Francis Wolf (2005), para tratar
do poder das imagens midiáticas contemporâneas em criar uma ilusão de ordem
mítico-religiosa, análoga às ilusões pelas imagens sagradas - os ícones -
utiliza-se das noções de “opacidade” e “transparência” das imagens. A oposição
entre estes conceitos diz respeito ao quanto a imagem mostra-se a si mesma,
enquanto mediação, um produto humano dotado de traços de autoria e em condições
de produção específicas (opacidade). Ou, contrariamente, ao quanto procura
anular-se, tentando não deixar que sejam percebidos os traços do trabalho
humano, oferecendo a ilusão de ser ela mesma, o objeto representado
(transparência).
Para Woolf (2005), uma imagem é
aquilo que representa. Ela, de certa maneira, substitui um objeto ausente e,
por isso mesmo, não pode ser aquilo o que é por ela representado. “A imagem é a
relação necessária que a coisa aqui presente tem de remeter necessariamente à
coisa ausente (de vê-la, ou de pensá-la, de evocá-la). Uma imagem não é então
uma coisa, é uma relação com uma outra coisa”. (WOLF, 2005, p.21). Embora se
refira ao conceito de imagem no sentido específico de imagem visual, as
considerações de Woolf oferecem subsídios para uma interpretação mais
abrangente. Neste sentido, propõe-se que, nas páginas que se seguem, o termo
imagem seja tomado no sentido semiótico, abrangendo todas as formas narrativas
de que o homem se utiliza para representar os objetos e fenômenos do mundo.
Assim, temos, por exemplo, uma música como uma imagem sonora, da mesma maneira
que identificamos uma informação jornalística como uma imagem narrativa,
composta por imagens visuais e textuais - no caso do jornalismo impresso - e
também de sons - no caso do telejornalismo.
Há, para Wolf, três graus de
representação da imagem. Em primeiro lugar, as imagens podem representar o que
está “acidentalmente ausente” (WOLF, 2005, p.30). Ou seja, aquilo ou aquele que
apenas no momento está ausente mas que pode ou poderá ainda estar presente por
outras vezes. As imagens podem também representar o que está “substancialmente
ausente” (WOLF, 2005, p.30), aquilo que já esteve e que não estará mais
presente. É o caso das fotografias daqueles que já morreram e de lugares ou
paisagens que já não mais existem. Mas há ainda um terceiro grau de
representação das imagens, que consiste em representar o que está
“absolutamente ausente” (WOLF, 2005, p.31), ou seja, aquilo que nunca esteve
concretamente no mundo “por que é por essência ausente deste mundo: os do além,
e os seres sobrenaturais, transcendentes, os deuses, até mesmo o próprio Deus”
(2005, p.31). E é neste último grau de representação em que a ilusão imaginária
(WOLF, 2005) se manifesta
“No mais baixo grau, a imagem é o representante visível de uma outra
coisa visível, que apenas ocasionalmente é invisível. No mais alto grau, aquele
da representação divina, a imagem visível tem o poder de representar o
invisível - é a maior ambição da imagem (ou sua maior ilusão, conforme o ponto
de vista) (WOLF, 2005, p.31)”
Ocorre que, apesar de serem
provenientes do trabalho humano, as imagens sagradas são vistas por aqueles que
nelas investem suas crenças não como se a entidade divina estivesse nela
representada, mas sim substanciada. Ou melhor, pelos olhos dos crentes, a
imagem, objeto de devoção, não é produto humano, mas “emana (...) diretamente
daquilo que ela representa, o deus ou o santo, e não daquele que a fez”. (WOLF,
2005, p.33). A imagem sagrada, nesse sentido, embora seja produto humano, é
investida de uma aura divina na medida em que se atribui a ela a autoria do
próprio ser representado. Ele cita como exemplo deste processo diversas
culturas religiosas em que as últimas etapas de acabamento das imagens sagradas
são acompanhadas de rituais de consagração a partir das quais estas deixam de
ser simples artefatos inúteis para tornarem-se o próprio objeto de adoração.
Apesar de ter sido, durante todo o processo de produção, o responsável pela construção
da imagem, seu autor, o artesão perde tal autoria no momento do acabamento final
pois, a partir de então, a imagem passa a ser obra do próprio deus que ali se
apresenta.
