A fumaça do cigarro de Manuela a precedia. Era o meu jeito de saber a hora de me vestir e me ajeitar na cama, ela invadia meu quarto sem cerimônias, sabia que seu pai me havia proibido de colocar fechaduras e se aproveitava disso. Ela fumaçava como uma chaminé, pelo menos, nada melhor para um escoteiro do que um sinal de fumaça.
A pequena nuvem cinza invadiu minha janelinha de presidiário, logo depois ela entrou. Veio mais rápido do que o de costume, então perguntei o que tinha acontecido. Ela fez uma pausa antes de falar para olhar para minhas coxas. Manuela não sabia ser discreta. A resposta veio em forma dum gesto agoniado com a mão. Ela estava me convidando a segui-la. Pedi licença para terminar de me vestir. Ao invés de sair do quarto ela virou de costas e olhou para a parede. Na parede havia um espelho. Ela me olhou pelo espelho, deu um sorrisinho de falsa surpresa e saiu do quarto.
A pequena nuvem cinza invadiu minha janelinha de presidiário, logo depois ela entrou. Veio mais rápido do que o de costume, então perguntei o que tinha acontecido. Ela fez uma pausa antes de falar para olhar para minhas coxas. Manuela não sabia ser discreta. A resposta veio em forma dum gesto agoniado com a mão. Ela estava me convidando a segui-la. Pedi licença para terminar de me vestir. Ao invés de sair do quarto ela virou de costas e olhou para a parede. Na parede havia um espelho. Ela me olhou pelo espelho, deu um sorrisinho de falsa surpresa e saiu do quarto.
Dentro do meu quarto as estações não passavam normalmente, havia algo nas paredes que isolava desde o mais tórrido verão ao mais tenro inverno. Surpreendi-me como lá fora estava quente e claro. Excepcionalmente claro, na verdade, parecia que uma nova luz havia se juntado à do Sol. Manuela estava adiante com duas amigas, Geórgia e Diana. Eu não gostava delas, as achava misteriosas demais. Elas me olharam antes que eu pudesse ignorá-las. Cumprimentei uma por uma com os olhos e voltei para Manuela.
– Qual foi?
– Lembra que te falei que vovó era sonâmbula?
Manuela havia me contado algumas histórias bizarras de sonambulismo entre seus antepassados. Eu ouvi tudo fingindo que não estava ouvindo, mas parece que não tinha funcionado.
– Então, – continuou ela – era tudo mentira. Eu quero te mostrar uma coisa, mas não sei se você é digno. Você é digno?
As amigas de Manuela me pegaram pelos braços antes que eu pudesse esboçar qualquer reação. “Responda a ela”, disseram as duas, num coro quase perfeito.
– Digno de quê, caramba?
– Digno de quê, caramba?
– Da verdade, oras.
Geórgia subiu a mão pelo meu braço direito e sussurrou no meu ouvido:
Geórgia subiu a mão pelo meu braço direito e sussurrou no meu ouvido:
– Existem verdades temporárias, apenas satisfações momentâneas... Verdades que você só aceita por preguiça, por causa da sua condição humana e imperfeita...
– Essas verdades – continuou Diana, enfiando as unhas no meu bíceps – são para qualquer idiota, mas não para você, meu anjo. Ela quer saber se você é digno, responda-a.
Manuela me encarava com um sorriso preso no rosto. Havia algo de errado naquilo, ela não fazia o tipo jogadora, também não parecia ser muito inteligente, mas algo na sua expressão lembrava um arco retesado com precisão em direção ao alvo.
Me desvencilhei das duas bizarras e respondi:
– Eu sou digno, mas olha lá, se isso for alguma brincadeira sem graça juro que...
-
“É um lugar familiar”, pensei. Comecei a caminhar pelos poucos cômodos daquela casa, as janelas traziam o cheiro da malva e o farfalhar constante característico dos veraneios.
