O Padre Romão dizia que as
aleluias do último sábado da semana santa eram como um cálice revigorante de
caldo. Eu nunca tomei caldo em um cálice, mas entendi o que ele quis dizer. A quaresma, que embora já tivesse muito mais de profana do que de sagrada,
sempre costumava dar novos fôlegos à fé das pessoas. Depois dela era certo que as
missas dos dois meses seguintes iriam lotar, e também que haveria bem menos
confissões e bem menos penitências. Eu o ouvi dizer isso à porta do Galpão do
Lô, uma taberna mal iluminada onde as putas se abrigavam das chuvas de março.
O vigário me olhou com uma
espécie de comiseração beata quando eu reclamei da gastrite, e se serviu da
minha cachaça. Eu estava imundo, tinha bebido os últimos três dias, sem parar,
por causa de um amor contrariado há muito tempo que me voltara à lembrança. Ele
me perguntou se eu estava com fome e eu neguei. Estava ali só esperando, porque
em alguns minutos o velho Lô puxaria os tamboretes pra dentro do Galpão e me
chamaria para arrumar o Judas. “É mesmo”, disse o padre se lembrando, “Pois
venha tomar um banho, homem, porque senão você vai acabar espantando as
rendeiras que a Toinha mandou chamar.”
Quando eu voltei do banho, meia
hora mais tarde, não estava tão limpo quanto pudesse ficar. Me encostei na
algaroba velha da Igreja da Matriz e fiquei esperando o bar baixar a portela.
Lá pela meia noite o Lô saiu mancando e soprou no mesmo apito de sempre, o que
seu filho havia lhe dado antes de morrer de tristeza. O apito provocou uma
resposta em forma de burburinho quase imediata, logo seguida pelas luzes dos
terraços, que foram se ascendendo devagar, até que, dez minutos depois, a noite
parecia haver retrocedido às sete horas de novo.
Salôba, meu companheiro de pinga, surgiu na esquina
carregando uma saca de estopa enorme, bem maior do que ele, e já se rasgando
nas costuras. Ele me chamou e eu cambaleei até lá para ajudá-lo. A saca era bem
mais leve do que parecia, mas estava cheia de espuma de colchão velho, e meu
ombro recém alfazemado ficou com um cheiro esquisito de percevejo.
À porta do galpão fomos recebidos pela Toinha do Lô
com duas mulheres muito parecidas. A única diferença estava na idade: uma já
era velha e carcomida e a outra novinha e esbelta, mas ambas com a mesma cara
de desiludida. Eram as rendeiras, a mãe e a filha, que haviam chegado mais cedo
do distrito de Milhã para ajudar com o Judas. Quando entrei resolvi não falar
para não espantá-las com o bafo, mas a cabrochinha nova me olhou com uma cara
de quizila tão medonha que pensei seriamente em mandá-la à merda. Sitonho riu e
se reuniu comigo e com Salôba no canto do galpão. Tinha as mãos cheias de
lantejoulas e o rosto meio brilhoso, com uns pontinhos dourados que só
apareciam quando ele se mexia. Eu achei estranho, mas já estava acostumado:
nunca vira Sitonho para não achá-lo estranho.
Enquanto eu juntava as pratas do
bolso para pedir mais uma dose de cana, todos os presentes no galpão
conversavam alto e davam gargalhadas, fingindo se conhecerem desde criança. Mas
teve uma bendita hora em que o silêncio chegou, constrangedor como sempre, e
fez alguém se adiantar e dizer por que nós todos estávamos ali. Alguém tinha de
explicar, embora fizéssemos aquilo todos os anos, desde um tempo tão remoto que
ninguém mais sabia direito porque fazia. Era o Judas. Iríamos passar a noite
fazendo o boneco que seria malhado no dia seguinte, e este ano, que até então
havia sido particularmente ruim, deferia muito mais importância àquela tarefa.
Naquele ano tinha morrido o
prefeito da cidade, Dr. Donato Bramante, e o Eliano das Mutambas. Mas a
desgraça maior estava exposta lá mesmo no Galpão, bem acima da cabeça do
Salôba. Era Flamengo, o urubu alcoólatra do Lô, que ele criara desde pequeno,
desde o tempo das penas brancas, e que agora jazia empalhado numa estante de
madeira entre dois quadros de família. Flamengo havia morrido de cirrose, de
acordo com Toinha, mas Lô contestava dizendo que na verdade a felicidade o
matara, e mostrava uma foto do urubu, felicíssimo, se equilibrando num pé só em
cima do seu ombro. Por isso, por ser este um ano de luto, era de se esperar que
as pessoas construíssem um Judas mais bonito do que os dos anos anteriores. Até
contratações haviam sido feitas para que o Iscariotes ficasse perfeito,
imponente e brilhante, para que as pessoas o torturassem com mais gosto.
