sábado, 18 de abril de 2015

gatekeeper

Apesar disso, pensadores do jornalismo pós-industrial, como C.W. Anderson et al (2013) da Columbia Univerty, avaliam que o cenário é propício para tentar fazer algo melhor com a criação de uma nova instituição. Raras são empresas de comunicação que incentivam a ruptura, espera mudanças e considera que nada está gravado em pedras. O mesmo relatório evidencia o que parece óbvio: todo jornalista tem - aliás, sempre teve - uma rede que para criá-la e mantê-la eficaz requer tato, mas também a imposição de limites bem concretos. Exige tempo reflexão e processo. Exige critério, até porque uma rede implica proximidade e o jornalismo exige distância. Logo, garantir ambas é difícil. A discussão não visa, em primeiro momento, a neutralidade do jornalismo. Mas o que C. W. anderson et al (2013) ressalta é uma isenção, certo distanciamento dos fatos que uma reportagem, por exemplo, pode não dar conta de manter, já que a profundidade do acontecimento exige também aproximações. Em rede isso se torna ainda mais difícil. O relatório exemplifica como as mídias sociais digitais se propagam, gerando conteúdos e informações.
Todo indivíduo, assunto ou lugar tem o potencial de contar com uma rede visível a seu redor. Diariamente, serviços como Facebook, YouTube, Twitter, Orkut e Weibo publicam muito mais conteúdo do que a produção somada da mídia profissional no mundo todo. Logo, garimpar relacionamentos, conversas e história será cada vez mais importante para a coleta de informações. A ferramenta de agregação storify e o projeto irlandês de jornalismo Storyful, que vasculha a atividade em redes sociais para buscar notícias e buscar fatos, são como agências de notícias sociais: garantem mais proteção e filtro jornalístico do que as plataformas em sua base, sempre tentando imprimir algum sentido a informações dispersas e não raro confusas (ANDERSON et al, 2013, p. 48).
Conforme o relatório, à medida que indivíduos, empresas e governos vão criando e soltando dados em volumes cada vez maiores, vemos que disponibilidade e acessibilidade, no caso de dados, são coisas distintas. Entender a natureza daquilo que conjuntos imensos de dados oferecem, saber compor narrativas e tirar conclusões que deem sentido a informações talvez falhas ou parciais, é um trabalho importante. Assim como precisa de gente com um conhecimento de tecnologias da comunicação e ciência da informação, o jornalismo precisa converter cientistas de dados e estatísticos em competências centrais dentro de seu campo de atuação.
Eli pariser (2013) fala em curadoria de conteúdo, aquele agente da internet, seja veículo ou internauta que seleciona as informações e publicações disponíveis na rede e edita para republicação renovada nas plataformas de difusão online. A ferramenta Storify, citada pelo relatório, rastreia as manifestações na rede sobre determinado assunto, hoje, comumente tratado como “tag” e converte em uma linha do tempo com os principais links, mídias, sendo evidentemente eficaz para o jornalismo. É possível verificar, ainda que superficialmente, sem explorar tanto, que a utilização desse tipo de ferramentas permite aos webjornais a republicação desses conteúdos, mas sem a devida informação da onde o encontrou. Ou seja, o veículo insiste em tomar para si uma informação que está livre. Dou como exemplo a publicação da notícia das inscrições para o Enem, que tem um Portal oficial de informações, sobre o qual o webjornal não menciona. O veículo converte as informações para seu espaço “oficial” para que o internauta tenha todas as informações e ali navegue o maior tempo possível. São raros os webjornais que fazem essa referência ao trabalho original, ao endereço oficial, embora seja uma ação que amplia a informação ao internauta.
Em uma recente qualificação de banca para as monografias em julho deste ano (2014), fui convidado a considerar também o contrário: quando os buscadores e outras formas de mídia, nem sempre noticiosas ou com produções próprias de notícias, também se apropriam dos conteúdos produzidos por jornalistas. A Associação Nacional de Jornais (ANJ) instituiu aos jornais que bloqueiem o conteúdo das buscas para que sejam compradas pelos buscadores, assim como ocorre com a imprensa na França. Essa reflexão permite vários direcionamentos, principalmente pensar na censura e o acesso livre de conteúdo na internet, que pode estar se desenhando para ser cerceado.
Essa forma de filtrar as informações, notícias e conteúdos aos internautas/leitores sem citar nem mesmo outros webjornais, algo inadmissível por esses veículos, quem dirá de outros grupos ou conglomerados de comunicação, se configura, aparentemente, como uma questão meramente comercial para não anunciar nenhum concorrente. São resquícios da competição dos meios de comunicação inseridos em um ambiente completamente projetado para compartilhamento e troca. O sistema capitalista tenta dominar esse espaço online que tem outra configuração.
Convém observar que, para além das ferramentas mencionadas capazes de auxiliar o jornalismo em uma reconfiguração da apuração, forma narrativa e prática profissional, o ciberespaço é uma plataforma altamente mutável e que ainda permitirá novos avanços para o jornalismo. Os autores do relatório da Columbia University entendem que a conversão da informação em estatísticas e sites especializados em temas segmentados, em vez da velha reportagem, estão em conflitos com as prioridades de muita redação. Tais avanços são verossímeis no atual percurso da rede.

Embora a reportagem seja o pilar do jornalismo, o Homicide Watch mostra que ferramentas de reportagem podem ser usadas das mais variadas formas. Um banco de dados que converte cada detalhe apurado pelo repórter em informação estruturada com o intuito de produzir mais conteúdo é um bom exemplo disso. Um sistema de comentários que permite ao usuário destacar e filtrar observações úteis é outro exemplo. Nem todo jornalista terá domínio de toda área de trabalho. Por reconhecer a centralidade da reportagem, nossa atenção aqui se concentra em recursos novos que já exigidos para um trabalho melhor de reportagem, mas que ainda são escassos (ANDERSON et al, 2013, p. 48).

Cabe destacar, ainda, que a participação no VII Simpósio Nacional da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber) em setembro de 2013 proporcionou novos direcionamentos para o projeto de pesquisa e permitiu, diante dos debates nas apresentações dos grupos de trabalhos, com a indicação de bibliografias, afinar um recorte mais próximo ainda do jornalismo. Parte-se da provocação de Eli Pariser (2012) ao constatar a existência da bolha dos filtros em seu livro “O filtro invisível” para estabelecer o recorte de pesquisa entre as relações que existem com os filtros de informações por algorítimo dos filtros realizados pela edição de jornalistas em redações tradicionais e, inclusive, do ciberjornalismo sob o alicerce da teoria jornalística do gatekeeper. O guardião do portão surge no século XVIII com a reconfiguração industrial da produção da notícia, com o jornalista estabelecendo quais as informações de interesse público deveriam ser publicadas. Com a revolução virtual, esse portão ficou livre para que o público leitor, em especial, o cibernauta, pudesse encontrar outros assuntos, interesses e informações. O cenário atual da comunicação multimidiática se caracteriza pela customização da internet por meio dos algoritmos e de camadas mais profundas da rede, especialmente conhecidos como robôs de busca, configura perfis de acordo com informações depositadas na rede, formando uma bolha que cerca esse usuário de conteúdos que estejam dentro das características definidas, não raro despercebida pelos cibernautas.
A teoria do gatekeeper, ou guardião do portão, vem de encontro com o controle da informação e do acesso a dados. As definições de notícia quando o jornalismo era o guardião da informações eram pautadas em critérios noticiosos, éticos, linha editorial e ainda são mas quais são os critérios estabelecidos para esse novo tipo de filtro e edição que a própria bolha da internet cria? Em que medida a filtragem da internet interfere na edição do conteúdo jornalístico? De que maneira o jornalismo é pautado e editado por características de perfis/cibernautas? Novos critérios de noticiabilidade estão atuando no ciberjornalismo com a repercussão em redes sociais, por exemplo? Por que diálogos e interações em rede social acabam virando manchetes? São estas algumas questões norteadoras para compreender e estudar o recorte de pesquisa que confere essa transformação do gatekeeper no jornalismo.
A preocupação é reforçada pelos autores do relatório de pesquisa da Columbia University a respeito do jornalismo pós-industrial. Anderson, Bill e Shirky traçam as principais diferenças da circulação da notícia no jornalismo tradicional e a obtenção de informações nas novas mídias:

O fato de que o público chega a notícias cada vez mais por meio de links compartilhados em redes sociais, e não por agregadores de notícias tem implicação para repórteres e editores. A ignorância geral sobre o modo como o público consumia a informação não era um problema durante o reinado do modelo industrial do jornalismo. Já no mundo fragmentado e solto de hoje, saber como o público consome a informação, e se o que você escreve, grava ou fotografa chega a quem deveria chegar, é algo crucial (ANDERSON, C.W. et al, 2013, p. 50)


Ciberespaço: vigilância e apropriação de dado

Luis Gustavo Varela

A Web 2.0 torna-se um ambiente que sobrevive dos ideais de compartilhamento, de liberdade; a facilitação de acesso às informações, de transação de dados e a ideia de troca com o fim da propriedade intelectual. Nesse sentido, muitas empresas que operavam as mesmas funções por outros meios de comunicação que não fossem através do computador, viram na rede mais um espaço para se apropriar.

Logo, um espaço que é publico pode estar sendo desenhado para cercar territórios virtuais. A privacidade na rede é uma questão delicada, pois ao mesmo tempo que as informações e dados postados são de caráter pessoal, estão disponíveis para uma determinada rede de perfis que pode se apropriar, monitorar, visualizar. E, por um momento, pensamos na segurança desse sistema de compartilhamento, que se desenha na Web 2.0. Mas se nos privilegiarmos de segurança, teremos que abrir mão da liberdade da publicação de conteúdo, que vai totalmente contra os princípios e funcionalidades fundamentais da Internet. Afinal, aparenta-me uma reivindicação de lugares privados em um espaço que é e nasceu público.