Era um lugar iluminado, fresco, mas parecia abandonado há bastante tempo. No final de um vão empoeirado e vazio que outrora deveria ter sido a sala de estar, havia uma porta escorada com uma cadeira, como fazem nos filmes quando querem prender alguém. No entanto, a parte superior da porta estava despedaçada. Me aproximei devagar, arrastando a poeira antiga com os pés. Não dava para ver nada pelo buraco da porta, exceto uma réstia bruxuleante e frágil na parede oposta. Aquela luz só poderia vir do buraco desta porta, pensei, mas minha sombra definitivamente não a afetava. Retirei a cadeira do trinco e imediatamente a porta se abriu. Sem ranger, rápida, como se tivesse sido puxada.
Dentro do cômodo o ar era denso, quase sólido. Um cheiro acre emanava de tudo, misturando-se ao cheiro permanente de madeira velha.
– Pode ir... – sussurrou uma voz, atrás de mim.
Dei um grito de susto, lá fora o grasnado de uma graúna foi seguido pela debanda assustada de centenas de pássaros.
– Que droga, Manuela, mania chata de ficar dando sus... Manuela?
– Que droga, Manuela, mania chata de ficar dando sus... Manuela?
Não havia ninguém.
Apoiei uma mão na parede, arfando. Do outro lado do quarto, a réstia dançava sedutoramente na parede. “Maldita curiosidade.” No caminho até ela tropecei em dois móveis, pelo tato descobri que o primeiro era uma cama. O segundo, mais fofo, deveria ser uma almofada.
De frente para a luz, atestei mais uma vez minha falta de perspicácia: havia um farrapo de cortina sobre a parede. E atrás dela, a origem perfeitamente dedutível da réstia. Afastei a cortina para o lado, fazendo a poeira cair, e uma pequena janela se revelou, jogando um jato de luz quente no meu rosto.
Era uma janela tosca, menor do que o normal e cheia de persianas quebradas. A luz, no entanto, só passava por um dos espaços, onde algumas persianas faltavam consecutivamente. Media o espaço de um braço, supus que alguém deveria ter quebrado aquilo manualmente, talvez tentando fugir...
Coloquei o olho pela brecha. Do outro lado de uma clareira havia uma pequena choupana semelhante a uma casa de taipa. A porta estava virada alguns graus para a esquerda, não pude ver o que havia dentro dela. Mas em frente à porta dava para ver claramente uma pilha de baldes sujos, alguns com correntes e ferramentas de marcenaria dentro.
Coloquei o olho pela brecha. Do outro lado de uma clareira havia uma pequena choupana semelhante a uma casa de taipa. A porta estava virada alguns graus para a esquerda, não pude ver o que havia dentro dela. Mas em frente à porta dava para ver claramente uma pilha de baldes sujos, alguns com correntes e ferramentas de marcenaria dentro.
A poeira da janela me fez espirrar, jogando mais poeira ainda dentro dos meus olhos.
“Saúde”, disse a voz, seguida de risinhos.
Virei mais uma vez. O quarto havia clareado quando eu afastei a cortina. Diferente do resto da casa, aquele cômodo possuía mobília. Dois criados-mudos, um guarda-roupas, a cama em que eu esbarrara e, no chão, um corpo. Um corpo humano.
Minhas pernas tremeram involuntariamente e eu me encostei à parede, como se o corpo pudesse me fazer algum mal. Era um homem velho e gordo. Ou o que sobrara dele. Estava nu e em posição fetal, o rosto virado para o chão, as costas lisas e brancas se camuflando ao piso de madeira.
Estava praticamente intacto. Só não diria que estava vivo porque havia uma estaca cravada na sua nuca, de onde brotava apenas um filete negro e opaco de sangue.
Já estava à beira de um ataque de asmas, quando ouvi um barulho de folhas secas sendo pisoteadas lá fora. Olhei pela janela. Agora o barulho vinha de dentro da choupana, era som de ferros batendo, de martelo batendo em ferro...