Wolf ressalta, no entanto, que
essa ilusão imaginária não é exclusividade das imagens sagradas ou de cunho
religioso, podendo se fazer presente em qualquer tipo de imagem. O que engendra
tal ilusão, independente do suporte físico ou do tema ao qual a imagem se
refere é seu investimento na tentativa de tornar seu objeto referente presente
em sua representação. Dito de outra maneira, a “ilusão imaginária” é a
tentativa da imagem em não ser mais imagem, mas sim a própria coisa
representada; de ser transparente.
A ilusão não consiste, pois, em crer que as imagens confundem-se com a
realidade ou têm o poder de representar a realidade. Não. A ilusão criada pelas
imagens é a ilusão do fantasma ou do ícone. Ela não consiste de forma alguma em
atribuir às imagens aquilo que se atribui à própria realidade. É até exatamente
o contrário: ela consiste em atribuir à própria realidade o poder que é das
imagens, o poder de representar. A ilusão imaginária consiste em crer que a
realidade tem o poder de sua própria representação, em atribuir à realidade
ausente representada pela imagem o poder de se apresentar ela mesma em imagem.
É com ela (...) que nossa modernidade reatou. (WOLF, 2005, p.38).
Antes do surgimento da arte,
segundo Wolf, as imagens predominantes eram os ícones, imagens que, conforme
mencionado acima, tinham sua potência na ilusão imaginária de que eram a
própria divindade que se apresentava. A partir do século XIV, com o
Renascimento, um conjunto de fenômenos - dentre eles a “aparição do
representante” (WOLF, 2005, p.40), ou seja, a afirmação das marcas autorais nas
obras - mudou o estatuto das imagens. Desde então, na imagem estariam inscritos
não somente os traços de seu objeto referente, mas também os traços de seu
produtor e consequentemente de sua própria condição de imagem enquanto
representação. As imagens tornaram-se opacas. Neste sentido, não poderiam mais
causar a ilusão de que emanavam dos objetos nelas representados.
Os séculos XIX e XX, porém, foram
marcados pelo abandono, por parte da arte, de sua função de representar.
Abandono este, resultante principalmente do surgimento da fotografia, uma nova
técnica representativa capaz de reproduzir tão fielmente a realidade que acabou
colocando em dúvida, para diversas correntes artísticas da época, o valor das
imagens enquanto forma de representação. Separadas da arte, as funções
representativas das imagens foram deixadas a cargo das “técnicas automáticas de
reprodução, à pura reprodução mecanizada, à representação pela representação”.
(WOLF, 2005, p.43). Para Wolf, portanto, se a ilusão imaginária causada pelas
imagens sagradas devia-se à crença de que tais imagens não eram produtos do
trabalho humano, mas sim da própria divindade, o contexto contemporâneo, de
prevalência absoluta das imagens midiáticas parece apontar para uma situação
bastante semelhante. No mundo atual, ficamos diante das incontáveis imagens que
nos chegam todos os dias como se estivéssemos diante dos próprios fenômenos
representados por elas. Cremos que as técnicas de “captação” do real são meros
veículos pelos quais a realidade apresenta-se diante de nós.
Vilém Flusser (2005) também faz
da imagem fotográfica a metáfora pela qual investe sua análise sobre o momento
contemporâneo em que a técnica, fruto do pensamento conceitual e que visava
emancipar o homem dos domínios alucinatórios das imagens mágicas, torna-se, ela
mesma dispositivo de magicização da experiência. Se o pensamento conceitual,
inaugurado pela escrita linear, pretendia explicar o tempo do “eterno retorno”
presente nas imagens a partir do tempo vetorial das relações de causa e efeito,
“à medida em que a ciência vai combatendo ideologias, ela própria absorve
imagens e se ideologiza”. (FLUSSER, 2005, p.10).
As imagens, para o filósofo, são
objetos criados pelo homem e pelos quais ele age no mundo e passa a existir
nele, diferenciando-se dos demais elementos que compõe esse mundo. Essa
capacidade de abstrair duas das quatro dimensões dos fenômenos e recompô- las
em planos é denominada imaginação. Ocorre que, ao se confrontar com os
elementos dispostos nas superfícies planas, na tentativa de recompor as
dimensões abstraídas, o olhar é atraído por alguns elementos que se tornam
fontes preferenciais de significados e assim a observação estabelece relações
significativas. É nesta relação com o olhar que se encontra o caráter mágico
das imagens.
O tempo que circula e estabelece relações significativas é muito
específico: tempo da magia. Tempo diferente do linear, o qual estabelece
relações causais entre os eventos. No temo linear, o nascer do sol é a causa do
canto do galo; no circular, o canto do galo dá significado ao nascer do sol, e
este dá significado ao canto do galo. Em outros termos: no tempo da magia, um
elemento explica o outro, e este explica o primeiro. O significado das imagens
é o contexto mágico das relações reversíveis. (FLUSSER, 2005, p.8).