Assim, Manuel Castells colabora na discussão ao evidenciar que a transformação da liberdade e da privacidade na internet é um resultado direto de sua comercialização. A necessidade de assegurar e identificar a comunicação na internet para ganhar dinheiro com ela, e a necessidade de proteger direitos de propriedade intelectual nela, levaram ao desenvolvimento de novas arquiteturas de software que permitem o controle da comunicação por computador. (CASTELLS, 2003, 140-1)

Dentro do contexto de produção de informações, controle de vigilância e como esse controle tem influenciado comercialmente irá determinar a maneira como o internauta interage na rede e definir o comportamento do algoritmo, que se torna dispositivo de controle e vigilância. Desta forma, o objetivo desse estudo propõe entender os mecanismos pelos quais os provedores de serviços na internet se apropriam das informações e dados publicados na rede para fins comerciais de personalização de produtos ofertados aos internautas em suas redes sociais.

Podemos discutir também como as redes sociais transformam a ideia do panóptico, criando situações onde não mais um vigia todos, mas onde todos vigiam todos. Dados pessoais servem para fins comerciais, por exemplo. E os internautas produzem essas informações sem ter consciência de que suas postagens podem servir para uma vigilância, seja de sua própria rede de amigos ou para uma rede corporativa que adquire serviços virtuais de servidores que fornecem dados com combinação de perfis.

Monitoramento de perfis e mapeamento de características

Se existem ordem e disciplina para não ser punido na sociedade comum das relações pessoais, na sociedade em rede não é diferente. Existe o “passo-a-passo”, por exemplo, pra o novo internauta fazer parte da rede. Primeiro, o indivíduo deve fornecer suas informações pessoais como nome, senhas, região, foto. Uma série dessas informações primeiras direcionarão os caminhos da navegação na rede. É uma forma de troca e um momento em que se sede para usufruir de um serviço gratuito. As conta no Facebook, por exemplo, ainda são consideradas legítimas, já que elas se constituem de uma seriedade nas informações, partindo do pressuposto de que os perfis são verdadeiros. Ou seja, minimamente, o perfil do internauta por trás da máquina se expõe como sujeito. Diferente do que acontece no Orkut, por exemplo, rede social onde é mais comum perfis falsos.

Até mesmo para se tornar um usuário dos serviços do Google essas informações são cruzadas. Por exemplo, ao enviar emails para os quais você cria uma lista breve de contatos para a mesma mensagem. Em um dado momento a discussão se encerra, por qualquer motivo. E, na criação de uma nova mensagem de email, se você citar um contato que estivesse naquela pequena lista, o Gmail (serviço de correio eletrônico do Google) te aconselha a considerar a inserção daquelas pessoas, sendo que, às vezes, é uma coisa específica para aquele contato.

O que se quer propor é que existe uma vigilância, mesmo que por parte de comandos algorítmicos, mas que acessa esses conteúdos e tem permissão legitimada para se apropriar deles. O acesso aos dados pessoais dos internautas facilitou o monitoramento dessas empresas para saber dos gostos de cada perfil. Seguindo o pensamento de Foucault, podemos tomar a rede social como um espaço, onde as divisões, se é que existem, são envidraçadas, permitindo o monitoramento do ambiente.

Fundamentação teórica: a adoção do panóptico foucaultiano

A revisão bibliográfica da obra Vigiar e Punir, de Foucault, pretende problematizar a ideia do Panóptico na estrutura das redes sociais, onde não mais um vigia a todos, mas onde todos vigiam a todos com muito mais artifícios do que os utilizados nos campos periféricos e torres do pensamento elaborado pelo autor.

À medida que o aparelho de produção se torna mais importante e mais complexo, à medida que aumentam o número de operários e a divisão do trabalho, as tarefas de controle se fazem mais necessárias e mais difíceis. Vigiar torna-se, então, uma função definida, mas deve fazer parte integrante do processo de produção; deve duplicá-lo em todo o seu comprimento. A vigilância torna-se um operador econômico decisivo, na medida em que é, ao mesmo tempo, uma peça interna no aparelho de produção e uma engrenagem específica do poder disciplinar (FOUCAULT, 2002, p. 146-7).

O poder disciplinar está em toda a parte e sempre alerta, pois em princípio não deixa nenhuma parte às escuras e controla continuamente os mesmos que estão encarregados de controlar; é absolutamente “discreto”, pois funciona permanentemente e em grande parte em silêncio (FOUCAULT, 2002, p. 148). Foucault exemplifica a definição da conduta ameaçada por punições:

“na oficina, na escola, no exército funciona como repressora toda uma micropenalidade do tempo (atrasos, ausências, interrupções das tarefas), da atividade, (desatenção, negligência, falta de zelo), dos discursos (tagarelice, insolência), do corpo (atitudes “incorretas”, gestos não conformes, sujeira), da sexualidade (imodéstia, indecência). Ao mesmo tempo é utilizada, a título de punição, toda uma série de processos sutis, que vão do castigo leve a privações ligeiras e a pequenas humilhações. Trata-se ao mesmo tempo de tornar penalizáveis as frações mais tênues da conduta, e de dar uma função punitiva aos aparelhos aparentemente indiferentes do aparelho disciplinar: levando ao extremo, que tudo possa servir para punir a mínima coisa; que cada indivíduo se encontre preso numa universalidade punível-punidora” (FOUCAULT, 2002, p. 149).

A forma como o autor propõe leva-nos a refletir que quando publicamos informações ou geramos conteúdo na rede, estamos cientes de que tais atividades virtuais podem gerar medidas punitivas. Isso pode ser identificado tanto em represálias da rede de contatos com a qual compartilho informações como do próprio sistema da rede, em suas camadas mais profundas, que podem bloquear as atividades por determinado tempo.

Diante disso, podemos nos apropriar da ideia de Foucault quando se adota o Panoptismo. Por isso, Bentham, citado por Foucault, colocou o princípio de que o poder devia ser visível e inverificável. Visível: sem cessar, o detento terá diante dos olhos a alta silhueta da torre central de onde é espionado. Inverificável: o detento nunca deve saber se está sendo observado; mas deve ter certeza de que sempre pode sê-lo. (...) O Panóptico é uma máquina de dissociar o par ver-ser visto: no anel periférico se é totalmente visto, sem nunca ver; na torre central vê-se tudo, sem nunca ser visto. O Panóptico é um lugar privilegiado por se tornar possível a experiência com homens, e para analisar com toda a certeza as transformações que se pode obter neles. O Panóptico pode até constituir-se em aparelho de controle sobre seus próprios mecanismos. (FOUCAULT, 2002, p. 167-9)

A disciplina de oficina, sem deixar de ser uma maneira de fazer respeitar os regulamentos e as autoridades, de impedir os roubos ou a dissipação, tende a fazer crescer as aptidões, as velocidades, os rendimentos e, portanto, os lucros; ele continua a moralizar as condutas, mas cada vez mais ela modela os comportamentos e faz os corpos entrar numa máquina, as forças numa economia. (FOUCAULT, 2002, p. 173-4)

Desta forma, a disciplina também está inserida no contexto do ciberespaço ao definir certos tipos de conduta dos usuários, ainda pouco esclarecidos sobre as penalidades da interação social em rede. Embora isso seja mais uma implicação para que ele promova seu próprio policiamento no que diz respeito a seus percursos na rede. O internauta sabe que está público ao divulgar, por exemplo: “Boa noite, Brasil”. Mesmo que ele não tenha uma lista superior a de mil conexões de perfis, esse número pode se expandir em progressão geométrica, sendo potencializado dependendo dos tipos de perfis que estão conectados à sua rede e da prolongação da interação e exposição da mensagem. O que, certamente, não representa um país inteiro visualizando a mensagem, mas dá o tom de que os perfis se percebem projetados publicamente.

Interação nas redes: a vigilância desejada

Partimos do princípio que a vigilância é esperada pelos internautas. Uma vez que a produção de conteúdos é pensada em atingir determinado público na rede e obter determinada “audiência”.

Existe, portanto, uma racionalidade em se expor que talvez não calcule certas consequências que estão por trás desse monitoramento e vigilância que se apropria de conteúdos para estabelecer características de perfis. Existe, por parte do internauta criador de conteúdos e fornecedor de informações, um desejo em ser vigiado

Conseguimos enxergar, com a leitura de Manuel Castells, o surgimento de uma sociedade em rede que também possui suas normas de conduta, mecanismos de vigilância e métodos de punição que são ostensivamente utilizados para alavancar mercadologicamente os produtos designados para determinados perfis na rede.

Questionamos, por exemplo, a maneira como se configura a time line de um perfil no Facebook. Temos as opções da conta nos dois lados do menu, a linha de informações e ao seu lado sugestões de compras, lojas, marcas. E, o mais interessante, os anúncios são sempre personalizados de acordo com cada perfil. Ou seja, são raras as ofertas pelas quais o perfil não se interesse. Uma coisa é eu sair para procurar as ofertas e/ou anúncios. Outra é receber, sem que se peça, na time line

A preocupação em se expor nem sempre é medida no ato diário da interação na rede social. O que nos chama a atenção é que deva existir uma porção da rede com a qual o internauta se relaciona diretamente, mas que, ao mesmo tempo, esse perfil não enxergue outras camadas mais profundas da rede que tem livre apropriação dessas informações para fins comerciais.

Isso nos leva a duas possíveis reflexões: i) existe uma naturalização com a interface, por parte do internauta, que acham comum que os gostos sugeridos se personifiquem em anúncios, ou; ii) o internauta pensa essa interface como uma perversidade de mecanismos mais profundos da rede.

Conforme já evidencia Castells, aplicações de software podem ser superpostas em camadas e protocolos da internet, tornando possível identificar rotas de comunicação e conteúdo. Com o uso dessas tecnologias, é possível violar a privacidade, e uma vez que se torna possível relacionar indivíduos com processos específicos de comunicação em contextos institucionais específicos, todas as formas tradicionais de controle político e organizacional podem ser lançados sobre o indivíduo em rede.

