terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Dildo Lover


Arquimedes aceitou que ela comprasse um vibrador. Só pediu que não comprasse um muito grande, pois queria continuar sendo o protagonista. Ela foi com ele à sex-shop e escolheu um branquinho com o nome “dildo lover” escrito na lateral. E enquanto ela se distraía com umas fantasias de Jane, ele comprou um tubo de gel lubrificante e escondeu no bolso do casaco. Saíram os dois da loja se sentindo modernos e seguros de si, mas quando entraram no ônibus metade das pessoas olharam para a sacolinha rosa-choque e deram risadinhas nada discretas.
Na semana seguinte parecia que finalmente eles tinham descoberto o paraíso do sexo despudorado de que Penélope Nova tanto falava. Tina Turner gemia como se fosse morrer e arranhava cada palmo do corpo dele com as unhas postiças.
Mas na noite em que comemoravam sete meses de namoro ela esqueceu o vibrador em casa, e o sexo foi um tédio só. Imerso em baixa-estima, Arquimedes pediu que ela não o trouxesse das próximas vezes e ela aceitou, tentando não demonstrar o contragosto. Os três encontros que se sucederam a este foram tão chatos quanto um canto gregoriano. Morriam os dois num sexo silencioso e cansativo, até que ambos perceberam que dependiam daquele objeto vibrante urgentemente para restaurar o maravilhoso caos de outrora. Mas ela preferiu não dizer nada por medo de ofendê-lo, e ele não disse nada por medo de parecer um bosta, o que nada adiantou, pois esses pensamentos são muito fáceis de ler.

Na segunda Tina Turner foi à sex-shop procurar algo diferente que pudesse reapimentar a relação e comprou uma calcinha comestível, um fio dental e um espartilho. Quando chegou em casa teve vontade de experimentá-los mais uma vez e, diante do espelho do guarda-roupas, sentiu uma atração incontrolável por si mesma. Nem um pouco receosa, foi ao compartimento secreto da terceira gaveta do criado mudo e pegou o vibrador. Lavou-o com si mesma e teve orgasmos múltiplos olhando para a cara de safada que sabia fazer como ninguém quando estava sozinha. Depois da masturbação deitou no mar de sargaço do relaxamento e cochilou, sendo acordada logo depois pelo toquinho lisérgico do celular Nokia. Era ele, chamando para passar a tarde num motel qualquer e depois comerem num rodízio de pizza qualquer.
Ela olhou para o espartilho jogado no chão, a calcinha comestível torada no cós de gelatina, o fio dental ainda posto entre a coxa e a virilha, e mentiu: “Desculpa amor, marquei de estudar com as meninas porque tem prova amanhã”. Ele compreendeu e ficou em casa jogando poker online e tentando aprender trava-línguas para desafiar o avô.
Ela dormiu por algumas horas e acordou com o calor das três da tarde. Estava com fome, mas primeiro ligou o computador para ver se tinha scraps no orkut fake. Depois foi à geladeira e procurou algo feito, mas só tinha lentilha e vinagrete. Pegou um resto de coca-cola velha e voltou pro computador. Acabou comendo o resto da calcinha com o refrigerante, até que uma nova estria na coxa lhe chamou atenção. Ela foi pro espelho e virou a bunda. A estria havia desaparecido. Mas notou que os seios estavam maiores depois que começara a tomar o suplemento vitamínico e hormonal. Achou que podia ser ilusão, mas começou a se apalpar, até que caiu de amores por si mesma outra vez. O vibrador estava estranhamente mais perto do que ela pensava, e ela repetiu todo o ritual de mais cedo, com poucas inovações.
Em casa, Arquimedes se distraía fazendo bolhas dentro de um aquário sem peixes. A casa, que ficava próxima a uma estrada de ferro, estremeceu com o barulho lancinante do trem das quatro. Arquimedes saiu e ficou olhando os inúmeros vagões passarem. Sempre que os via sentia uma vertigem diferente, como se ali na frente estivesse passando o seu destino. Um cachorro de três pernas passou correndo a saltou pra dentro de um vagão, sendo agarrado por uma rapariga magérrima e de olhos esbugalhados. Arquimedes se sentiu um bosta mais uma vez. Até um cachorro cotó tinha mais coragem que ele.