No entanto, as imagens criadas
para serem um elo entre o homem e o mundo tornamse um obstáculo entre eles,
fazendo com o homem não consiga mais decodificá-las. O homem passa a viver
magicamente, ou seja, em função das imagens. O “mundo vai sendo vivenciado como
conjunto de cenas. Tal inversão em função das imagens é idolatria”. (FLUSSER,
2005. p.9). Dessa forma, diz Flusser, da necessidade de combater a idolatria, surge
a escrita linear e com ela, o pensamento conceitual. Tratava-se de retirar os
elementos que compõem as imagens de sua disposição e reorganizá-los em linhas,
para que ao percorrê- los, um após o outro, a visão pudesse seguir uma
trajetória retilínea e não mais circular. Flusser, se refere a este processo
como “o método de rasgamento das imagens” (FLUSSER, 2005, p.9), que interrompe
o tempo da magia e inaugura um tempo processual. “Surgia assim a consciência
histórica, a consciência dirigida contra as imagens”. (FLUSSER, 2005, p.9).
Quando retira os elementos da superfície imagética, o homem passa a contar o
mundo, como ressalta Marcondes Filho: “O termo contar tem, de fato, esse duplo
sentido: ele enumera e ao mesmo tempo narra”. (MARCONDES FLIHO, 2006, p.433).
Mas, enquanto as imagens são
mediações entre o homem e os fenômenos do mundo, os textos, por sua vez, são
mediações entre o homem e as imagens. Ou seja, a função dos textos é explicar
imagens que explicam o mundo. Portanto, de acordo com Flusser, o pensamento
conceitual é ainda mais abstrato do que o pensamento imagético. Por isso é
capaz de criar textos inimagináveis, textos que não mais se referem a imagens
que se referem ao mundo. “O pensamento conceitual surge de um passo para aquém
das imagens, e não de um passo em direção ao mundo”. (FLUSSER, 2005, p.10). E,
como a diferença entre remédio e o veneno está apenas na dosagem, como se diz,
surge a textolatria e com ela a crise do pensamento explicativo, conceitual,
histórico. A partir do momento em que os textos perdem o vínculo com as
imagens, perdem também com o mundo, tornando-se conceitos vazios. É em
decorrência de tal situação que emergem as imagens técnicas, tanto como um
aprofundamento, quanto como uma tentativa de superação da crise do pensamento
conceitual.
Diferentemente das imagens
tradicionais, as imagens técnicas são imagens produzidas por aparelhos, que são
“produtos da técnica, que por sua vez, é texto científico aplicado”. (FLUSSER,
2005, 13). São, portanto, produzidas por conceitos e não mais por aquela
capacidade do homem de representar os fenômenos do mundo que o cercava nas
superfícies planas; capacidade de imaginação. Essa relação com o mundo é uma
diferença fundamental entre elas: as imagens tradicionais dizem respeito à experiência
(BENJAMIN, 1994) do homem no mundo. Conforme já foi dito, elas surgem da
necessidade do homem existir, diferenciando-se dos demais elementos naturais.
Já as imagens técnicas não guardam tal vínculo com o mundo, pois são produzidas
por textos, pelo pensamento conceitual. Para serem produzidas não precisam mais
do mundo, mas de conceitos sobre o mundo. É esta peculiaridade que confere a
tais imagens posição histórica e ontológica bastante diferente das imagens
tradicionais.
Historicamente, as imagens tradicionais são pré-históricas; as imagens
técnicas são pós-históricas. Ontologicamente, as imagens tradicionais imaginam
o mundo; as imagens técnicas imaginam textos que concebem imagens que imaginam
o mundo. (FLUSSER, 2005, p.13).
Essa diferença qualitativa das
imagens técnicas em relação às imagens tradicionais faz com que delas também
emane uma magia, mas de ordem diferente. A nova ilusão não é dada por um
retorno a uma condição ontológica anterior ao pensamento conceitual, mas sim
pelo próprio pensamento conceitual passando a ser vivido magicamente. Trata-se
de “feitiço abstrato” (FLUSSER, 2005, p.16). Toda a técnica contida nesse tipo
de imagem consiste em criar a ilusão de que os fenômenos do mundo têm o poder
de sua auto-representação. Somos, assim, levados a estabelecer entre estas
imagens e o mundo relações de “causa e efeito, de maneira que a imagem parece
não ser símbolo e não precisar de deciframento. Quem vê imagem técnica parece
ver seu significado, embora indiretamente”. (FLUSSER, 2005, p.14).