Manuel Castells explica o que acontece nas camadas mais profundas da rede:

“as tecnologias de identificação incluem o uso de senhas, “cookies” e procedimento de autenticação. Os “cookies” são marcadores digitais automaticamente inseridos por websites nos discos rígidos computadores que se conectam com eles. Uma vez que um cookie foi inserido num computador, este passa a ter todos os seus movimentos online automaticamente registrado pelo servidor do website que fez a inserção. Procedimentos de autenticação usam assinaturas digitais para permitir que outros computadores verifiquem a origem e as características dos correspondentes que interagem com eles. Baseiam-se frequentemente em tecnologia de criptografia. A autenticação opera muitas vezes em camadas, com usuários individuais sendo identificados por servidores que são eles próprios identificados por redes. Um dos primeiros exemplos de protocolos de segurança na internet foi a „camada de soquetes segura‟ (SSL, de Secure Socket Layer) introduzida pela Netscape” (CASTELLS, 2003, 141).

Uma vez que os dados são coletados em forma digital, todos os itens de informação contidos no banco de dados podem ser agregados, desagregados, combinados e identificados de acordo com o objetivo e o poder legal. Por vezes, trata-se simplesmente de fazer perfis agregados, como em pesquisa de mercado, seja para o comércio ou para a política. (CASTELLS, 2003, 142)

Essas tecnologias operam seus controles sob duas condições básicas. Primeiro, os controladores conhecem os códigos da rede, o controlado, não. O software é confidencial e patenteado, só podendo ser modificado por seu dono. Uma vez na rede, o usuário médio torna-se prisioneiro de uma arquitetura que não conhece. Segundo, os controles são exercidos com base num espaço definido na rede, por exemplo a rede em torno de um provedor de serviços da internet, ou a intra-rede de uma companhia, uma universidade ou uma agência governamental. Sim, a internet é uma rede global, mas os pontos de acesso a ela não o são. Se há filtros instalados nesse acesso, o preço da liberdade global é a submissão local (CASTELLS, 2003, 142). Mesmo assim, cabe a ressalva de não subestimar o internauta que, em muitos casos também pode saber operar sistemas e entender como funcionam as camadas de filtro e processamento de dados por trás da interface da internet.

Nos Estados Unidos, 92% dos websites coletam dados pessoais de seus usuários e os processam segundo seus interesses comerciais (Lessig, 1999, p.153 apud Castells, 2003, p.143) Contudo, valendo-me da afirmativa de Manuel Castells, o problema passa a ser, então, a troca de dados pelo privilégio de acesso aos serviços online. “A maioria das pessoas abre mão de seus direitos à privacidade para ter condições de usar a internet. Uma vez que se renunciou a esse direito à proteção da privacidade, os dados pessoais tornam-se propriedade legítima das firmas de internet e de seus clientes” (CASTELLS, 2003, 144). E, nesse sentido, é contraditório reivindicar uma privacidade num espaço que é público para o compartilhamento de dados. E, parece que nunca vamos nos equilibrar na linha tênue entre liberdade e segurança. Ora, quando desejo que haja segurança, estou cobrando vigilância dos conteúdos e informações. Mas a segurança que se tem é que ao invés das informações estarem sob posse de uns, estarão sob posse de outros. De qualquer forma, andamos desarmados. Se desejamos liberdade, também haverá a liberdade de visualizar conteúdos de terceiros, abrindo mão também da minha privacidade. Me lembra até uma opção de configuração de segurança da rede social nos tempos de Orkut: “para visualizar quem te procurou você deve permitir que terceiros também possam ver que perfis você acessou”.

A criação potencial de um sistema de vigilância está no horizonte. A ironia é que, em geral, foram as firmas da internet, de ideologia ardorosamente libertária, que forneceram a tecnologia para a quebra do anonimato e a redução da privacidade, e foram as primeiras usá-la. Assim fazendo, deixaram a vigilância do governo voltar a rugir com furor redobrado no espaço de liberdade que fora laboriosamente construído pelos pioneiros da internet, tirando proveito da indiferença ignorante das burocracias tradicionais. (CASTELLS, 2003, 145)

A comunicação continuará fluindo imperturbável porque essa é arquitetura da internet. Mas redefinir o espaço de acesso, através do controle dos provedores de serviços da internet e ao estabelecer protocolos especiais de vigilância dispostos em camadas sobre a internet para redes específicas, permite o exercício de controle (e da punição) ex post facto. A nova arquitetura da internet, o novo código, torna-se a ferramenta fundamental de controle, possibilitando o exercício da regulação e do policiamento por formas tradicionais do poder do Estado (CASTELLS, 2003, 147)

Identidade: construção de perfis e interações

O que aparece do sujeito é só uma parte. Mas é uma parte performática. O sujeito edita seus conteúdos para que as pessoas o vejam e compreendam de uma determinada maneira, a medida que o perfil se constrói. E isso vale para todo o tipo de relação social. As informações que eu compartilho nas páginas têm uma forma mais consciente, uma racionalidade de um conjunto de relações que eu estabeleço ali. A identidade precisa ser coerente, precisa ter coesão. Quando nos posicionamos ou nos caricaturamos de alguma maneira, isso não significa dizer que é assim só nas redes sociais. No monitoramento de perfis que englobam nossa rede social na internet, geralmente amigos, pessoas próximas, existe a curiosidade de acompanhar seus posicionamentos, posturas, postagens. Mas quando um determinado perfil compartilha conteúdos inesperados, que não são comuns aquele sujeito, a reação da rede que os liga é de estranhamento. Ou, no mínimo a cogitação de uma invasão no perfil.
A liberdade de expressão era a essência do direito à comunicação irrestrita na época em que a maior parte das atividades diárias não era relacionada à expressão na esfera pública. Mas em nosso tempo, uma proporção significativa da vida cotidiana, inclusive o trabalho, o lazer, a interação pessoal, tem lugar na rede. A maior parte da atividade econômica, social e política é de fato um híbrido de interação online e física. Em muitos casos, uma não pode existir sem a outra. Assim, viver num panóptico eletrônico equivale a ter metade das nossas vidas permanentemente expostas a monitoramento. Como vivemos existências compósitas, essa exposição pode nos levar a um eu esquizofrênico, dividido entre o que somos offline e a imagem que temos de nós mesmo online, que assim internaliza a censura (CASTELLS, 2003, 148).

Deste modo, as interações na rede online deixam de ser uma prática marcada pelo anonimato, como sugerem muitos autores. Sobre isto, Hermílio Santos argumenta que “embora as formas interativas mediadas pela internet pareçam ser propícias à tentativa de falsificação da identidade, seu sucesso é apenas parcial, uma vez que não é capaz de encobrir os elementos fundamentais caracterizadores da identidade, já que a interação no ciberespaço depende de uma habilidade bastante reveladora: a linguagem escrita” (SANTOS, 2005, p. 45). Portanto, ainda que os perfis estejam disfarçados sob um pseudônimo ou uma “falsa” identidade, ele é visto por um grupo mais ou menos delimitado que legitima sua prática e que compartilha com ele de um sistema de linguagem específico.

Por que as empresas de tecnologia da informação colaboram com tanto entusiasmo na reconstrução do velho mundo de controle e da repressão? Há duas razões principais, afora atitudes oportunistas ocasionais. A primeira que diz respeito sobretudo às firmas ponto.com, é que elas precisam quebrar a privacidade de seus clientes para poder vender os dados deles. A segunda é que elas precisam de apoio do governo para preservar seus direitos de propriedade na economia baseada na internet. (CASTELLS, 2003, 149)

Para impor essa proteção, o negócio da produção de informação precisa controlar o acesso e a identidade na internet, onde a maior parte da informação é distribuída. Assim, tem especial interesse em apoiar os esforços governamentais para restaurar o controle, construindo uma casa de vidro com base numa arquitetura de software controlado (CASTELLS, 2003, 150).

Espaço de troca ou ceder para ter: quando só uma parte sai ganhando

Para Eli Pariser, autor de O filtro invisível – o que a internet está escondendo de você, a preocupação além da vigilância está na personalização dos perfis e das buscas e a customização das informações de acordo com cada usuário. Pariser exemplifica a partir de navegações corriqueiras:

“A maior parte das pessoas imagina que, ao procurar um termo no Google, todos obtemos os mesmos resultados – aqueles que o PageRank, famoso algoritmo da companhia, classifica como mais relevantes, com base nos links feitos por outras páginas. No entanto, desde dezembro de 2009, isso já não é verdade. Agora, obtemos o resultado que o algoritmo do Google sugere ser melhor para cada usuário específico – e outra pessoa poderá encontrar resultados completamente diferentes. Em outras palavra, já não existe Google único. Se compartilharmos um artigo sobre culinária na ABC News, seremos perseguidos por toda a rede por anúncios de panelas revestidas de Teflon. Se abrirmos – por um mero instante – uma página que liste sinais para identificar se nosso conjugue está nos traindo, logo seremos assombrados por anúncios de testes de paternidade por DNA. A nova internet não só já sabe que você é um cachorro – ela conhece a sua raça e quer lhe vender um saco de ração premium" (PARISER, 2012, p.08-12).

Como explica Chris Palmer, da Electronic Frontier Foundation a Pariser: “Recebemos um serviço gratuito, e o custo são informações sobre nós mesmos. E o Google e o Facebook transformam essas informações em dinheiro de uma forma bastante direta”. Embora o Gmail e o Facebook sejam ferramentas úteis e gratuitas, também são mecanismos extremamente eficazes e vorazes de extração de dados, nos quais despejamos os detalhes mais íntimos de nossas vidas. O nosso belo iPhone novo sabe exatamente aonde estamos, para quem ligamos, o que lemos; com seu microfone, giroscópio e GPS embutidos, sabe se estamos caminhando, se estamos no carro ou numa festa. (PARISER, 2012, p.12)

Se analisarmos que a apropriação das informações que os internautas inserem na rede, sejam elas de conteúdos publicados, a fotos, endereços, pessoas ou compartilhamentos pode ser utilizada para fins comerciais de empresas que compram serviços da Google para ter acesso ao monitoramento, ou vigilância, vamos de encontro ao fator que desperta o interesse das empresas de produção. Por exemplo, uma empresa quer vender seus produtos e não pagar para anunciá-los em grandes veículos de mídia que chegam até as massas. A internet é um meio que as empresas conseguiram para falar diretamente com o cliente, sem que haja a mediatização de um veículo, ou a intermediação.

