A
gente se descobre frágil quando ama, descobre que precisa mesmo de cuidados. Já
pouco importa se você tem as ideologias mais corajosas e os hábitos menos
saudáveis, se no fim do dia a única cura é o colo do outro. Às vezes, quando
estamos sozinhos, a gente sente vontades de mandar a cautela pro inferno e não
pode, porque não tem ninguém pra te segurar se você cair. Só que agora cair
parece uma ótima ideia, porque eu sei que
seus braços sempre estão lá, me esperando. E eu sei que você pensa igual,
porquê já te vi desabar sem medo no meu peito, enquanto resto do mundo e seus
problemas viravam mera distração. É estranho falar tão ingenuamente, mas eu
gosto de ser chamado de seu e de como você tenta me proteger de tudo, por que
também o que mais gosto de fazer hoje é cuidar de ti. Acho, como já te disse,
que a gente vai esquecendo toda a individualidade quando vai se acostumando a
pensar em “nós”. É isso que o amor faz, afinal, faz-nos apaixonar pela sombra
da parede no quarto, as cabeças siamesas no espelho, a imagem fugaz nos
para-brisas dos carros, o dégradé da nossa cor de cabelo... E de repente a
gente repara na segurança do nó das nossas mãos, na rua nos observando como se
estivéssemos nus, na beleza das músicas vulgares, no sorriso da lua minguante
(o misterioso sorriso do Cheshire)... Sabe amor, talvez tenhamos encontrado um
jeito, ainda que meio improvisado, de dar sentido à vida. Talvez tenhamos entendido
o porquê de a solidão ser tão assustadora. Às vezes eu sinto estranhas vontades
de nos expor, de sair contando nossa intimidade pro mundo, até que a velha
poesia vem e alarma: Lembre-se Arthur, certos tesouros ficam bem melhor
enterrados. E eu prefiro assim, que tenhamos o tesouro mais belo do mundo só
para nós, e exercitemos nosso ideal de liberdade de outras formas, porque a
verdadeira liberdade não está no poder partir, mas no escolher ficar. E não há
ideologia no mundo que me tire dessa prisão que estou agora.
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