Tudo, atualmente, tende para as imagens técnicas, são elas a memória
eterna de todo empenho. Todo ato científico, artístico e político visa a
eternizar-se em imagem técnica, visa a ser fotografado, filmado, videoteipado.
Como a imagem técnica é a meta de todo ato, este deixa de ser histórico,
passando a ser um ritual de magia. Gesto eternamente reconstituível segundo o
programa. (FLUSSER, 2005, p18).
Narrativas mitológicas
Para Bird e Dardenne (1983) o
jornalismo é, assim como os mitos, um processo comunicativo pelo qual valores,
crenças e ideologias são culturalmente construídos e compartilhados. Segundo
eles, tal como na religião ou em outros processos sociais, a “narração
ritualista” das notícias funciona como um sistema simbólico onde são constantemente
experimentados os contornos culturais que conferem legitimidade a um “estar em
conjunto”.
O mito tranqüiliza ao oferecer-nos os contos que explicam fenómenos
desordenantes ou aterrorizantes e que ao mesmo tempo fornecem respostas
aceitáveis; o mito, não reflete necessariamente uma realidade objetiva, mas
antes constrói seu próprio mundo. (BIRD, DARDENNE, 1993, p. 266).
Bird e Dardenne (1993) apontam
dois tipos de notícias: as “estórias” e os “registros”. As notícias narradas
como “estórias” são aquelas nos quais os jornalistas se utilizam de diversos
recursos retóricos e marcas textuais que deixam passar ao leitor marcas mais
perceptíveis de sua existência. Nesse tipo de notícia a dimensão mitológica é
dado pelo ato de contar. Aproximando-se da tradição oral, as “estórias”
recontam uma “‘estória ideal’, um arquétipo” (BIRD, DARDENNE, 1993, p. 267) que
é recriado a cada nova narração em um processo vivo e dinâmico. Tal como nas
estórias infantis ou nos contos folclóricos, o relato adquire seu significado
pleno a partir da inscrição daquele que o realiza e de toda sua bagagem
cultural.
Como “registros”, por outro lado,
os autores denominam as notícias formatadas - ou padronizadas - pelos modelos e
manuais de redação. Neles, a estória em si não tem valor como relato unitário.
A relevância desse tipo de notícia não está no acontecimento e nem no ato de
contar como no caso das “estórias” mas sim em sua forma, na sua estrutura, que
é ela mesma a informação. Neste caso, o que importa é a constatação “de que
algo noticiável aconteceu” (BIRD, DARDENNE, 1993, p. 269).
A forma de pirâmide invertida, utilizando o lead, a atribuição
freqüente, etc., encontra-se ao máximo estilizadas nas notícias de acidentes,
crime, e outros relatos de rotina - o tipo de “estória” que “se escreve a si
própria” para os jornalistas experientes - mas utilizada em formas mais
elaboradas para muitas “notícias duras”. A característica mais notável deste
estilo é a de ser muito diferente da forma tradicional da “estória” (Scholes,
1982). O lead vem em primeiro lugar dispensando o suspense, enquanto a
explicação, mais do que o desenvolvimento ao longo da “estória”, pode seguir o
“resultado” dos acontecimentos descritos. (BIRD, DARDENNE, 1993, p.271).
Podemos perceber que, nas “estórias”
os mitos são retirados de uma base cultural comum, partilhada socialmente, e
reapresentados a essa mesma cultura pelo gesto autoral de um
narrador-jornalista (RESENDE, 2006), que inscreve em seus textos a leitura que
faz desses mitos a partir dos valores que constituem sua existência social. Já
nos “registros”, a tentativa de apagamento dos traços de sua enunciação em nome
da pretensão de objetividade e de imparcialidade, a partir da utilização de
formatos pré-estabelecidos, acaba por esvaziar os relatos de sua dimensão
social, pois nega, de certa maneira, a história que o construiu.
Em Mitologias (1993), Roland
Barthes realiza uma detalhada decomposição da estrutura semiológica das
narrativas míticas. Tratava-se, naquela ocasião, de uma reflexão acerca da
ascensão dos mitos burgueses no cotidiano da sociedade francesa, a partir da
análise de diversas narrativas midiáticas de sua época. Sua abordagem estava
centrada nos processos comunicacionais pelos quais a ideologia burguesa ia se
entranhando na cultura.