Compartilhando do pensamento de Chris Anderson, desde 2000 existe um enfraquecimento do monopólio de produtos que vendem muito no grande mercado. Esses são os chamados “hits” que irão disputar o mercado do século XXI com milhares de produtos de nicho. Se já não interessa às empresas que vendem produtos de massa investir em um veículo para anunciar sua marca, imagina para as empresas de produtos segmentados. E é, desde então, que o jornalismo vem perdendo seu principal financiamento. As empresas criam sites, fan pages, aplicativos, contratam jornalistas e essas medidas, possibilitadas pelas benesses da internet, impactam em uma nova reformulação de financiamento do jornalismo. Seja ele ainda por meio impresso e, agora, pelo digital. Claro que as pessoas não abrem mão das informações noticiadas pela imprensa, mas exigem, cada vez mais, o acesso gratuito às notícias

A fórmula dos gigantes da internet para essa estratégia de negócios é simples: quanto mais personalizadas forem suas ofertas de informação, mais anúncios eles conseguirão vender e maior será a chance de que você compre os produtos oferecidos. E a fórmula funciona. A Amazon vende bilhões de dólares em produtos prevendo o que cada cliente procura e colocando esses produtos na página principal de sua loja virtual. Até 60% dos filmes alugados pela Netflix vêm de palpites personalizados feitos pelo site sobre as preferências dos clientes – a esta altura, a Netflix consegue prever o quanto iremos gostar de certo filme com margem de erro de aproximadamente meia estrela. A personalização é uma estratégia fundamental para os cinco maiores sites da internet – Yahoo, Google, Facebook, YouTube e Microsoft Live – e também para muitos outros. (PARISER, 2012, p.13)

O vice-presidente do Yahoo, Tapan Bhat, em declaração a Pariser, afirma que o futuro da internet é a personalização. O Google Instant, funcionalidade lançada no outono de 2010, que adivinha o que estamos procurando enquanto digitamos, é apenas o começo. O presidente do Google, Eric Schmidt, acredita que o que os clientes esperam do Google é que o site lhes diga o que deverão fazer a seguir.

Talvez, os internautas também já percebam essa perseguição de seus passos na rede, ao sempre se deparar com ofertas ou promoções de gostos pessoais que, antes, nunca foram anunciados. Talvez os usuários dos serviços gratuitos já se atentem para uma possível perversidade da rede por parte dessa apropriação de dados. Eli Pariser aponta algumas consequências:

“Na melhor das hipóteses, se uma empresa souber que artigos você lê ou que ânimo está, poderá apresentar anúncios relacionados aos seus interesses. Na pior, poderá tomar decisões que afetem negativamente a sua vida. Se você visitar uma página para mochileiros sobre viagens em países de terceiro mundo, uma companhia de seguros que tenha acesso ao seu histórico online poderá decidir aumentar a sua franquia, como sugere o professor de direito Jonathan Zittrain a Pariser” (PARISER, 2012, p.20).

Considerações finais e apontamentos para estudos futuros

Contudo, as reflexões levantadas nessa produção nos munem de mais entendimento sobre como se configuram a troca de informações e, nesse sentido, revelam uma aproximação com a prática do jornalismo. Em que essas informações e dados podem contribuir para a transformação das apurações e produções de notícias e como o profissional repórter deve se comportar no ciberespaço. Mesmo com a cogitação de que o sistema de vigilância e apropriação de dados na rede seja perverso, ainda assim não conseguimos medir sua real interferência, tanto benéfica quanto prejudicial na interação social online. Mas se a publicidade e propaganda e o marketing se aproveitam desse sistema, o questionamento proposto é de que maneira o jornalismo também pode se reconfigurar na forma em que obtém informações por meio desse novo canal de interação, tornando-se um sistema de monitoramento que auxilia a apuração jornalística e possibilita novos métodos para o exercício da profissão. Um estudo levantado pela Columbia University e publicado na edição especial da Revista ESPM Jornalismo (mai/2013), e escrito por C. W. Anderson, Emily Bell e Clay Shirky aponta reflexões sobre o jornalismo pós-industrial.

O relatório aponta que a máquina é capaz de garimpar com rapidez grandes volumes de dados melhor que o homem. A automação de processos e conteúdos é o território mais subaproveitado para derrubar o custo do jornalismo e melhorar a produção editorial. E profetizam que no prazo de cinco a dez anos, teremos informações produzidas a baixo custo e monitoradas em redes de aparelhos sem fio. Vão servir para várias cosias – informar às pessoas qual o melhor momento de usar a água para evitar a poluição dos rios, por exemplo, ou quando atravessar a rua – e levantam questões de ética, posse e uso da informação.

Nesse sentido, as possibilidades infinitas abertas pela coleta de dados já permitem a empresas do setor de tecnologia, como por exemplo a Narrative Science, a automatização da produção de textos padronizados como resultados financeiros de empresas e resultados de competições esportivas.

Khris Hammond, diretor de tecnologia da empresa explica em entrevista à revista Wired que, no futuro, algo como 80% a 90% das matérias sejam geradas por algum algoritmo. As matérias poderão ser produzidas por máquinas à medida que mais dados de caráter local e pessoal forem sendo coletados e lançados na rede. Esse tipo de reportagem será viável sempre e quando houver dados disponíveis nesse formato digital. E sempre e quando não houver dados nesse formato, como em uma audiência pública realizada por algum poder da União, será preciso um repórter para registrar os dados.

Essa previsão pode ser consolidada já em nossa contemporaneidade por meio dos apontamentos de Eli Pariser quando destaca que a personalização está moldando os fluxos de informação muito além do Facebook, pois sites como o Yahoo Notícias ou o News.me – financiado pelo New York Times – estão passando a nos fornecer manchetes segundo nossos interesses e desejos pessoais. A personalização influencia os vídeos a que assistimos no YouTube e numa dúzia de concorrentes menores, além das postagens de blogs que acompanhamos. Podemos observar que não só matérias podem ser produzidas pelos filtros, mas como também a sua seleção editorial e definição de qual conteúdo é do interesse público personalizado.

No fim das contas, Pariser manifesta-se no sentido de que os defensores da personalização nos oferecem um mundo feito sob medida, adaptado à perfeição para cada um de nós.

Na verdade, somos aprisionados dentro de uma rede personificada que não nos permite conhecer outros gostos, acessar outros conteúdos. Aproprio-me do pensamento da socióloga Danah Boyd citada em Pariser quando menciona uma dieta de informações, não no sentido de que vamos acabar consumindo um conteúdo nada benéfico para nós mesmos e para a sociedade como um todo. Mas, sim, que deixamos de consumir esse conteúdo. É uma dieta que limita nosso acesso aos conteúdos, por exemplo, artigos em outras línguas. Nessas buscas, o idioma é filtrado e podemos deixar de obter conhecimentos mais avançados ou mais recentes porque os filtros atuam para nos trazer o que mais se enquadra ao perfil do internauta perseguindo seus passos na rede.

Como diz Pariser, se a Amazon pensar que estou interessado em livros de culinária, é pouco provável que me mostre livros de metalurgia. Com isso o ciberespaço se caracteriza ainda pelo ambiente de troca e compartilhamento, mesmo que surjam as tentativas de se demarcar territórios ou domínios tecnológicos. Nesse sentido, o jornalismo e as interações na rede se reconfiguram na tentativa de se fortalecerem na utilização dos recursos virtuais que hoje interferem na vida social, na forma de se comunicar, lançar dados na internet e receber informações

Ryan Calo, professor de Direito em Stanfor, disse a Pariser que toda a tecnologia tem uma interface, um ponto em que nós terminamos e a tecnologia começa. E quando a tecnologia passa a nos mostrar o mundo, acaba por se colocar entre nós e a realidade, como a lente de uma câmera. São muitas maneiras pelas quais ela pode deformar a nossa percepção do mundo. E é exatamente o que faz a bolha dos filtros.

Os filtros impedem que nossas ideias se confrontem com outras opiniões e conteúdos, por isso nos apresentam informações homogêneas com as quais o perfil se identifica, impedindo novas percepções e aprendizagens. Isso, em parte, iniciou com a navegação “logada” a um perfil, a um endereço de email, a um sistema de validação das características do usuário. Impedem até a inclusão de usuários à rede pessoal do perfil que não tenham contatos ou características em comum. Em uma reflexão mais distante, o que se percebe é uma ilusão ao acesso de conteúdos dos mais diversos e a concentração do perfil em um circuito vicioso que o mantém sempre no mesmo limite de acessos e contatos. A bolha dos filtros, como sugere Pariser, pode ser um caminho sem volta. E a internet se torna, a cada dia, um espaço onde os atores não são mais meros usuários e, sim, potenciais consumidores.



Internet: um olhar sobre os bastidores da rede

A generalização da metáfora da internet como uma “grande biblioteca” levou, por extensão, à compreensão dos grandes mecanismos de busca como os guias __ os bibliotecários de referência invisíveis, por assim dizer __ que traçariam nossos caminhos rumo à informação pelos labirintos das estantes virtuais do ciberespaço. Entre esses buscadores, o Google, criado em 1998, tornou-se a referência hegemônica. Em estudo realizado entre estudantes de pósgraduação de Ciências da Informação, constatou-se que, mesmo entre estes especialistas, a utilização dos mecanismos básicos do Google era a estratégia de busca mais utilizada 1 . Ou seja, no atual cenário da sociedade da informação, o Google e seus congêneres cumprem o papel de guiar com precisão e segurança os usuários às informações que eles necessitam, certo?

Errado. Ou um pouco mais complicado, pelo menos para Eli Pariser, que procura demonstrar em seu livro O filtro invisível: o que a internet está escondendo de você, como essa ideia é ilusória e, no limite, potencialmente cerceadora das possibilidades de autonomia abertas pela internet.

Um dos maiores méritos do livro é organizar uma série de dados e informações dispersas sobre o funcionamento da internet e a história do desenvolvimento de algumas das tecnologias das principais empresas que construíram sua história. O outro mérito, não menos importante, é o de desconstruir certos clichês sobre os benefícios da utilização das tecnologias de informação e comunicação, ponderando sobre os pós e contras desses processos e inferindo alguns dos riscos subjacentes.

