quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Da série: Paradoxos inúteis

Você tem a opção de se matar, logo permanecer vivo é uma escolha. Só que a morte é inevitável, o que significa que escolher permanecer vivo é escolher morrer. Mas escolher morrer, quando não é por martírio, é um suicídio. Portanto, as duas únicas maneira de evitar o suicídio é: 

1. Se matar antes. 
2. Se tornar um mártir e morrer por alguma causa que, no fim das contas, será menos lembrada do que sua morte. 

Tão logo, o maior de todos os mártires será o que, com esta intenção, morrer pela própria morte.

Vício

Depois desse dia Amélie começou a andar sozinha pela praça. Caminhava de manhã e no fim da tarde, sempre repetindo o mesmo curso que faziam juntos, até parar onde ele costumava roubar um ramo de alfazemas e guardar sob o casaco desbotado. Passou a dormir mal e pouco. Acordava antes do amanhecer, preparava um café da manhã pela metade, com gosto de pela metade e ficava lendo os almanaques espíritas da vó, que Deus a tenha, até a hora do almoço. Não chorava, porém. Era ela que o havia ensinado a chorar, não o contrário. Estranho é que tivessem de repente trocado os papéis, como naquela parábola de "Lázaro e o rico" que a tia Custódia contava, se é que ela contava direito. O que isso não afetava, entretanto, era o fato de que ela sofria, sabia que ele também estava sofrendo e se atormentava fingindo-que-achava-que-não. E assim os dias se arrastavam, o cheiro não deixava a casa e a voz dele continuava a ecoar pelos cômodos em diferentes tons, assim como os passos. Ela estava emagrecendo, envelhecendo, tinha começado a beber café e fumar num dia, no outro já estava viciada. Estava a ponto de sufocar, mas não, ela só não fazia o que tinha de fazer: ir atrás dele. Queria eu ter o poder de dizer a esta mulher o jeito certo de agir, nem que isto apressasse o final do romance. Se ela soubesse que estas coisas simples, como abrir a geladeira e não ver o vinho rosé, ou notar o chão do banheiro seco, ou o aquário vazio, estas coisas pequenas que só se notam pela ausência, enfim, se ela soubesse que elas a torturavam tanto quanto a ele estava fazendo mal o silêncio... “Droga!”, dizia ele apertando o travesseiro sobre a cabeça, “Droga!”, ele dizia, e isto não podia ser outra coisa senão este mal estar de quem perdeu um amor, esse vazio estranho que nem dor é, mas que dói. E ela lá, com a vó, vez em quando rindo sozinha por ter ouvido no silêncio alguma piada contada por ele, vez em quando quase chorando e repreendendo a própria fraqueza, e sempre, sempre com um cigarro numa mão, o isqueiro e o celular na outra.

Primeira fala

A noite assusta. Brotam cravos destas janelas cujas frestas não permitem que o amor entre. Sentado sobre um balancinho, está o ventríloquo, ladeado pelo seu mamulengo, que apenas dorme. 

Ele exclama: 

 – Eu quero cegar, pra enxergar melhor esta escuridão que me abate! De onde vêm os tiros? Quem me têm como alvo de ódio? Que aposta, Deus, fizeste dessa vez com Satanás? Porque eu? Porque não o padeiro da esquina, que bate na mulher? Porque não o Teobaldo bombeiro, que deixou de salvar aquele menino? Porque não Dona Matilde, que tem voz de grasna? Porque não a filha desta mesma Dona Matilde, que é igual? A única vez que tive sorte, meus cravinhos, foi no dia em que tive tanto azar que a desgraça se tornou impraticável pro universo! Ai de mim! Devo ser reencarnação de todas as vilãs de novelas mexicanas! Devo ter em mim mais demônios do que aqueles porquinhos que rumaram pro abismo! Que se revele quem me malda, pois sei que tem poderes de um deus! Que se revele! E terá sido este o único momento feliz de toda minha vida!

Para Amelie


A gente se descobre frágil quando ama, descobre que precisa mesmo de cuidados. Já pouco importa se você tem as ideologias mais corajosas e os hábitos menos saudáveis, se no fim do dia a única cura é o colo do outro. Às vezes, quando estamos sozinhos, a gente sente vontades de mandar a cautela pro inferno e não pode, porque não tem ninguém pra te segurar se você cair. Só que agora cair parece uma ótima ideia, porque eu sei que seus braços sempre estão lá, me esperando. E eu sei que você pensa igual, porquê já te vi desabar sem medo no meu peito, enquanto resto do mundo e seus problemas viravam mera distração. É estranho falar tão ingenuamente, mas eu gosto de ser chamado de seu e de como você tenta me proteger de tudo, por que também o que mais gosto de fazer hoje é cuidar de ti. Acho, como já te disse, que a gente vai esquecendo toda a individualidade quando vai se acostumando a pensar em “nós”. É isso que o amor faz, afinal, faz-nos apaixonar pela sombra da parede no quarto, as cabeças siamesas no espelho, a imagem fugaz nos para-brisas dos carros, o dégradé da nossa cor de cabelo... E de repente a gente repara na segurança do nó das nossas mãos, na rua nos observando como se estivéssemos nus, na beleza das músicas vulgares, no sorriso da lua minguante (o misterioso sorriso do Cheshire)... Sabe amor, talvez tenhamos encontrado um jeito, ainda que meio improvisado, de dar sentido à vida. Talvez tenhamos entendido o porquê de a solidão ser tão assustadora. Às vezes eu sinto estranhas vontades de nos expor, de sair contando nossa intimidade pro mundo, até que a velha poesia vem e alarma: Lembre-se Arthur, certos tesouros ficam bem melhor enterrados. E eu prefiro assim, que tenhamos o tesouro mais belo do mundo só para nós, e exercitemos nosso ideal de liberdade de outras formas, porque a verdadeira liberdade não está no poder partir, mas no escolher ficar. E não há ideologia no mundo que me tire dessa prisão que estou agora. 

