terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Fuga


Quando ouviu ao longe os estalos da lambreta velha do seu amor, Gabriela Borja começou a ficar nervosa. Já vinham planejando esta fuga secretamente há dias, ela e o namorado, mas só agora é que ela resolveu pensar em conseqüências. Não podia deixar tudo pra trás dessa forma, não assim, do nada e sem avisar, mas... ora, que diabos estava pensando, ela temia deixar o quê? Ela tinha uma vida miserável, tinha de agüentar os porres do pai e ceder aos seus caprichos sem sentido, tinha de cuidar de uma tia que mal viva estava, não, ela tinha de fugir sim, e iria.
O som da moto cessou. Donato Bramante a havia desligado para evitar ser surpreendido. Abriu a cancela devagar, cuidando de jogar óleo nas dobradiças pra não ranger, atravessou a pé e foi indo, sempre pelas partes de areia fofa, pra não fazer zuada. Parou então onde haviam combinado, e Gabriela Borja abriu a janela. Eram quase quatro horas da manhã, os primeiros galos cocoricavam dispostos.
O coração do rapaz acelerou ao vê-la, até então ele também só tinha pensado nessa fuga como uma mera loucura adolescente, algo que terminaria de tardezinha, quando desse fome, ou então antes mesmo de começar. Mas Gabriela Borja surgiu na janela com uma mala. Tinha a expressão sóbria e ao mesmo tempo insegura de quem principia em arrepender-se, mas por ser esta sua cara de sempre, Donato Bramante julgou que não fosse nada. Ela estava ali, com a mala, devia estar mesmo decidida a partir. De todo modo, qualquer receio que ela pudesse estar sentindo foi logo dissipado quando Donato sorriu. Ela sorriu também: era esta estranha amnésia de momento que ataca casais apaixonados sempre que se vêem. A moça escorregou a mala para o chão do alpendre, do outro lado da janela, e preparou-se para saltar.
Contudo, na hora do impulso se deteve. Donato Bramante acenou com uma lanterninha, perguntando o que se passava. A cara da menina estava mudando de cor, ficando pálida, e de repente era como se estivesse vendo uma assombração. Atrás dela, escondido entre as cortinas, o pai murmurava devagar, “Chame o safado aqui, quero ver a cara dele”.
Neste instante, Gabriela Borja pensou em saltar a janela e correr, mas viu um lampejo prateado por trás do ombro, um brilho que só podia ser dos canos da espingarda calibre vinte, que, por ironia, fora presente seu de dia dos pais.
Sem nem esperar ser chamado, Donato Bramante foi avançando aos poucos até o pé dos batentes, onde notou pelo busto a respiração agoniada de sua amada. Ela moveu os lábios lhe dizendo, “Vá embora”, e acrescentando logo depois um “Agora” que mais parecia um “Fuja”. Sem compreender nada, Donato saltou pro alpendre e só então pôde ver, atrás da moça, o velho barbudo com a arma em riste, mirando seu peito. O rapaz permaneceu alguns segundos parado, encarando os olhos amarelos na escuridão. Por fim disse, “Como vai o senhor, seu Emiliano?”. O velho afastou a menina pro lado e saiu da penumbra. “Vou bom”, disse, “doido pra testar essa vinte”.
Aquilo soou mais amigável do que ambos esperavam, mas mesmo assim ainda era uma ameaça de morte. E Donato Bramante era cabra mole, sempre fora. Levava com honras as vergonhas de sua família, conhecida pela ruma de homens frouxos que tinha. O velho Emiliano Borja já sabia disso e achava inclusive que podia se aproveitar. O que ele não sabia ou não se importava, porém, era que além da moleza este aqui tinha um algo mais: era bom malandro, sabia conversar bem, contar piadas, tinha umas tiradas que deixavam qualquer caveira desconcertada. Naquele momento, de frente pro cano da espingarda, Donato Bramante só disse, “Ta é convidado”. O velho e a filha exclamaram em coro, “Quê?”, e ele continuou, “Sim, lá na fazenda ta cheio de tiú, se o senhor quiser ir lá caçar, ta convidado. E eu ainda lhe faço companhia, pro senhor ver como eu sou bom de tiro. O cabo dessa espingarda aí é de quê, de cedro? Se for é igual a que painho me deu. Boa de mira que só ela”. O velho pasmou, e, sem saber o que dizer, atirou pra cima, abrindo um buraco no telhado do alpendre. Quando a fumaça abaixou, Gabriela Borja, quase mouca, procurou e não viu seu amor. Já ia gritar desesperada quando ele de repente pôs-se de pé, dizendo, “É da mesminha visse, até o pipoco é o mesmo”, e o velho gritou sacudindo os braços, “Vá simbora daqui seu viado safado, se não quiser que eu arranque sua cabeça dum tiro”.
Dessa vez Donato Bramante engoliu a ameaça, mas ainda arriscou uma olhadela rápida para sua amada, dessas que transmitem confiança até no meio de uma guerra. Ela não percebeu o olhar, porém. Estava, neste exato momento, tramando saltar sobre o braço do pai, golpeá-lo no nariz e rendê-lo com a arma. Nem precisou arquitetar tanto, já treinara um desses ataques dezenas de vezes em pensamentos, todos neste mesmo alvo.
Assim que Donato Bramante desceu o último batente ela se jogou com toda força em cima do velho, que rodopiou, rodopiou, até ficar preso na cortina, se debatendo igual uma traíra recém-pescada. A arma caiu no chão e Gabriela Borja apanhou. O velho então grunhiu alguma maldição caló e reclamou a espingarda, mas era tarde, a menina já tinha saltado a janela, apanhado a mala, e agora corria de mãos dadas com o namorado pra cancela, onde os esperava estacionada a lambreta rosa. Um pouco antes de chegar, Gabriela parou e disse, “Amor, segura minha mala, eu volto já.” De espingarda na mão, ela voltou até a casa e saqueou todas as jóias e economias da tia. A pobre estava prostrada no seu catre fedorento, se tremendo de medo porque jurava que tinha ouvido um tiro. “Manuela”, disse, “avise a seu pai que tão caçando tiú nas nossas terras.”

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