CHRISTOFOLETTI, Rogério. Preocupações éticas no
jornalismo feito por não-jornalistas.
Parecia ser uma quinta-feira como
outra qualquer. Milhares de pessoas seguiam para o trabalho ou para a escola,
recheando os vagões do metrô e os conhecidos ônibus vermelhos de dois andares.
Em menos de uma hora, quatro explosões atingiram um ônibus e três trens do
metrô no centro de Londres, matando 52 pessoas e ferindo outras 700. A agitada
manhã de 7 de julho de 2005 entrou para a história como um triste ato
terrorista, mas foi também um marco na linha do tempo da mídia britânica.
Segundo o jornalista Torin Douglas, foi um ponto de virada no uso de conteúdo
não-profissional no noticiário. Para o especialista, o 7/7 “democratizou” a
mídia .
Não foi um exagero. Os atentados
provocaram muitas vítimas e uma enxurrada nas redações de material produzido
por amadores. Num único dia, a BBC, por exemplo, recebeu 22 mil mensagens de
textos e e-mails com relatos e informações, mais de 300 fotos e diversos vídeos
feitos com câmeras fotográficas comuns e telefones celulares. Pela primeira vez,
a cúpula diretiva da criteriosa e tradicional BBC considerou aqueles vídeos
amadores mais jornalisticamente relevantes que o material profissional. O
Conteúdo Gerado pelo Usuário (CGU) recebeu um outro tratamento.
Longe de Londres, na tumultuada
Cisjordânia, um grupo de mulheres israelenses, “ativistas pela paz de todos os
setores da sociedade”, abastece o site Machsomwatch com relatos de violações de
direitos humanos ao longo do litígio na região. Elas não são jornalistas
profissionais, mas desde 2001 fazem um trabalho análogo: “Documentamos
regularmente o que vemos e ouvimos”. São contrárias “à ocupação israelense e à
negação dos direitos dos palestinos de circular livremente na sua terra”. Fazem
observações diárias nos postos de checagem do exército israelense, denunciam o
que consideram abusos e violações, e encaminham esses relatos a funcionários
públicos e representantes eleitos, chamando a atenção para o conflito na
Cisjordânia. Conforme explicam, querem “influenciar a opinião pública no país e
no mundo, e, assim, pôr fim à ocupação destrutiva, que causa danos à sociedade
israelense e à palestina”.
Longe da Cisjordânia, no Brasil,
um heterodoxo grupo de mídia ganhou visibilidade internacional oferecendo um
conjunto de relatos independentes sobre as manifestações que chacoalharam o
país em junho de 2013. Sob o nome de Mídia Ninja – sigla para Narrativas
Independentes, Jornalismo e Ação -, o coletivo reúne ativistas, jornalistas
profissionais e comunicadores amadores em torno da ideia de oferecer uma
alternativa às coberturas da mídia tradicional. Os ninjas têm ações
descentralizadas, usam as redes sociais da internet, fazem coberturas ao vivo,
sem cortes ou edição, e se concentram em temas sociais. O grupo surgiu em junho
de 2011, a partir da Pós-TV, iniciativa que priorizava a transmissão ao vivo de
conteúdos audiovisuais pela internet. Dois anos depois, um turbilhão de
protestos se espalhou como rastilho de pólvora pelo país, levando milhões de
pessoas às ruas contra o uso de verbas públicas na construção de estádios para
a Copa do Mundo de 2014, contra a impunidade e a corrupção na política, contra
os aumentos nas tarifas de transporte público, entre outros temas. As chamadas
Jornadas de Junho foram as maiores mobilizações populares desde as
manifestações pelo impeachment do então presidente da república Fernando Collor
de Mello, em 1992. Houve passeatas em mais de 400 cidades em todos os estados
brasileiros, inclusive com protestos de apoio em outras partes do mundo.
Em junho de 2013, os meios de
comunicação tradicionais tentaram cobrir as manifestações, mas tiveram
dificuldades em muitas cidades, sendo inclusive hostilizados. A Mídia Ninja
ofereceu um conjunto impressionante e relevante. Tanto que suas cenas foram
reproduzidas e valorizadas pelas maiores emissoras de televisão, a despeito da
duvidosa qualidade técnica e da inadequação estética em muitos momentos.