Pariser retoma, nessa perspectiva, a história da construção do Google e de seu algoritmo de busca, o PageRank, que se baseou no modelo de citação acadêmico para aferir a “importância” das páginas da internet, tornando-se posteriormente a inspiração de mecanismos semelhantes. O autor também mostra como o Facebook trilhou um caminho similar, mas diverso, com o seu EdgeRank: em lugar de examinar os indicadores de cliques para aferir o gosto das pessoas, como o Google, o Facebook simplesmente perguntava a elas, construindo uma classificação de afinidades a partir das interações ocorridas no site. Juntamente com outras histórias semelhantes, a narrativa vai ilustrando a tendência predominante no atual desenvolvimento da internet, caracterizado pela personalização dos serviços baseada nos perfis dos usuários. A partir daí, Pariser tenta desconstruir dois lugarescomuns acerca dessas tecnologias e de suas aplicações na internet. De um lado, a ideia de que elas eliminariam a intermediação, proporcionando uma experiência “direta” do usuário com o universo da informação. De outro lado, a promessa de que elas proporcionariam resultados mais “satisfatórios”, por estarem mais afinadas às características de cada usuário.

O autor justifica o título do livro ao mostrar que as mediações não apenas permanecem, como se multiplicam, graças aos “filtros invisíveis” que são o cerne dos mecanismos de busca. Esse processo, segundo ele, nos encerra numa “bolha de filtros”, bastante confortável, pois aparentemente se baseia em nossos gostos e afinidades para realizar seu trabalho. Entretanto, segundo Pariser, “por não escolhermos os critérios que os sites usarão para filtrar os diversos assuntos, é fácil intuirmos que as informações que nos chegam através de uma bolha de filtros sejam imparciais, objetivas, verdadeiras”. O que ele demonstra, no decorrer do livro, é que essas informações __ especialmente por se atrelarem aos interesses corporativos das grandes empresas e à lógica de consumo do mundo contemporâneo __ não são neutras: “na verdade, quando as vemos dentro da bolha, é quase impossível conhecer seu grau de parcialidade.” São esses filtros invisíveis presentes nos motores de busca que possibilitaram o surgimento da internet “personalizada”.

Pariser confessa que, como as demais pessoas, também gosta de usar o Netflix, o Facebook e o Google, e que seus mecanismos e atalhos são ferramentas preciosas para se conduzir na selva de informações que é a internet. Entretanto, apesar de reconhecer as vantagens da internet personalizada, sua preocupação reside no fato de que esse processo é invisível para os usuários, e totalmente fora de controle: “a internet talvez saiba quem somos, mas nós não sabemos quem ela pensa que somos, ou como está usando essas informações”. A tecnologia que deveria nos proporcionar mais controle sobre nossas vidas, aos poucos o está retirando. O autor cita, entre outros, Tim Berners-Lee, criador da WWW, e o crítico cultural Lee Siegel para reforçar seus argumentos. Este último sintetiza o problema com a seguinte frase: “o cliente tem sempre razão, mas as pessoas não”. Como estes pensadores, Pariser preocupa-se com fato de que um pequeno número de empresas norte-americanas possa definir unilateralmente as formas pelas quais bilhões de pessoas venham a trabalhar, se divertir, se comunicar e, no limite, compreender o mundo. Assim, dedica a seção final de seu livro a refletir acerca de como pessoas, empresas, grupos de cidadão e governos podem atuar para proteger o que ele entende serem as premissas da internet: a conectividade radical, a liberdade de escolha, a possibilidade de expressão e o controle por parte do usuário.

A maioria das pessoas sabe que a estrutura dos meios de comunicação afeta profundamente o caráter das sociedades. O surgimento da palavra impressa gerou transformações profundas não só na estrutura de produção, difusão e preservação do conhecimento, como também gerou formas de governo e de debate social bastante distintas das que teríamos se permanecêssemos sob a égide do pergaminho. A internet é a mais recente revolução radical no aparato comunicacional de nossas sociedades e, de quebra, nas formas possíveis das pessoas conhecerem o mundo que as cerca. Ao analisar o processo de personalização pelo qual passa a internet, fruto de uma mudança nos aparatos de mediação da rede, Pariser nos brinda com elementos para refletir acerca das relações entre tecnologia, cultura e sociedade. Nesse sentido, seu livro é uma leitura particularmente estimulante para todos os profissionais da informação __ até hoje os artífices clássicos da mediação __ refletirem acerca de seu papel social e nos desafios relacionados com que são confrontados no mundo contemporâneo.


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Imagens Técnicas e Distopias: A Sociedade Programada no Pensamento de Vilém Flusser

Milton Pelegrini

O mundo das imagens técnicas é um não lugar. O vazio e a imaterialidade constituintes das não coisas desse mundo são parte de uma estrutura tornada visível apenas superficialmente, e como tal, não tem raízes. A pesquisa de Vilém Flusser acerca do mundo das “coisas” e das “não coisas” (Ding und Unding) aponta para uma mudança na configuração do conjunto da sociedade a partir do advento das tecnoimagens. Pode-se observar nelas a força atraente de sua presença mediática, a onipotência de seu centro e sua capacidade de fabricação dos receptores e dos “funcionários” dessas imagens. Parece tratar-se de um tipo novo de reprogramação do imaginário coletivo, mas de um modo totalmente diferente. Enquanto as utopias eram projetos coletivos que guiavam líderes e estes conduziam as sociedades para dar curso às esperanças de um futuro capaz de absorver todas as contradições da vida em grupo e/ou eliminar o sofrimento e a barbárie humanos (como o caso da utopia das sociedades industriais), o atual universo das imagens técnicas tende a produzir cenários distópicos, onde o totalitarismo programado guiará as ações pela propagação desenfreada das exposições de imagens mediáticas. Dizia Flusser que sendo a multiplicabilidade automática a característica principal das tecnoimagens, a condução para esta distopia não seria exercida por uma autoridade pois “nas imagens técnicas todas as decisões são tomadas automaticamente”, como resultantes de um consenso programado e fabricado em massa. Um frio diagnóstico sobre o fim de uma utopia e a imersão em novo projeto social com base nos ditames das entidades imateriais construídas para inundar o imaginário coletivo, ou seja, o mundo das imagens planificadas que torna-se hegemônico pela força da lógica do capital.

Considerando o entendimento de Vilém Flusser para definir a natureza funcional das tecnoimagens, pois são programáveis, pode-se supor que elas atuem sistematicamente no sentido de propagar um determinado tipo de logicidade, quase sempre com uma clara intenção de existência hegemônica. Assim, por toda parte as imagens técnicas surgem como entidades facilitadoras da compreensão provocando intencionalmente, como resultado, o convencimento coletivo.

A mídia é um agente concentrador da produção e propagação destas imagens técnicas, e pode incluir, em seu propósito, a fabricação de consensos, sejam eles fincados nos territórios movediços da memória passada, na história, ou nas vinculações com as memórias futuras, consolidadas coletivamente sob a nomenclatura de novos projetos para as sociedades.

Um notável exemplo dessa funcionalidade programática em larga escala é a observação da disputa eleitoral que ocorre periodicamente traduzida em imagens mediáticas pela Televisão (imagens audiovisuais), Jornais (imagens verbais-escritas), Rádio (imagens sonoras) e seus canais de distribuição em rede. Percebe-se que as imagens construídas propagam cenários de uma memória política pregressa da cena política que lastreia o presente, ao mesmo tempo em que planifica um futuro politicamente “desejável” para os candidatos (eles mesmos mais sintonizados, cada vez mais, com a mídia do que com a sociedade). Assim, candidatos e eleitores se constroem a partir dos modelos programados pelas tecnoimagens. Não é à toa que cresce o número de candidatos eleitos por sua própria imagem construída midiaticamente, tamanha é a força de atração imagética gerada pelos meios. São reflexos da mídia na construção das dinâmicas sociais em suas práxis políticas.

O papel das tecnoimagens no processo formador desses traços coletivos de apropriação da realidade é o objeto central da presente pesquisa, e para tanto, é preciso considerar a reunião dos fragmentos desta proto-tese, ou proto-teoria, que viria mais tarde consolidar Vilém Flusser como um pensador que incluiu a análise dos media, levando-se em conta elementos da cultura e incorporando a dimensão humana como elemento-chave para compreender como a lógica produtiva, o conceito de progresso, as maravilhas da industrialização, a lógica do consumo e a funcionalização do conhecimento escoaram pelos media, com um sentido único, crescente e cada vez mais veloz nos tecidos sociais.

A superficialidade das imagens técnicas, como observou Flusser em seu livro O Universo das Imagens Técnicas, traz implícita a lógica do imaterial, a lógica do capital como instrumento de submissão coletiva na imagem de um futuro a ser atingido pelo progresso tecnológico. Flusser chamava de “programas” que nos tornavam funcionários, ou funcionais, melhor dizendo, para manter a coerência com a ideia do funcionalismo dos meios de comunicação. Resulta, por isso, não ser estranho que os discursos na defesa do determinismo técnico caminhem lado a lado com a imaterialidade do mundo, e a expliquem por meio da ubiquidade dos veículos de comunicação nos dias atuais.

Conceitos como “sociedade da informação” já deixaram de produzir olhares críticos para dar lugar a monolíticos entendimentos de que as redes de informação são as novas esferas públicas. Mas aqui é preciso demarcar uma diferença fundamental de entendimento. Espaços públicos são públicos porque congregam interesses públicos, e não é possível depreender que os interesses que movem a gestão tripartite das redes atuais sejam efetivamente públicos. Vejamos, as corporações que representam o setor das Telecomunicações, o setor da Computação e os Conglomerados de Mídia, construíram, no início dos anos de 1950, o cenário distópico que estamos perseguindo hoje.

O movimento dessas indústrias e o mercado construíram o ciberespaço (não lugar) das novas “esferas públicas” onde é possível observar como a lógica do capital impacta os grupos sociais de um modo determinante. É dessa imaterialidade das imagens, das ações simbólicas dos sinais que nascem essas novas sociedades industrializadas e suas perspectivas distópicas por meio da difusão maciça das imagens que reproduzem a lógica hegemônica do capital. Tudo é propagado como parte estratégica de novos e antigos modelos de negócio.

