sábado, 18 de abril de 2015

gatekeeper

Apesar disso, pensadores do jornalismo pós-industrial, como C.W. Anderson et al (2013) da Columbia Univerty, avaliam que o cenário é propício para tentar fazer algo melhor com a criação de uma nova instituição. Raras são empresas de comunicação que incentivam a ruptura, espera mudanças e considera que nada está gravado em pedras. O mesmo relatório evidencia o que parece óbvio: todo jornalista tem - aliás, sempre teve - uma rede que para criá-la e mantê-la eficaz requer tato, mas também a imposição de limites bem concretos. Exige tempo reflexão e processo. Exige critério, até porque uma rede implica proximidade e o jornalismo exige distância. Logo, garantir ambas é difícil. A discussão não visa, em primeiro momento, a neutralidade do jornalismo. Mas o que C. W. anderson et al (2013) ressalta é uma isenção, certo distanciamento dos fatos que uma reportagem, por exemplo, pode não dar conta de manter, já que a profundidade do acontecimento exige também aproximações. Em rede isso se torna ainda mais difícil. O relatório exemplifica como as mídias sociais digitais se propagam, gerando conteúdos e informações.
Todo indivíduo, assunto ou lugar tem o potencial de contar com uma rede visível a seu redor. Diariamente, serviços como Facebook, YouTube, Twitter, Orkut e Weibo publicam muito mais conteúdo do que a produção somada da mídia profissional no mundo todo. Logo, garimpar relacionamentos, conversas e história será cada vez mais importante para a coleta de informações. A ferramenta de agregação storify e o projeto irlandês de jornalismo Storyful, que vasculha a atividade em redes sociais para buscar notícias e buscar fatos, são como agências de notícias sociais: garantem mais proteção e filtro jornalístico do que as plataformas em sua base, sempre tentando imprimir algum sentido a informações dispersas e não raro confusas (ANDERSON et al, 2013, p. 48).
Conforme o relatório, à medida que indivíduos, empresas e governos vão criando e soltando dados em volumes cada vez maiores, vemos que disponibilidade e acessibilidade, no caso de dados, são coisas distintas. Entender a natureza daquilo que conjuntos imensos de dados oferecem, saber compor narrativas e tirar conclusões que deem sentido a informações talvez falhas ou parciais, é um trabalho importante. Assim como precisa de gente com um conhecimento de tecnologias da comunicação e ciência da informação, o jornalismo precisa converter cientistas de dados e estatísticos em competências centrais dentro de seu campo de atuação.
Eli pariser (2013) fala em curadoria de conteúdo, aquele agente da internet, seja veículo ou internauta que seleciona as informações e publicações disponíveis na rede e edita para republicação renovada nas plataformas de difusão online. A ferramenta Storify, citada pelo relatório, rastreia as manifestações na rede sobre determinado assunto, hoje, comumente tratado como “tag” e converte em uma linha do tempo com os principais links, mídias, sendo evidentemente eficaz para o jornalismo. É possível verificar, ainda que superficialmente, sem explorar tanto, que a utilização desse tipo de ferramentas permite aos webjornais a republicação desses conteúdos, mas sem a devida informação da onde o encontrou. Ou seja, o veículo insiste em tomar para si uma informação que está livre. Dou como exemplo a publicação da notícia das inscrições para o Enem, que tem um Portal oficial de informações, sobre o qual o webjornal não menciona. O veículo converte as informações para seu espaço “oficial” para que o internauta tenha todas as informações e ali navegue o maior tempo possível. São raros os webjornais que fazem essa referência ao trabalho original, ao endereço oficial, embora seja uma ação que amplia a informação ao internauta.
Em uma recente qualificação de banca para as monografias em julho deste ano (2014), fui convidado a considerar também o contrário: quando os buscadores e outras formas de mídia, nem sempre noticiosas ou com produções próprias de notícias, também se apropriam dos conteúdos produzidos por jornalistas. A Associação Nacional de Jornais (ANJ) instituiu aos jornais que bloqueiem o conteúdo das buscas para que sejam compradas pelos buscadores, assim como ocorre com a imprensa na França. Essa reflexão permite vários direcionamentos, principalmente pensar na censura e o acesso livre de conteúdo na internet, que pode estar se desenhando para ser cerceado.
Essa forma de filtrar as informações, notícias e conteúdos aos internautas/leitores sem citar nem mesmo outros webjornais, algo inadmissível por esses veículos, quem dirá de outros grupos ou conglomerados de comunicação, se configura, aparentemente, como uma questão meramente comercial para não anunciar nenhum concorrente. São resquícios da competição dos meios de comunicação inseridos em um ambiente completamente projetado para compartilhamento e troca. O sistema capitalista tenta dominar esse espaço online que tem outra configuração.
Convém observar que, para além das ferramentas mencionadas capazes de auxiliar o jornalismo em uma reconfiguração da apuração, forma narrativa e prática profissional, o ciberespaço é uma plataforma altamente mutável e que ainda permitirá novos avanços para o jornalismo. Os autores do relatório da Columbia University entendem que a conversão da informação em estatísticas e sites especializados em temas segmentados, em vez da velha reportagem, estão em conflitos com as prioridades de muita redação. Tais avanços são verossímeis no atual percurso da rede.