Naquele dia a rua estava infestada de mariposas. Arquimedes voltou pra dentro de casa e procurou o avô, mas havia um bilhete na cadeira de rodas dizendo “fui correr”. Na mesinha ao lado tinha duas carteiras de cigarro e o telefone celular do velho. Ele pensou na namorada. O que estaria fazendo? Será que ainda estava estudando? Apanhou o celular, que tinha bônus de sobra, e ligou pra ela.
Chamou e chamou, até uma moça dizer que aquele número não possuía caixa postal. Arquimedes rediscou. “Alô”, disse alguém, ao primeiro toque. Arquimedes estranhou, “Tina? Quem está falando?”. “É o AMANTE VIBRANTE”, respondeu a voz, e logo depois deu uma gargalhada. Arquimedes desligou e jogou o telefone na cadeira do avô. Será que tinha se enganado? Pegou o telefone e conferiu. Não, era esse número mesmo.
Resolveu ligar para a mãe dela. Dona Loki atendeu e o mandou procurar um emprego, como sempre. Disse que Tina estava no quarto desde cedo fazendo baderna, e que não tinha saído nem para beber água. Arquimedes começou a ficar preocupado.
– Sabe se tem alguém no quarto dela? – perguntou.
– Tem – disse Loki.
– Quem?! – Arquimedes estava sobressaltado.
– Ela – a velha riu.
– To falando sério, Dona Loki.
– Tem ninguém não, besta. Quer dizer, pelo barulho que ta fazendo deve ter um rinoceronte lá dentro...
– A senhora pode ir lá olhar pra mim?
De onde estava, Dona Loki deu um grito que quase estourou os tímpanos de Arquimedes. Ninguém respondeu. Pelo telefone, o rapaz ouvia os passos pesados da velha arrastando as chinelas no chão encerado. Quando os passos pararam, pôde ouvir um barulho baixinho vindo de algum lugar, parecido com um helicóptero. Dona Loki bateu à porta e chamou: “Filhinha?”. O barulho aumentou e diminuiu. Dona Loki recuou. “Tina? Ta tudo bem?”. O barulho acelerou e cedeu outra vez. Dona Loki se abaixou e tentou olhar pela fechadura, mas antes que pudesse ver qualquer coisa um estrondo botou a porta abaixo. Os olhos aterrorizados da velha não puderam ser vistos por Arquimedes, que do outro lado da linha escutava apenas engasgos surdos e chicoteadas, como se alguém estivesse sendo estripado...
Arquimedes sentiu um troço estranho no peito, como se tivesse respirado álcool gel. Pegou as chaves do carro do avô e correu pro apartamento da namorada. O barulho de hélices girando ecoava na sua cabeça. Que merda era aquela?
Na frente do prédio tinha um corpo caído de bruços na calçada. Arquimedes desceu do carro para ajudá-lo, mas quando se aproximou do homem dois policiais surgiram do nada e ordenaram que ele se afastasse. “Que está acontecendo?”, perguntou Arquimedes. “Saia daí”, disse um policial, “Ele já está morto”, completou o outro.
Em poucos minutos mais duas viaturas chegaram, e os policiais saltaram pra dentro do carro e gritaram “Ele foi por ali!”. Os carros aceleraram e dobraram a esquina. Arquimedes subiu o elevador do prédio aflito e quando chegou à casa de Tina Turner o impacto foi catastrófico: a porta estava arrancada, e o interior da casa totalmente destruído. Ele correu para o quarto da namorada e encontrou um corpo estraçalhado no meio do corredor. O busto e a cabeça, no entanto, permaneciam intactos. Era Dona Loki.
Arquimedes gritou de desespero, e saiu correndo, tropeçando nos escombros. Tentou pegar o elevador, mas ele parara de funcionar. Correu pela escada: não havia um degrau inteiro, como se um trator tivesse descido por ali aos saltos. Fora do prédio, notou que o mesmo rastro das escadas se repetia na pista. Ouviu o som de helicópteros de verdade sobre a sua cabeça, e então pensou que aquele barulho do telefone era bem diferente, parecia mais com um.... vibrador.
