Trajano
Júnior, o filho do Inspetor Trajano, era um jovem muito frustrado com a própria
aparência. Não que ele fosse feio, claro que não, em verdade ele até era bem
visado pelas garotas do colégio, que assobiavam para ele e lhe mandavam
bilhetinhos, quase sempre respondidos com um gesto obsceno ou com um xingamento
por escrito. O problema é que quando ele era pequeno, três pra quatro anos, o
seu pai o chamava de “cabelo de bucha”, pois ele havia nascido com o cabelo
crespo e revoltado, onde pente nenhum entrava, mesmo que tivesse um só dente.
Dizia o pai, em meio a gozações de toda sorte, que o pêlo do filho era, de todo
modo, geneticamente inexplicável, já que sua mãe – uma macumbeira maranhense
com cara de polaca – tinha o cabelo liso que nem pêlo-de-milho, “e quanto a mim
– dizia –, também não posso ter lhe legado tais genes, já que sou carequinha
que nem um pirulito pop”. Por causa disso o menino passou a usar boné o dia
inteiro, a noite inteira, o tempo inteiro, até para dormir e tomar banho. Claro
que ele não gostava daquela situação, mas a vergonha era maior do que a
coragem, e ele morria de medo do julgamento dos outros, que quase sempre é
cruel e implacável com quem é diferente. Mas lá nos seus sonhos, onde o seu pai
não estava, ele esperava ansiosamente o dia que aconteceria com ele que nem
aconteceu na história do patinho feio. Ele chegava na frente do pai, tirava o
boné em câmera lenta e lhe caía pelo rosto uma belíssima cabeleira loira e
brilhante, como a daquela Barbie da sua irmã, e depois ele saía por aí
cavalgando num corcel alado, ou então pilotando uma Harley Davidson
cor-de-chumbo, que era mais fácil de conseguir.
Do
outro lado da cidade, vivia uma menina chamada Esmeralda, que tinha acabado de
chegar lá e ainda não conhecia ninguém, nem no bairro, nem na escola onde
estudaria, a Escola Aquino Pinto. Há muita coisa para se falar sobre Esmeralda,
pois ela era uma criatura por deveras pitoresca. Era baixinha, baixíssima,
pouco mais de um metro de altura, e seu corpo era achatado e retangular que nem
uma sanfona. Morava com a mãe, cujo nome verdadeiro ninguém sabe, nem a filha,
pois ela só atende pelo codinome (ou nome-de-guerra) “Love Lue”, e com a vó,
que não podia-se afirmar se estava viva ou não. Graças às piadas sobre a sua
altura que tinha de aturar quando estudava na outra escola, Esmeralda começou a
usar um par de sapatos de salto-alto altíssimos, que quase lhe dobravam a
estatura e a deixavam com um aspecto mais esdrúxulo ainda. Eram desconfortáveis
como pernas-de-pau, mas ela achava que se fosse alta as pessoas a olhariam nos
olhos e parariam de lhe humilhar. Na primeira vez que ela saiu pra rua, para
limpar o mato da calçada, as linguarudas de plantão da vizinhança a viram e já
começaram a espalhar, “Tem um bicho morando lá na casa da falecida Marli”.
Esmeralda, pobrezinha, mesmo acostumada com tais maldades, ficou triste e
desapontada com a sua vida, pois reparou que não importava em que cidade
estivesse, sempre seria tratada como uma besta de circo. E por falar em circo,
esse era o seu grande sonho de criança: virar trapezista, e sair por aí, Brasil
afora, num desses picadeiros mambembes onde os mais feios são os mais queridos.
Quando
as aulas começaram, por acaso ou não, Esmeralda foi colocada na mesma sala de
Trajano Júnior, numa carteira quebrada, logo ao lado, que praticamente os
obrigava a manter algum contato. Mas manter algum contato não foi nenhum
problema para os dois, pois desde a primeira troca de olhares já se sentiram
amigos íntimos. E quando os dias passavam, a amizade dos dois só parecia
aumentar, tanto que Esmeralda já estava ganhando até uma certa moral com as
gurias do fundão, que na verdade a odiavam e só queriam se aproveitar da sua
inocência, pois desejavam o filho do inspetor e não sabiam como fazer para
conseguí-lo. Trajano, porém, estava notando que todos os seus amigos estavam se
afastando, como se o fato d’ele ser amigo daquela garota o transformasse de
repente numa companhia indesejável. E ele não ligava, porque, afinal de contas,
se sentia muito mais feliz ao lado de Esmeralda, do que deles, que só sabiam
falar de forró, cachaça, academia e adedonha. Trajano e Esmeralda conversavam
sobre tudo, livros, filmes, música, mas do que mais gostavam de falar era sobre
si mesmos. Uma vez Trajano a perguntou:
– Você sempre
ficou sozinha na vida?
– Não... eu
nunca tive ninguém, para depois ficar sozinha. E você?
– Não sei...
Acho que sempre precisei de solidão. E nunca consegui. Sempre tinha alguém
chato no meu pé, falando baboseira.
– Tipo o seu
pai?
– É, tipo ele.
– Ele é o cara
mais malacafento que já conheci.
– Malafacaoquê?
– Asqueiroso,
abominável...
– Ah... –
murmurou Trajano, esquecendo-se que aquilo era sobre o seu pai.
– Você me acha
feia? – perguntou Esmeralda.
– Não sei, para
falar a verdade acho que gosto da sua feiúra.
Esmeralda
abaixou a cabeça.
– Eu te magoei?
– disse Trajano.
– Não, não
mesmo. É que nunca ninguém me disse algo assim, tão bonito...
– Quer que eu
diga de novo?
Ela
ergueu os olhos, e estava enrubescida.
– Me beija? –
disse ela, com a voz tremida.
Trajano
se assustou, pois achava que levaria mais tempo para conseguir um beijo dela.
Estava nervoso e feliz, e um turbilhão de sentimentos invadia o seu corpo. Ele
abraçou a menina e foi aproximando o rosto devagar. Mas no momento do beijo...
Ops, a aba do boné bateu na testa dela e ambos sorriram sem graça.
– Tira o boné? –
pediu Esmeralda.
– Não, si-sinto
muito. – Trajano não conseguia disfarçar o nervosismo. – Não vou tirar o boné.
Por quê você não tira o salto-alto?
– Não, isso não!
– disse a menina, subitamente. – Eu nunca tiro o salto-alto!