Algumas observações da existência desta lógica produzindo ou interferindo diretamente na cultura ocidental foram mostradas em um ensaio de 28 de outubro de 1961, no qual Flusser apontava a simbiose entre a cidade de Praga e o escritor Franz Kafka, autor que ainda foi capaz de refletir sobre o panorama de transformação social europeu, vislumbrando o espírito do tempo (Zeitgeist) no escritor tcheco.

A autodepreciação, o nojo de si mesmo que é tema básico de Kafka é interpretada como um traço quase patológico da alma do autor, quando, na realidade, exprime uma disposição de uma cidade e civilização voltadas contra si mesmas, numa mistura de furor suicida e auto-erotismo. (FLUSSER, 28/10/1961)

Flusser a considerava como uma “cidade medieval industrializada”, e afirmava no texto que Kafka “é o cantor de uma cidade e uma civilização que morreram, quase simultaneamente com ele”. São os primeiros diagnósticos que apontam para o sentido de um mundo industrializado que apostou todas as fichas na configuração de realidades nascidas desta lógica. As novas imagens do mundo estavam nascendo de um mundo de imagens produzidas para o consumo em alta escala, fossem elas de natureza político-ideológica, econômico-financeira, científico-industrial ou mesmo religiosas.

Essas imagens disseminadas pelos aparatos de mediação cumpriram uma dupla função no entendimento flusseriano. Primeiro, a de substituir a experiência do real pela representação de uma realidade, ela mesma tornada visível apenas como imagem, como superfície, e em segundo, pelo fato de decorrer dessa substituição a transformação do homem em espectador, colocando-o em oposição ao universo das realidades. “Um dos sintomas mais inquietantes da decadência da civilização tecnológica é a busca pela diversão”, vaticinava Flusser no artigo publicado em 15 de julho de 1963.

Por ‘universo’, dizia o autor, entenda-se a “soma de todas as coisas vertidas em uma só coisa” e a recusa em verter as coisas em um universo, ou seja, a ‘aversão’, assumiu o formato de ‘diversão’ como modelo conceitual desta recusa em universalizar o mundo. Para Flusser, diversão é sinônimo de aversão do universo. Existem ainda desdobramentos conceituais que fluem da diversão para a diversificação, desta para a inversão e depois para a perversão. Pode-se depreender o caráter deste distanciamento do universo em nome da diversão, aliás, ela mesma um dos elementos constitutivos das tecnoimagens, produzidas para divertir. O papel do cinema na construção mediática da lógica do imaterial e de seu conseqüente distanciamento do mundo foi explicado no artigo:

O cinema é divertido por duas razões fundamentais: diverte a atenção daquilo que chamamos, normalmente, de “realidade”, e converte o homem de participante em espectador. A primeira função do cinema é portanto tapar a “realidade”, e a segunda é criar distância entre a pseudo-realidade assim produzida e a pessoa. Destrói, portanto, o universo de duas maneiras: racha-lhe a unidade (opondo a tela à “realidade”), e o afasta (pondo a nós, os espectadores, em oposição ao universo). O cinema é divertido porque destrói o universo. O universo se tornou insuportável na fase atual da civilização tecnológica, porque a sua universalidade consiste na transformação de todas as coisas em instrumentos. (FLUSSER, 15/6/1963)

E ampliava a argumentação, por si só precisa, mas angustiante:

O nosso universo é universo porque tudo nele é convertido em instrumento, inclusive o homem. Entretanto, este tipo de universalidade é de um tédio insuportável. O cinema, destruindo o universo dos instrumentos da maneira dupla acima esboçada, é divertido, porque aparentemente acaba com o tédio. Opõe ao mundo dos instrumentos um mundo de sombras aparentemente cheio de aventuras, e afasta o espectador para uma posição aparentemente “transcendente”. Cria a aparência de uma transcendência do universo. Entretanto essas aparências enganam. O cinema longe de criar uma autêntica alternativa à universalidade instrumental, contribui para o alastramento da instrumentalização. E, longe de proporcionar uma autêntica transcendência, integra o homem ainda mais na engrenagem universal, transformando-o de participante em instrumento da indústria cinematográfica. O cinema é portanto uma destruição do universo apenas aparente. É uma forma inautêntica de aversão ao universo. Em conseqüência, não acaba com o tédio, mas o intensifica. O cinema não diversifica, nem inverte, nem perverte o universo, mas apenas diverte dentro do universo. O cinema é um fenômeno inautêntico e tedioso. (FLUSSER, 15/6/1963)

Nota-se aqui um esboço de articulação lógica para compreender os fenômenos mediáticos como agentes de disseminação das imagens técnicas estrategicamente expostas em favor do distanciamento, da imaterialidade do mundo, da superficialidade, do entretenimento, da configuração industrializante da produção e do consumo, da apropriação do tempo da experiência pela exposição “divertida” de uma experiência não vivida, mas representada. Uma proto-teoria das imagens técnicas que identifica na diversão uma aparência inofensiva, mas em cujo propósito reside o estabelecimento do consenso coletivo que a tradução do mundo está nas próprias imagens que os aparatos técnicos fazem da realidade.

Dizia o autor que da redução das tecnoimagens em um elemento fundamental chega-se ao ‘ponto’, tecnologicamente traduzível nos dias de hoje por ‘pixel’, e que para entender a verdadeira função das imagens técnicas deve-se compreender o conceito de ponto (ou de pixel): “o ponto é maneira geométrica de articular o nada”, uma vez que “ponto” não possui dimensão e não ocupa espaço. Trata-se de se considerar o vazio que reside por detrás dessas imagens e sua função estratégica, operadora do consumo, dentro da lógica da imaterialidade que configura a lógica do capital, que por sua vez, define a lógica da produção que gera a lógica do consumo, que faz existir, finalmente, a materialidade do mundo através da imaterialidade das imagens. Um tipo específico de circularidade conceitual estabelecido midiaticamente pelas máquinas produtoras de imagens, gerando um fenômeno estudado por Norval Baitello Junior que recebeu o sugestivo nome de “Iconofagia”, ou seja, um processo de devoração das imagens e/ou pelas imagens.

As implicações dessa dinâmica são gigantescas se considerarmos que esses vazios, ou tecnoimagens, circulam midiaticamente como estratégias de controle de atenção. Daí sua conseqüente apropriação do tempo de vida de um modo perverso, quase sempre, pela diversão, pelo entretenimento, como apontava Flusser. Nesse sentido, o atual estágio da civilização se configura pelo consumo exacerbado de imagens que se propõem ocupar o espaço da realidade, conforme explica Baitello Junior.

A era da Iconofagia começa a se delinear quando “ao consumir imagens, já não as consumimos por sua função janela (Kamper), mas pela sua função biombo (Flusser)”. Ao devorar imagens anteriores, toda imagem se presta a ser devorada pelas imagens futuras, impedindo-nos de alcançar-lhes um fundamento, um alicerce sustentável de significação. O excesso de visibilidade cega a percepção do homem para o corpo real e o leva a assumir um corpo virtual que prima pela distância e pela assepsia do contato com o real; uma realidade demasiadamente humana para um mundo tecnologicamente em superação constante. (BAITELLO J., 2005, p.25)

A funcionalidade das imagens conforme explicitada por Norval Baitello Jr. se insere no contexto do prognóstico de Flusser sobre a sociedade programada. As imagens podem mediar o homem com o mundo, como uma janela (Kamper), mas, pelo esvaziamento de suas características em favor da superficialidade, da desconexão com o mundo, da autorreferencialidade, elas, sobretudo as tecnoimagens, transformam-se num biombo que pretende ser, ele mesmo, o mundo a ser vivido. Talvez seja a explicação para o fato de que os meios de comunicação se transformaram em agentes de sua própria existência. Assim, os investimentos para superar constantemente o tédio depois que passamos a acreditar nas imagens desse mundo se manifestam pela evolução tecnológica dos aparatos, na instrumentalização política e econômica das tecnologias de mediação, na velocidade do processamento e das conexões. Passamos a considerar a “imagem” e a “coisa” como uma única entidade perceptível, e dela decorre nossa compreensão de mundo. Flusser comentava sobre isso em um artigo dedicado a refletir sobre como perdemos a capacidade de nos espantar com o mundo.

O conjunto das coisas é a Natureza, e a transformação das coisas em instrumentos equivale à domesticação da Natureza, portanto ao seu aniquilamento. A Natureza, tendo deixado de ser espantosa, deixou de ser a Natureza. É verdade que a atenção do pensamento ocidental se terá dirigido contra a Natureza, e o resultado desta atenção é o aniquilamento da Natureza... ...Tendo sido a Natureza transformada de espanto em tédio, estamos inclinados a concluir que o mundo inteiro se tornou tedioso, e sentimos existencialmente esse tédio absoluto... (FLUSSER, 25/4/1964)

Delineia-se o surgimento da aparente e inofensiva estratégia da diversão que se fundamenta e se concretiza na lógica da reprodutibilidade técnica das imagens. O rompimento desse sentimento de “tédio absoluto” passa necessariamente do “mundo das coisas” para o “mundo das não coisas”, outra reflexão de Flusser para tornar visível a lógica da imaterialidade que estrutura as tecnoimagens. Segundo afirmava no livro “The Shape of Things”, editado em 1999, o mundo das coisas (hardware) perde gradativamente valor de mercado em favor do mundo das não-coisas (software), que ao contrário custa cada vez mais. Dizia que “nosso interesse existencial se transforma, a olhos vistos, das coisas para as informações”, e que “ao mesmo tempo, uma parte cada vez maior da sociedade se ocupa de fabricar informações, dos serviços, de administrar, de programar, e cada vez menos se ocupam de fabricar coisas”.

Retomando a segunda função das tecnoimagens tratadas no início deste artigo, a transformação do homem em espectador corresponde em atribuir-lhe uma função, transformá-lo em funcionário que faz o aparato funcionar. Flusser usa como exemplo, em seu artigo “Do Funcionário”, publicado curiosamente em 1º de maio de 1965 (Dia do Trabalho), que o funcionário movimenta-se e age em função do aparelho, e para o funcionário perfeito, o aparelho tem completa autonomia, e o funcionário tem a sua função estabelecida. “Todo funcionário é uma propriedade, um atributo do aparelho. O funcionário não tem propriedade, ele é propriedade. Como a propriedade nunca se confunde com a substância, o funcionário não se confunde com o aparelho”, advertia. ‘Trabalhador’ e ‘Funcionário’ são conceitos operacionais distintos para a lógica do capital e vivem em mundos distintos, o primeiro no mundo do hardware e o segundo no mundo do software, na acepção de Flusser.