Eu sustenido

Ouço tantas músicas falando de amor, contando histórias de amor, que vivo constantemente apaixonado sem saber explicar por quem. Minha musa já há algum tempo têm sido uma quimera incontrolavelmente fugaz: sua aparência dança ao ritmo dessas músicas, e por isso estou confuso: quero saber quem ela é, preciso de uma melodia que a cerque urgentemente. Acho mesmo que homens podem se apaixonar por notas e acordes. Música também é orientação sexual. O que me falta descobrir é se esta melodia que busco realmente existe, ou se é uma reminiscência falsa, de um passado falso que nunca vivi.

O ventríloquo e o mamulengo


(...)
Ventríloquo: Tu dizes que por tua natureza foges, e achas que a verdadeira liberdade não está no poder partir, mas no escolher ficar. Pedirei que por tua generosidade te contradigas esta noite e fique comigo. Sou um homem solitário, teu espírito corsário seria a solução para que o meu abandone este marasmo. Por isso peço-te: fica esta noite comigo?

Princesa: Tens o dom das palavras, meu bom Ventríloquo, mas sabeis que vim aqui pelo Mamulengo, e agora ele já dorme.

Ventríloquo: Eu o acordo.

Princesa: Não o incomodaria por mim, que tanto o amo.

Ventríloquo: Quero-te, mais do que ele.

Princesa: Mas meu amor não espera troco.

Ventríloquo: Não entendes: o que o Mamulengo diz sai do meu ventre, são palavras tão profundas quanto estas olheiras que me tomam o rosto. Se ele te ama, quem te ama sou eu; se tu a ele queres, a mim é que deverias querer. Desanuvia teus olhos: vês quem está por trás de tanta inspiração!

Princesa: Já não o entendo, ventríloquo, dizes coisas sem sentido. Minhas faculdades só miram este pobre feito de qüerco, cujos nós dos braços embalaram meus sonhos por três boas noites. Veja como ele dorme, aposto que sonha também. Que sejam sonhos bons, se antes não puderem ser comigo... Não! Não o acordes, Ventríloquo, já estou indo embora em meu devido silêncio.

Ventríloquo: Não vá! Princesa...

(A princesa sai)

Ventríloquo: Ai desse amor, que me fará acertar contas com um amigo! O amor que deixa a todos cegos e loucos! Que mais loucos por amor estejam aqueles que notarem que estão cegos e, por opção, permanecerem assim! Pois este amor, mesmo tão apaixonado por si mesmo, mesmo alimentando-se em ódio, faz-nos sentir tão vivos e por isso é tão bom! Onde vais, meu espírito apático, porque debruça-te sobre esta incerteza? Não podes ser humilde e voltar para tua casca firme e preguiçosa? Querias que eu me tornasse algo maior pelo amor, sussurrastes teus feitiços em meu ouvido, me seduzistes, e agora também eu sonho em ser mais. Mas tu que és o espírito, podes ser o que quiserdes! Eu sou tua casca, pequena, frágil, viverei para sempre insatisfeito por causa desta fagulha que jogaste em mim, cujo fogo despertado não para de me consumir. Tenho agora dois inimigos íntimos: um Mamulengo astuto que diz tudo o que meus lábios receiam e um espírito cruel que me despista de minhas razões, incentivando-me ao sangue, mandando-me agora acordar o primeiro e cravar-lhe um punhal no botão de seu casaquinho, do casaquinho que eu mesmo fiz para proteger-lhe o coração. Acorda, oh meu amigo! Convence-me de que estou louco, faz o impossível e para este punhal!

(O Mamulengo desperta)

Mamulengo: Tu fizeste meu coração indomável, me deste um coração de poeta, e por muito tempo foste aquele cujas razões a razão conhecia muito bem. Agora não te queixas de quem te tornastes. Queres a princesa, mata-me! Mas lembra-te do risco que corres de ela te odiar para sempre, tamanho é o seu amor por mim. E tu não te conheces, mas eu te conheço bem e posso dizer: nunca conseguirás lavar minha seiva de tuas mãos. Tentarás para sempre expulsar meu cheiro de teu olfato, meu peso de teu braço, minha voz de teu ouvir. Mata-me, vai, e mata-te a ti! 
(...)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Crítica: Lunar


Nome original: Moon
País: Inglaterra
Ano: 2009
Duração: 97 minutos
Gênero: Ficção científica
Direção: Duncan Jones
Roteiro: Duncan Jones, Nathan Parker
Elenco: Sam Rockwell, Kevin Spacey.

"Futuro não muito distante. A Terra enfrenta problemas com abastecimento de energia. Uma empresa descobre um novo tipo de combustível e passa a dominar tudo."
A premissa de Lunar, temos de convir, não é das mais originais. Depois de tantas histórias com bases semelhantes, fazer qualquer alusão a problemas ambientais parece ter virado o lugar comum da década. E embora de vez em quando uma nova abordagem venha dar novos trajes ao tema, freqüentemente torcemos o nariz, imaginando não passar de mais uma daquelas fatídicas mensagens de alerta, “Olha o que acontece se não cuidarmos da natureza”.

