terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Pés


No trânsito.
 – Qual o problema, querida?
– É esse sapato, que ta apertando.
– Ué, porque não troca?
– É que eu comprei lá na Elisa...
– Ah, entendo...

1 minuto de silêncio.

– Quanto foi?
– Quanto foi o que?
– O sapato.
– O par?
– Claro né.
– Trezentos.
– O quê que foi trezentos?
– O sapato.
– O par de sapatos foi trezentos reais?!
– É.
– Você deu trezentos reais em sapatos que não servem no seu pé?
– Amor, eu estava precisando. Já tinha seis meses que não comprava sapatos.
– Mas pra quê um sapato de trezentos reais?
– Pra usar em ocasiões especiais, oras.
– Adelaide, nós estamos indo a um enterro.
– Eu sei!
– É isso que você chama de “ocasião especial”?
– Ué, você não acha que um enterro seja uma ocasião especial?
– Ai ai ai...
– Amor, deixe de besteira e preste atenção no trânsito, senão você acaba atropelando alguém.
– É bom que já levava junto pro cemitério.

30 segundos de silêncio.

– Você vai trocar.
– O quê?
– O sapato, você vai trocar.
– Eu já disse que não posso.
– Claro que pode. Onde já se viu não poder trocar os sapatos?
– Mas... é que... Meu bem, você não acha um tanto quanto indelicado chegar lá na loja da Elisa, na semana da morte do sobrinho dela, e pedir pra trocar um sapato?
– Hum.
– Pois é.
– Então você podia aproveitar esse enterro.
– Como assim?
– Chegava do lado dela e se queixava dos sapatos apertados.
– Por favor né Marcos!
– Ué, que foi?
– Não acredito que ouvi isso.
– Ah, pois então fique com os pés aleijados.

Já no cemitério.

– Ai amor, tadinha da Elisa, olha os olhos dela como estão inchados.
– É, tadinha.
– Vamo lá falar com ela?
– Você fala ou eu falo?
– Você fala.
– Não, tu fala, que eu não tenho muito jeito pra essas coisas.
– Ok.
– Não, espera. – diz Marcos – Você sabe do que o cara morreu?
– Não sei bem, parece que ele tinha hepatite, aí teve que amputar o pé, mas a doença se espalhou e não teve jeito, bateu as botas.
– Sei...
– Vamo lá?
– Vamo.
(...) 
– Dona Elisa...
– Adelaide, Dr Marcos...
– Dona Elisa, nós queríamos te desejar as nossas mais profundas condolências. Saiba que pode contar conosco pro que precisar.
– Oh, obrigado... vocês são muito gentis.
– Amigos são pra essas coisas.
Dona Elisa assua o nariz.
– Sabe, eu o criei desde que a mãe faleceu, era como um filho pra mim. É uma dor quase insuportável...
A mulher assua o nariz de novo.
 – Dona Elisa, sabia que eu joguei bola com o seu sobrinho quando era mais novo?
– Oh, Dr Marcos, eu não sabia...
– Pois é verdade, Eu lembro bem, ele tinha um chute de canhão.
– O Maurinho era assim mesmo, não podia ver uma bola... Queria ser jogador quando era pequeno...
– Imagino. Ele tinha um pé dos infernos. – Adelaide o belisca, mas ele continua – E, olha só que coisa, hoje nem pé ele tem mais. E mesmo que tivesse né.
 Dona Elisa fica constrangida.
 – Dona Elisa – diz Marcos – Já que estamos falando em pés...

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