Por Daniel Magalhães
Nas duas últimas décadas os teóricos
da comunicação do mundo inteiro assistiram assombrados às mudanças pelas quais
o mundo estava passando. Não se tratava de revoluções armadas, ou de novas
Constituições, mas da simples atestação de que o que Marshall McLuhan previra
três décadas antes enfim se concretizava: o mundo estava totalmente coberto por
uma espécie de rede invisível, uma rede capaz de unir os lugares mais remotos
do planeta através da comunicação. Não havia mais fronteiras, agora o próprio
meio era a mensagem.
Para que o leitor entenda melhor este
assombro, basta dizer que, à sua época, McLuhan foi visto pela grande maioria
como um visionário. Realmente não era fácil conceber tal idéia, ainda mais num
mundo bipolar e tenso, cheio de espiões matando por informações secretas. Na
verdade tratava-se de uma profecia assustadora, podia-se até pensar que
perderíamos nossa privacidade, nossa liberdade para fazer qualquer coisa sem
sermos vistos. Mas o tempo passou e o pensamento apocalíptico migrou das
questões simples para as mais arrojadas teorias. Hoje McLuhan é um dos teóricos
mais estudados pelos comunicólogos e tem gerado debates inesgotáveis que
tratam, sobretudo, de como o homem se comporta nesta nova conjuntura.
Até 2009 filósofos como Pierre Levý
só tinham tratado da “democratização da informação” de maneira um tanto quanto
especulativas. No caso deste pensador, suas afirmações mais veementes estavam
ligadas à sabedoria coletiva, ou seja, à cultura nascida neste contexto
pós-moderno, o que ele logo chamou de “cibercultura”. Sua visão era
particularmente otimista e festejava a inteligência coletiva que a informação
compartilhada poderia nos trazer, como se estivéssemos a viver um novo
“iluminismo”. Era isto que se discutia. Questões como: qual o destino do
jornal impresso, agora que todos sabem de tudo a qualquer hora e em qualquer
canto? O que acontecerá com a profissão jornalística, agora que qualquer pessoa
pode expor livremente sua opinião? O que acontecerá com a comunicação social,
se um de seus princípios básicos – a intenção, for deliberadamente violada?
Foi então que o ex-programador e
empresário Andrew Kneen lançou o livro “O culto ao amador”, cuja proposta era
jogar uma luz sobre estas questões não só do ponto de vista filosófico, mas
mostrar na prática o que estava acontecendo no mundo e que rumo tudo iria
tomar.
Escrito cientificamente mas em tom de
ensaio, o livro traça um panorama detalhado da sociedade atual baseado no modo
como ela lida com as novas possibilidades de comunicação. Para Keen, a primeira
faceta deste “culto ao amador” é que ele tende a selecionar o que gostamos de
forma nostálgica, escolhendo e creditando o que é amador por que, de algum
modo, o que é feito sem tanta pretensão inspira pureza e inocência. É o que
faz, por exemplo, um vídeo de violência do youtube, feito com
câmera escondida, ser mais crível do que um vídeo de mesmo tema feito em
estúdio e com câmeras profissionais.
Só que “inocência” muitas vezes é
confundida com verdade, muito embora possa ser tão leviana quanto uma mentira
mal intencionada. E na cibercultura, de fato, “uma mentira pode dar a volta ao
mundo antes que a verdade tenha a chance de calçar as botas”.
Depois do ano 2000, com o boom das
redes sociais, tanto as instituições criativas quanto os veículos dedicados ao
jornalismo começaram a perder, exponencialmente, seu espaço para o amadorismo.
Antes da chamada web 2.0 as notícias, por exemplo, ainda eram
controladas por jornalistas especializados, seja qual fosse o meio. A
inauguração de sites como o do “The new york times” ou o “Globo.com” não
representou tanta mudança assim. Não foi nada mais do que uma transição de
meios: antes a TV, rádio, impresso, agora a internet.
Mas a partir do nascimento de
empresas como faceboook, myspace e mais
tarde twitter, praticamente inverteu a ordem da produção noticiosa.
Estas redes sociais são hoje as principais responsáveis pela divulgação do
material considerado jornalístico. Logo, mesmo que a fonte ainda seja
predominantemente especializada, não se pode mais garantir a procedência de
tudo, uma vez que o volume e a rapidez de transmissão fazem com que, repito,
uma informação leviana dê a volta ao mundo antes que surja uma versão mais
apurada do fato.
Ao mesmo tempo, a aproximação da
sociedade conectada às inovações dos instrumentos outrora usados apenas por
especialistas, faz com que a mesma despreze o trabalho de edição, que
teoricamente é uma coisa que qualquer pessoa equipada de um Personal
Computer pode fazer em casa. Trocando em miúdos, é como se um programa
como o photoshop de repente tirasse a credibilidade de todas
as fotografias profissionais. Talvez por isso o que é visivelmente amador
esteja ganhando tanta credibilidade. E é notável, mesmo no jornalismo,
alguns efeitos dessas mudanças, seja na abordagem do fato ou na parte técnica,
como, por exemplo, aquela câmera documental que foge ao padrão tradicional,
“plano americano, repórter no meio”. E o que dizer então do cinema, que vem
empregando técnicas de documentário com bastante freqüência em grandes
produções de ficção? Deve ter algo a ver...
No entanto, repete-se a história,
mesmo a mais conturbada alteração não deixa de ser um sinal dos tempos. No
final, a apropriação de tais cacoetes pelo jornalismo só reflete a tentativa de
reaproximar as pessoas. Teme-se que tanto culto ao amador possa, mais rápido do
que se pensa, destruir o sentido de existência das empresas de comunicação e
das fontes criativas em geral, uma vez que todas estariam sujeitas ao plágio, à
calúnia, à má-edição etc, sem que nenhuma lei as pudesse proteger. Aí, ao invés
de um iluminismo, mergulharíamos num deserto intelectual, escuro e estéril.
Pois foi neste tom drástico que Andrew Kneen levou
os olhos de milhões de leitores e outros tantos pesquisadores a um problema que
urge por solução. Correndo o risco de se tornar o McLuhan dos nossos tempos,
ele comparou, sem meias palavras, a atual conjuntura ao velho apólogo que
dizia: “se um grupo de macacos batucasse infinitamente sobre máquinas de
escrever, um deles comporia uma obra coerente”. Talvez na internet, onde o
limite do bom senso é inversamente proporcional à real exposição do internauta,
teremos de depender destes poucos macacos espertos (ou sortudos) para ter nossa
boa informação. De modo que, se Kneen for mesmo o McLuhan dos nossos tempos,
esperamos que ele não seja o dos tempos futuros.
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