Duas ruas depois havia dezenas de carros parados e pessoas andando a esmo com os celulares em mãos, falando com as expressões faciais mais estupefatas que Arquimedes já tinha visto. Não dava para passar por ali com o carro. Então ele desceu e perguntou a um sujeito de collant o que diabos estava acontecendo e que marcas eram aquelas no chão. “Um bafon”, sibilou o homem com a língua presa, “Acabou de passar um CONSOLO GIGANTE correndo por aqui”.  Arquimedes a essa altura não poderia duvidar de história alguma, por mais absurda que fosse. Saiu em disparada no meio dos carros, saltando por cima de capôs e crianças, e chegou a um cruzamento de duas avenidas, onde vários bombeiros se preparavam para descer em um imenso buraco de esgoto no chão.
Carros de emissoras de TV e rádio começaram a chegar aos montes. Repórteres eufóricos saltavam e corriam para todos os lados, causando tumultuo. Um deles, magricela e com o pomo-de-adão do tamanho de uma castanhola, tirou uma pequena handycam da bolsa, saiu correndo no meio dos bombeiros e saltou pra dentro do esgoto. Dois bombeiros ensaiaram o salto, mas diante de um gesto de um superior ficaram parados. Um homem careca que parecia ser o chefe bradou no alto-falante: “Atenção, homens. Seja lá o que tiver aí dentro, certamente não poderemos capturar no braço. Teremos de esperar este... esta criatura sair, se tivermos sorte a moça estará viva, e então a polícia dará cabo da operação.”
“A moça. Só pode ser Tina Turner”, estremeceu Arquimedes. Alucinado, aproveitou a distração dos bombeiros e fez o mesmo que o repórter magricela. Mergulhou no bueiro e escorregou na inclinação da parede, caindo de bunda numa poça com cheiro de merda. Imediatamente pôde ouvir ao longe o mesmo som que ouvira no telefone. Correu pelo labirinto de amônia e uréia, pisou em seis ratos, até que tropeçou em algo maior. Era o cadáver do reporterzinho com as costas e nádegas dilaceradas. O busto, porém, não parecia ter sido tocado. Dois metros à frente, ainda gravando, estava a handycam.
Arquimedes rebobinou a gravação até ver o mesmo que o cara havia visto. Mas tudo o que conseguiu foi um áudio que parecia vir de trás. Ele apertou o play e ouviu:

“AMANTE VIBRANTE”, e em seguida uma gargalhada tenebrosa.

“Amante Vibrante”. Arquimedes agora tinha certeza: o que quer que fosse esta coisa, era a mesma que matara sua sogra a seqüestrara sua namorada. Continuou pelo labirinto, mas depois de alguns passos notou que o som de vibrador havia cessado. O silêncio agora era perturbado apenas pelos ratos que cochichavam em bandos. O rapaz sentiu a própria pulsação latejar.
Então viu um vulto esverdeado passar correndo, seguido por mais dois. Arquimedes estava petrificado. Um quarto vulto passou em seguida, mas se deteve de repente e ficou a observar Arquimedes, cujos joelhos tremiam mais que uma vara verde. Os três primeiros se reuniram ao quarto e agora formavam silhuetas horrendas caminhando devagar e silenciosas na penumbra do esgoto, cada um carregando uma espécie de arma. O primeiro deles passou rápido por uma réstia de um bueiro e então Arquimedes descobriu quem eram aqueles seres, e esta foi, até então, a visão mais estranha que tivera em toda sua vida: os vultos eram Tartarugas Ninja!
– Ei Rapaz – disse uma delas – O que você está fazendo aqui? É perigoso!
– O cara ta com medo, Rafael – comentou uma delas.
– É, olha pras pernas dele! – gozou outra.
– Santa Tartaruga! – exclamou a última.
Arquimedes se preparou para fugir, mas um bastão pesado pousou no seu ombro e o deixou estático.
– Mestre! – gritou uma tartaruga – Estávamos procurando o senhor!
– Mas quem estava perdido era você, Donatello. – riu o mestre, com uma voz serena, porém firme.
Arquimedes se virou e viu a coisa mais estranha que já vira, até então: um rato de quimono! “Mestre Splinter”, disse o rato, “muito prazer”. Arquimedes abriu a boca pra falar mas só conseguiu emitir um piado. O rato retirou o cajado do ombro dele e falou, “Você não devia estar aqui, tem um monstro à solta”.