As reflexões trazidas por Vilém Flusser acerca das ciências da comunicação são importantes e mesmo fundamentais, desde que se pretenda compreender os fenômenos mediáticos como estratégias funcionalizantes da lógica do mercado que começa na produção das tecnoimagens, passa pelo consumo, ou pela produção do consumidor, do usuário, do espectador, ou do telespectador, todos vistos como funcionários, eles mesmos transformados em imagens técnicas e condenados a se representarem no mundo tedioso, mas de um modo divertido.


Bibliografia
ANDERS, Günther. 1956. La formación de las necesidades.  Título original: Die Prägung der Bedürfnisse  (§ 21 de Die Antiquiertheit des Menschen, Munich).
BAITELLO JR., Norval. 2005. A era da iconofagia. Ensaios de comunicação e cultura. S. Paulo: Hacker.
BELTING, Hans. 2007. Antropología de la Imagen.  Madrid: Editorial Katz.
BENJAMIN, Walter. 1973. “La obra de arte en la época de su reproductibilidad técnica”, in Discursos Interrumpidos I. Madrid: Taurus Ediciones.
FLUSSER, Vilém. 1985. Filosofia da Caixa Preta. Ensaios para uma futura filosofia da fotografia. São Paulo: Hucitec.
FLUSSER, Vilém. 2008. O universo das imagens técnicas.  Elogio da superficialidade. São Paulo: Anablumme.
FLUSSER, Vilém. La sociedad alfanumérica. In: Vilém Flusser y la crisis actual de la cultura (Dr. phil.) Breno Onetto (tradución)Instituto de Filosofía y Estudios Educacionales Escuela de Artes Visuales - Universidad Austral de Chile.
FLUSSER, Vilém. Da Diversão. In Suplemento Literário  do Jornal O Estado de São Paulo.  Publicado em 15 de junho de 1963.
FLUSSER, Vilém. Do Funcionário. In Suplemento Literário  do Jornal O Estado de São Paulo.  Publicado em 1º de maio de 1965.
FLUSSER, Vilém. Em Louvor do Espanto. In Suplemento Literário do Jornal O Estado de São Paulo.  Publicado em 25 de abril de 1964.
FLUSSER, Vilém. Praga, a cidade de Kafka. In Suplemento Literário do Jornal O Estado de São Paulo.  Publicado em 28 de outubro de 1961.
NIEZSTCHE, Friedrich W. 2003. A gaia ciência.  São Paulo: Martin Claret editora.
OSTHOFF, Simone. 2007. Philosophizing in Translation:  Vilém Flusser’s Brazilian Writings of the 1960s.  Delivered at re:place 2007 the Second International Conference on the Histories of Media, Art, Science,  and Technology. Berlin, Germany, November 15-18.
PELEGRINI, Milton. 2008. Tecnologia e Mídia. O roubo do presente e a construção do futuro nos grupos sociais. São José do Rio Preto: Bluecom.
SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação. Vol. IV. Edição Acrópolis,  Disponível em: http://www.ebooksbrasil.org/REB/ representacao4.br (2 de ago. 2009).



quarta-feira, 15 de abril de 2015

Continuum tecnológico e universais do jornalismo visual


Por Luciano Guimarães

Com a intenção de contribuir para a discussão sobre a relação dicotômica ruptura x continuidade nos estudos da mídia, abordamos as mudanças que as inovações tecnológicas provocaram na organização espacial do jornalismo impresso e digital (on-line e off-line). As implicações da organização espacial dos diversos elementos que compõem a informação jornalística sobre a seleção e apresentação, processo de leitura e, conseqüentemente, a produção de sentido das notícias, são também objetos dos estudos em jornalismo visual, como são as cores, a tipografia, os formatos, o fotojornalismo, a infografia, a ilustração etc.

Embora hoje já se considere senso comum afirmar que o surgimento de uma nova mídia não provoca o desaparecimento da anterior, como se observou no surgimento da fotografia em relação à pintura, da televisão em relação ao cinema, do jornalismo on-line em relação ao jornalismo impresso etc., o peso atribuído para a natureza de ruptura ou de continuidade na relação de uma mídia com outra anterior é o que diferencia vários estudos. Foi, por exemplo, marcadamente pautado nas transformações operadas na passagem da cultura oral e manuscrita para a cultura tipográfica do impresso que McLuhan desenvolveu sua obra Galáxia de Gutenberg: a formação do homem tipográfico, em 1962 (McLuhan, 1972). E, 40 anos depois, é também com ênfase nas transformações, sem descuidar da atenção à presença de continuidades ou de retornos das mídias, que Asa Briggs e Peter Burke abordaram os contextos sociais e culturais que envolvem a história da mídia em Uma história social da mídia: de Gutenberg à Internet (Briggs & Burke, 2004).

No que se refere à organização espacial dos elementos que constituem o jornalismo visual, pretendemos demonstrar que seus princípios são o resultado de um processo de continuidade afeito a adequações necessárias, tanto aquelas que respondem às inovações tecnológicas quanto às reconfigurações sociais, culturais ou econômicas no uso da mídia. Podemos observar que, à exceção de algumas experiências no universo gráfico (particularmente tipográfico) das vanguardas européias das primeiras décadas do século XX, ou em jornais rupturas são praticamente ausentes na organização visual da informação mediada pelo jornalismo.

Na visita à sessão das antiguidades egípcias no Museu do Louvre, em Paris, nos deparamos com um bom exemplo de como pouco se modificou na estrutura fundamental da mídia impressa (Figuras 1 a 3): a seqüência de imagens ilustrativas e de ideogramas em fragmentos do Livro do Mortos, 1 – desenhado sobre papiro cerca de 2.000 anos antes do início do desenvolvimento da imprensa por Gutenberg – já apresenta organização similar aos que encontramos hoje nas revistas semanais. Ou seja, provavelmente são mais de 2.500 anos que separam soluções gráficas tão semelhantes. Vejamos quais são: o extenso rolo que forma o Livro dos Mortos é uma seqüência de pedaços de papiro, coladas nas extremidades laterais e que, portanto, já se assemelha a um agrupamento de páginas; a leitura por meio do desenrolar do papiro segue a idéia de seqüência presente no ato de folhear uma revista; o sentido de leitura é combinação de verticais organizadas em uma seqüência horizontal; a seqüência de leitura é forçada ou direcionada para colunas por meio de filetes ou de espaços entre colunas; filetes verticais, horizontais ou desenhando quadros fechados ajudam a agrupar, organizar e destacar algumas informações; na extremidade inicial do papiro há ilustrações maiores, mais apuradas tecnicamente e coloridas, que correspondem às composições das duplas de páginas na abertura das matérias principais das revistas semanais; em outras seqüências do mesmo papiro há “páginas” com ilustrações coloridas menores, “páginas” com ilustrações simples em traço preto, ilustrações seqüenciais e desenho de tabelas, tal como nas edições de revistas semanais atuais. Portanto, de forma geral, o grid (diagrama), a organização espacial, o impacto e a função de cada imagem no desenho das matérias principais das revistas atuais pouca ou quase nenhuma novidade apresenta em relação ao desenho sobre papiro do Livro dos Mortos, da antiguidade egípcia.

Se imaginarmos a situação de leitura, considerando a materialidade do suporte e sua conseqüente ergonomia, o rolo de papiro egípcio (com pouco menos de 50 cm de altura e largura que poderia variar em alguns metros) deveria ser lido como um jornal, embora o peso maior provavelmente solicitasse o apoio de uma mesa ou púlpito. Podemos considerar que a seqüência de páginas ligadas por uma das extremidades, que já encontramos na organização dos manuscritos da Idade Média, não configura uma ruptura na forma de organização da matéria escrita, mas uma adequação tecnológica às necessidades de registro e memória de acesso mais fácil, assim como facilitador da catalogação e armazenamento, considerando certamente a economia do espaço. Cabe ressaltar que a organização in folio é muito adequada ao esforço padronizador da produção industrial que priorizou a proporção retangular cada vez mais econômica. Páginas avulsas de periódicos, já eram produzidas na Roma Antiga, séc II a.C.: as tábuas de pedra das edições da Acta Populi (ou Acta Diurna) já apresentavam a noção de páginas que se complementavam e de continuidade do texto, de seqüencialidade linear.

qüencialidade linear. O desenrolar do papiro só foi retomado recentemente, como princípio de leitura, com a organização da tela das páginas da internet por meio da barra de rolagem, que, com a limitada dimensão da parte da tela disponível para a distribuição dos textos e imagens, tornou-se mais utilizada do que a substituição de páginas ao modo de slides que prevaleceu nas primeiras produções multimídia em CD-Rom. Nessa comparação, também a verticalidade de cada “página” do papiro do Livro dos Mortos assemelha-se à organização de vários jornais diários on-line atuais, cujas colunas são organizadas também em faixas verticais, assim como os jornais diários do início do século XX.