O que há de comum entre esses
três exemplos tão incomuns – os atentados em Londres, o monitoramento da
ocupação da Cisjordânia e os protestos no Brasil? Do ponto de vista da
comunicação, os episódios revelam traços que enaltecem a participação do
público nos processos de informação, e a produção e difusão de conteúdos jornalísticos
por amadores. Esses casos também reservam questionamentos de caráter ético
sobre as práticas e as condutas dos sujeitos dessas ações. No que tange a uma
reflexão dos limites entre profissionalidade e envolvimento amador, os
episódios também contribuem para uma definição de novos valores emergentes.
1. Se
não pode vencê-los...
Não faz muito tempo, mas é sempre
necessário lembrar: já houve fronteiras mais nítidas entre quem produzia
material jornalístico e quem se restringia a consumi-lo. Por décadas, coube a um
grupo social responder pela busca, seleção, tratamento, hierarquização,
contextualização e embalamento de dados dispersos, transformando-os em
informações de cunho noticioso. Esse coletivo se organizou profissionalmente,
estabelecendo regras de conduta, gramáticas técnicas e regras de funcionamento
de forma que a sociedade pudesse distingui-lo como tal. Os jornalistas não
apenas se tornaram uma categoria profissional como também justificaram sua
existência e a legitimidade de suas ações. Atendendo a uma demanda das
sociedades, o jornalismo se tornou necessário para a evolução das democracias e
fundamental para o desenvolvimento social. A maior parte das pessoas – que não
se ocupava desse ofício – se limitou a ser constantemente abastecida pelos
jornalistas, reconhecendo neles os autênticos produtores das informações de
cunho de interesse público.
Há pelo menos duas décadas,
começou a erodir o balcão que separava jornalistas de audiência. As
potencialidades tecnológicas vindas da internet, da digitalização de arquivos
de texto, som e imagem, da miniaturização de equipamentos e da convergência
tecnológica permitiram alguns efeitos altamente transformadores nas relações
entre esses contingentes. A produção e distribuição de conteúdos mostrou-se
cada vez mais descomplicada, o que alimentou e fortaleceu uma cultura cada vez
mais global de participação e colaboração. A inexistência de fronteiras
geográficas na internet tornou as trocas de informação mais amplas, rápidas e
efetivas. Esses componentes criaram um cenário de explosão informativa e de
aumento de demanda por conteúdos, derivado do também crescimento na oferta de
materiais. A fartura de meios de produção e difusão de conteúdos, e as muitas
oportunidades de participação do processo de comunicação propiciaram também que
os usuários dispensassem os mediadores, aqueles que se interpunham entre
público e fontes de informação. O balcão que separava produtores de
consumidores ficou poroso, vazado.
Surpreendidos ou satisfeitos,
alertados ou incomodados, profissionais do jornalismo e empresas do ramo se
viram obrigados a reconhecer a cada vez mais crescente importância das
audiências no mercado produtivo de conteúdos. Dan Gillmor (2004) apressou-se a
rebatizar de “ex-público” esse contigente antes alijado dos processos de
produção. Rosen (2006) se referiu a eles como “as pessoas anteriormente
conhecidas por audiência”, aquelas que escrevem em seus blogs, que postam suas
fotos e vídeos, que contam as histórias que presenciam, que compartilham o que
sabem. Isto é, aquelas que surgem no fim de um sistema de mídia unidirecional,
que não se resignam à condição de receptáculo passivo de informações.
Bruns (2008) reuniu uso, consumo
e produção num termo híbrido: “produsage”. Segundo argumenta, o conceito se
aplica a contextos onde há criação e extensão de informação e conhecimento
lideradas por sujeitos comuns; contextos onde os papeis de consumidor e usuário
final desapareceram, dando lugar a funções mistas, onde as distâncias entre
produtores e meros consumidores se perderam. Nessas comunidades, “os usuários
já são sempre necessariamente também produtores da base de conhecimento
compartilhado, independentemente de se estão cientes desse papel, eles
tornaram-se um novo, híbrido, produser7 ” (op.cit.: 2).