 – Mas o m-m-monstro está com a minha namorada – gaguejou Arquimedes.
O rato olhou para as tartarugas e perguntou com os olhos se eles tinham visto essa garota. As tartarugas deram um negativo, e então o ratão ordenou: “Vão!” Quando Arquimedes olhou para trás e virou-se novamente também o mestre havia sumido. Arquimedes voltou a correr a esmo pelo esgoto, já sem fôlego, mas tanto as tartarugas, quanto o rato, quanto o vibrador, não deram sinal por quase meia-hora.
A certa altura a poça fedorenta que encharcava seus pés se transformou numa pequena correnteza, que ia aumentando na medida em que Arquimedes andava para a esquerda. O desembocadouro do esgoto devia ser ali perto. A correnteza estava prestes a lhe derrubar, quando ele viu uma luz negra esquisita uns trinta metros adiante. Andou se segurando nas paredes para não escorregar e, quando chegou à saída, percebeu que havia anoitecido. À sua frente havia um lago enorme, coberto por um céu cheio de estrelas opacas e de óvnis curiosos.   Arquimedes respirou fundo e ensaiou o mergulho seis vezes. Ia desistir de pular, quando atrás de si ouviu o som que tanto procurara. Virou-se com cuidado e lá estava, um vibrador branco de um metro de oitenta de altura, vestido com um minúsculo espartilho, tremendo como uma britadeira, acelerando na sua direção como se fosse um touro cheio de lanças espetadas no lombo. Arquimedes procurou pela namorada mas não a encontrou. O vibrador furioso disparou na sua direção, esguichando água e ratos despedaçados para os lados. Arquimedes não viu outra solução a não ser se jogar. Prendeu o nariz com os dedos e pulou.
O baque na água estourou seu dois tímpanos imediatamente. Ele nadou como um louco sem perceber que só estava se afastando de qualquer lugar seguro e se agarrou numa bóia de patinho meio vazia que vagava solitária. Na saída do esgoto, que agora parecia pequena, o consolo gigante parava enfim de vibrar. Era o fim, pensou Arquimedes, estava tudo acabado. Iria morrer afogado em breve, sem namorada e pobre, mais inútil que qualquer cachorro cotó. 
Mas o vibrador parado na portinha fez algo inesperado, e esta sim foi a visão mais estranha que Arquimedes teve em toda sua vida. Devagar e sedutor, se adiantou gingando e deu duas sacudidas, deixando o espartilho cair no chão e escorregar para a água. Logo depois tomou certa distância e mergulhou de ponta no lago. O impacto na água empurrou Arquimedes pra mais longe ainda.
Pesado como chumbo, o vibrador começou a afundar instantaneamente, e cada vez que vibrava sofria uma gigantesca descarga elétrica que o desligava novamente. Até que parou definitivamente de funcionar.
Minutos depois um brilho azulado surgiu do fundo do lago e começou a emergir. Um pequeno redemoinho se formou na superfície, puxando o corpo surdo e cansado de Arquimedes para o centro. Ele ainda tentou resistir, mas não aguentou e se entregou. O brilho então surgiu na superfície e parou de refulgir. Era o corpo nu e inerte de Tina Turner, com o pequeno “dildo lover” encaixado no sexo. Arquimedes a segurou e arrancou o objeto fora. Nadando sem poder respirar, tentou impedir de todo jeito que ela afundasse, até que uma escada de cordas foi jogadas ao alcance da sua mão. Ele a segurou sem jeito, e duas tartarugas desceram em seu auxílio, carregando os dois corpos com facilidade para o interior de uma nave engraçada, cheia de mutantes dentro.
            Tina Turner sobreviveu, mas até hoje jura que não se lembra de nada dessa história, a não ser da parte em que se olha no espelho e faz cara de safada. Isto, é claro, ela não disse aos policiais. E Arquimedes, que hoje é veterinário e cuida de cachorros cotós, nunca mais recuperou a audição por completo. Passou o resto da vida ouvindo um zumbido estranho, parecido com o barulho de um vibrador.

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