No entanto, adequar esta premissa a Lunar seria, no mínimo, esquecer 80% do filme. Não é necessário mais do que cinco minutos para percebermos que se trata de algo mais, de que estamos diante de uma ficção científica nos moldes do Kubrickiano “2001 – uma odisséia no espaço”, isto sem falar das muitas referências que vão surgindo ao longo da película, desde “O oitavo passageiro” até “Náufrago”. Lunar é um filme claustrofóbico e melancólico que, entre uma e outra virada surpreendente, ainda encontra tempo para levantar discussões importantíssimas sobre ética, ciência e até que ponto o “bem maior” é desculpa válida para sacrificar uma vida humana.

Lunar começa com a propaganda da empresa que dá nome ao filme (na versão portuguesa), a Lunar Industries. O comercial mostra as dificuldades pelas quais a Terra passou até a descoberta do Helio-3, gás solar encontrado no lado escuro da Lua e cuja capacidade de abastecimento transformou nosso planeta em um lugar limpo e agradável para se viver. Então somos apresentados a Tom Bell (Sam Rockwell), o astronauta designado para passar três anos administrando a coleta deste gás na Lua. Tom está barbudo e solitário. Sua única companhia é o robô GERTY (voz de Kevin Spacey), uma versão mais moderna e simpática do HAL 9000.

Três anos pode não parecer muito tempo para nós. Mas Tom está dentro de uma nave, na Lua. É um lugar branco e apático, onde ele vê o tempo passar a conta-gotas, numa lentidão desesperadora, enquanto espera voltar para casa e reencontrar a esposa e conhecer a filha, que nasceu quando já havia partido. Para piorar, Tom começa a ter sonhos e alucinações muito reais, como se suas lembranças estivessem se embaralhando na sua mente, que às vezes mais parece um filme mal editado...

A partir daí, falar de Lunar se torna cada vez mais difícil. O roteirista Nathan Park escolheu um jeito quase homeopático de contar sua história, resolvendo o mistério ao mesmo tempo em que o cria. Ainda na primeira metade do filme Tom descobre, com ajuda de si mesmo, que seu trabalho naquela nave trata-se, na verdade, de um programa de contenção de gastos. Tom descobre que seu sacrifício é bem maior do que ele imaginava.

Bem, como você está vendo, não é possível avançar nesta resenha sem fazer enigmas. Do contrário teríamos de revelar detalhes fundamentais da trama, que atrapalhariam sua experiência. Mas podemos afirmar, caro leitor, que você não estará preparado para o rumo que esta história ganha. Na sessão do Cineclube em que este filme foi exibido, a expressão grave e compenetrada dificilmente abandonava o rosto dos espectadores. A já habitual discussão que levantamos no final do filme tomou várias direções, inclusive filosóficas. Uma delas versou sobre o tema ética científica. Sim, Lunar é um filme que abre muito espaço para este assunto. Depois de revelado o real papel de Tom Bell na história, é impossível não se perguntar qual a fronteira que separa um teste científico de uma crueldade desnecessária. A quase ingenuidade do personagem diante da descoberta ajuda a acentuar a questão. É irônico, por exemplo, como o robô GERTY parece muito mais sensível do que as pessoas que arquitetaram aquele plano.

Sam Rockwell, numa atuação inspirada, representa com perfeição a agonia do seu personagem. Assim como o espectador, ele vai destrinchando o labirinto aos poucos, e suas reações perante as descobertas são as mais humanas possíveis. Destaque também para Kevin Spacey. Na voz plácida de GERTY ele mais parece um irmão mais velho que tenta proteger o caçula de alguma verdade dolorosa. Em certos instantes chega a aparentar empatia. Ao contrário da luz vermelha e quase indiferente de HAL, GERTY se manifesta através de emoticons (sim, iguaizinhos àqueles do mensseger), o que oferece alguns momentos de descontração à película.

A trilha sonora do filme é de Clint Mansell. O músico, para quem não sabe, foi o responsável pela fantástica trilha de “Réquiem para um sonho”, e em Lunar mostra mais uma vez seu talento excepcional para criar tensão. Sem grandes arroubos sonoros, cada nota trabalha em comunhão com o que se vê, ajudando a criar um cenário quase bucólico. Em verdade, em algumas cenas a banda beira o clichê, mas as notas românticas e exageradamente melódicas de piano são tão belas que não chegam, de forma alguma, a incomodar.

Por fim, a direção. Duncan Jones, até pouco tempo conhecido apenas por ser filho de David Bowie, fez com 5 milhões de dólares o que em Hollywood se faz com 100. Dono da idéia que deu origem ao roteiro, o estreante se mostrou muito seguro ao dar mais enfoque à parte humana do filme. Não que a técnica seja desprezada, não é isso, mas o que estamos vendo ali são diálogos existencialistas cuja profundidade praticamente subjuga a parte visual. Lunar foi realizado sem erros, sem toques de genialidade, mas cumprindo com honras a que considero a principal missão do cinema: entreter.