Embora a reportagem seja o pilar do jornalismo, o Homicide Watch mostra que ferramentas de reportagem podem ser usadas das mais variadas formas. Um banco de dados que converte cada detalhe apurado pelo repórter em informação estruturada com o intuito de produzir mais conteúdo é um bom exemplo disso. Um sistema de comentários que permite ao usuário destacar e filtrar observações úteis é outro exemplo. Nem todo jornalista terá domínio de toda área de trabalho. Por reconhecer a centralidade da reportagem, nossa atenção aqui se concentra em recursos novos que já exigidos para um trabalho melhor de reportagem, mas que ainda são escassos (ANDERSON et al, 2013, p. 48).

Cabe destacar, ainda, que a participação no VII Simpósio Nacional da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber) em setembro de 2013 proporcionou novos direcionamentos para o projeto de pesquisa e permitiu, diante dos debates nas apresentações dos grupos de trabalhos, com a indicação de bibliografias, afinar um recorte mais próximo ainda do jornalismo. Parte-se da provocação de Eli Pariser (2012) ao constatar a existência da bolha dos filtros em seu livro “O filtro invisível” para estabelecer o recorte de pesquisa entre as relações que existem com os filtros de informações por algorítimo dos filtros realizados pela edição de jornalistas em redações tradicionais e, inclusive, do ciberjornalismo sob o alicerce da teoria jornalística do gatekeeper. O guardião do portão surge no século XVIII com a reconfiguração industrial da produção da notícia, com o jornalista estabelecendo quais as informações de interesse público deveriam ser publicadas. Com a revolução virtual, esse portão ficou livre para que o público leitor, em especial, o cibernauta, pudesse encontrar outros assuntos, interesses e informações. O cenário atual da comunicação multimidiática se caracteriza pela customização da internet por meio dos algoritmos e de camadas mais profundas da rede, especialmente conhecidos como robôs de busca, configura perfis de acordo com informações depositadas na rede, formando uma bolha que cerca esse usuário de conteúdos que estejam dentro das características definidas, não raro despercebida pelos cibernautas.
A teoria do gatekeeper, ou guardião do portão, vem de encontro com o controle da informação e do acesso a dados. As definições de notícia quando o jornalismo era o guardião da informações eram pautadas em critérios noticiosos, éticos, linha editorial e ainda são mas quais são os critérios estabelecidos para esse novo tipo de filtro e edição que a própria bolha da internet cria? Em que medida a filtragem da internet interfere na edição do conteúdo jornalístico? De que maneira o jornalismo é pautado e editado por características de perfis/cibernautas? Novos critérios de noticiabilidade estão atuando no ciberjornalismo com a repercussão em redes sociais, por exemplo? Por que diálogos e interações em rede social acabam virando manchetes? São estas algumas questões norteadoras para compreender e estudar o recorte de pesquisa que confere essa transformação do gatekeeper no jornalismo.
A preocupação é reforçada pelos autores do relatório de pesquisa da Columbia University a respeito do jornalismo pós-industrial. Anderson, Bill e Shirky traçam as principais diferenças da circulação da notícia no jornalismo tradicional e a obtenção de informações nas novas mídias:

O fato de que o público chega a notícias cada vez mais por meio de links compartilhados em redes sociais, e não por agregadores de notícias tem implicação para repórteres e editores. A ignorância geral sobre o modo como o público consumia a informação não era um problema durante o reinado do modelo industrial do jornalismo. Já no mundo fragmentado e solto de hoje, saber como o público consome a informação, e se o que você escreve, grava ou fotografa chega a quem deveria chegar, é algo crucial (ANDERSON, C.W. et al, 2013, p. 50)


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