Arquimedes
aceitou que ela comprasse um vibrador. Só pediu que não comprasse um muito
grande, pois queria continuar sendo o protagonista. Ela foi com ele à sex-shop
e escolheu um branquinho com o nome “dildo lover” escrito na lateral. E
enquanto ela se distraía com umas fantasias de Jane, ele comprou um tubo de gel
lubrificante e escondeu no bolso do casaco. Saíram os dois da loja se sentindo
modernos e seguros de si, mas quando entraram no ônibus metade das pessoas
olharam para a sacolinha rosa-choque e deram risadinhas nada discretas.
Na
semana seguinte parecia que finalmente eles tinham descoberto o paraíso do sexo
despudorado de que Penélope Nova tanto falava. Tina Turner gemia como se fosse
morrer e arranhava cada palmo do corpo dele com as unhas postiças.
Mas
na noite em que comemoravam sete meses de namoro ela esqueceu o vibrador em
casa, e o sexo foi um tédio só. Imerso em baixa-estima, Arquimedes pediu que
ela não o trouxesse das próximas vezes e ela aceitou, tentando não demonstrar o
contragosto. Os três encontros que se sucederam a este foram tão chatos quanto
um canto gregoriano. Morriam os dois num sexo silencioso e cansativo, até que
ambos perceberam que dependiam daquele objeto vibrante urgentemente para
restaurar o maravilhoso caos de outrora. Mas ela preferiu não dizer nada por
medo de ofendê-lo, e ele não disse nada por medo de parecer um bosta, o que
nada adiantou, pois esses pensamentos são muito fáceis de ler.
Na
segunda Tina Turner foi à sex-shop procurar algo diferente que pudesse
reapimentar a relação e comprou uma calcinha comestível, um fio dental e um
espartilho. Quando chegou em casa teve vontade de experimentá-los mais uma vez
e, diante do espelho do guarda-roupas, sentiu uma atração incontrolável por si
mesma. Nem um pouco receosa, foi ao compartimento secreto da terceira gaveta do
criado mudo e pegou o vibrador. Lavou-o com si mesma e teve orgasmos múltiplos
olhando para a cara de safada que sabia fazer como ninguém quando estava
sozinha. Depois da masturbação deitou no mar de sargaço do relaxamento e
cochilou, sendo acordada logo depois pelo toquinho lisérgico do celular Nokia.
Era ele, chamando para passar a tarde num motel qualquer e depois comerem num
rodízio de pizza qualquer.
Ela
olhou para o espartilho jogado no chão, a calcinha comestível torada no cós de
gelatina, o fio dental ainda posto entre a coxa e a virilha, e mentiu:
“Desculpa amor, marquei de estudar com as meninas porque tem prova amanhã”. Ele
compreendeu e ficou em casa jogando poker online e tentando aprender
trava-línguas para desafiar o avô.
Ela
dormiu por algumas horas e acordou com o calor das três da tarde. Estava com
fome, mas primeiro ligou o computador para ver se tinha scraps no orkut fake.
Depois foi à geladeira e procurou algo feito, mas só tinha lentilha e
vinagrete. Pegou um resto de coca-cola velha e voltou pro computador. Acabou
comendo o resto da calcinha com o refrigerante, até que uma nova estria na coxa
lhe chamou atenção. Ela foi pro espelho e virou a bunda. A estria havia
desaparecido. Mas notou que os seios estavam maiores depois que começara a
tomar o suplemento vitamínico e hormonal. Achou que podia ser ilusão, mas
começou a se apalpar, até que caiu de amores por si mesma outra vez. O vibrador
estava estranhamente mais perto do que ela pensava, e ela repetiu todo o ritual
de mais cedo, com poucas inovações.
Em
casa, Arquimedes se distraía fazendo bolhas dentro de um aquário sem peixes. A
casa, que ficava próxima a uma estrada de ferro, estremeceu com o barulho
lancinante do trem das quatro. Arquimedes saiu e ficou olhando os inúmeros
vagões passarem. Sempre que os via sentia uma vertigem diferente, como se ali
na frente estivesse passando o seu destino. Um cachorro de três pernas passou
correndo a saltou pra dentro de um vagão, sendo agarrado por uma rapariga
magérrima e de olhos esbugalhados. Arquimedes se sentiu um bosta mais uma vez.
