se formavam, quatro pequenas listras paralelas e dançantes, faziam-na sentir um misto de serenidade e ímpeto criativo, sensação que ela suspeitava ser semelhante à de um pintor que espalha tinta sobre um quadro, o que, em verdade, mesmo já tendo pensado nisso diversas vezes, nunca experimentara na prática, já que era o tipo de pessoa que precisa que os outros percebam suas aptidões para poder admitir que as tem. Enquanto ela fazia isso, Cardoso, o marido, tomava o café da manhã à sua frente, sossegado, sem pressa alguma para ir ao trabalho, que ficava no andar de cima da casa. Raramente Cardoso parava para analisá-la naqueles momentos, e quando o fazia era só pra desistir logo em seguida, pois os homens modernos foram ensinados a sempre superestimar os estranhos desígnios da mente feminina, provavelmente com uma boa dose de razão. Mas neste dia Maria estava mais compenetrada do que o usual, e isso o estava incomodando, como se a meditação da mulher fosse um sinal claro de que ela não ligava mais para ele. Então Cardoso fez o que todo bobo faz quando pega alguém distraído, pôs-se a deslizar a mão diante dos olhos da sua senhora e depois falou BU, o que só não teve efeito imediato porque Maria estava, veja só, no finalzinho da penúltima curva do seu desenho, e não podia parar por nada neste mundo. Ao terminar Maria entrou num estado de relaxamento mental parecido com o que sentia depois de fazer sexo, e ficou lá, enrolando um cachinho com o dedo e olhando pra algum ponto fixo perdido perto do nó da gravata do seu marido.
– No que está pensando? – perguntou Cardoso, tirando-a do transe.
– O que disse?
– Que está acontecendo, meu amor?
– Comigo, oh, nada demais. Você quer mais bolo?
– Tem bolo?
– Oh, Jesus, que distraída que eu sou. Juro que pensei que tinha colocado bolo pra você.
– Ah...
– Pois eu coloco agora.
Na cozinha tinha um armário enorme, cheio de portas brancas e maçanetas cor-de-cobre, que eles tinham ganhado um mês atrás numa promoção de Margarina. Ela odiava aquele armário, pois sempre tinha de abrir três ou quatro portas até acertar o local onde o objeto estava guardado. Só de encará-lo já lhe dava nos nervos. Cardoso nunca nem sequer tocara nele, mas fazia questão de arrastar qualquer visita até a cozinha para mostrar a nova aquisição e aproveitar para fazer a piada, Me custou o olho da cara, dois potes de Quali, risos. Maria, que sempre ria disso, por vezes até mais do que as visitas, ultimamente tinha criado tamanha aversão ao móvel, que só andava até ele a passos firmes e de punhos cerrados, como quem parte para tomar satisfações, e o armário, com a típica indiferença dos armários, não se intimidava e permanecia a confundi-la com as suas portelas brancas e maçanetas cor-de-cobre. Maria olhava para ele, olhava, olhava, e, não adiantava, não conseguia se concentrar. Ela via o que estava a sua frente, mas via com os olhos do rosto, porque os da alma, que só nos mantém aonde o pensamento está, estes estavam virados para outro lugar, talvez para dentro, ou fixados neste lugar misterioso, cheio de dúvidas e anseios, ao qual nós, românticos por natureza, gostamos de chamar de coração. Podia ser o caso dela, mas isso não vem à pauta, o que o instante pede lembrar é da razão pela qual ela tinha ido até o armário, pegar o bolo, e que, se não fosse o marido ter-lhe despertado, teria ficado para sempre nas brumas do esquecimento. Amor, está tudo bem, foi tudo o que ele disse, apenas o bastante para voltar-lhe, como algo que emerge das turvas águas de um poço, a palavra olvida, a palavra Bolo.
– O bolo! Ai, como eu sou distraída. Vim até o armário só para pegá-lo, e acabei me esquecendo.
– Você ta meio estranha hoje.
– Não é nada, só estou preocupada com mamãe, que nunca mais ligou.
– Pois ligue pra ela.
– Vou fazer isso. – pausa – Aí apro...
– E diga que... Hum, perdão, fale.
– Ah, é que... – Maria fitou o marido com a mesma expressão que olhara a gravata.
– “É que...”?
– É que... eu me esqueci. Do que falávamos mesmo?
– Da sua mãe, de ligar pra ela.
– Ah, sim, vou ligar pra mamãe, porque faz tempo que ela não dá notícias.
– Sei.
– E você...
– Eu?
– Você está esperando o bolo, né?
– É.
– Pera que já vou pegar.
Maria saiu andando de costas, arrastando os pés no chão, até perto do armário, onde, sem mais nem menos, virou as duas pernas, e depois o resto do corpo para trás. Cardoso a analisava, meio bobo, meio pasmo, mais uma vez se perguntado o que estaria acontecendo com a sua mulher, por que diabos ela estava tão doida, contudo, pouquíssimos poderiam nos dar uma explicação satisfatória, já que, como é comum às esquisitices desse tipo, as verdadeiras razões da sua existência pertencem à escala quase sempre obscura da psicanálise, e isto não é para leigos como nós, ou, perdoem-me, como eu. Diria Freud, talvez e se pudesse, que aquela jovem sentia falta do chão encerado da casa da sua vó já falecida, no qual costumava brincar de escorregar, e aquele gesto tratava-se de uma manifestação indirecta do seu subconsciente, ou, por assim dizer, daquelas memórias abstrusas que, de algum modo, influenciam a conduta moral e amoral de todos os indivíduos. Mas o que a ninguém cabe é que aquilo não é, de fato, simples gesto, mas uma mania chata dessas que se tenta se livrar por anos, e que à Maria já vem perturbando há dias, porque ela sempre faz isto quando está sozinha, anda até o seu destino de costas e arrastando os pés, e depois vira-se como se fosse um robozinho, desses que giram sobre o próprio eixo e falam hello. Ela é, justamente por ser ela, a única capaz de relacionar tudo isso ao vídeo do Michael Jackson fazendo moonwalking que vira no youtube, e, por fim, a única que vive prometendo a si mesma que vai parar com esta doidice no dia em que alguém notá-la. Freud explica.
Depois de mais alguns momentos contemplando o armário, Maria voltou-se novamente para o marido e sorriu sem mostrar os dentes.
– Amor, o bolo, lembrei que não está no armário, ele está... – e enquanto falava deslizou soturna até a geladeira, no outro lado da cozinha. – Ele não está no armário, ele está... – repetiu.
– Na geladeira?
– Ele está... – Maria abriu a porta do eletrodoméstico rapidamente e exclamou – Está aqui!
O bolo não estava lá, e a expressão de Cardoso foi mudando de pasmo para assustado.
– Amor, pela última vez, ta tudo bem mesmo?
 Amor, pela última vez, ta tudo bem mesmo?
– Porque você me imitou?
 Porque você me imitou?
– Quer parar com isso?!
 Quer parar com isso?!
– Eu vou mandar te internar...
 Eu vou mandar te internar...

Nenhum comentário:

Postar um comentário