Keen (2008) critica a invasão
desses amadores, reputando a eles perigos que podem inclusive deteriorar a
cultura e a civilização contemporâneas. O escopo do autor é amplo e o ataque é
dirigido sobretudo àqueles que produzem conteúdos de caráter
artístico-simbólico, desapropriando os intermediários, a quem antes cabia
reconhecer os talentos e os valores importantes para a sociedade.
Hargittai e Walejko (2008) chamam
a atenção para distintas formas e níveis de participação na criação de
conteúdos e seu compartilhamento nos tempos atuais. As autoras apontam que não
se trata apenas de diferenças mas também de desigualdades, notadamente entre
gêneros, o que intensifica ou pode vir a reforçar estruturas de assimetria
social já existentes. O alerta é bem-vindo e é natural que ele seja formulado,
a exemplo de outras tantas preocupações, dado que a vida on line cada vez mais
reproduz e multiplica os dilemas da existência off line em sociedade.
Muitos outros autores abordaram
os temas da colaboração e do aumento da participação pública nos processos de
informação/comunicação, mas o reconhecimento das audiências teve um reforço
substancial com a edição em julho de 2011 de um volumoso documento da Federal
Communications Comission (FCC), a agência norte-americana de regulação da
mídia. Em 468 páginas, o estudo produzido por Steven Waldman e seu grupo de
trabalho aborda não só os meios de comunicação comerciais, mas também a mídia
sem fins lucrativos, atores de fora do sistema (como o governo) e questões
transversais (como consumo de mídia, diversidade, pessoas com deficiência, por
exemplo). Em todas essas seções, o estudo tenta observar as transformações
ocorridas na paisagem midiática com a chegada de novos atores e novas
potencialidades. Como não poderia deixar de ser, o documento da FCC oferece
ainda elementos para uma discussão sobre políticas e regulação do sistema de
mídia nos Estados Unidos, abordando aspectos como radiodifusão, TV a cabo,
internet e mobile systems, propriedade e controle dos meios, publicidade e
propaganda, direitos autorais e propriedade intelectual. A conclusão mais
básica da FCC é que o cenário midiático vem mudando tanto e tão rapidamente que
algumas das regulamentações atuais “estão fora de sincronia com as necessidades
de informação das comunidades e a natureza fluida dos mercados de mídia locais
modernos” (op. Cit.: 6).
Entre as recomendações do
documento estão a necessidade de uma maior transparência do governo para que
jornalistas e cidadãos monitorem suas ações; verbas publicitárias públicas
devem ser mais dirigidas às mídias locais; meios sem fins lucrativos precisam
desenvolver modelos de negócios mais rentáveis; banda larga universal e
internet aberta são essenciais para que a nova paisagem midiática sirva aos
propósitos das comunidades; e os formuladores devem ouvir mais as comunidades
historicamente carentes na elaboração de suas políticas de comunicação.
A FCC reconhece o paradoxo: há
abundância de mídia e carência de relatórios e informes públicos. “As
comunidades beneficiam-se enormemente pelas muitas inovações trazidas pela
internet e sofrem, simultaneamente, com as mudanças sísmicas nos mercados de
mídia” (op.cit.: 7). O momento é confuso, mas o relatório é otimista:
reconhecendo as mídias locais e as comunidades, os EUA podem alcançar o melhor
sistema de mídia que o país já teve. É importante observar que o órgão
regulador das comunicações norte-americanas distribui prerrogativas e
responsabilidades para chegar à excelência midiática entre atores
não-profissionais. Assim, não cabe apenas à indústria a melhoria dos serviços e
produtos de informação e entretenimento. Não é à toa que Anderson, Bell e
Shirky (2013) analisam o cenário atual a partir da perspectiva de que não há
mais uma indústria jornalística. “Antigamente, havia uma. Era uma indústria que
se mantinha em pé por coisas que em geral mantêm um setor em pé: a similitude
de métodos entre um grupo relativamente pequeno e uniforme de empresas e a
incapacidade de alguém de fora desse grupo criar um produto competitivo. Essas
condições não se cumprem mais” (op. Cit.: 32).