Até um cachorro cotó tinha mais coragem que ele.
Naquele
dia a rua estava infestada de mariposas. Arquimedes voltou pra dentro de casa e
procurou o avô, mas havia um bilhete na cadeira de rodas dizendo “fui correr”.
Na mesinha ao lado tinha duas carteiras de cigarro e o telefone celular do
velho. Ele pensou na namorada. O que estaria fazendo? Será que ainda estava
estudando? Apanhou o celular, que tinha bônus de sobra, e ligou pra ela.
Chamou
e chamou, até uma moça dizer que aquele número não possuía caixa postal.
Arquimedes rediscou. “Alô”, disse alguém, ao primeiro toque. Arquimedes
estranhou, “Tina? Quem está falando?”. “É o AMANTE VIBRANTE”, respondeu a voz,
e logo depois deu uma gargalhada. Arquimedes desligou e jogou o telefone na
cadeira do avô. Será que tinha se enganado? Pegou o telefone e conferiu. Não,
era esse número mesmo.
Resolveu
ligar para a mãe dela. Dona Loki atendeu e o mandou procurar um emprego, como
sempre. Disse que Tina estava no quarto desde cedo fazendo baderna, e que não
tinha saído nem para beber água. Arquimedes começou a ficar preocupado.
– Sabe se tem
alguém no quarto dela? – perguntou.
– Tem – disse
Loki.
– Quem?! –
Arquimedes estava sobressaltado.
– Ela – a velha
riu.
– To falando
sério, Dona Loki.
– Tem ninguém
não, besta. Quer dizer, pelo barulho que ta fazendo deve ter um rinoceronte lá dentro...
– A senhora pode
ir lá olhar pra mim?
De
onde estava, Dona Loki deu um grito que quase estourou os tímpanos de
Arquimedes. Ninguém respondeu. Pelo telefone, o rapaz ouvia os passos pesados
da velha arrastando as chinelas no chão encerado. Quando os passos pararam,
pôde ouvir um barulho baixinho vindo de algum lugar, parecido com um
helicóptero. Dona Loki bateu à porta e chamou: “Filhinha?”. O barulho aumentou
e diminuiu. Dona Loki recuou. “Tina? Ta tudo bem?”. O barulho acelerou e cedeu
outra vez. Dona Loki se abaixou e tentou olhar pela fechadura, mas antes que
pudesse ver qualquer coisa um estrondo botou a porta abaixo. Os olhos
aterrorizados da velha não puderam ser vistos por Arquimedes, que do outro lado
da linha escutava apenas engasgos surdos e chicoteadas, como se alguém
estivesse sendo estripado...
Arquimedes
sentiu um troço estranho no peito, como se tivesse respirado álcool gel. Pegou
as chaves do carro do avô e correu pro apartamento da namorada. O barulho de
hélices girando ecoava na sua cabeça. Que merda era aquela?
Na
frente do prédio tinha um corpo caído de bruços na calçada. Arquimedes desceu
do carro para ajudá-lo, mas quando se aproximou do homem dois policiais
surgiram do nada e ordenaram que ele se afastasse. “Que está acontecendo?”,
perguntou Arquimedes. “Saia daí”, disse um policial, “Ele já está morto”,
completou o outro.
Em
poucos minutos mais duas viaturas chegaram, e os policiais saltaram pra dentro
do carro e gritaram “Ele foi por ali!”. Os carros aceleraram e dobraram a esquina.
Arquimedes subiu o elevador do prédio aflito e quando chegou à casa de Tina
Turner o impacto foi catastrófico: a porta estava arrancada, e o interior da
casa totalmente destruído. Ele correu para o quarto da namorada e encontrou um
corpo estraçalhado no meio do corredor. O busto e a cabeça, no entanto,
permaneciam intactos. Era Dona Loki.
Arquimedes
gritou de desespero, e saiu correndo, tropeçando nos escombros. Tentou pegar o
elevador, mas ele parara de funcionar. Correu pela escada: não havia um degrau
inteiro, como se um trator tivesse descido por ali aos saltos. Fora do prédio,
notou que o mesmo rastro das escadas se repetia na pista. Ouviu o som de
helicópteros de verdade sobre a sua cabeça, e então pensou que aquele barulho
do telefone era bem diferente, parecia mais com um.... vibrador.