O ponto de partida dessa reflexão era, as mais das vezes, um sentimento
de impaciência frente ao “natural” com que a imprensa, a arte, o senso comum,
mascaram continuamente uma realidade que, pelo fato de ser aquela em que
vivemos, não deixa de ser por isso perfeitamente histórica: resumindo, sofria
por ver a todo momento confundidas, nos relatos de nossa atualidade, Natureza e
História, e queria recuperar na exposição decorativa do-que-é-óbvio, o abuso
ideológico que, na minha opinião, nele se dissimula (BARTHES, 1993, p.07).
Barthes afirma que “o mito é uma
fala (...) ele é um modo de significação, uma forma” (BARTHES, 1993, p.131).
Tudo o que existe e que pode ser apreendido pelo ato de comunicar está passível
de ser mitificado, desde que, para isso, seja apresentado por meio desta forma
de linguagem. Por isso, imagens, textos, discursos, são todos objetos da
análise mitológica. Para Barthes, no entanto, o mito é um sistema semiológico de
segunda ordem. Ele é uma fala que se apropria parcialmente de um sistema
semiológico que o antecede (sistema lingüístico), retirando dele seu sentido e
transformando-o em significante de seu sistema (sistema mítico).
(...) estou no cabeleireiro, dão-me um exemplar de Paris-Match. Na
capa, um jovem negro vestindo um uniforme francês faz a saudação militar, com
os olhos erguidos, fixos sem dúvida numa prega da bandeira tricolor. Isto é o
sentido da imagem. Mas, ingênuo ou não, bem vejo o que ele significa: que a
França é um grande Império, que todos os seus filhos, sem distinção de cor, a
servem fielmente sob a sua bandeira, e que não há melhor resposta para os
detratores de um pretenso colonialismo do que a dedicação deste preto servindo
os seus pretensos opressores (BARTHES, 1993, p.138).
Seguindo seu raciocínio
percebemos aqui dois sistemas lingüísticos compostos por significante,
significado e signo (que é o resultado da união dos dois primeiros termos e no
qual se alcança o sentido). Um primeiro sistema é dado pela imagem do negro,
que vestindo o uniforme faz a saudação militar. Esse sistema já é pleno de
sentido. Ele nos diz uma realidade acessível por nossos conhecimentos prévios,
por nossa memória. Há, porém, um segundo sistema (esse, mitológico) no qual o
negro vestindo um uniforme e fazendo uma saudação é apenas um primeiro termo.
Sendo que o significado, ou o segundo termo deste sistema, é “a França é um
grande Império” (BARTHES, 1993, p.138) etc. O que ocorre, neste caso, é que o
sistema mitológico apropria-se de uma imagem historicamente construída - a do
negro, tanto o indivíduo específico, com suas particularidades, quanto a dos
negros em geral e os mapas de significados no qual são socialmente investidos -
e, literalmente, a transforma em puro significante.
Neste processo ocorre um
verdadeiro esvaziamento do sentido (do primeiro sistema) pois, a princípio, não
há nada que nos diga que os negros - e todo o sistema simbólico que os envolve
- tenham razões históricas plausíveis para venerar a bandeira da França. Esse
signo, o da “imperialidade francesa”, só pode ser obtido ao se “colocar entre
parênteses a biografia do negro” (BARTHES, 1993, p.140). Vemos, contudo, que
este esvaziamento não retira da imagem do negro sua história. E nem poderia fazê-lo,
pois o mito precisa dela para se afirmar. O mito a pega emprestada para
introduzir seu conceito e, assim, a deforma. Enquanto significante do sistema
mítico, o sentido do sistema lingüístico (a imagem do negro fazendo a saudação)
é uma meia verdade, mas que adquiri novamente um outro sentido (a imperialidade
francesa) ao se investir do conceito, que carrega consigo também toda uma
bagagem simbólica anterior. Como ressalta Barthes, “o que se investe no
conceito é menos o real do que um certo conhecimento do real; passando do
sentido à forma, a imagem perde parte do seu saber: torna-se disponível para o
saber do conceito” (BARTHES, 1993, p.141). Temos, então, que o conceito do mito
é também histórico, embora, nele, apareça como natural. Ele é um valor (BARTHES,
1993). A “imperialidade francesa” não perde sua história, mas esta é
naturalizada pela elaboração de um sistema semiológico de segunda ordem
(mítico), no qual ela toma a forma de uma relação de causalidade
artificialmente construída entre o significante (o sentido do primeiro sistema)
e o significado (o conceito) do segundo.