Embora tenha vencido o BAFTA, principal prêmio o cinema inglês, além de outros dezessete festivais ao redor do mundo, Lunar não teve distribuição nos cinemas brasileiros. Por isso chega até nós através deste jornal, cuja proposta é aproximar as pessoas da cultura ignorada pelos multiplexes e afins. Com uma história tocante e totalmente coerente, Lunar é um filme que entrará nas suas melhores listas e certamente ganhará, com o tempo, seu merecido espaço entre os amantes da sétima arte.

O jornalista do futuro será um macaco esperto


Por Daniel Magalhães

Nas duas últimas décadas os teóricos da comunicação do mundo inteiro assistiram assombrados às mudanças pelas quais o mundo estava passando. Não se tratava de revoluções armadas, ou de novas Constituições, mas da simples atestação de que o que Marshall McLuhan previra três décadas antes enfim se concretizava: o mundo estava totalmente coberto por uma espécie de rede invisível, uma rede capaz de unir os lugares mais remotos do planeta através da comunicação. Não havia mais fronteiras, agora o próprio meio era a mensagem.

Para que o leitor entenda melhor este assombro, basta dizer que, à sua época, McLuhan foi visto pela grande maioria como um visionário. Realmente não era fácil conceber tal idéia, ainda mais num mundo bipolar e tenso, cheio de espiões matando por informações secretas. Na verdade tratava-se de uma profecia assustadora, podia-se até pensar que perderíamos nossa privacidade, nossa liberdade para fazer qualquer coisa sem sermos vistos. Mas o tempo passou e o pensamento apocalíptico migrou das questões simples para as mais arrojadas teorias. Hoje McLuhan é um dos teóricos mais estudados pelos comunicólogos e tem gerado debates inesgotáveis que tratam, sobretudo, de como o homem se comporta nesta nova conjuntura.

Até 2009 filósofos como Pierre Levý só tinham tratado da “democratização da informação” de maneira um tanto quanto especulativas. No caso deste pensador, suas afirmações mais veementes estavam ligadas à sabedoria coletiva, ou seja, à cultura nascida neste contexto pós-moderno, o que ele logo chamou de “cibercultura”. Sua visão era particularmente otimista e festejava a inteligência coletiva que a informação compartilhada poderia nos trazer, como se estivéssemos a viver um novo “iluminismo”. Era isto que se discutia. Questões como: qual o destino do jornal impresso, agora que todos sabem de tudo a qualquer hora e em qualquer canto? O que acontecerá com a profissão jornalística, agora que qualquer pessoa pode expor livremente sua opinião? O que acontecerá com a comunicação social, se um de seus princípios básicos – a intenção, for deliberadamente violada?

Foi então que o ex-programador e empresário Andrew Kneen lançou o livro “O culto ao amador”, cuja proposta era jogar uma luz sobre estas questões não só do ponto de vista filosófico, mas mostrar na prática o que estava acontecendo no mundo e que rumo tudo iria tomar.

Escrito cientificamente mas em tom de ensaio, o livro traça um panorama detalhado da sociedade atual baseado no modo como ela lida com as novas possibilidades de comunicação. Para Keen, a primeira faceta deste “culto ao amador” é que ele tende a selecionar o que gostamos de forma nostálgica, escolhendo e creditando o que é amador por que, de algum modo, o que é feito sem tanta pretensão inspira pureza e inocência. É o que faz, por exemplo, um vídeo de violência do youtube, feito com câmera escondida, ser mais crível do que um vídeo de mesmo tema feito em estúdio e com câmeras profissionais.

Só que “inocência” muitas vezes é confundida com verdade, muito embora possa ser tão leviana quanto uma mentira mal intencionada. E na cibercultura, de fato, “uma mentira pode dar a volta ao mundo antes que a verdade tenha a chance de calçar as botas”.

Depois do ano 2000, com o boom das redes sociais, tanto as instituições criativas quanto os veículos dedicados ao jornalismo começaram a perder, exponencialmente, seu espaço para o amadorismo. Antes da chamada web 2.0 as notícias, por exemplo, ainda eram controladas por jornalistas especializados, seja qual fosse o meio. A inauguração de sites como o do “The new york times” ou o “Globo.com” não representou tanta mudança assim. Não foi nada mais do que uma transição de meios: antes a TV, rádio, impresso, agora a internet.

Mas a partir do nascimento de empresas como faceboookmyspace e mais tarde twitter, praticamente inverteu a ordem da produção noticiosa. Estas redes sociais são hoje as principais responsáveis pela divulgação do material considerado jornalístico. Logo, mesmo que a fonte ainda seja predominantemente especializada, não se pode mais garantir a procedência de tudo, uma vez que o volume e a rapidez de transmissão fazem com que, repito, uma informação leviana dê a volta ao mundo antes que surja uma versão mais apurada do fato.

Ao mesmo tempo, a aproximação da sociedade conectada às inovações dos instrumentos outrora usados apenas por especialistas, faz com que a mesma despreze o trabalho de edição, que teoricamente é uma coisa que qualquer pessoa equipada de um Personal Computer pode fazer em casa. Trocando em miúdos, é como se um programa como o photoshop de repente tirasse a credibilidade de todas as fotografias profissionais. Talvez por isso o que é visivelmente amador esteja ganhando tanta credibilidade. E é notável, mesmo no jornalismo, alguns efeitos dessas mudanças, seja na abordagem do fato ou na parte técnica, como, por exemplo, aquela câmera documental que foge ao padrão tradicional, “plano americano, repórter no meio”. E o que dizer então do cinema, que vem empregando técnicas de documentário com bastante freqüência em grandes produções de ficção? Deve ter algo a ver...