Uma moça de vestido e cabelos enormes saiu da casinha. Carregava um serrote numa mão, um balde na outra. Passou pela clareira, mas na metade do caminho pareceu lembrar-se de algo. Voltou para dentro da choupana e de lá trouxe, dentro do balde, um machado de cortar lenha.
Que diabos era aquilo? Me perguntei. Eu precisava sair dali urgentemente. Olhei para o corpo inerte no chão, tinha de saltar sobre ele para sair do quarto, mas, droga, estava morrendo de medo... Resolvi saltar de olhos fechados. Foi o que fiz, quando abri os olhos novamente a moça estava parada, na minha frente, com os cabelos sujos sobre o rosto ofegante.
Prendi a respiração.
Ela largou o balde com o machado no chão, passou por mim e se agachou próximo ao corpo.
– Porque você fez isso...? – disse ela, num tom de tristeza.
– Não fui eu – respondi – eu juro! Quando cheguei ele já estava...
– Porque você fez isso, seu maldito? – ao dizer isto ela golpeou a cabeça do cadáver com a marreta, enfiando a estaca alguns centímetros mais. – Porque fez isso...?
A moça começou a golpeá-lo incessantemente. E enquanto o fazia sibilava frases como “não precisava”, “eu não queria”, repetindo-as no ritmo em que seu braço subia e descia. Percebi que ela não falava comigo, mas ao invés de alívio o terror daquela cena me trouxe duas deduções: ela o havia matado, e fazia pouco tempo. E ela não estava me vendo.
A menina virou o rosto para a porta do quarto, onde eu estava. Minha espinha congelou. Ela engatinhou, passou ao lado das minhas pernas, ajoelhou-se em frente ao balde e retirou o machado.
-
Eu estava diante de Manuela, meus lábios estavam secos e rachados.
– O que foi isso? – balbuciei.
Ela exibia um sorriso meio bobo, os olhos cheios de lágrimas.
Ela exibia um sorriso meio bobo, os olhos cheios de lágrimas.
As duas bizarras ainda seguravam meus braços, pelo que parecia não os haviam soltado durante todo aquele tempo. Mas tudo continuava igual, a luz era a mesma luz estranha daquela hora...
– Onde eu estava?
– No passado. – disse Geórgia.
– Ou melhor – completou Diana – você estava em outro presente.
Manuela se aproximou do meu rosto e colocou uma geléia sobre meus lábios.
Manuela se aproximou do meu rosto e colocou uma geléia sobre meus lábios.
– Sim, outro presente – disse ela – Você estava num presente da minha vó, na sua lembrança mais poderosa. Há algo sobre o passado da minha família e sua estadia nesta casa que você precisa saber.
Manuela não era de conversar, sua eloqüência era uma surpresa e estava me deixando atônito.
– Não fique surpreso. Minha estupidez é apenas um disfarce, e logo terei de retornar a ele. Mas antes preciso que você me acompanhe... – ela afastou os dedos da minha boca – É banha de cacau, não se preocupe. Vovó que fez.
Ela deu as costas e saiu andando. Geórgia largou meu braço, mas Diana ainda o segurou por um bom tempo enquanto eu seguia Manuela pelos vãos inferiores da casa. Passamos pela piscina e duas senhoras que eu nunca havia visto saíram de dentro da água. Ambas me acompanharam com uma espécie de olhar solene.
– São dríades. – disse Diana, ao meu ouvido.
– E o que elas fazem?
Diana riu.
Diana riu.
– Elas não fazem. Elas são.
Na medida em que avançávamos eu notava que a casa havia sido decorada de um jeito diferente. A mãe de Manuela, Dona Adelaide, sempre fora conhecida pelas suas excentricidades em relação à decoração, costumava encher a casa de plantas e flores silvestres, mas naquele dia havia exagerado: ao invés de plantas, árvores inteiras; ao invés de flores, animais selvagens empalhados. Além de um intenso cheiro de malva.
