A generalização da metáfora da internet como uma “grande
biblioteca” levou, por extensão, à compreensão dos grandes mecanismos de busca
como os guias __ os bibliotecários de referência invisíveis, por assim dizer __
que traçariam nossos caminhos rumo à informação pelos labirintos das estantes
virtuais do ciberespaço. Entre esses buscadores, o Google, criado em 1998,
tornou-se a referência hegemônica. Em estudo realizado entre estudantes de
pósgraduação de Ciências da Informação, constatou-se que, mesmo entre estes
especialistas, a utilização dos mecanismos básicos do Google era a estratégia
de busca mais utilizada 1 . Ou seja, no atual cenário da sociedade da
informação, o Google e seus congêneres cumprem o papel de guiar com precisão e
segurança os usuários às informações que eles necessitam, certo?
Errado. Ou um pouco mais complicado, pelo menos para Eli
Pariser, que procura demonstrar em seu livro O filtro invisível: o que a
internet está escondendo de você, como essa ideia é ilusória e, no limite,
potencialmente cerceadora das possibilidades de autonomia abertas pela
internet.
Um dos maiores méritos do livro é organizar uma série de
dados e informações dispersas sobre o funcionamento da internet e a história do
desenvolvimento de algumas das tecnologias das principais empresas que
construíram sua história. O outro mérito, não menos importante, é o de
desconstruir certos clichês sobre os benefícios da utilização das tecnologias
de informação e comunicação, ponderando sobre os pós e contras desses processos
e inferindo alguns dos riscos subjacentes.
Pariser retoma, nessa perspectiva, a história da construção
do Google e de seu algoritmo de busca, o PageRank, que se baseou no modelo de
citação acadêmico para aferir a “importância” das páginas da internet,
tornando-se posteriormente a inspiração de mecanismos semelhantes. O autor
também mostra como o Facebook trilhou um caminho similar, mas diverso, com o
seu EdgeRank: em lugar de examinar os indicadores de cliques para aferir o
gosto das pessoas, como o Google, o Facebook simplesmente perguntava a elas,
construindo uma classificação de afinidades a partir das interações ocorridas
no site. Juntamente com outras histórias semelhantes, a narrativa vai
ilustrando a tendência predominante no atual desenvolvimento da internet,
caracterizado pela personalização dos serviços baseada nos perfis dos usuários.
A partir daí, Pariser tenta desconstruir dois lugarescomuns acerca dessas
tecnologias e de suas aplicações na internet. De um lado, a ideia de que elas
eliminariam a intermediação, proporcionando uma experiência “direta” do usuário
com o universo da informação. De outro lado, a promessa de que elas
proporcionariam resultados mais “satisfatórios”, por estarem mais afinadas às
características de cada usuário.
O autor justifica o título do livro ao mostrar que as
mediações não apenas permanecem, como se multiplicam, graças aos “filtros
invisíveis” que são o cerne dos mecanismos de busca. Esse processo, segundo
ele, nos encerra numa “bolha de filtros”, bastante confortável, pois
aparentemente se baseia em nossos gostos e afinidades para realizar seu
trabalho. Entretanto, segundo Pariser, “por não escolhermos os critérios que os
sites usarão para filtrar os diversos assuntos, é fácil intuirmos que as
informações que nos chegam através de uma bolha de filtros sejam imparciais,
objetivas, verdadeiras”. O que ele demonstra, no decorrer do livro, é que essas
informações __ especialmente por se atrelarem aos interesses corporativos das
grandes empresas e à lógica de consumo do mundo contemporâneo __ não são
neutras: “na verdade, quando as vemos dentro da bolha, é quase impossível
conhecer seu grau de parcialidade.” São esses filtros invisíveis presentes nos
motores de busca que possibilitaram o surgimento da internet “personalizada”.
Pariser confessa que, como as demais pessoas, também gosta de
usar o Netflix, o Facebook e o Google, e que seus mecanismos e atalhos são
ferramentas preciosas para se conduzir na selva de informações que é a
internet. Entretanto, apesar de reconhecer as vantagens da internet
personalizada, sua preocupação reside no fato de que esse processo é invisível
para os usuários, e totalmente fora de controle: “a internet talvez saiba quem
somos, mas nós não sabemos quem ela pensa que somos, ou como está usando essas
informações”. A tecnologia que deveria nos proporcionar mais controle sobre
nossas vidas, aos poucos o está retirando. O autor cita, entre outros, Tim
Berners-Lee, criador da WWW, e o crítico cultural Lee Siegel para reforçar seus
argumentos. Este último sintetiza o problema com a seguinte frase: “o cliente
tem sempre razão, mas as pessoas não”. Como estes pensadores, Pariser
preocupa-se com fato de que um pequeno número de empresas norte-americanas
possa definir unilateralmente as formas pelas quais bilhões de pessoas venham a
trabalhar, se divertir, se comunicar e, no limite, compreender o mundo. Assim,
dedica a seção final de seu livro a refletir acerca de como pessoas, empresas,
grupos de cidadão e governos podem atuar para proteger o que ele entende serem
as premissas da internet: a conectividade radical, a liberdade de escolha, a
possibilidade de expressão e o controle por parte do usuário.
A maioria das pessoas sabe que a estrutura dos meios de
comunicação afeta profundamente o caráter das sociedades. O surgimento da
palavra impressa gerou transformações profundas não só na estrutura de
produção, difusão e preservação do conhecimento, como também gerou formas de
governo e de debate social bastante distintas das que teríamos se permanecêssemos
sob a égide do pergaminho. A internet é a mais recente revolução radical no
aparato comunicacional de nossas sociedades e, de quebra, nas formas possíveis
das pessoas conhecerem o mundo que as cerca. Ao analisar o processo de
personalização pelo qual passa a internet, fruto de uma mudança nos aparatos de
mediação da rede, Pariser nos brinda com elementos para refletir acerca das
relações entre tecnologia, cultura e sociedade. Nesse sentido, seu livro é uma
leitura particularmente estimulante para todos os profissionais da informação
__ até hoje os artífices clássicos da mediação __ refletirem acerca de seu
papel social e nos desafios relacionados com que são confrontados no mundo
contemporâneo.
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