Enquanto fala ou discurso, o mito
não é nem tanto uma mentira, nem uma verdade, mas uma afirmação que se basta a
si própria, uma constatação. Ele torna desnecessária uma boa parte do trabalho
da memória, pois sua lógica é avessa à explicação. Ao simplesmente constatar,
ao oferecer uma realidade pura e acabada, o mito põe para escanteio toda
consciência histórica e, junto com ela, a perspectiva dialética da construção
da realidade como processo social. A narrativa mitológica é, essencialmente,
uma narrativa a-histórica. Chegamos, portanto, à função do mito: “transformar
uma intenção histórica em natureza, uma contingência em eternidade” (BARTHES,
1993, p.162-163).
Para Barthes (1993) é essa
capacidade de mascarar as condições sociais de produção da realidade que faz
com que as narrativas midiáticas (mitológicas) sejam as formas discursivas mais
apropriadas para a legitimação da ideologia burguesa nas sociedades atuais. Por
meio delas a ideologia capitalista se naturaliza a tal ponto que passa a não
ser mais encarada como ideologia, mas como uma condição natural de existência.
“E do mesmo modo que a ideologia burguesa se define pela deserção do nome
burguês, o mito é constituído pela eliminação de qualidade histórica das
coisas: nele, as coisas perdem a lembrança de sua produção” (BARTHES, 1993,
p.163).
Narrativas jornalísticas e produção de sentidos
As narrativas jornalísticas
construídas por meio das técnicas textuais padronizadas - das quais o lead é o
exemplo mais evidente - pelos manuais de redação (programas), amparados pelo
discurso da objetividade, sob pretensão de funcionarem como janelas para o
mundo, parecem pertencer à essa categoria que Flusser chama de imagens técnicas.
Para Resende (2007), ao recorrer frequentemente às regras e estratégias de
objetivação preconizados pelos programas da “caixa preta” chamada Redação, o
campo jornalístico acaba, muitas vezes, contribuindo para a construção de um
mundo em que a complexidade dos fenômenos fica diminuída frente a aparente
capacidade explicativa dos textos que produzem.
O jornalismo, diz Resende (2004),
que tem a verdade por princípio epistemológico, foi desenvolvendo-se,
principalmente no percurso do século XX, sob uma matriz de pensamento
positivista para a qual a abordagem dos fenômenos pelo viés da quantificação
seria capaz de levar o homem para mais perto de uma “realidade essencial”.
Portanto, a utilização no campo jornalístico de normas e regras de construção
narrativa pré- determinadas surgem em nome de uma tentativa de aproximação do
homem com o mundo, de contar o mundo - nos dois sentidos que fala Marcondes
Filho. (2006)
Para Resende, ao tentar resolver
o problema da ambigüidade através de soluções técnicas, a prática jornalística
produz narrativas “enclausuradas” e simplificadoras. São textos das lógicas
(RESENDE, 2004), ou seja, textos compostos por uma estrutura formal externa que
se impõe sobre os conteúdos, um a priori que é aplicado pelos jornalistas como maneira
de enquadrar os fenômenos da realidade em formatos pré-determinados. Nesse
sentido, as técnicas textuais empunhadas pelos jornalistas, acreditando com
elas poderem domar a realidade, acabam domando-os, tal qual o programa inscrito
no interior do aparelho fotográfico faz com o fotógrafo que acredita poder
registrar fielmente o mundo.
O fotógrafo “escolhe“, dentre as categorias disponíveis, as que lhe
parecem mais convenientes. Neste sentido, o aparelho funciona em função da
intenção do fotógrafo. Mas sua ‘escolha’ é limitada pelo número de categorias
inscritas no aparelho: escolha programada [...] De maneira que o fotógrafo crê
que está escolhendo livremente. Na realidade, porém, o fotógrafo somente pode
fotografar o fotografável, isto é, o que está inscrito no aparelho. E para que
algo seja fotografável, deve ser transcodificado em cena. O fotógrafo não pode
fotografar processos. De maneira que o aparelho programa o fotógrafo para
transcodificar tudo em cena, para magicizar tudo. Em tal sentido, o fotógrafo
funciona, ao escolher sua caça, em função do aparelho”. (FLUSSER, 2005, p.31).