Antes, era perceptivo que havia
uma ética específica para o jornalismo, já que a profissão estava bem
delimitada e seus contornos se davam inclusive por um conjunto de valores
éticos. Jornalistas agiam conforme um conjunto de recomendações, tinham claras
virtudes e contraexemplos de ação, e definiam seu campo de atuação tendo em
vista padrões de conduta. Poderiam ser (e eram) cobrados quando contrariavam
essas normativas deontológicas. Com a chegada de novos atores e consequente
porosidade no campo, as questões éticas podem ser estendidas também aos
novatos, gerando novos pontos de tensão e discussão.
Nos três exemplos do início deste
artigo – os atentados de 2005 em Londres, a ocupação da Cisjordânia e as ações
da Mídia Ninja -, é possível observar mudanças no diálogo entre fontes,
produtores de informação e consumidores, não apenas horizontalizando esse
diálogo, como muitas vezes, borrando as fronteiras entre um território e outro.
Nos três casos, há mais do que colaboração ou participação da audiência. Os
episódios podem “contaminar” a ética jornalística (até então restrita aos
profissionais) com outras preocupações ou parâmetros. Podem trazer à tona o
ditado de que “se não pode vencê-los, junte-se a eles”...
2. Negociação,
colisão, assimilação
O ditado revela em si uma
generosa dose de resignação diante de um dilema que se considera insuperável.
Mas será que jornalistas e usuários não-profissionalizados se relacionam sempre
da mesma forma? Como as empresas de comunicação têm recebido e aproveitado o
Conteúdo Gerado pelo Usuário (CGU) em suas plataformas e produtos? A
convivência entre esses distintos contigentes sempre é entendida como um
problema?
De olho na imprensa mainstream
britânica do final da década passada, Hermida e Thurman (2008) vêem nessa
aproximação um choque de culturas. Os autores fizeram um relato de como doze
sites de jornais de âmbio nacional no Reino Unido promoviam a integração entre
seus conteúdos e os materiais produzidos por usuários. Segundo perceberam, a
maior proximidade vinha contribuindo para derrubar dúvidas dos staffs comercial
e editorial sobre a importância e valor desses conteúdos amadores, antes vistos
com bastante desconfiança. Editores de área também foram ouvidos, na tentativa
de colher temores e potencialidades na integração. Entre os receios, estava o
de que não usar os conteúdos do público pode ajudar a marginalizar os meios
perante os leitores. Ainda entre as preocupações estavam a possibilidade de
conteúdos de terceiros afetarem a imagem da marca das empresas de comunicação
(com consequências à credibilidade de seus produtos e serviços) e o controle da
conversação, com a clara interferência e rigor na moderação de comentários.
Identidade profissional, reputação e aspectos legais também poderiam ser
afetadas com a chegada dos amadores, temiam os editores entrevistados para a
pesquisa. Neste sentido, a integração dos conteúdos amadores ao cotidiano de
publicações profissionais reserva desafios e o abandono de preconceitos.
Com os olhares ainda detidos na
realidade britânica, Singer e Ashman (2009) se debruçam sobre o caso do The
Guardian, onde os jornalistas ainda assimilam e negociam suas relações com os
usuários. Jornal tradicional, o diário tem buscado se adaptar aos novos meios,
investindo em novas modalidades narrativas e interatividade. Em 2008, por
exemplo, The Guardian chegou a receber 350 mil comentários às suas maté- rias
num único mês. Singer e Ashman observam que o rápido crescimento de diversas
formas de CGU - “que vão de comentários em blogs hospedados no jornal a
notícias hiperlocais - significa que o jornalista tem muito menos controle
sobre o que antes era um processo essencialmente industrial de fazer notícias”
(op.cit.: 3).
O estudo recorreu a entrevistas
em profundidade e questionários. Perguntados sobre marcas essenciais para o
“bom jornalismo”, os jornalistas entrevistados mencionaram “boa
apuração/precisão” (accuracy), seguida de “credibilidade”, “responsabilidade” e
“competência”. Os sujeitos da pesquisa também vincularam CGU a valores como
“livre expressão”. Algumas preocupações foram percebidas, como o pouco
compromisso com a autenticidade dos relatos, e como esses usuários têm
potencial para degradar a credibilidade da publicação e seus produtos
derivados. Neste sentido, a participação amadora não se mostra um perigo no que
tange a competência técnica do público, mas à autoridade do jornalista e aos
seus cânones. Um ponto de tensão observado é o que opõe o anonimato dos
usuários - prática bastante disseminada na web – e a accountability dos
jornalistas, um valor emergente.