Chegamos à escada que dava acesso ao quarto da vó de Manuela. Diana soltou meu braço e parou de andar. Geórgia também, e ambas ficaram para trás. A escada era baixa, mal podia ser chamada de escada, mas possuía degraus largos e espaçosos que culminavam na soleira da porta da velha. Antes de bater na porta Manuela tirou uma carteira de cigarros do bolso e acendeu dois. Estava esperando que ela me oferecesse um, calharia, mas ela pôs os dois na boca e bateu.
– Entre.
Manuela mandou-me fechar os olhos e empurrou a porta. Não obedeci a tempo e uma luz fortíssima quase me cegou. Pus a mão no ombro dela e fui sendo guiado para dentro da luz, enquanto minhas pupilas lentamente se acostumavam ao ambiente. Manuela parecia não se importar, apenas caminhava.
O quarto era longo e pela quantidade de vozes chilreando devia estar cheio de pessoas. Manuela parou e tirou minha mão do seu ombro.
– Olá, minha filha.
– Olá, minha filha.
– Ele está aqui vovó. É esse.
– Não tinha um mais moço?
– Tinha, mas eu escolhi esse aqui, ele vai servir.
– Está bem, deixe ele se aproximar.
Manuela me levou até o pé do que parecia um trono. Uma mão gélida tocou o meu rosto e imediatamente pude ver tudo. Eram pés engelhados calçando uma sandália de couro, a barra de uma saia negra escondendo as canelas. A cadeira da velha estava sobre vários degraus dourados. Quando ergui a cabeça para mirar-lhe a face fui mais uma vez ofuscado, dessa vez por um vitral colorido que estava atrás dela e a emprestava uma aura santa e terrível.
Manuela me levou até o pé do que parecia um trono. Uma mão gélida tocou o meu rosto e imediatamente pude ver tudo. Eram pés engelhados calçando uma sandália de couro, a barra de uma saia negra escondendo as canelas. A cadeira da velha estava sobre vários degraus dourados. Quando ergui a cabeça para mirar-lhe a face fui mais uma vez ofuscado, dessa vez por um vitral colorido que estava atrás dela e a emprestava uma aura santa e terrível.
– Diga-me, menino. – a voz dela era baixinha, frágil, mas autoritária. – Onde foi que você conheceu minha neta?
– Num acampamento. Eu estava com uma turma de escoteiros mirins e ela surgiu detrás de uma árvore, com o cabelo cheio de gravetos. Ela disse que havia se perdido, pediu ajuda para achar o caminho da vila. Eu disse que era só nos seguir...
A senhora deu uma risada gostosa.
– Aliah, minha filha...
Manuela estava num canto, tragando profundamente os dois cigarros ao mesmo tempo. Quando a vó disse aquelas palavras ela se engasgou e tossiu.
– Oi vó.
– Não seria mais fácil amarrá-lo, seduzi-lo, ou qualquer coisa do tipo?
– A senhora sabe que não sou boa nisso.
– Sei sim. Eu também não era... Pois veja, Danilo – disse a velha, voltando-se para mim – Se minha neta fosse como as tias, certamente teria enlouquecido você. As nossas mulheres que tem algo da sua raça têm esse poder estranho, não sei realmente se um dia vou entendê-lo...
–... Que poder?
–... Mas nós não o temos. – ela não me deu ouvidos – Nós somos diferentes, não sabemos fazer isso direito, no máximo conseguimos ficar sem graça e conquistar alguém que goste de mulheres sem graça. É uma lástima...
Enquanto a vó se lamentava notei que havia deixado de ouvir as vozes que conversavam. Olhei ao redor, não havia ninguém no quarto.
– Preste atenção.
– Preste atenção.
– Sim, senhora.
– Eu dizia que este é um traço que não pudemos pegar de vocês, mas nossas qualidades boas deixam sua raça a uma distância imensa da nossa. Isto a parte, vocês são inferiores em quase tudo...
