quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O ventríloquo e o mamulengo


(...)
Ventríloquo: Tu dizes que por tua natureza foges, e achas que a verdadeira liberdade não está no poder partir, mas no escolher ficar. Pedirei que por tua generosidade te contradigas esta noite e fique comigo. Sou um homem solitário, teu espírito corsário seria a solução para que o meu abandone este marasmo. Por isso peço-te: fica esta noite comigo?

Princesa: Tens o dom das palavras, meu bom Ventríloquo, mas sabeis que vim aqui pelo Mamulengo, e agora ele já dorme.

Ventríloquo: Eu o acordo.

Princesa: Não o incomodaria por mim, que tanto o amo.

Ventríloquo: Quero-te, mais do que ele.

Princesa: Mas meu amor não espera troco.

Ventríloquo: Não entendes: o que o Mamulengo diz sai do meu ventre, são palavras tão profundas quanto estas olheiras que me tomam o rosto. Se ele te ama, quem te ama sou eu; se tu a ele queres, a mim é que deverias querer. Desanuvia teus olhos: vês quem está por trás de tanta inspiração!

Princesa: Já não o entendo, ventríloquo, dizes coisas sem sentido. Minhas faculdades só miram este pobre feito de qüerco, cujos nós dos braços embalaram meus sonhos por três boas noites. Veja como ele dorme, aposto que sonha também. Que sejam sonhos bons, se antes não puderem ser comigo... Não! Não o acordes, Ventríloquo, já estou indo embora em meu devido silêncio.

Ventríloquo: Não vá! Princesa...

(A princesa sai)

Ventríloquo: Ai desse amor, que me fará acertar contas com um amigo! O amor que deixa a todos cegos e loucos! Que mais loucos por amor estejam aqueles que notarem que estão cegos e, por opção, permanecerem assim! Pois este amor, mesmo tão apaixonado por si mesmo, mesmo alimentando-se em ódio, faz-nos sentir tão vivos e por isso é tão bom! Onde vais, meu espírito apático, porque debruça-te sobre esta incerteza? Não podes ser humilde e voltar para tua casca firme e preguiçosa? Querias que eu me tornasse algo maior pelo amor, sussurrastes teus feitiços em meu ouvido, me seduzistes, e agora também eu sonho em ser mais. Mas tu que és o espírito, podes ser o que quiserdes! Eu sou tua casca, pequena, frágil, viverei para sempre insatisfeito por causa desta fagulha que jogaste em mim, cujo fogo despertado não para de me consumir. Tenho agora dois inimigos íntimos: um Mamulengo astuto que diz tudo o que meus lábios receiam e um espírito cruel que me despista de minhas razões, incentivando-me ao sangue, mandando-me agora acordar o primeiro e cravar-lhe um punhal no botão de seu casaquinho, do casaquinho que eu mesmo fiz para proteger-lhe o coração. Acorda, oh meu amigo! Convence-me de que estou louco, faz o impossível e para este punhal!

(O Mamulengo desperta)

Mamulengo: Tu fizeste meu coração indomável, me deste um coração de poeta, e por muito tempo foste aquele cujas razões a razão conhecia muito bem. Agora não te queixas de quem te tornastes. Queres a princesa, mata-me! Mas lembra-te do risco que corres de ela te odiar para sempre, tamanho é o seu amor por mim. E tu não te conheces, mas eu te conheço bem e posso dizer: nunca conseguirás lavar minha seiva de tuas mãos. Tentarás para sempre expulsar meu cheiro de teu olfato, meu peso de teu braço, minha voz de teu ouvir. Mata-me, vai, e mata-te a ti! 
(...)

Nenhum comentário:

Postar um comentário