Na pesquisa, entre os jornalistas
mais tradicionais, ligados à plataforma impressa, parece vigorar uma
ambivalência diante da presença e ação dos usuários: ao mesmo tempo em que os
profissionais destacam a necessidade de manter distância dos leitores, são
instados a interagir com eles...
Singer e Ashman concluem que os
jornalistas estão lutando para “acomodar eticamente as oportunidades de
liberdade e diálogo dadas pelo CGU, salvaguardando a sua credibilidade e senso
de responsabilidade” (op.cit.: 18). Esses profissionais tentam incorporar
questões levantadas pela presença dos amadores dentro de um quadro normativo já
existente na empresa. Singer e Ashman se referem aos princípios da Scott Trust,
documento que orienta os jornalistas do The Guardian há décadas. Perdura a
máxima que o jornal carrega - “Comentários são livres mas os fatos são
sagrados” -, porém os dilemas do CGU trazem à tona desafios inéditos, já que o
produto oferecido ao público não é resultado exclusivo do trabalho e das
decisões dos profissionais.
As mudanças que assistimos há
duas décadas não são cosméticas, mas “movimentos tectônicos” (cf. Anderson et
al., 2013). Para os autores, que se dedicaram a uma alentada análise da
situação atual da realidade norte-americana, o jornalismo não depende mais de
uma indústria para ser produzido e distribuído. Ele é essencial para a vida
contemporânea, mas uma reestruturação é imprescindível, e muitas oportunidades
de fazer um bom trabalho estão em novas formas de atuar. Os autores reconhecem
que algumas atividades são melhor desempenhadas por amadores, por multidões e
por má- quinas; outras por jornalistas, como convencionou ter.
“O processo do jornalismo vem sofrendo uma transformação tão
radical pelas mãos de forças tecnológicas e econômicas que já não há algo que
possa ser descrito como ‘uma indústria’ na qual o jornalista atuaria. Nos
Estados Unidos, já não há um plano comum de carreira, um conjunto de
ferramentas e modelos de produção ou uma categoria de trabalhadores estável e
previsível. (op. cit.: 51)”
Para Anderson, Bell e Shirky, a
“indústria jornalística está morta, mas o jornalismo segue vivo em muitos
lugares” (p.69). O advento da internet não permitiu apenas a emergência de
outros atores, mas um novo ecossistema jornalístico. Assim, aos olhos dos
autores, as organizações jornalísticas dos Estados Unidos não teriam mais o
controle das notícias como antes, pois não podem garantir as coberturas dos
fatos sozinhas. As recomendações do estudo vão de aprender a trabalhar com
terceiros a reconhecer e premiar a colaboração, passando por incluir links para
os materiais-fontes e usar o trabalho sistematizado pelos outros. Nada mais
descentralizador...
3. Ensino,
envolvimento e engajamento
Os debates sobre a chegada dos
amadores, as estratégias organizacionais para o melhor aproveitamento dos
conteúdos gerados pelos usuários e as experiências apoiadas em associação,
colaboração ou simbiose possibilitam afirmar que, hoje, em tese, todos podem
fazer jornalismo. Em distintos graus de qualidade, para diversos públicos, em
escalas diferentes, mas podem oferecer produtos e serviços que competem com o
que chamávamos de jornalismo profissional. Algumas questões podem se derivar
dessa assertiva: O jornalismo corre risco? Ele perde com essas novas condições
e com a chegada dos outsiders? Se a competência técnica não se mostra como um
problema, pode-se dizer o mesmo sobre a ética? Em outras palavras, a ética
jornalística foi superada? Estamos próximos disso? Pode-se esperar que o
usuário siga as mesmas guias éticas dos jornalistas profissionais? O amador
pode ser cobrado se vier a contrariá-las? Está preparado para atuar conforme
tal gramática? Se não está, como deve se orientar?
Ward e Wasserman (2010)
argumentam que o crescimento da participação dos cidadãos nos meios de
comunicação está transformando o jornalismo e a sua ética, fazendo com que
emerja uma “ética de mídia aberta”, modalidade de interesse mais amplo.
