terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Mensagens Subliminares

Dr. Gotardo Bramante tinha mesmo essa fixação por morte. No último semestre, enquanto tratava da osteomielite, decidira elaborar mais uma carta-testamento, a quinta em menos de dois anos. Fizera-a com bem mais cuidados do que as outras, mas desta vez dera-se ao capricho de colocar várias frases subliminares no corpo do texto, todas elas com mensagens que revelariam, em tese, seus reais desejos por trás do que dizia diretamente. Ele cria que se alguma pessoa que o conhecesse bem percebesse estas frases e as decodificasse, sua alma sentiria lá do céu aquele estado de graça de quem tem uma fala propositadamente antecipada por um amigo, ou de quem é citado em público, por exemplo. Então o testamento foi feito com paixão: na parte onde pedia para doar seus objetos mais valiosos às instituições caridosas havia um acróstico dizendo “queime-os”. Já onde citava as preferências para o funeral, como tipos de flores e músicas para tocar quando baixasse o caixão, aproveitara para exercitar o antigo hobby elaborando algumas cacofonias que formavam as palavras “suruba”, “orgia” e “bacanal”, algo bem corajoso, que desafiava até mesmo a própria fé que mantinha na perspicácia dos santos. Por último, mas talvez em primeiro quanto ao nível de infâmia, na parte que correspondia à distribuição das heranças, deixara duas pequenas frases, um cordial “vão à merda” onde tratava das posses, e um modesto “foda-se” onde tratava de dinheiro vivo, ambos também escritos em acróstico. Fizera todo este trabalho rindo à revelia, divertiu-se como nunca, mas quando morreu de verdade ninguém foi capaz de perceber sequer uma piadinha. Infelizmente Dr. Gotardo tinha julgado ser mais querido do que era de fato, sem contar que era uma pessoa de natureza tão contraditória que, se já pouco valor era dado a sua palavra enquanto vivo, que dizer então às suas mensagens subliminares de morto. Seu testamento foi lido em voz alta na sua sala preferida, em frente às tão estimadas cabeças de veado contrabandeadas da Inglaterra. Todos ficaram satisfeitíssimos com a repartição dos bens, deram vivas e vivas à justiça inquebrantável do patriarca e foram para suas respectivas casas comemorar e beber champagne. Quanto às piadinhas e desejos reais do Dr. Gotardo, estes nunca foram percebidos e sua alma permanece até hoje no limbo, sem motivo algum para regozijo.

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