A vó falou por mais de dez minutos das diferenças entre as raças, eu não estava entendendo nada. Deveria estar assustado, mas aquele lugar me causava uma espécie de torpor... Não havia medo ali. A certo ponto, quando ela já principiava a repetir tudo que havia dito, meu coração começou a bater mais forte. Cada batimento era como um soco, calafrios tomaram meu corpo, senti minha traquéia atrofiando, atrofiando... A falta de ar estava me enlouquecendo, mas nenhuma das duas parecia estar me vendo. Tentei falar, mas só consegui emitir um piado.
A vó falou por mais de dez minutos das diferenças entre as raças, eu não estava entendendo nada. Deveria estar assustado, mas aquele lugar me causava uma espécie de torpor... Não havia medo ali. A certo ponto, quando ela já principiava a repetir tudo que havia dito, meu coração começou a bater mais forte. Cada batimento era como um soco, calafrios tomaram meu corpo, senti minha traquéia atrofiando, atrofiando... A falta de ar estava me enlouquecendo, mas nenhuma das duas parecia estar me vendo. Tentei falar, mas só consegui emitir um piado.
Quando caí de joelhos Manuela, ou Aliah, surgiu na minha frente e pôs um cigarro na minha boca.
-
– O que foi isso, agora? – gritei, alarmado.
– Você estava fora do tempo. Não há tempo no quarto. Mas havíamos esquecido de te tirar do espaço. Meninas, venham aqui.
As dríades da piscina surgiram do nada, simplesmente apareceram na minha frente. Agora, mais de perto, percebi que elas se assemelhavam muito às amigas bizarras de Manuela... Uma delas, que parecia com Diana, pegou no meu bíceps e o apertou.
– Lembra de mim?
– Lembra de mim?
Não era possível. Eu havia acabado de vê-las jovens, cada uma tinha no máximo 17 anos. Mas ali, colada no meu braço, estava certamente a mesma Diana, uns 50 anos mais velha. A outra, Geórgia, pegou meu outro braço e o apertou ainda mais forte. Senti uma dor afiada quando ela cravou as unhas na minha pele. Mas antes que pudesse reclamar senti um imenso puxão no meu corpo. Meus peitos se rasgaram como papel, minha pele escorregou do meu corpo e meus membros em carne viva foram evanescendo aos poucos, até que parei de sentir qualquer coisa.
Mas eu ainda estava ali...
– Nós tiramos sua forma.
– Nós tiramos sua forma.
– Você agora é eterno, meu anjo. Como a verdade.
Geórgia e Diana sumiram da mesma forma que haviam surgido. Manuela e sua vó estavam ao meu redor, eu sabia disso, mas não conseguia vê-las. Não conseguia ver ninguém, nem eu mesmo. Apenas uma imensidão de uma cor desconhecida, uma cor que olhos humanos nunca poderão ver.
Geórgia e Diana sumiram da mesma forma que haviam surgido. Manuela e sua vó estavam ao meu redor, eu sabia disso, mas não conseguia vê-las. Não conseguia ver ninguém, nem eu mesmo. Apenas uma imensidão de uma cor desconhecida, uma cor que olhos humanos nunca poderão ver.
– Você visitou outro presente, uma memória muito importante minha. Talvez a mais importante. Como se sentiu viajando no tempo?
– Não sei... aquele lugar me parecia familiar... eu o conheço?
– Sim. Você conhece todos os lugares.
– Como assim?
– Quando nós tiramos você do tempo, você passou a estar em todas as épocas, tanto do passado quanto do futuro. Não importava em que tempo estivesse, seria sempre o seu presente. E quando tiramos você do espaço você estava em todos os lugares. Você sempre estivera ali, naquela casa, assim como em todos os outros lugares existentes.
Eu não sabia se estava entendendo, mas não sentia vontade de questionar. Era só querer e a saciedade aparecia, todas as respostas me acalentavam. Ouvi a voz de Manuela:
Eu não sabia se estava entendendo, mas não sentia vontade de questionar. Era só querer e a saciedade aparecia, todas as respostas me acalentavam. Ouvi a voz de Manuela:
– Mas vó, nós só tiramos ele do espaço agora...