Diferente de sistemas mais fechados – geralmente, os profissionais -, essa
ética “incentiva uma abordagem mais aberta e participativa”, considerando que
um código se aplica não só aos jornalistas, mas a todos os usuários. Uma ética
aberta permite também maior envolvimento nas discussões, participação efetiva e
revisão/determinação de conteúdos, por exemplo. Éticas profissionais tendem a
ser mais fechadas e o jornalismo em particular erigiu suas barreiras com sua
doutrina de autonomia e objetividade, lembram Ward e Wasserman. As recentes
mudanças na ecologia midiática têm provocado transformações também na ética do
setor. “Novos meios baseados nos cidadãos estão remodelando a ética na mídia,
com o potencial de criar um discurso ético global, mais inclusivo e
participativo (2010: 281).
Os autores reconhecem que se
trata de uma tarefa complexa alcançar um nível mais aberto e global para a
ética midiática. Para fazê-lo, é preciso mais hospitalidade – para que haja
participação efetiva no processo -, sinceridade, tolerância, respeito e auto-
-reflexão. Deve-se buscar a verdade e alimentar um sentido que transcenda
fronteiras sociais, materiais e nacionais.
Um caminho seguro pode estar na
educação, no ensino de ética jornalística para os amadores. Quem sinaliza essa
direção é a professora Jan Leach, para quem “os jornalistas não serão - nem
devem ser - os únicos a levantarem questões éticas e descobrirem um lugar no
território digital para os padrões de credibilidade dos conteúdos” (2009: 44).
Segundo explica, tais questionamentos serão resultantes das “exigências e
possibilidades deste novo ambiente de mídia que agora abraça o engajamento
social como uma função essencial” (p. 42).
A autora sinaliza aspectos onde
se percebe desconexão entre as práticas jornalísticas e as emergentes nas
mídias digitais/sociais: autenticação de fontes de informação, especialmente
quando os dados são fornecidos anonimamente; garantia da fiabilidade dos
conteúdos publicados em sites/blogs hospedados em meios jornalísticos; dissolução
de conflitos de interesse; falta de fiscalização das práticas e/ou falta de
prestação de contas dos atos dos usuários. Tais lacunas sugerem a necessidade
de diretrizes éticas, afirma. Leach lembra Jay Rosen, que afirmou que o meio
digital é um sistema aberto. “Para praticantes digitais, o desafio será
encontrar formas para abraçar este sistema aberto, sem sacrificar o que for
preciso para manter a credibilidade. Aqui estão duas recomendações:
transparência e educação” (op.cit.: 44).
O primeiro conceito vem ganhando
cada vez mais espaço na agenda das sociedades complexas, principalmente no que
tange aos atos dos governos. Chamada de accountability, a demanda está baseada
em ações transparentes e públicas, e prestação de contas das tomadas de decisão
e resultados. Como a expectativa se espalha em todas as direções, o próprio
jornalismo vem sendo contagiado por ela, gerando palavras de ordem como a de
Jay Rosen, para quem “a transparência é a nova objetividade”.
A segunda recomendação de Jan
Leach – investir em educação – requer esforços conjuntos, planejamento,
perenidade de ações e boa dose de abertura por parte de organizações e
profissionais. Isto é, para uma efetiva educação para a mídia (de forma geral),
é necessário que empresas do setor e jornalistas estejam dispostos a abrir suas
caixas pretas e apresentar ao público como são produzidas as notícias, como
funcionam as redações, de que forma trabalham os profissionais, como a área se
relaciona com outros grupos de interesse e centros de poder. Tal abertura pode
contrariar interesses comerciais e corporativos. No que se refere a um nicho
específico de educação – aquela que abordaria conteúdos e saberes de uma ética
jornalística –, as mesmas dificuldades se apresentam, com alguns complicadores
específicos.