Quando começamos a fazer o Judas,
pegamos a fronha de corpo inteiro que já estava feita e a estufamos com cuidado
para não deixá-la com as partes desproporcionais. O boneco ficou bastante
musculoso e comprido: tinha mais de três metros. O Sitonho tentou disfarçar,
mas todo mundo viu que ele enxertou, um pouco mais, perto da virilha do Judas.
Quando eu fui ajeitar, a rendeira mais nova repetiu a cara de bunda e se
benzeu, cutucando a mãe com o cotovelo. Botamos a roupa nele. Ao invés da
túnica que tínhamos combinado depois de ver a paixão de Cristo, Cleonice, uma
vizinha fofoqueira, apareceu com um imenso uniforme da Seleção Brasileira,
porque, dizia ela, a copa daquele ano havia sido uma vergonha. Ninguém fez
objeção. As rendeiras, por sua vez, abriram uma bolsa de couro de boi e tiraram
um monte de palha com um cheiro engraçado de canela e limão, para botar por
baixo da roupa. Depois de vesti-lo colamos os cabelos, as unhas e pintamos
olhos, boca, nariz e um par de sapatos mocassim, este último alvo de bastante
reclamação da mãe rendeira, que afirmou nunca ter visto jogador de futebol de
sapato. Então colamos uma bola na mão dele. Eu fui o responsável por cobrir as
costuras com lantejoulas coloridas, e Salôba, que acabava de voltar de uma
“cagada das boa”, passou um verniz nos braços e no rosto do boneco para
deixá-lo um pouco mais moreno. Sitonho tirou um potinho brilhoso do bolso e
saiu jogando por cima do cabelo e dos ombros do Judas, fazendo todo mundo
rezingar. “É glíter”, disse ele, soprando um pouquinho contra a luz.
Quando o dia começou a amanhecer
o Judas já estava tão enfeitado que ninguém tinha dúvidas de que haviam se
superado. Aquele era, sem dúvidas, o Judas mais bem feito que eu lembrava de
ter visto. Então demos o trabalho por terminado e o pusemos de pé na frente da
casa, para secar o verniz e pro povo admirar.
Enquanto os vizinhos se despediam
e davam até mais tarde, peguei uns tarecos que Deuzinha apareceu distribuindo e
fui pra debaixo da algaroba, onde acabei dormindo por algumas horas, até ser
acordado por um grupo de penitentes, o mesmo que me acordara meses antes, no
Reizado. Ao longe, de amarelo e azul, o boneco parecia ainda mais aparatoso.
Pensei comigo, “nem um boneco de Jesus Cristo teria sido tão bem cuidado”. Mas
aí uma coisa balançou em cima de mim e dois galhos cairam ao meu lado. Olhei
pra cima e vi que tinha alguém trepado na algaroba. Havia me esquecido que
aquele era o exato lugar da malhação. Mas, afinal de contas, esperava que
alguém me avisasse pra sair de baixo da árvore antes de começarem a podá-la.
Era o Josué, o filho da Quenga, que estava em cima da árvore. Começou a
cortá-la aos arrancos, como se tivesse descontado na pobre todas as humilhações
pelas quais passara desde moleque. Depois de uma hora, quando o serviço acabou,
dava pena o estado da algarobinha: havia sobrado tão poucos galhos que uma
revoada de andorinhas ia pousar nela, mas desistiu porque faltavam lugares.
De tardezinha, as pessoas saíram
de suas casas penteadas e cheirosas e se sentaram nas calçadas. Quando o Salôba
e o Julião, irmão do Salôba, amarraram o Judas na algaroba, um monte de meninos
começou a aparecer de repente. Surgiam de casas, de detrás dos carros, dos
postes, do chão... Num pedaço de tempo a rua tinha tantos meninos que pensei
que os adultos tinham encolhido. Os guris se reuniram ao redor do Judas e
ficaram se enxerindo pra destruí-lo, dando muito trabalho a Salôba e a Julião,
que ficaram de guarda a mando do velho Lô. Este, por sua vez, olhava de longe
esperando bater seis horas para dar início à festa. Eu procurei um canto pra
tomar banho, mas não achei. A igreja estava fechada e, por mais que eu
chamasse, ninguém atendia. O padre certamente não iria participar da malhação
este ano, porque no ano anterior tinha sido criticado pelo bispo de Mombaça,
cuja paróquia, a maior da região, era seu sonho de posse secreto. Então me
conformei com um mergulho de rosto no restinho de água de chuva que ainda tinha
no chafariz.
