terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O jornalista do futuro será um macaco esperto


Por Daniel Magalhães

Nas duas últimas décadas os teóricos da comunicação do mundo inteiro assistiram assombrados às mudanças pelas quais o mundo estava passando. Não se tratava de revoluções armadas, ou de novas Constituições, mas da simples atestação de que o que Marshall McLuhan previra três décadas antes enfim se concretizava: o mundo estava totalmente coberto por uma espécie de rede invisível, uma rede capaz de unir os lugares mais remotos do planeta através da comunicação. Não havia mais fronteiras, agora o próprio meio era a mensagem.

Para que o leitor entenda melhor este assombro, basta dizer que, à sua época, McLuhan foi visto pela grande maioria como um visionário. Realmente não era fácil conceber tal idéia, ainda mais num mundo bipolar e tenso, cheio de espiões matando por informações secretas. Na verdade tratava-se de uma profecia assustadora, podia-se até pensar que perderíamos nossa privacidade, nossa liberdade para fazer qualquer coisa sem sermos vistos. Mas o tempo passou e o pensamento apocalíptico migrou das questões simples para as mais arrojadas teorias. Hoje McLuhan é um dos teóricos mais estudados pelos comunicólogos e tem gerado debates inesgotáveis que tratam, sobretudo, de como o homem se comporta nesta nova conjuntura.

Até 2009 filósofos como Pierre Levý só tinham tratado da “democratização da informação” de maneira um tanto quanto especulativas. No caso deste pensador, suas afirmações mais veementes estavam ligadas à sabedoria coletiva, ou seja, à cultura nascida neste contexto pós-moderno, o que ele logo chamou de “cibercultura”. Sua visão era particularmente otimista e festejava a inteligência coletiva que a informação compartilhada poderia nos trazer, como se estivéssemos a viver um novo “iluminismo”. Era isto que se discutia. Questões como: qual o destino do jornal impresso, agora que todos sabem de tudo a qualquer hora e em qualquer canto? O que acontecerá com a profissão jornalística, agora que qualquer pessoa pode expor livremente sua opinião? O que acontecerá com a comunicação social, se um de seus princípios básicos – a intenção, for deliberadamente violada?

Foi então que o ex-programador e empresário Andrew Kneen lançou o livro “O culto ao amador”, cuja proposta era jogar uma luz sobre estas questões não só do ponto de vista filosófico, mas mostrar na prática o que estava acontecendo no mundo e que rumo tudo iria tomar.

Escrito cientificamente mas em tom de ensaio, o livro traça um panorama detalhado da sociedade atual baseado no modo como ela lida com as novas possibilidades de comunicação. Para Keen, a primeira faceta deste “culto ao amador” é que ele tende a selecionar o que gostamos de forma nostálgica, escolhendo e creditando o que é amador por que, de algum modo, o que é feito sem tanta pretensão inspira pureza e inocência. É o que faz, por exemplo, um vídeo de violência do youtube, feito com câmera escondida, ser mais crível do que um vídeo de mesmo tema feito em estúdio e com câmeras profissionais.

Só que “inocência” muitas vezes é confundida com verdade, muito embora possa ser tão leviana quanto uma mentira mal intencionada. E na cibercultura, de fato, “uma mentira pode dar a volta ao mundo antes que a verdade tenha a chance de calçar as botas”.

Depois do ano 2000, com o boom das redes sociais, tanto as instituições criativas quanto os veículos dedicados ao jornalismo começaram a perder, exponencialmente, seu espaço para o amadorismo. Antes da chamada web 2.0 as notícias, por exemplo, ainda eram controladas por jornalistas especializados, seja qual fosse o meio. A inauguração de sites como o do “The new york times” ou o “Globo.com” não representou tanta mudança assim. Não foi nada mais do que uma transição de meios: antes a TV, rádio, impresso, agora a internet.

Mas a partir do nascimento de empresas como faceboookmyspace e mais tarde twitter, praticamente inverteu a ordem da produção noticiosa. Estas redes sociais são hoje as principais responsáveis pela divulgação do material considerado jornalístico. Logo, mesmo que a fonte ainda seja predominantemente especializada, não se pode mais garantir a procedência de tudo, uma vez que o volume e a rapidez de transmissão fazem com que, repito, uma informação leviana dê a volta ao mundo antes que surja uma versão mais apurada do fato.

Ao mesmo tempo, a aproximação da sociedade conectada às inovações dos instrumentos outrora usados apenas por especialistas, faz com que a mesma despreze o trabalho de edição, que teoricamente é uma coisa que qualquer pessoa equipada de um Personal Computer pode fazer em casa. Trocando em miúdos, é como se um programa como o photoshop de repente tirasse a credibilidade de todas as fotografias profissionais. Talvez por isso o que é visivelmente amador esteja ganhando tanta credibilidade. E é notável, mesmo no jornalismo, alguns efeitos dessas mudanças, seja na abordagem do fato ou na parte técnica, como, por exemplo, aquela câmera documental que foge ao padrão tradicional, “plano americano, repórter no meio”. E o que dizer então do cinema, que vem empregando técnicas de documentário com bastante freqüência em grandes produções de ficção? Deve ter algo a ver...

No entanto, repete-se a história, mesmo a mais conturbada alteração não deixa de ser um sinal dos tempos. No final, a apropriação de tais cacoetes pelo jornalismo só reflete a tentativa de reaproximar as pessoas. Teme-se que tanto culto ao amador possa, mais rápido do que se pensa, destruir o sentido de existência das empresas de comunicação e das fontes criativas em geral, uma vez que todas estariam sujeitas ao plágio, à calúnia, à má-edição etc, sem que nenhuma lei as pudesse proteger. Aí, ao invés de um iluminismo, mergulharíamos num deserto intelectual, escuro e estéril.

Pois foi neste tom drástico que Andrew Kneen levou os olhos de milhões de leitores e outros tantos pesquisadores a um problema que urge por solução. Correndo o risco de se tornar o McLuhan dos nossos tempos, ele comparou, sem meias palavras, a atual conjuntura ao velho apólogo que dizia: “se um grupo de macacos batucasse infinitamente sobre máquinas de escrever, um deles comporia uma obra coerente”. Talvez na internet, onde o limite do bom senso é inversamente proporcional à real exposição do internauta, teremos de depender destes poucos macacos espertos (ou sortudos) para ter nossa boa informação. De modo que, se Kneen for mesmo o McLuhan dos nossos tempos, esperamos que ele não seja o dos tempos futuros.

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