Duas
ruas depois havia dezenas de carros parados e pessoas andando a esmo com os
celulares em mãos, falando com as expressões faciais mais estupefatas que
Arquimedes já tinha visto. Não dava para passar por ali com o carro. Então ele
desceu e perguntou a um sujeito de collant o que diabos estava acontecendo e
que marcas eram aquelas no chão. “Um bafon”, sibilou o homem com a língua
presa, “Acabou de passar um CONSOLO GIGANTE correndo por aqui”.
Arquimedes a essa altura não poderia duvidar de história alguma, por mais
absurda que fosse. Saiu em disparada no meio dos carros, saltando por cima de
capôs e crianças, e chegou a um cruzamento de duas avenidas, onde vários
bombeiros se preparavam para descer em um imenso buraco de esgoto no chão.
Carros
de emissoras de TV e rádio começaram a chegar aos montes. Repórteres eufóricos
saltavam e corriam para todos os lados, causando tumultuo. Um deles, magricela
e com o pomo-de-adão do tamanho de uma castanhola, tirou uma pequena handycam
da bolsa, saiu correndo no meio dos bombeiros e saltou pra dentro do esgoto.
Dois bombeiros ensaiaram o salto, mas diante de um gesto de um superior ficaram
parados. Um homem careca que parecia ser o chefe bradou no alto-falante:
“Atenção, homens. Seja lá o que tiver aí dentro, certamente não poderemos
capturar no braço. Teremos de esperar este... esta criatura sair, se tivermos
sorte a moça estará viva, e então a polícia dará cabo da operação.”
“A
moça. Só pode ser Tina Turner”, estremeceu Arquimedes. Alucinado, aproveitou a
distração dos bombeiros e fez o mesmo que o repórter magricela. Mergulhou no
bueiro e escorregou na inclinação da parede, caindo de bunda numa poça com
cheiro de merda. Imediatamente pôde ouvir ao longe o mesmo som que ouvira no
telefone. Correu pelo labirinto de amônia e uréia, pisou em seis ratos, até que
tropeçou em algo maior. Era o cadáver do reporterzinho com as costas e nádegas
dilaceradas. O busto, porém, não parecia ter sido tocado. Dois metros à frente,
ainda gravando, estava a handycam.
Arquimedes
rebobinou a gravação até ver o mesmo que o cara havia visto. Mas tudo o que
conseguiu foi um áudio que parecia vir de trás. Ele apertou o play e ouviu:
“AMANTE
VIBRANTE”, e em seguida uma gargalhada tenebrosa.
“Amante Vibrante”.
Arquimedes agora tinha certeza: o que quer que fosse esta coisa, era a mesma
que matara sua sogra a seqüestrara sua namorada. Continuou pelo labirinto, mas
depois de alguns passos notou que o som de vibrador havia cessado. O silêncio
agora era perturbado apenas pelos ratos que cochichavam em bandos. O rapaz
sentiu a própria pulsação latejar.
Então
viu um vulto esverdeado passar correndo, seguido por mais dois. Arquimedes
estava petrificado. Um quarto vulto passou em seguida, mas se deteve de repente
e ficou a observar Arquimedes, cujos joelhos tremiam mais que uma vara verde.
Os três primeiros se reuniram ao quarto e agora formavam silhuetas horrendas
caminhando devagar e silenciosas na penumbra do esgoto, cada um carregando uma
espécie de arma. O primeiro deles passou rápido por uma réstia de um bueiro e
então Arquimedes descobriu quem eram aqueles seres, e esta foi, até então, a
visão mais estranha que tivera em toda sua vida: os vultos eram Tartarugas
Ninja!
– Ei Rapaz –
disse uma delas – O que você está fazendo aqui? É perigoso!
– O cara ta com
medo, Rafael – comentou uma delas.
– É, olha pras
pernas dele! – gozou outra.
– Santa
Tartaruga! – exclamou a última.
Arquimedes
se preparou para fugir, mas um bastão pesado pousou no seu ombro e o deixou estático.
– Mestre! –
gritou uma tartaruga – Estávamos procurando o senhor!
– Mas quem
estava perdido era você, Donatello. – riu o mestre, com uma voz serena, porém
firme.
Arquimedes
se virou e viu a coisa mais estranha que já vira, até então: um rato de
quimono! “Mestre Splinter”, disse o rato, “muito prazer”. Arquimedes abriu a
boca pra falar mas só conseguiu emitir um piado. O rato retirou o cajado do
ombro dele e falou, “Você não devia estar aqui, tem um monstro à solta”.
