sábado, 18 de abril de 2015

Internet: um olhar sobre os bastidores da rede

A generalização da metáfora da internet como uma “grande biblioteca” levou, por extensão, à compreensão dos grandes mecanismos de busca como os guias __ os bibliotecários de referência invisíveis, por assim dizer __ que traçariam nossos caminhos rumo à informação pelos labirintos das estantes virtuais do ciberespaço. Entre esses buscadores, o Google, criado em 1998, tornou-se a referência hegemônica. Em estudo realizado entre estudantes de pósgraduação de Ciências da Informação, constatou-se que, mesmo entre estes especialistas, a utilização dos mecanismos básicos do Google era a estratégia de busca mais utilizada 1 . Ou seja, no atual cenário da sociedade da informação, o Google e seus congêneres cumprem o papel de guiar com precisão e segurança os usuários às informações que eles necessitam, certo?

Errado. Ou um pouco mais complicado, pelo menos para Eli Pariser, que procura demonstrar em seu livro O filtro invisível: o que a internet está escondendo de você, como essa ideia é ilusória e, no limite, potencialmente cerceadora das possibilidades de autonomia abertas pela internet.

Um dos maiores méritos do livro é organizar uma série de dados e informações dispersas sobre o funcionamento da internet e a história do desenvolvimento de algumas das tecnologias das principais empresas que construíram sua história. O outro mérito, não menos importante, é o de desconstruir certos clichês sobre os benefícios da utilização das tecnologias de informação e comunicação, ponderando sobre os pós e contras desses processos e inferindo alguns dos riscos subjacentes.

Pariser retoma, nessa perspectiva, a história da construção do Google e de seu algoritmo de busca, o PageRank, que se baseou no modelo de citação acadêmico para aferir a “importância” das páginas da internet, tornando-se posteriormente a inspiração de mecanismos semelhantes. O autor também mostra como o Facebook trilhou um caminho similar, mas diverso, com o seu EdgeRank: em lugar de examinar os indicadores de cliques para aferir o gosto das pessoas, como o Google, o Facebook simplesmente perguntava a elas, construindo uma classificação de afinidades a partir das interações ocorridas no site. Juntamente com outras histórias semelhantes, a narrativa vai ilustrando a tendência predominante no atual desenvolvimento da internet, caracterizado pela personalização dos serviços baseada nos perfis dos usuários. A partir daí, Pariser tenta desconstruir dois lugarescomuns acerca dessas tecnologias e de suas aplicações na internet. De um lado, a ideia de que elas eliminariam a intermediação, proporcionando uma experiência “direta” do usuário com o universo da informação. De outro lado, a promessa de que elas proporcionariam resultados mais “satisfatórios”, por estarem mais afinadas às características de cada usuário.

O autor justifica o título do livro ao mostrar que as mediações não apenas permanecem, como se multiplicam, graças aos “filtros invisíveis” que são o cerne dos mecanismos de busca. Esse processo, segundo ele, nos encerra numa “bolha de filtros”, bastante confortável, pois aparentemente se baseia em nossos gostos e afinidades para realizar seu trabalho. Entretanto, segundo Pariser, “por não escolhermos os critérios que os sites usarão para filtrar os diversos assuntos, é fácil intuirmos que as informações que nos chegam através de uma bolha de filtros sejam imparciais, objetivas, verdadeiras”. O que ele demonstra, no decorrer do livro, é que essas informações __ especialmente por se atrelarem aos interesses corporativos das grandes empresas e à lógica de consumo do mundo contemporâneo __ não são neutras: “na verdade, quando as vemos dentro da bolha, é quase impossível conhecer seu grau de parcialidade.” São esses filtros invisíveis presentes nos motores de busca que possibilitaram o surgimento da internet “personalizada”.

Pariser confessa que, como as demais pessoas, também gosta de usar o Netflix, o Facebook e o Google, e que seus mecanismos e atalhos são ferramentas preciosas para se conduzir na selva de informações que é a internet. Entretanto, apesar de reconhecer as vantagens da internet personalizada, sua preocupação reside no fato de que esse processo é invisível para os usuários, e totalmente fora de controle: “a internet talvez saiba quem somos, mas nós não sabemos quem ela pensa que somos, ou como está usando essas informações”. A tecnologia que deveria nos proporcionar mais controle sobre nossas vidas, aos poucos o está retirando. O autor cita, entre outros, Tim Berners-Lee, criador da WWW, e o crítico cultural Lee Siegel para reforçar seus argumentos. Este último sintetiza o problema com a seguinte frase: “o cliente tem sempre razão, mas as pessoas não”. Como estes pensadores, Pariser preocupa-se com fato de que um pequeno número de empresas norte-americanas possa definir unilateralmente as formas pelas quais bilhões de pessoas venham a trabalhar, se divertir, se comunicar e, no limite, compreender o mundo. Assim, dedica a seção final de seu livro a refletir acerca de como pessoas, empresas, grupos de cidadão e governos podem atuar para proteger o que ele entende serem as premissas da internet: a conectividade radical, a liberdade de escolha, a possibilidade de expressão e o controle por parte do usuário.

A maioria das pessoas sabe que a estrutura dos meios de comunicação afeta profundamente o caráter das sociedades. O surgimento da palavra impressa gerou transformações profundas não só na estrutura de produção, difusão e preservação do conhecimento, como também gerou formas de governo e de debate social bastante distintas das que teríamos se permanecêssemos sob a égide do pergaminho. A internet é a mais recente revolução radical no aparato comunicacional de nossas sociedades e, de quebra, nas formas possíveis das pessoas conhecerem o mundo que as cerca. Ao analisar o processo de personalização pelo qual passa a internet, fruto de uma mudança nos aparatos de mediação da rede, Pariser nos brinda com elementos para refletir acerca das relações entre tecnologia, cultura e sociedade. Nesse sentido, seu livro é uma leitura particularmente estimulante para todos os profissionais da informação __ até hoje os artífices clássicos da mediação __ refletirem acerca de seu papel social e nos desafios relacionados com que são confrontados no mundo contemporâneo.


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