No entanto, repete-se a história, mesmo a mais conturbada alteração não deixa de ser um sinal dos tempos. No final, a apropriação de tais cacoetes pelo jornalismo só reflete a tentativa de reaproximar as pessoas. Teme-se que tanto culto ao amador possa, mais rápido do que se pensa, destruir o sentido de existência das empresas de comunicação e das fontes criativas em geral, uma vez que todas estariam sujeitas ao plágio, à calúnia, à má-edição etc, sem que nenhuma lei as pudesse proteger. Aí, ao invés de um iluminismo, mergulharíamos num deserto intelectual, escuro e estéril.

Pois foi neste tom drástico que Andrew Kneen levou os olhos de milhões de leitores e outros tantos pesquisadores a um problema que urge por solução. Correndo o risco de se tornar o McLuhan dos nossos tempos, ele comparou, sem meias palavras, a atual conjuntura ao velho apólogo que dizia: “se um grupo de macacos batucasse infinitamente sobre máquinas de escrever, um deles comporia uma obra coerente”. Talvez na internet, onde o limite do bom senso é inversamente proporcional à real exposição do internauta, teremos de depender destes poucos macacos espertos (ou sortudos) para ter nossa boa informação. De modo que, se Kneen for mesmo o McLuhan dos nossos tempos, esperamos que ele não seja o dos tempos futuros.

Perto Demais


Quando assisti Closer pela primeira vez, fiquei pensando se um dia poderíamos medir o quanto de sinceridade é permitido para se manter uma relação. Eu tinha então 16 anos e estava passando por uma fase cheia de descobertas nesse sentido. Estava nervoso, porque uma menina do colégio havia me pedido em namoro e eu tinha aceitado apenas como uma forma de expulsar a angústia de nunca ter namorado. Eu tinha visto meu pai e minha mãe durante anos tentando manter um casamento que nunca, nem no começo, pareceu firme. Aprendi a odiar esse tipo de compromisso, e por isso projetava um futuro livre e solitário, cujas maiores metas não tinham relação nenhuma com amor.

Essa menina me pediu em namoro de um jeito doce e corajoso, mas parece que ela passava pelo mesmo problema que eu. Assim que aceitei, ela me deu um beijo e saiu correndo. Me deixou os três dias seguintes se perguntando se aquilo havia mesmo acontecido. Depois me mandou uma carta datilografada dizendo que havia sonhado comigo e que não parara de escutar o CD do U2 que eu a emprestara. Nesse momento pensei que talvez estivesse fazendo bem a ela, porque estava mostrando outro tipo de música além daquele forró de cabaré que ela gostava. Mas também pensei que estaria fazendo muito mal se minhas atitudes dessem a entender que eu também estava apaixonado.

Mas que diabos possuem nossa alma e que nos fazem, sem um pingo de remorso, se aproveitar da fragilidade dos outros. Depois da carta gastei muito mais tempo elaborando coisas bonitas para dizê-la do que meios de parecer frio. Por egoísmo, fui o melhor namorado que ela poderia ter. Até que o que eu menos (e mais!) queria aconteceu: ela disse “eu te amo”.

Desde cedo haviam me ensinado que essas palavras eram sagradas, importantes demais para se dizer a qualquer um. Mas deveriam ter me ensinado também a ser menos cínico e a dizer não. Se era cinismo ou generosidade, eu tive de fazer essa sacanagem e esse favor: “eu te amo também”, gorjeei. Ela sorriu o sorriso mais rural que eu me lembro de ter visto. E me beijou de língua.

O namoro já durava um mês quando a chamada da Tela Quente anunciou “Closer – Perto demais”. Adorei o nome, bem antes de perceber a redundância do aposto. E tinha a Natalie Portman de pernas abertas. Né.

Foi devastador. Não devia ter assistido. A sinceridade quase imoral daquela história tinha me deixado com um nó tão grande na garganta, que até hoje ele continua (vide meu pomo-de-adão avantajado). E pior: até esse dia eu era Daniel e todos os apelidos que os amigos haviam me dado. Mas nunca tinha sido Dan. Foi tudo culpa do Jude Law, aquele maldito, que ali expôs minha id como se fosse meu superego. E o nome da personagem dele era este, Dan, e Dan tinha que ser eu.

De todos os segredos que guardei, este foi o que tive menos oportunidades de contar. Por que não precisava: nunca fez diferença. Exceto por uma vez. Após mais de um ano de namoro, descobri que minha ex-namorada também amava este filme, e por motivos muito parecidos com os meus. Descobri também que ela adorava o Jude Law. Tanto que, cega de amores por mim, chegou a dizer que eu era parecido com ele. Ora, eu sempre quis ouvir isso. Mas não nesse sentido. Queria que alguém reparasse nas coincidências, no jeito de me portar como um sedutor cheio de fragilidades, na sobrancelha esquerda arqueada... Sei lá.

Queria que alguém notasse, por exemplo, que eu era um escritor amador assim como o Dan do filme, que era um jornalista assim como o Dan do filme (sim, é por causa de Closer), e que usava uns óculos de aros arredondados iguaizinhos aos do Dan do filme. E não do Harry Potter. ¬¬

Mas foi pedir demais. Afinal ninguém espera que seu melhor amigo seja uma mensagem subliminar ambulante. O resultado disso foi que tirei uma conclusão estúpida mas que até hoje implica nos meus pensamentos e aforismos enigmáticos: de muito perto ninguém consegue se ver. E o meu erro, meu maior erro, foi querer sempre estar perto demais.