– Não importa. Se já estava fora do tempo nós já o havíamos tirado do espaço desde sempre. Para sempre.
Eu quis saber o motivo daquela viagem, porque eu tinha visto o cadáver, a moça esmagando a cabeça dele com aquela marreta... A resposta surgiu imediatamente, na voz da velha.
Eu quis saber o motivo daquela viagem, porque eu tinha visto o cadáver, a moça esmagando a cabeça dele com aquela marreta... A resposta surgiu imediatamente, na voz da velha.
“Eu cheguei na Terra há 52 anos, numa noite de inverno. Fui deixada aqui por um espírito viajante chamado Finerru. Quando caí naquela floresta estava certa de que iria morrer, pois meu corpo pedia coisas que eu não sabia explicar o que era. Você não imagina a dor de descobrir a fome, o frio, a própria dor...”
“Quis morrer por horas, mas ao amanhecer fui encontrada por um cão perdigueiro. Logo atrás dele veio aquele homem que você viu, o nome dele era Nicolau. Ele me levou para a casa dele, uma cabana pequena circundada por um matagal, aos fundos da casa dos patrões dele. Era um lugar fétido, úmido, mas nunca tão fétido e tão úmido quanto ele.”
“Quis morrer por horas, mas ao amanhecer fui encontrada por um cão perdigueiro. Logo atrás dele veio aquele homem que você viu, o nome dele era Nicolau. Ele me levou para a casa dele, uma cabana pequena circundada por um matagal, aos fundos da casa dos patrões dele. Era um lugar fétido, úmido, mas nunca tão fétido e tão úmido quanto ele.”
“Eu não chorava, não havia aprendido, isso o ajudou a me manter escondida por vários meses. Mas uma coisa que aprendi foi a crescer. Eu pedia comida ao cão e ele me trazia coelhos do mato, me alimentava muito bem enquanto Nicolau estava trabalhando. Em pouco tempo havia adquirido a forma do que vocês chamam de criança. Ele era um demente, nunca percebeu que eu estava crescendo mais rápido que o normal para a raça dele. Quando percebeu olhou para mim de um jeito que nunca vou esquecer. Era um olhar cobiçoso e doente. Ele deslizava a mão áspera pelo meu rosto, pelo meu cabelo, e depois pelas outras partes do meu corpo. Divertia-se fazendo aquilo. Só parou de divertir-se dessa forma quando descobriu que poderia ir mais além. Eu odiava o contato da pele dele, a agonia que me causava."
“Num dia particularmente doloroso aprendi a andar e fugi daquela cabana, indo me esconder dentro da casa ao lado.”
“A casa era muito iluminada e quente, aquela luz exagerada ficou presa na minha visão para sempre. Por isso preciso manter meu mundo ofuscante e meus olhos abertos, sem piscar, pois o escuro me cega.”
“Dentro da casa havia mais pessoas, uma delas do meu tamanho. A maior delas gritou espantada quando me viu. Me pegou nos braços e perguntou de onde eu vinha. Não pude responder, pois não sabia falar, mas ela respondeu a si mesma dizendo que eu era um anjo, enviado do céu.”
“Eu não era um anjo, obviamente. Mas gostei do hálito dela, fedia menos do que o do Nicolau. Passei horas sendo manipulada por aquelas pessoas, inclusive por um homem que chegou mais tarde e quis me levar embora para a polícia. Ao final desse mesmo dia, Nicolau surgiu na casa, atordoado e bêbado, e perguntou para a outra criança onde haviam me achado. Ela o contou sua versão, mas mesmo assim foi ameaçada por ele. Ameaçada com o mesmo olhar cobiçoso com o qual ele me olhava.”