– Mas o
m-m-monstro está com a minha namorada – gaguejou Arquimedes.
O
rato olhou para as tartarugas e perguntou com os olhos se eles tinham visto
essa garota. As tartarugas deram um negativo, e então o ratão ordenou: “Vão!”
Quando Arquimedes olhou para trás e virou-se novamente também o mestre havia
sumido. Arquimedes voltou a correr a esmo pelo esgoto, já sem fôlego, mas tanto
as tartarugas, quanto o rato, quanto o vibrador, não deram sinal por quase meia-hora.
A
certa altura a poça fedorenta que encharcava seus pés se transformou numa
pequena correnteza, que ia aumentando na medida em que Arquimedes andava para a
esquerda. O desembocadouro do esgoto devia ser ali perto. A correnteza estava
prestes a lhe derrubar, quando ele viu uma luz negra esquisita uns trinta
metros adiante. Andou se segurando nas paredes para não escorregar e, quando
chegou à saída, percebeu que havia anoitecido. À sua frente havia um lago
enorme, coberto por um céu cheio de estrelas opacas e de óvnis curiosos. Arquimedes respirou fundo e ensaiou o mergulho
seis vezes. Ia desistir de pular, quando atrás de si ouviu o som que tanto
procurara. Virou-se com cuidado e lá estava, um vibrador branco de um metro de
oitenta de altura, vestido com um minúsculo espartilho, tremendo como uma
britadeira, acelerando na sua direção como se fosse um touro cheio de lanças
espetadas no lombo. Arquimedes procurou pela namorada mas não a encontrou. O
vibrador furioso disparou na sua direção, esguichando água e ratos despedaçados
para os lados. Arquimedes não viu outra solução a não ser se jogar. Prendeu o
nariz com os dedos e pulou.
O
baque na água estourou seu dois tímpanos imediatamente. Ele nadou como um louco
sem perceber que só estava se afastando de qualquer lugar seguro e se agarrou
numa bóia de patinho meio vazia que vagava solitária. Na saída do esgoto, que
agora parecia pequena, o consolo gigante parava enfim de vibrar. Era o fim,
pensou Arquimedes, estava tudo acabado. Iria morrer afogado em breve, sem
namorada e pobre, mais inútil que qualquer cachorro cotó.
Mas
o vibrador parado na portinha fez algo inesperado, e esta sim foi a visão mais
estranha que Arquimedes teve em toda sua vida. Devagar e sedutor, se adiantou
gingando e deu duas sacudidas, deixando o espartilho cair no chão e escorregar
para a água. Logo depois tomou certa distância e mergulhou de ponta no lago. O
impacto na água empurrou Arquimedes pra mais longe ainda.
Pesado
como chumbo, o vibrador começou a afundar instantaneamente, e cada vez que
vibrava sofria uma gigantesca descarga elétrica que o desligava novamente. Até
que parou definitivamente de funcionar.
Minutos
depois um brilho azulado surgiu do fundo do lago e começou a emergir. Um
pequeno redemoinho se formou na superfície, puxando o corpo surdo e cansado de
Arquimedes para o centro. Ele ainda tentou resistir, mas não aguentou e se
entregou. O brilho então surgiu na superfície e parou de refulgir. Era o corpo
nu e inerte de Tina Turner, com o pequeno “dildo lover” encaixado no sexo.
Arquimedes a segurou e arrancou o objeto fora. Nadando sem poder respirar,
tentou impedir de todo jeito que ela afundasse, até que uma escada de cordas
foi jogadas ao alcance da sua mão. Ele a segurou sem jeito, e duas tartarugas
desceram em seu auxílio, carregando os dois corpos com facilidade para o
interior de uma nave engraçada, cheia de mutantes dentro.
Tina Turner sobreviveu, mas até hoje jura que não se
lembra de nada dessa história, a não ser da parte em que se olha no espelho e
faz cara de safada. Isto, é claro, ela não disse aos policiais. E Arquimedes,
que hoje é veterinário e cuida de cachorros cotós, nunca mais recuperou a
audição por completo. Passou o resto da vida ouvindo um zumbido estranho,
parecido com o barulho de um vibrador.
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