Se a ética jornalística se abrir,
como afirmam Ward e Wasserman, como esse processo será conduzido? Se antes
fechada num grupo profissional, já não era tão fácil buscar consensos para os
códigos de ética e para seguir orientações de conduta, imagine agora numa perspectiva
mais ampla, que contempla usuários que podem simplesmente não aderir aos mesmos
compromissos antes assumidos pelos jornalistas diante da expectativa da
sociedade. Neste sentido, engajamento ético é um primeiro impasse a ser
enfrentado. Como envolver usuários tão heterogêneos em um processo complexo e
conflitante que é o da discussão ética sobre a conduta pessoal e levá-los a
aceitar e assimilar um conjunto de valores que podem lhes parecer
não-familiares? O leitor mais atento pode responder de pronto: educação é o
caminho mais curto para aproximar esses contingentes distintos. Sim, mas é
necessário lembrar que o processo educativo é uma via de mão dupla, que envolve
ensino e aprendizagem, disposição de compartilhamento, reflexão crítica e de de
assimilação de saberes. Organizações e profissionais precisam estar dispostos a
abrir um arcabouço ético antes confinado; aos usuários cabe aceitar participar
desse jogo, inclusive aumentando sua participação na discussão e tomadas de
decisão sobre os valores mais relevantes e as práticas mais recomendadas e
aceitáveis.
De alguma forma, a meu ver, o
debate atualiza uma dicotomia externalizada na década de 1990 que contrapunha
dois modelos de produção de software. Raymond recorreu a uma metáfora para distingui-los:
catedral e bazar10. Segundo ele, o primeiro é mais fechado, próprio da
indústria e das grandes corporações que se dedicam a programar e escrever
códigos de computador. Suas equipes são restritas e o trabalho é feito segundo
uma lógica verticalizada, com cadeias de comando explícitas e diretrizes claras
a serem seguidas. Já o “bazar” funciona como um grande mercado de ideias, onde
se trabalha com equipes muito grandes, sem fronteiras geográficas ou
profissionais, sem cadeias de comando e de modo colaborativo. A lógica
cooperativa e porosa permite que a produção se mova a partir dos inputs dos
participantes, com decisões compartilhadas e responsabilidade plural. Seguindo
a metáfora de Raymond, Microsoft é catedral, Mozilla é bazar. O Internet Explorer
é um software-proprietário, resultado do modelo de produção catedral, enquanto
que seu concorrente, o navegador Firefox, é derivado de uma ação de bazar, à
base de desenvolvedores profissionais, amadores, diletantes...
A história recente mostra que usuários
dispersos e heterogêneos são capazes de se articular, discutir e definir bases
de condutas aceitáveis em web, na forma de netiquetas, por exemplo (cf.
Christofoletti, 2011). Mas ressalto que o caso do jornalismo reserva cuidados
adicionais, já que a prática afeta terceiros, incide em reputações de organizações
e pessoais, e também contribui para a formação do entendimento da realidade e
das ideias, conceitos e juízos que a compõem. Quer dizer: é maior a escala de
ação, e potenciais riscos e prejuízos.
As observadoras da ocupação da
Cisjordânia, os amadores que ajudam a compor a Mídia Ninja e os cidadãos
londrinos que “cobriram” os atentados em 2005 podem ter se ocupado de produzir
relatos jornalísticos ou parajornalísticos. Tecnologicamente, estavam munidos
de aparelhos que lhes permitissem fazê-los. Emocionalmente, estavam envolvidos
e dispostos a oferecer tais relatos. Mas estariam também eticamente engajados
para refletir sobre cuidados e dilemas derivados da ação jornalística? Esses
contingentes sentem necessidade desses cinturões morais para justificar suas
ações? Sentem que devem satisfações aos públicos e demais grupos de interesses
sobre tais ou quais escolhas e decisões?
Os questionamentos não cessam
neste artigo. Estamos todos em pleno processo de redefinição de bases sociais,
culturais e éticas neste novo ecossistema midiático. Os amadores fazem parte da
realidade atual e constituem um fenômeno irreversível. Nesses tempos em que se
discute a natureza do jornalismo e de quem pode ajudar a provê- -lo, é
essencial inserir mais uma indagação: Quem está disposto a discutir bases para
uma nova ética jornalística? Tal questão não será respondida apenas pelos
profissionais. Aliás, eles dependem também que os amadores participem dessa
discussão para, inclusive, redeterminar os limites de suas ações cotidianas.
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