Apesar disso, pensadores do
jornalismo pós-industrial, como C.W. Anderson et al (2013) da Columbia
Univerty, avaliam que o cenário é propício para tentar fazer algo melhor com a
criação de uma nova instituição. Raras são empresas de comunicação que
incentivam a ruptura, espera mudanças e considera que nada está gravado em
pedras. O mesmo relatório evidencia o que parece óbvio: todo jornalista tem -
aliás, sempre teve - uma rede que para criá-la e mantê-la eficaz requer tato,
mas também a imposição de limites bem concretos. Exige tempo reflexão e
processo. Exige critério, até porque uma rede implica proximidade e o
jornalismo exige distância. Logo, garantir ambas é difícil. A discussão não
visa, em primeiro momento, a neutralidade do jornalismo. Mas o que C. W.
anderson et al (2013) ressalta é uma isenção, certo distanciamento dos fatos
que uma reportagem, por exemplo, pode não dar conta de manter, já que a
profundidade do acontecimento exige também aproximações. Em rede isso se torna
ainda mais difícil. O relatório exemplifica como as mídias sociais digitais se
propagam, gerando conteúdos e informações.
Todo indivíduo, assunto ou lugar
tem o potencial de contar com uma rede visível a seu redor. Diariamente,
serviços como Facebook, YouTube, Twitter, Orkut e Weibo publicam muito mais
conteúdo do que a produção somada da mídia profissional no mundo todo. Logo,
garimpar relacionamentos, conversas e história será cada vez mais importante
para a coleta de informações. A ferramenta de agregação storify e o projeto
irlandês de jornalismo Storyful, que vasculha a atividade em redes sociais para
buscar notícias e buscar fatos, são como agências de notícias sociais: garantem
mais proteção e filtro jornalístico do que as plataformas em sua base, sempre
tentando imprimir algum sentido a informações dispersas e não raro confusas
(ANDERSON et al, 2013, p. 48).
Conforme o relatório, à medida
que indivíduos, empresas e governos vão criando e soltando dados em volumes
cada vez maiores, vemos que disponibilidade e acessibilidade, no caso de dados,
são coisas distintas. Entender a natureza daquilo que conjuntos imensos de
dados oferecem, saber compor narrativas e tirar conclusões que deem sentido a informações
talvez falhas ou parciais, é um trabalho importante. Assim como precisa de
gente com um conhecimento de tecnologias da comunicação e ciência da
informação, o jornalismo precisa converter cientistas de dados e estatísticos
em competências centrais dentro de seu campo de atuação.
Eli pariser (2013) fala em
curadoria de conteúdo, aquele agente da internet, seja veículo ou internauta
que seleciona as informações e publicações disponíveis na rede e edita para
republicação renovada nas plataformas de difusão online. A ferramenta Storify,
citada pelo relatório, rastreia as manifestações na rede sobre determinado
assunto, hoje, comumente tratado como “tag” e converte em uma linha do tempo
com os principais links, mídias, sendo evidentemente eficaz para o jornalismo.
É possível verificar, ainda que superficialmente, sem explorar tanto, que a
utilização desse tipo de ferramentas permite aos webjornais a republicação
desses conteúdos, mas sem a devida informação da onde o encontrou. Ou seja, o veículo
insiste em tomar para si uma informação que está livre. Dou como exemplo a
publicação da notícia das inscrições para o Enem, que tem um Portal oficial de
informações, sobre o qual o webjornal não menciona. O veículo converte as
informações para seu espaço “oficial” para que o internauta tenha todas as
informações e ali navegue o maior tempo possível. São raros os webjornais que
fazem essa referência ao trabalho original, ao endereço oficial, embora seja
uma ação que amplia a informação ao internauta.
Em uma recente qualificação de
banca para as monografias em julho deste ano (2014), fui convidado a considerar
também o contrário: quando os buscadores e outras formas de mídia, nem sempre
noticiosas ou com produções próprias de notícias, também se apropriam dos
conteúdos produzidos por jornalistas. A Associação Nacional de Jornais (ANJ)
instituiu aos jornais que bloqueiem o conteúdo das buscas para que sejam
compradas pelos buscadores, assim como ocorre com a imprensa na França. Essa
reflexão permite vários direcionamentos, principalmente pensar na censura e o
acesso livre de conteúdo na internet, que pode estar se desenhando para ser
cerceado.
Essa forma de filtrar as
informações, notícias e conteúdos aos internautas/leitores sem citar nem mesmo
outros webjornais, algo inadmissível por esses veículos, quem dirá de outros
grupos ou conglomerados de comunicação, se configura, aparentemente, como uma
questão meramente comercial para não anunciar nenhum concorrente. São
resquícios da competição dos meios de comunicação inseridos em um ambiente
completamente projetado para compartilhamento e troca. O sistema capitalista
tenta dominar esse espaço online que tem outra configuração.
