O senhor Alphonsus estava sentado calmamente no pouf, esperando o atendente do banco aparecer. Na verdade, estava bastante distraído tentando encaixar um dos lados da bunda no centro do pouf, onde havia um botãozinho de veludo que lhe dava um prazer inconfessável.
Quando percebeu o olhar curioso de uma senhora ao lado, o senhor Alphonsus se endireitou.
Reparou no lugar. Era um banco moderno, destes com detectores de tudo, inclusive de pessoas endinheiradas. Em cada canto de parede havia uma câmera que esquadrinhava, até onde podia, pessoas de aparência suspeita, como negros magricelas ou brancos de boné.
Embora não possuísse nenhuma característica suspeita, o senhor Alphonsus sentia-se constantemente perturbado na presença daquelas câmeras. Era um problema seu: desde pequeno já não suportava a pressão de uma câmera fotográfica, quanto mais de uma filmadora.
Mais tarde, refletindo sobre a própria infância, ele perceberia que foi uma estranha criança com cara de adulto.
A senhora ao lado levantou e foi embora, mas o senhor Alphonsus já havia se esquecido do botão.
Agora mirava o potinho cheio de trufas de rum à sua frente. Ora, pensou, está muito perto de mim para ser proibido. E então abriu o pote e tirou uma das trufas.
Trufas de rum. Era estranho que elas fossem gratuitas num local onde as pessoas costumam esperar tanto. Os bancos realmente têm muito dinheiro.
Aproveitou a distração de uma das câmeras e pegou mais três trufas e enfiou no bolso.
Já havia comido a primeira quando uma moça lhe ofereceu água, café ou licor.
Sempre que tinha oportunidade, o senhor Alphonsus dizia para os amigos que não gostava de licor. Dissera tantas vezes que já tinha até esquecido que nunca experimentara.
Como já tinha esquecido, pegou o licor não para experimentar, mas porque era de bom tom.
O gosto lhe pareceu familiar. Era um gosto de não sei o quê que lhe lembrava alguma coisa que ele não sabia o que era.
A moça já ia longe quando ele a chamou de volta.
Mais um trago, disse o senhor Alphonsus, e sua voz saiu estranhamente rude. A moça o serviu com cara de quem serve abortivos numa clínica clandestina. (...)
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