O sino badalou. Todo mundo olhou
pro Lô e ele entrou em casa. Um instante após saiu com o apito pendurado no
pescoço e andou, de mãos dadas com Toinha, até o pé do Iscariotes. O Sino
badalou pela última vez e nesta hora recomecei a beber. Lô soltou um pigarro e
escarrou na grama. Como no ano anterior, começou o discurso segurando o apito
do filho com as mãos juntas no peito e falando das suas peripécias no tempo em
que ele era menino. Quando a mulher já se desmanchava em lágrimas, ele mudou de
assunto e começou a citar tudo de ruim que acontecera no país nos últimos
meses, falou de um cantor que morreu de câncer, de um prédio que caiu, da
seleção que perdeu a copa e, por fim, do seu urubu que morrera. Então lembrou a
todos que Judas, o da bíblia, muito tempo atrás tinha cometido a maior
sacanagem da história, algo maior e mais feio do que tudo o que ele já havia
citado até então. Ele traíra Jesus, um homem santo. E o traíra com um beijo,
pois além de traidor era viado. Selara o destino do homem que lhe dera a chance
de ser um santo e de ter uma estátua na igreja. E o fizera em troca de míseros
trinta reais. Lô terminou o discurso pedindo que descontassem
naquele boneco todas as injustiças do mundo, para que Judas aprendesse a nunca,
nunca mais trair Jesus.
Lô levou o apito à boca e soprou,
mas ninguém ouviu o som. Uma massa disforme de guris se ergueu gritando pra
cima do boneco e começou a lhe rasgar as meias. Um trio de forró que estava a
postos pôs-se a tocar músicas que falavam de vacas e peões. Então as putas
chegaram. Madame Zilá, seguida por Alaíde e Helena, estas seguidas por suas
irmãs mais novas, Brigite e Marliane, aportaram na beira da praça e ficaram
divertindo os homens com piadas despudoradas. O ar empestou com o cheiro doce
do perfume da Madame. Mas alguns minutos depois, quando uma mulher alta e meio
demente conseguiu rasgar a camisa do Judas, o outro perfume, o das cascas de
canela com limão, se misturou ao primeiro e o anulou.
Eu continuava fedendo. E embora
não conseguisse sentir, notava que de vez em quando alguém cochichava, ou se
afastava fazendo caretas. Como já estava bêbado, sai atropelando uma dezena de
guris e me agarrei com o Judas, pra ver se pegava o pouco do cheiro. Foi Salôba
que me tirou de lá e me levou pra o trilho do trem, onde duas quenguinhas
esperavam sentadas algum freguês aparecer. Salôba, que tinha fama de bem
dotado, ficou exibindo o volume por trás do calção para as donzelas, que riam e
faziam as mais falsas caras de assustadas. Então eu vi, do outro lado da rua, a
rendeirinha filha da rendeira velha, e quando ela me viu se benzeu mais uma
vez. Eu cutuquei Salôba e a apontei. Ela havia virado de costas, e parecia
querer me ignorar... Nessa hora comecei a pensar que ela talvez quisesse era
dar uma trepada. Mas Salôba botou o membro pra fora e ficou esperando ela se virar,
o que, com efeito, a fez correr e sumir para nunca mais aparecer.
Voltei para o Judas e percebi que
ele já estava aos frangalhos. O esmero com que o havíamos feito tinha sido
proporcional à fúria com que o malharam. Já se aproximava a hora, a má hora, em
que algum capeta em forma de menino traria uma tocha improvisada e tacaria fogo
no boneco. E não demorou. Tulião até tentou impedir, mas as chamas pegaram no
pé e cresceram tão rápido que quem estava perto se afastou e quem estava longe
chegou mais perto, para admirar. Olhei para o rosto do Judas sendo comido pelo
fogo, ele ainda parecia feliz. Atrás dele, a algaroba sofria com a casca em
brasas. Fui até lá e o arranquei de vez da árvore. Ele queimou no chão, queimou
até os cabelos, enquanto as lantejoulas coloridas pipocavam pros lados.
No final da festa, quando vi a
cara de desolação com que ficaram os guris, os velhos do dominó e do bar, as
putas e as vizinhas fofoqueiras, tive certeza do que havia pensado mais cedo,
que o diabo do Judas Iscariotes só trazia felicidade. Pensei também que agora
que o Judas tinha ido embora e a festa tinha acabado, só sobraria o amigo dele,
Jesus, mas neste ninguém poderia tocar, porque este morreu por nós, e isto já
há mais de dois mil anos! Eu nunca carreguei a morte dele nas costas, porque
tenho pra mim que não tive nada a ver com ela. Mas reconheço que gostava
bastante dos fiéis que a carregavam na minha cidade, porque eram eles que iam à
missa de domingo e deixavam s moedinhas no meu chapéu, as quais sempre pagavam
com folga a minha birita e o meu fumo especial. É por isso que no dia seguinte
eu estava lá, no batente da igreja, dando bom dia a todas as pessoas cheias de
glíter que desviavam de mim para entrar, porque naquele dia de ressaca eu
sentia que era meu – tanto quanto deles, o reino dos céus.
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