Contrapondo-se ao texto das
lógicas, Resende propõe uma perspectiva para o jornalismo voltada para uma
outra lógica: a lógica do texto. (RESENDE, 2004). Como fundamento de tal
perspectiva, encontra-se a idéia de que é no próprio texto, em sua estrutura
narrativa, e em sua relação com o conteúdo narrado, onde “as relações se
estabelecem”. (RESENDE, 2004, p.13). A perspectiva da lógica do texto aventa a
possibilidade de que os jornalistas façam-se presentes em suas construções
textuais, abrindo mão da tutela magicizante das regras manulescas em proveito
de narrativas mais ricas da dimensão humana do relato. Narrativas pelas quais o
ruído e a imperfeição presentes no ato de contar colocam o leitor perante uma
incômoda, e talvez por isso cada vez mais rara, percepção da complexidade do
mundo. Nestas narrativas de resistência (RESENDE, 2004), a ambigüidade não
seria um obstáculo a ser transposto, mas um componente inevitável e essencial à
produção de sentidos. Para ele, é a prática da formatação textual, controlada e
regida pela necessidade da assimilação imediata, o que faz com que as
narrativas jornalísticas, na maioria das vezes, sejam discursos que se encerram
em si mesmos.
Ele busca nas considerações de
Benjamin, sobre a ascensão do romance moderno como sendo o prenúncio da morte
das verdadeiras narrativas, a origem deste problema. Benjamin identifica a
difusão da informação como um dos principais indícios da crescente perda da
comunicabilidade da experiência
Cada manhã recebemos notícias de todo o mundo. E, no entanto, somos
pobres em histórias surpreendentes. A razão é que os fatos já nos chegam
acompanhados de explicações. Em outras palavras: quase nada do que acontece
está a serviço da narrativa, e quase tudo está a serviço da informação. Metade
da arte narrativa está em evitar explicações. (BENJAMIN, 1994, p. 203, grifos
nossos).
O que distingue a informação das
“verdadeiras narrativas” as quais Benjamin se refere, é que a informação
preocupa-se, justamente, em não deixar muito abertas, ao interlocutor, as
possibilidades de interpretação. Enquanto, do ponto de vista da produção de
sentidos, a narrativa tradicional se caracterizava por sua abertura, por seu
caráter inacabado, a forma comunicativa característica da sociedade burguesa -
a informação - destaca-se por sua necessidade de “verificação imediata. Sob tal
ótica, a aplicação das técnicas textuais especializadas podem ser vistas como
elementos limitadores de sentidos, se levarmos em consideração que elas, já de
antemão, “explicam”, oferecem os percursos interpretativos preferenciais pelos
quais pode passar o leitor. Paradoxalmente, quanto mais os jornalistas tentam
policiar seus discursos em nome da verdade mais dela eles se afastam, ao
produzirem narrativas vazias da dimensão da experiência daquele que narra,
modeladas por esquemas que não instigam no leitor a estranheza necessária para
que os signos possam produzir novos sentidos.
Julio Pinto (2008) introduz o
conceito de permediatividade ao esclarecer a diferença entre produção de
sentidos e produção de significados. Embora próximo ao conceito de
midiatização, já bem disseminado no campo, a permediatividade leva em
consideração a instabilidade dos processos comunicacionais, a sua tendência
para a dissipação, para o erro, para a não realização. Um sentido, escreve
Pinto, é um “ponto de fuga” (PINTO, 2008, p.84) pelo qual a linguagem escapa
das interpretações preferenciais e a partir daí cria novos percursos interpretativos,
novas significações. Para explicá-la melhor ele parte da metáfora proposta por
Umberto Eco segundo a qual “o significado estaria para o dicionário assim como
o sentido para a enciclopédia” (PINTO, 2008, p.82). O dicionário limita-se a
descrever os usos já estabelecidos dos vocábulos. Já a enciclopédia “tenta
imaginar os contextos em que os significados são produzidos, de forma a dar
subsídios para a futura interpretação de signos, (...) funciona como uma
instrução interpretativa” (PINTO, 2008, p.82). Ou seja, o significado consiste
em acepções de determinado vocábulo já socialmente sedimentadas, enquanto o
sentido, ao contrário, pode ser visto como um significado ainda não realizado.
O sentido seria, então, um significado que necessita de um contexto para
acontecer, é algo inacabado. É, por assim dizer, o significado em estado
latente. Na medida em que é completado, torna-se novamente significado.