“No dia seguinte Nicolau apareceu com roupas diferentes, havia tomado um banho. Pediu permissão para entrar na sala da casa e a mulher grande deixou. Ele disse que era meu pai, que gostaria de cuidar de mim ele mesmo, na casa dele. A mulher riu quando ele disse a palavra ‘casa’, disse que ela mesma cuidaria de mim, que ele não tinha com quê se preocupar. Do colo dela eu pude ver a alma de Nicolau em chamas. Depois disso, dia após dia ele me vigiaria, olhando para o meu corpo em desenvolvimento com a secura de um lobo.”
“Eu cresci rápido e me tornei bela. Aprendi a falar, a dançar, mas não desenvolvi a inteligência. Quando comecei a sentir desejos, não consegui descobrir uma forma de saciá-los sozinha. Tive muito medo quando olhei para o velho Nicolau trabalhando e descobri que aquele mesmo corpo abominável agora parecia algo capaz de me libertar daqueles sentimentos estranhos. Mas uma coisa que havia aprendido entre as pessoas daquela casa me mantinha longe do Nicolau: eu deveria preservar minha vida e o meu corpo, embora não entendesse bem o porquê.”
“Contudo, o desejo está além do corpo, ele emana. Mesmo sem querer, fiz Nicolau saber que eu pensava nele diferente. Meu cheiro dizia coisas que eu não deveria dizer pro meu próprio bem..."
"Eu não queria que fosse assim, mas acabei chamando atenção também do homem da casa grande. Mas para este eu não conseguia olhar, pois o obedecia.”
"Eu não queria que fosse assim, mas acabei chamando atenção também do homem da casa grande. Mas para este eu não conseguia olhar, pois o obedecia.”
“No meu quarto havia uma janelinha que dava para a casa do Nicolau. Eu ficava esperando ele aparecer a noite inteira, mas ele tinha esses hábitos de caçador e passava as noites fora. Até que um dia, olhando através da janela, vi que o cachorro havia ficado amarrado, o que significava que ele não tinha ido caçar.”
“Então ouvi o trinco da porta se mover às minhas costas. Pensei que deveria ser ele, vindo atender aos meus anseios, mas quem abriu a porta foi o homem da casa. Ele entrou de pijamas e disse para eu fazer silêncio. Sua vista estava escura, ele arfava. De repente começou a se despir, tirou a camisa, a calça e veio para cima de mim. Não consegui gritar, pois ele me mandou fazer silêncio. Não consegui resistir de nenhuma forma. Ele me possuiu por pouquíssimo tempo e deixou o corpo cair em cima do meu.”
“Quando ele desabou pude ver, parada, no meio da porta, a silhueta do Nicolau. Ele trazia um machado na mão.”
“Nicolau matou o homem da casa com algumas machadadas, depois puxou o corpo dele pela casa para ir jogar lá fora. No caminho foi surpreendido pelo resto da família. Matou todos, partiu cada um em vários pedaços e carregou para fora da casa.”
“Pegou um carro de mão, juntou os pedaços e levou para perto da cabana dele. Precisou de algumas viagens para terminar. Por fim, cavou nos arredores da cabana fazendo uma clareira e os enterrou lá.”
“Eu assisti a tudo isso impressionada. Achava tudo aquilo lindo. Veja bem, a morte para os humanos tem mais significado do que deveria. Eles haviam morrido de um jeito belo, quase artístico. Quanto à vida, ela estava li, depois não estava mais.”
“Ainda sujo de sangue Nicolau tomou meu corpo e me fez a mesma coisa que o outro havia feito, sem a menor diferença. Fiquei decepcionada. Como meu corpo podia pedir tanto por algo tão estúpido?”
“Nos dias que se seguiram Nicolau repetiu aquilo várias vezes. Em algumas me violentava, divertia-se me vendo gritar. Raras vezes gostei da dor, mas quase sempre apenas sofri. Nicolau não queria que eu fugisse (embora eu não soubesse o que era fugir), por isso me trancou dentro do meu quarto. Estávamos passando fome, então ele disse que venderia os móveis da casa para comprar comida e assim o fez.”