Voltando ainda mais no tempo, aquela primeira menina acabou sendo a cobaia das minhas primeiras experiências como Dan. Ela tentava conversar comigo, mas percebia que eu estava ficando impaciente, porque meu rosto começava a deixar claro que não tinha saco pra ouvir as histórias dos irmãos agricultores dela. Então ela me perguntou por que eu estava tão besta. Respondi que cedo ou tarde teria de ir embora pra outra cidade e que não acreditava em amor à distância, por isso deveríamos terminar logo antes que pudéssemos sofrer. Suave como uma descarga.

Mas eis que, um tempo depois, começo a ler poesia e o Dan aparentemente narcisista se compreende melhor. Aprendi (e acho que inconscientemente) a mixar as duas personalidades, até ficar um sujeito empático o suficiente para não parecer frio, e convicto o bastante para não parecer tolo. De modo que a personagem domou o ator e o que era mentira virou verdade. Some-se a isso o romântico inveterado que me tornei – cujas raízes estou re-desenterrando agora, e o rei das piadas insensíveis e carinhos ousados, cujas autocríticas e cantadas cafonas beiram o “bonitinho”. Aí temos eu: o Dan do filme e todos os outros apelidos do Daniel. 

No fim, nem tudo é como Closer. Na verdade, quase nada é como Closer, cru e insípido. Bom seria se fosse, porque os maiores problemas da humanidade estariam nas despedidas, e não nos encontros. Vejo agora que a maior parte das relações (principalmente amorosas) são apenas mal-passadas e insossas. Mas os sentimentos, esses tem sabores bem distintos: o amor certamente é doce. A sinceridade é salgada. O fim é amargo. E a paixão... bem, a paixão é umami.

Crítica: Thor


Por Daniel Magalhães*

Thor tem um roteiro de fantasia oitentista e não está nem aí para o realismo que virou moda nas adaptações de HQ nos últimos anos.

A princípio isto não é um demérito. Na verdade é algo até corajoso: nunca é fácil ir de encontro a uma estética sem parecer anacrônico ou deslocado. Mas vá lá, também vivemos numa época cuja experimentação parece tomar todos os âmbitos da sociedade. O grande defeito de Thor não está na abordagem, mas na execução. Mesmo com um roteiro puramente formuláico, seria possível disfarçá-lo sob cenas de ação mais inteligentes, diálogos mais inteligentes e direção de arte mais consciente. Thor, infelizmente, erra em tudo isso e se torna um filme estúpido.


Os carismáticos Chris Hemsworth (Thor) e Natalie Portman (Jane), embora tentem, definitivamente não conseguem superar as canastrices do roteiro. É até divertido ver a falta de reação da cientista quando o deus a surpreende na cozinha. Mas quando os personagens abrem a boca, não tem jeito, só saem abobrinhas. O filme inteiro é permeado por diálogos ridículos. Chega a dar vontade de sair do cinema quando, no clímax do longa, um personagem diz: "Thor, não!" e o outro, com a mesma pompa, brada: "Não, Thor!"

Felizmente, Anthony Hopkins (Odin) e Tom Hiddleston (Loki) ainda salvam o filme da idiotice completa quando dividem alguma cena. Suas impostações de vozes e movimentos de ombro, em certos momentos, dizem bastante dos anseios e dúvidas de seus personagens. Ao que, inevitavelmente, os diálogos vêm estragar. Mas o destaque mesmo fica para a jovem Kat Dennings (Darcy), óbvio alívio cômico do filme, cujo papel na história é.... fazer algumas piadas. E só.

A construção de Asgard, que vem sendo tão elogiada, realmente tem alguns bons momentos, quando o diretor de arte do filme parece lembrar de algumas regras de composição que aprendeu na escola. Porque durante a maior parte da projeção o que vemos é uma seqüência de panorâmicas e visões aéreas sobre um amontoado de formas geométricas em tons amarelos e vermelhos. É como se a equipe técnica do filme estivesse impressionada com a própria capacidade e desse uma de "matuto na capital". A direção de fotografia é igualmente infeliz ao empregar uma quantidade absurda de planos holandeses (aquele meio inclinado, ótimo para causar desconforto), além de alguns travellings sem sentido. Há cenas que simplesmente se perdem por causa desses cacoetes. Una-se a isto uma trilha sonora genérica e sem personalidade, empregada mais para cobrir o silêncio (que aqui parece incomodar a quem fez o filme) do que para tornar as cenas mais belas, ou ajudar no desenvolvimento da história.

E todos esses defeitos sob a supervisão do desatento Keneth Branagh, que tenta emular a solenidade do seu Hamlet (1996), mas tudo o que consegue é deixar seus personagens inverossímeis e chatos. Aliás, são tantos personagens que não sobra tempo para desenvolver nenhum, tornando parte deles praticamente obsoletos. Apenas para ilustrar a rasidade do filme, os amigos asgardianos de Thor são definidos assim: um é bobo, outro luta bem, um come muito, outro é mulher etc. Inteligência para quê, né?