Convém observar que, para além
das ferramentas mencionadas capazes de auxiliar o jornalismo em uma
reconfiguração da apuração, forma narrativa e prática profissional, o
ciberespaço é uma plataforma altamente mutável e que ainda permitirá novos
avanços para o jornalismo. Os autores do relatório da Columbia University
entendem que a conversão da informação em estatísticas e sites especializados
em temas segmentados, em vez da velha reportagem, estão em conflitos com as
prioridades de muita redação. Tais avanços são verossímeis no atual percurso da
rede.
Embora a reportagem seja o pilar do jornalismo, o Homicide Watch mostra
que ferramentas de reportagem podem ser usadas das mais variadas formas. Um
banco de dados que converte cada detalhe apurado pelo repórter em informação
estruturada com o intuito de produzir mais conteúdo é um bom exemplo disso. Um
sistema de comentários que permite ao usuário destacar e filtrar observações
úteis é outro exemplo. Nem todo jornalista terá domínio de toda área de
trabalho. Por reconhecer a centralidade da reportagem, nossa atenção aqui se
concentra em recursos novos que já exigidos para um trabalho melhor de
reportagem, mas que ainda são escassos (ANDERSON et al, 2013, p. 48).
Cabe destacar, ainda, que a
participação no VII Simpósio Nacional da Associação Brasileira de Pesquisadores
em Cibercultura (ABCiber) em setembro de 2013 proporcionou novos
direcionamentos para o projeto de pesquisa e permitiu, diante dos debates nas
apresentações dos grupos de trabalhos, com a indicação de bibliografias, afinar
um recorte mais próximo ainda do jornalismo. Parte-se da provocação de Eli
Pariser (2012) ao constatar a existência da bolha dos filtros em seu livro “O
filtro invisível” para estabelecer o recorte de pesquisa entre as relações que
existem com os filtros de informações por algorítimo dos filtros realizados
pela edição de jornalistas em redações tradicionais e, inclusive, do
ciberjornalismo sob o alicerce da teoria jornalística do gatekeeper. O guardião
do portão surge no século XVIII com a reconfiguração industrial da produção da
notícia, com o jornalista estabelecendo quais as informações de interesse
público deveriam ser publicadas. Com a revolução virtual, esse portão ficou
livre para que o público leitor, em especial, o cibernauta, pudesse encontrar
outros assuntos, interesses e informações. O cenário atual da comunicação
multimidiática se caracteriza pela customização da internet por meio dos
algoritmos e de camadas mais profundas da rede, especialmente conhecidos como
robôs de busca, configura perfis de acordo com informações depositadas na rede,
formando uma bolha que cerca esse usuário de conteúdos que estejam dentro das
características definidas, não raro despercebida pelos cibernautas.
A teoria do gatekeeper, ou guardião
do portão, vem de encontro com o controle da informação e do acesso a dados. As
definições de notícia quando o jornalismo era o guardião da informações eram
pautadas em critérios noticiosos, éticos, linha editorial e ainda são mas quais
são os critérios estabelecidos para esse novo tipo de filtro e edição que a
própria bolha da internet cria? Em que medida a filtragem da internet interfere
na edição do conteúdo jornalístico? De que maneira o jornalismo é pautado e
editado por características de perfis/cibernautas? Novos critérios de
noticiabilidade estão atuando no ciberjornalismo com a repercussão em redes
sociais, por exemplo? Por que diálogos e interações em rede social acabam
virando manchetes? São estas algumas questões norteadoras para compreender e
estudar o recorte de pesquisa que confere essa transformação do gatekeeper no
jornalismo.
A preocupação é reforçada pelos
autores do relatório de pesquisa da Columbia University a respeito do
jornalismo pós-industrial. Anderson, Bill e Shirky traçam as principais
diferenças da circulação da notícia no jornalismo tradicional e a obtenção de
informações nas novas mídias:
O fato de que o público chega a notícias cada vez mais por meio de
links compartilhados em redes sociais, e não por agregadores de notícias tem
implicação para repórteres e editores. A ignorância geral sobre o modo como o
público consumia a informação não era um problema durante o reinado do modelo
industrial do jornalismo. Já no mundo fragmentado e solto de hoje, saber como o
público consome a informação, e se o que você escreve, grava ou fotografa chega
a quem deveria chegar, é algo crucial (ANDERSON, C.W. et al, 2013, p. 50)
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