“Vivi por um ano dentro daquele quarto. Nos primeiros meses ele me torturava todos os dias enquanto enfiava aquele pedaço de carne em mim. Mas depois ele só aparecia no quarto para me bater. Sentia mais prazer me espancando do que enfiando.”
“Então comecei a pensar em fugir. Quando eu sabia que ele estava longe tentava arrancar as persianas da janela para passar por ela. Logo descobri que era esforço inútil: ao arrancar as primeiras persianas vi que a janela era muito estreita para o meu corpo. Então, quando eu pressentia a volta dele, punha as persianas no lugar para que ele não desconfiasse a batesse mais ainda em mim.”
“Um dia ele voltou furioso, pois o cachorro havia morrido. Ele disse que a culpa era minha, que eu havia desgraçado a vida dele. Então me chicoteou por horas. Quase morri. Quando ele foi embora fiz uma das persianas de estaca e comecei a arranhar a porta para tentar fugir. Consegui abrir um pequeno buraco no primeiro dia. No segundo já dava para colocar meu rosto para fora.”
“Nesta ocasião, quando eu esgueirava o rosto pelo buraco, ele surgiu na outra extremidade da sala. Seus olhos estavam vermelhos, eram os olhos do diabo. Ele partiu furioso para cima da porta, derrubou uma cadeira que a sustentava e entrou. Eu recuei em direção à janela e mantive a estaca entre as mãos, segurando-a firme atrás de mim. Ele deu um soco no meu rosto. Eu caí de quatro e a estaca voou. Ele me viu naquela posição e resolveu que aquela era hora de enfiar a coisa dele em mim. Eu abaixei as costas e consegui, no escuro, alcançar a estaca. Quando ele enfiou eu escorreguei para frente e ele caiu. Então o matei. Eu... o... matei... Enfiei a estaca na nuca dele.”
“Demorei a perceber que havia feito com ele o mesmo que ele fizera à família. Saí do quarto para buscar o machado para repetir tudo. Como não sabia se ele estava mesmo morto, escorei a porta com a cadeira. Assim como ele fazia comigo.”
A história se estendeu até a parte em que ela conhecia um homem bom, casava e dava origem a essa raça miscigenada, dríades com seres humanos, essa raça que desperta o desejo nos homens e nas mulheres.
O tempo não havia passado e eu tinha compreendido tudo o que vira. Mas ainda faltava explicar o meu papel naquela história. Eu sabia, por dedução, que Manuela, ou Aliah, era diferente das meias-dríades. Ela não tinha talento para sedução. Tinha descoberto também que aquela velha maluca que perambulava de madrugada e que todos diziam ser sonâmbula era de uma raça extra-terrestre... enviada por esse tal de Finerru. Mas, ainda assim...
-
Eu estava sentado, à beira da piscina. As jovens Geórgia e Diana nadavam nuas. Senti meu corpo, seus limites, me senti envelhecer. O tempo havia voltado. Atrás de mim os vários animais que eu pensava estarem empalhados começaram a se mexer, vagarosamente, até recuperarem seus movimentos normais e voltarem para a floresta. A malva permanecia no ar: havia algo naquela vegetação que me lembrava aquela casa. Quando eu voltasse no meu quarto pela última vez, algumas horas mais tarde, a janelinha de presidiário também me lembraria outra janela pequena...
– Você é um anjo. – disse Manuela, na minha nuca. Eu me arrepiei, quando olhei para ela vi o mesmo olhar de quando voltara da eternidade. Dessa vez, no entanto, ela estava sem graça e o desviou de mim.
– E o que um anjo faz?
– Caça seres espirituais. Como Finerrus.
– É essa minha missão?
– Não. Sua missão era apenas casar comigo, mas...
Manuela enrubesceu.
– Vovó quer o Finerru. Ela quer saber de onde veio.
– Meu Deus... – me vi no espaço, com asas enormes, caçando o Finerru. – Onde diabos essa história vai parar hein?
– Não sei. – Respondeu Aliah, enquanto acendia um cigarro. – Tô ansiosa pra saber.
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