Para Pinto (2008), no campo da
comunicação - principalmente no campo dos mídia - muitas vezes utiliza-se a
expressão produção de sentidos ao se tratar de determinados processos onde, na
verdade, não há mais do que produção de significados. Ocorre que no exercício
de algumas profissões, valores ligados à objetividade e eficiência instigam
determinadas práticas limitadoras dos sentidos. A necessidade permanente de
obtenção de metas e resultados impõe um fazer rotineiro e burocrático que pode
acabar negligenciando o potencial da linguagem enquanto instância mediadora de
sentidos, ou seja, de experiências. Embora Pinto estivesse tratando da
comunicação no contexto das organizações ao fazer estas considerações, não
seria oportuno aplicá-las também à prática do jornalismo?
Considerações finais
Vai nesse sentido, a preocupação
que vem orientando as reflexões de Resende ao indagar: “Podem os relatos do
cotidiano, no jornal, indicar percursos (...) ao invés de tão somente se
esforçar para mapear o nosso dia-a-dia?” (RESENDE, 2006, p.2). Dialogando com
as idéias de Michel de Certeau (2000), que distingue os relatos entre mapas e
percursos, Resende ressalta que o jornalismo tradicional tem, até hoje,
contribuído freqüentemente para um mapeamento do mundo. Em Certeau (2000), os
percursos designam os relatos do cotidiano ligados a uma prática, um fazer.
Eles não mostram coordenadas definidas, mas fornecem pistas por meio de marcas
deixadas nos terrenos por aqueles que os percorreram. Neles, a travessia é mais
relevante do que o ponto de chegada. E relevante também no sentido de que esse
atravessar significa sentir o relevo, transpô-lo. Os relatos do tipo percurso
falam de espaços e não de lugares. Ou seja, falam antes do movimento dos
sujeitos em seu empreendimento de habitar o mundo do que de um mundo habitado.
Eles são da ordem da ambigüidade, do não-acabamento, da abertura de sentido
Já os mapas dizem respeito aos
lugares. Eles participam de uma lógica conceitual, criadora das imagens
técnicas (FLUSSER, 2002) e predominam nas narrativas modernas amparadas na
crença de que a técnica e o tratamento objetivo do real são capazes de levar o
homem a uma suposta realidade essencial. O projeto de mapeamento do mundo, por
buscar objetividade, é avesso à ambigüidade. A indecisão do caminho a ser
tomado vai contra seu propósito; ele deve ser preciso. O mapa é, portanto, da
ordem dos significados.
Restringindo-se à tarefa de
mapear o mundo por meio de textos que buscam apresentar os fenômenos do mundo
de maneira imóvel, em quadros fechados, o jornalismo contemporâneo acaba,
muitas vezes, afirmando a existência de uma realidade absoluta e imutável,
sobre a qual não há sentidos a serem produzidos, mas apenas significados a
serem assimilados.
Tais relatos, tomados por uma crença de que o documento histórico seria
o próprio acontecimento e, portanto por um esforço de serem fiéis ao
acontecido, omitem os percursos, porque pensam o mundo como lugar de causas e
efeitos; eles fazem da história o discurso do morto (...) Sem reconhecerem que
a representação é faltosa em si mesma, eles fazem um mapeamento do passado,
reiterando a idéia de que sobre esse passado haveria um único sentido a ser
produzido. (RESENDE, 2006, p.2-3, grifos nossos).
Esta lógica, é aquela encontrada
tanto nas explicações de Woolf e Flusser, sobre a magia das imagens técnicas,
quanto nas de Barthes sobre o processo de ocultamento do caráter dialético dos
processos sociais nas narrativas mitológicas contemporâneas. Lógica de
apagamento do significante; de unir os significados aos referentes como se os
primeiros fossem dos últimos suas causas naturais. As inquietações de Resende a
respeito das narrativas jornalísticas enclausuradas, nesse sentido, parecem ter
a mesma origem das preocupações de Barthes ao confessar que “sofria por ver a
todo momento confundidas, nos relatos de nossa atualidade, Natureza e História”
(BARTHES, 1993, p.7).
As conseqüências desse processo
manifestam-se em diversas direções. No que tange a figuração de atores
coletivos nas mídias, e especificamente no jornalismo, suspeitamos que este
procedimento contribua para uma representação naturalizada das posições
sociais, mitificando estereótipos a partir da instauração, em suas narrativas,
de quadros estanques e auto-explicativos. De tal maneira que tais narrativas
acabam, por vezes, tendendo para construções figurativas de agentes sociais
encerradas em significados já cristalizados, e assim, oferecendo poucas
possibilidades para o dialogismo e para a produção de sentidos abertos e
plurais.
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