Para finalizar, o que todos ja sabiam: "Thor" não faz [nada] além de preparar terreno para o filme dos Vingadores, sonho antigo da Marvel. Há inclusive alguns easter eggs divertidos, como a participação rápida do Gavião Arqueiro e da presença constante da misteriosa organização "SHIELD". Por isso não se surpreenda se algum fã dos quadrinhos cuspir pipoca na sua cabeça para deixar claro pro cinema inteiro que sabe quem é quem na história. Dito isto, boa sessão! E vá com alguém que possa te distrair.
Nota: 04/10

Nome original: Thor
País: EUA. 
Ano: 2011
Duração: 114 minutos
Gênero: Épico / Aventura
Direção: Kenneth Branagh
Roteiro: J. Michael Straczynski, Mark Protosevich
Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Anthony Hopkins, Tom Hiddleston, Kat Dennings, Stellan Skarsgård etc.

*Daniel Magalhães é estudante do 4º ano de jornalismo, 2º ano de Arte e Mídia, e pretende, muito em breve, se tornar um crítico de cinema profissional.

Continho


Trajano Júnior, o filho do Inspetor Trajano, era um jovem muito frustrado com a própria aparência. Não que ele fosse feio, claro que não, em verdade ele até era bem visado pelas garotas do colégio, que assobiavam para ele e lhe mandavam bilhetinhos, quase sempre respondidos com um gesto obsceno ou com um xingamento por escrito. O problema é que quando ele era pequeno, três pra quatro anos, o seu pai o chamava de “cabelo de bucha”, pois ele havia nascido com o cabelo crespo e revoltado, onde pente nenhum entrava, mesmo que tivesse um só dente. Dizia o pai, em meio a gozações de toda sorte, que o pêlo do filho era, de todo modo, geneticamente inexplicável, já que sua mãe – uma macumbeira maranhense com cara de polaca – tinha o cabelo liso que nem pêlo-de-milho, “e quanto a mim – dizia –, também não posso ter lhe legado tais genes, já que sou carequinha que nem um pirulito pop”. Por causa disso o menino passou a usar boné o dia inteiro, a noite inteira, o tempo inteiro, até para dormir e tomar banho. Claro que ele não gostava daquela situação, mas a vergonha era maior do que a coragem, e ele morria de medo do julgamento dos outros, que quase sempre é cruel e implacável com quem é diferente. Mas lá nos seus sonhos, onde o seu pai não estava, ele esperava ansiosamente o dia que aconteceria com ele que nem aconteceu na história do patinho feio. Ele chegava na frente do pai, tirava o boné em câmera lenta e lhe caía pelo rosto uma belíssima cabeleira loira e brilhante, como a daquela Barbie da sua irmã, e depois ele saía por aí cavalgando num corcel alado, ou então pilotando uma Harley Davidson cor-de-chumbo, que era mais fácil de conseguir.
Do outro lado da cidade, vivia uma menina chamada Esmeralda, que tinha acabado de chegar lá e ainda não conhecia ninguém, nem no bairro, nem na escola onde estudaria, a Escola Aquino Pinto. Há muita coisa para se falar sobre Esmeralda, pois ela era uma criatura por deveras pitoresca. Era baixinha, baixíssima, pouco mais de um metro de altura, e seu corpo era achatado e retangular que nem uma sanfona. Morava com a mãe, cujo nome verdadeiro ninguém sabe, nem a filha, pois ela só atende pelo codinome (ou nome-de-guerra) “Love Lue”, e com a vó, que não podia-se afirmar se estava viva ou não. Graças às piadas sobre a sua altura que tinha de aturar quando estudava na outra escola, Esmeralda começou a usar um par de sapatos de salto-alto altíssimos, que quase lhe dobravam a estatura e a deixavam com um aspecto mais esdrúxulo ainda. Eram desconfortáveis como pernas-de-pau, mas ela achava que se fosse alta as pessoas a olhariam nos olhos e parariam de lhe humilhar. Na primeira vez que ela saiu pra rua, para limpar o mato da calçada, as linguarudas de plantão da vizinhança a viram e já começaram a espalhar, “Tem um bicho morando lá na casa da falecida Marli”. Esmeralda, pobrezinha, mesmo acostumada com tais maldades, ficou triste e desapontada com a sua vida, pois reparou que não importava em que cidade estivesse, sempre seria tratada como uma besta de circo. E por falar em circo, esse era o seu grande sonho de criança: virar trapezista, e sair por aí, Brasil afora, num desses picadeiros mambembes onde os mais feios são os mais queridos.
Quando as aulas começaram, por acaso ou não, Esmeralda foi colocada na mesma sala de Trajano Júnior, numa carteira quebrada, logo ao lado, que praticamente os obrigava a manter algum contato. Mas manter algum contato não foi nenhum problema para os dois, pois desde a primeira troca de olhares já se sentiram amigos íntimos. E quando os dias passavam, a amizade dos dois só parecia aumentar, tanto que Esmeralda já estava ganhando até uma certa moral com as gurias do fundão, que na verdade a odiavam e só queriam se aproveitar da sua inocência, pois desejavam o filho do inspetor e não sabiam como fazer para conseguí-lo. Trajano, porém, estava notando que todos os seus amigos estavam se afastando, como se o fato d’ele ser amigo daquela garota o transformasse de repente numa companhia indesejável. E ele não ligava, porque, afinal de contas, se sentia muito mais feliz ao lado de Esmeralda, do que deles, que só sabiam falar de forró, cachaça, academia e adedonha. Trajano e Esmeralda conversavam sobre tudo, livros, filmes, música, mas do que mais gostavam de falar era sobre si mesmos. Uma vez Trajano a perguntou:
– Você sempre ficou sozinha na vida?
– Não... eu nunca tive ninguém, para depois ficar sozinha. E você?
– Não sei... Acho que sempre precisei de solidão. E nunca consegui. Sempre tinha alguém chato no meu pé, falando baboseira.
– Tipo o seu pai?
– É, tipo ele.
– Ele é o cara mais malacafento que já conheci.
– Malafacaoquê?
– Asqueiroso, abominável...
– Ah... – murmurou Trajano, esquecendo-se que aquilo era sobre o seu pai.
– Você me acha feia? – perguntou Esmeralda.
– Não sei, para falar a verdade acho que gosto da sua feiúra.
Esmeralda abaixou a cabeça.
– Eu te magoei? – disse Trajano.
– Não, não mesmo. É que nunca ninguém me disse algo assim, tão bonito...
– Quer que eu diga de novo?
Ela ergueu os olhos, e estava enrubescida.
– Me beija? – disse ela, com a voz tremida.
Trajano se assustou, pois achava que levaria mais tempo para conseguir um beijo dela. Estava nervoso e feliz, e um turbilhão de sentimentos invadia o seu corpo. Ele abraçou a menina e foi aproximando o rosto devagar. Mas no momento do beijo... Ops, a aba do boné bateu na testa dela e ambos sorriram sem graça.
– Tira o boné? – pediu Esmeralda.
– Não, si-sinto muito. – Trajano não conseguia disfarçar o nervosismo. – Não vou tirar o boné. Por quê você não tira o salto-alto?
– Não, isso não! – disse a menina, subitamente. – Eu nunca tiro o salto-alto!

