No trânsito.
– Qual o problema, querida?
– É esse sapato, que ta apertando.
– Ué, porque não troca?
– É que eu comprei lá na Elisa...
– Ah, entendo...
1 minuto de
silêncio.
– Quanto foi?
– Quanto foi o que?
– O sapato.
– O par?
– Claro né.
– Trezentos.
– O quê que foi trezentos?
– O sapato.
– O par de sapatos foi trezentos reais?!
– É.
– Você deu trezentos reais em
sapatos que não servem no seu pé?
– Amor, eu estava precisando. Já tinha
seis meses que não comprava sapatos.
– Mas pra quê um sapato de trezentos reais?
– Pra usar em ocasiões especiais, oras.
– Adelaide, nós estamos indo a um
enterro.
– Eu sei!
– É isso que você chama de “ocasião
especial”?
– Ué, você não acha que um enterro seja
uma ocasião especial?
– Ai ai ai...
– Amor, deixe de besteira e preste
atenção no trânsito, senão você acaba atropelando alguém.
– É bom que já levava junto pro
cemitério.
30 segundos de
silêncio.
– Você vai trocar.
– O quê?
– O sapato, você vai trocar.
– Eu já disse que não posso.
– Claro que pode. Onde já se viu não
poder trocar os sapatos?
– Mas... é que... Meu bem, você não acha
um tanto quanto indelicado chegar lá na loja da Elisa, na semana da morte do
sobrinho dela, e pedir pra trocar um sapato?
– Hum.
– Pois é.
– Então você podia aproveitar esse
enterro.
– Como assim?
– Chegava do lado dela e se queixava dos
sapatos apertados.
– Por favor né Marcos!
– Ué, que foi?
– Não acredito que ouvi isso.
– Ah, pois então fique com os pés
aleijados.
Já no cemitério.
– Ai amor, tadinha da Elisa, olha os
olhos dela como estão inchados.
– É, tadinha.
– Vamo lá falar com ela?
– Você fala ou eu falo?
– Você fala.
– Não, tu fala, que eu não tenho muito
jeito pra essas coisas.
– Ok.
– Não, espera. – diz Marcos – Você sabe
do que o cara morreu?
– Não sei bem, parece que ele tinha
hepatite, aí teve que amputar o pé, mas a doença se espalhou e não teve jeito,
bateu as botas.
– Sei...
– Vamo lá?
– Vamo.
(...)
– Dona Elisa...
– Adelaide, Dr Marcos...
– Dona Elisa, nós queríamos te desejar
as nossas mais profundas condolências. Saiba que pode contar conosco pro que precisar.
– Oh, obrigado... vocês são muito
gentis.
– Amigos são pra essas coisas.
Dona Elisa assua
o nariz.
– Sabe, eu o criei desde que a mãe
faleceu, era como um filho pra mim. É uma dor quase insuportável...
A mulher assua o
nariz de novo.
– Dona Elisa, sabia que eu joguei
bola com o seu sobrinho quando era mais novo?
– Oh, Dr Marcos, eu não sabia...
– Pois é verdade, Eu lembro bem, ele
tinha um chute de canhão.
– O Maurinho era assim mesmo, não podia
ver uma bola... Queria ser jogador quando era pequeno...
– Imagino. Ele tinha um pé dos infernos.
– Adelaide o belisca, mas ele continua – E, olha só que coisa, hoje nem pé ele
tem mais. E mesmo que tivesse né.
Dona
Elisa fica constrangida.
– Dona Elisa – diz Marcos – Já que
estamos falando em pés...
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