Coisa Tola II


Coisa Tola 2

 

– Chata!
– Cachorro!
– Você que é uma cadela. E chata, ainda por cima.
– Você me chamou de quê?
– De chata!
– Eu ouvi seu idiota! Me referi à...
– Cadela? Quer que eu repita?
– Repita se for homem!
– C - A - D - E - L - A!
– Ah! Como se atreve?
– Você que pediu...
– Isso não vai ficar assim. Ai, como eu te odeio!
– E o que você vai fazer?
– Eu?
– É, você.
– Eu?
– Sim, você!
– Vou espalhar pra todo mundo que você é broxa!
– Hahahahahahaha!
– Ta pensando que eu to brincando?
– Você não seria burra a esse ponto.
– Burra por quê?
– Esqueceu que eu sou seu marido?
– Meu marido? Meu marido abria a porta do carro para mim. Meu marido me levava o café na cama. Meu marido transava comigo!
– Quer calar essa boca? 
(silêncio)
– Você está sendo injusta comigo.
(silêncio)
– Não faz nem uma semana que não dormimos juntos.
– Dez dias.
– Ah, que seja. Não sei se você se tocou, mas estou no meio de um processo dificílimo. Estou prestes a ser condenado, tem gente me perseguindo, me vigiando, e você fica aí falando de sexo...
– Ninguém mandou você sair por aí dizendo o segredo da Coca-cola...
– Engraçadinha... Estou morrendo de rir por dentro.
– Mas me diz, como você acha que eu me sinto casada com um doido, falsificador e ainda por cima broxa?
– Não sei, mal?
– Nossa, como você consegue ser tão cínico?
– E o que você quer, que eu comece a chorar?
– Não, mas não precisa ser tão insensível...
 (silêncio)
– Sabe, não faz nem seis meses que casamos e você nem diz mais que me ama...
– Digo sim.
– É, mas quando diz é como se dissesse "pão com maionese"... Sabe, virou rotina, não rola mais aquele sentimento que tinha antes...
(10 segundos)
– Desculpa. Eu não devia ser assim...
– Não mesmo.
(10 segundos)
– É verdade... tenho sido muito ausente. E eu não sabia que você estava sofrendo com isso...
– Você nem presta mais atenção em mim...
– Oh, meu amorzinho...
– Agora você vai ficar dando uma de vítima, né? Já conheço esse papo de "Ah, eu estava errado, por favor, me perdoe amorzinho...", e já sei bem onde isso tudo vai terminar...
– Onde, na cama?

Bastou um breve cruzar de olhares para que ambos soubessem que sim, o final seria esse mesmo, terminariam a noite em um quarto qualquer, abraçados, mordendo-se, arranhando-se, jurando amor eterno como se tivessem mesmo a eternidade para amar. A moça sorriu, desviando o olhar para o cardápio, e ele pensou “não tem jeito, é a mulher da minha vida”. 
O garçom, que já a alguns estava minutos parado ao lado da mesa, pigarreou, dando a perceber sua presença. O rapaz pagou a conta, elogiou a comida e a música, a comida porque era cara, a música porque adorava Chopin, andou de mãos dadas com sua bela esposa até o carro e abriu a porta para ela, depois pisou no acelerador e correu até o seu apartamento recém comprado com dinheiro do contrabando. 
Lá eles se amaram estupidamente, como nunca tinham se amado antes. O tempo passou rápido, mas a noite certamente duraria anos nos corações dos amantes. Na manhã seguinte, como uma deliciosa provocação, o café estava ali, na cama, esperando-a calmamente, e com um pequeno bilhete amarelo enfiado no queijo. 
"Eu te pão com maionese."