Como podemos identificar escolhas tão semelhantes na organiza- ção visual entre publicações separadas por mais de dois milênios, procuraremos inicialmente entender o peso das transformações operadas pelas inovações tecnológicas e sociais nos meios e nas mediações. É importante registrar que, segundo nossa abordagem, a organização espacial dos produtos do jornalismo visual é estabelecida na relação entre o estatuto linear e contínuo da escrita com o estatuto de presentidade circular da imagem. E esses estatutos remontam ao próprio desenvolvimento da imagem e da escrita como formas de comunicação, ou seja, estão na filogênese da imagem e da escrita as características que até então têm predeterminado os padrões visuais da mídia em todas as épocas. Dessa forma, não tratamos especificamente de cada uma e de todas as alterações pelas quais a mídia tem organizado e reorganizado seus elementos sobre cada suporte, mas optamos por reafirmar as estruturas que garantem o continuum de uma das características do jornalismo visual que é a relação espaço-tempo. Isso não deve significar que após o surgimento da escrita não reconhecemos a importância do surgimento da imprensa de Gutenberg, redesenhando o panorama da transmissão de conhecimento e o impacto sobre os modos de comunicação, ou até mesmo as mais recentes e continuamente mutáveis inovações após o surgimento da internet, mas, como aponta Muniz Sodré, em nenhum caso é conveniente o uso exagerado do termo “revolução”:

Mesmo do ponto de vista estritamente material, mutação tecnológica parece-nos expressão mais adequada do que “revolução”, já que não se trata exatamente de descobertas linearmente inovadoras, e sim da maturação tecnológica do avanço científico, que resulta em hibridização e rotinização de processos de trabalho e recursos técnicos já existentes sob outras formas (telefonia, televisão, computação) há algum tempo. Hibridizam-se igualmente as velhas formações discursivas (texto, som, imagem), dando margem ao aparecimento de hipertexto ou de hipermídia (Sodré, 2002: 13).

E é no contexto das mais recentes formatações da mídia que real- çamos a dicotomia entre ruptura e continuidade, pois ainda prevalece um discurso voltado para a produção desses formatos hipermidiáticos que defende a ruptura com a tradição dos formatos impressos. Como veremos adiante, ao contrário da ruptura apregoada, as deficiências que dificultam o desenvolvimento de linguagens específicas para esses formatos surgem ao ignorar todo o sistema milenar que coordena leitura, imagens e organização espacial. Note-se, por exemplo, que apenas em outubro de 2006 um grande jornal on-line – o espanhol El País (www.elpais.com) – redesenhou sua estrutura diagramática (figura 4) favorecendo a organização das diversas matérias ao recuperar a hierarquia que 50 antes já era praticado nas páginas dos jornais impressos.

Neste sentido, deveríamos propor identificar padrões de continuidade para compreender as relações já fortemente estabelecidas na formatação da mídia e, desta forma e a partir delas, propor formatos inovadores. Caso contrário, e por desconhecimento, o novo tende a nascer mal resolvido. Embora tenhamos vários exemplos de processos que se aprimoraram durante o tempo, por vezes o retorno ao passado recupera informações que, em nome da inovação, foram descartadas, esquecidas, “superadas”. A idéia de aprimoramento ou aperfeiçoamento das tecnologias da mídia devem ser cuidadosamente revistas, como propõe Siegfried Zielinski em sua Arqueologia da Mídia:

A passagem dos séculos apenas aprimora e aperfeiçoa as grandes idéias arcaicas. Esse ponto de vista constitui pedagogia primitiva, que é maçante, e suga a energia do trabalho relativo às mudanças tão desesperadamente necessárias. Então, se deliberadamente alterarmos a ênfase, virarmos de ponta-cabeça e experimentarmos, o resultado vale a pena: não procuremos o velho no novo, mas encontremos algo novo no velho. (Zielinski, 2006: 19)

Mudança e ruptura diferem-se no sentido de que mudança, ao contrário de ruptura, não designa necessariamente uma fratura, mas uma remodelagem da continuidade. Segundo Briggs e Burke (2004: 17), “a mídia precisa ser vista como um sistema, um sistema em contínua mudança, no qual elementos diversos desempenham papéis de maior ou menor destaque”.

Para dar conta da idéia da continuidade permeada por mudanças – ou de resgates que, observados em grandes intervalos de tempo, suprimem tais mudanças, por mais significativas que tenham sido em determinados momentos no trajeto de construção dos meios de comunicação –, podemos entender que o sistema da organização visual da mídia corresponde ao modelo de sistemas fechados com margens de indeterminação, de Niklas Luhmann (Marcondes Filho, 2004: 426-7). Para tratar das relações do sistema com o “mundo circundante” e de como se produzem alterações de um sistema, Marcondes Filho explica, sobre a teoria de Luhmann:

Somente as próprias estruturas do sistema podem determinar suas operações. Os dados do ambiente não podem determinar aquilo que se passa no interior do sistema, mas de qualquer forma o sistema precisa de “pressupostos práticos” do ambiente em que se insere, que constituem seu continuum de materialidade, base real imprescindível à sua existência. Nesse contínuo de materialidade estão inseridos os seus próprios limites. Assim, o sistema reage ao mundo externo sem estar necessariamente ligado a ele (Marcondes Filho, 2004: 433).

A partir desta noção (chamada de acoplamento por Luhmann), podemos entender o procedimento fechado, mas não rigoroso, em que o surgimento de cada mídia não pôde até então reescrever radicalmente a estrutura em que se organizam textos e imagens, cada um com seu legado. Assim, deveremos buscar algumas raízes desse continuum de materialidade ou continuum tecnológico, considerando que, em nome da tecnologia e de seu desenvolvimento, os processos comunicacionais regridem sensivelmente e, por vezes, assim que são resolvidas algumas das limitações técnicas das fases iniciais na implantação de determinada novidade tecnológica, esquece-se de retomar as linguagens que haviam sido abandonadas.

Aceleração do tempo, economia de sinais e de processos, padroniza- ção excessiva e desqualificação profissional (que significa também redução de custos na indústria da mídia) têm levado a uma grande limitação na construção das notícias. Dentro deste contexto, ainda é muito pouco o que se explora do potencial informativo do jornalismo visual. É visível, por exemplo, que nos últimos anos não só os grandes jornais, mas também os jornais de pequeno e médio porte, têm feito importantes reformas gráficas e editoriais sem, no entanto, avançar para além da simples reorganização das mesmas informações e sem incluir diretrizes para fazer com que imagens e textos venham a compor realmente um mesmo conjunto, mais informativo, coerente e transparente.

Os jornais brasileiros, por exemplo, apenas recentemente reincorporaram em suas reformas gráficas as pequenas variações no espaço entre as colunas para separar blocos de textos, ou matérias diferentes, sem necessitar do desenho de fios ou de caixas. É surpreendente como um detalhe como esse é capaz de dar mais clareza para a organização das páginas e para a orientação da leitura. Essa característica de incorporação funcional dos espaços brancos na página tinha sido uma marca histórica das reformas gráficas dos jornais brasileiros já a partir de 1956, quando o artista plástico Amílcar de Castro redesenhou o Jornal do Brasil (do Rio de Janeiro) tendo como referências o Concretismo da década de 1950 (Lessa, 2005: 75-6). Considerada pioneira, a reforma do JB inovou ao romper com a estrutura baseada na simetria e remodelar o diagrama e a distribuição de fotos, títulos e fotos e espaços em branco, em nome da funcionalidade (Figura 5). No entanto, foi pelo mesmo princípio de funcionalidade, aliada à necessidade de reduzir os gastos e o tempo para a produção de cada edição, que tornou as páginas dos jornais cada vez mais padronizadas.

Podemos constatar que o jornalismo visual é resultado da freqüente intercalação entre o que é novo na linguagem gráfica, as pequenas rupturas, e o que retoma padrões limitados impostos pelos recursos disponíveis pelas inovações tecnológicas. Desta forma, os anos de chumbo da imprensa durante séculos impuseram ao jornalismo uma série de limitações técnicas da mesma forma que os primeiros anos do jornalismo on-line partiram inicialmente da tela de fósforo verde para uma tela cinza de leitura predominantemente vertical, sem colunagem. Pois se não fosse necessário limitar os recursos a cada vez que uma inovação tecnológica fosse introduzida, a apresentação de uma página do Jornal do Brasil desenhada por Amilcar de Castro não seria considerada tão inovadora quando comparada, por exemplo, com uma página manuscrita do Renascimento. Observando a página do manuscrito de Gregório IX (Figura 6), podemos ilustrar bem o espírito da proposta de “procurar o novo no velho” de Zielinski (2006).

Além do conteúdo verbal das informações publicadas pelo jornalismo, parte da discursividade de uma página impressa ou de uma tela (da televisão ou do monitor de um computador) é constituída por características herdadas do grafismo do texto impresso ou das imagens figurativas, mais ou menos realistas. Na relação entre as duas residem as principais formas de se coordenar as informações e incorporar valores a elas. Em outra oportunidade, pautados nos estudos de Harry Pross, Ivan Bystrina e Vilém Flusser, demonstramos como o sentido de leitura tem interferido nos valores incorporados às informações visuais da mídia. Ou seja, a linearidade da escrita e a bilateralização especializada do cérebro humano têm interferido na forma como as imagens são “lidas”, após serem percebidas, e nessa leitura toda uma sorte de valores assimé- tricos são agregados. São valores derivados dos conceitos e das percepções de “esquerda” e “direita”, “nós” e “os outros”, “aqui” e “ali”, “primeiro” e “segundo”, “ação” e “reação” etc. (Guimarães, 2006).

Como definido por MacLuhan (1972: 41), “uma criança em qualquer meio ocidental está cercada por uma tecnologia visual abstrata e explícita de tempo uniforme e de espaço contínuo e também uniforme, em que a ‘causa’ é eficiente e contínua e as coisas se movimentam e acontecem em planos distintos e em ordens sucessivas”. Esta afirmação que está de acordo com o conceito de acoplamento de Luhmann, é também resultado da tecnologia da organização da escrita linear, ampliada pelos meios de comunicação de massa.

Para entender o que a linearidade do texto e da sua interferência sobre as imagens significou na manutenção de uma estrutura similar na organização visual da mídia, devemos também procurar as suas raízes filogênicas.

Alguns fatores culminaram na linearização da escrita:

Segundo Leroi-Gourhan (1990: 189), o grafismo teve origem não na reprodução figurativa, mas no abstrato, a partir da expressão de ritmo, o que pode ter facilitado a apropriação do grafismo pela linguagem falada, para fins de registro:

Particularmente interessante é o fato de o grafismo não ter começado por uma expressão “servil” e fotográfica do real, mas organizando-se, numa dezena de mil anos, a partir de sinais que parecem ter exprimido primeiramente os ritmos e não as formas. (Leroi-Gourhan, 1990: 190).

Ainda segundo Leroi-Gourhan (1990: 193), “a linearização alfabé- tica poder ter implicado, desde sua origem, relações com dispositivos de numeração, que eram forçosamente lineares”. Podemos deduzir que há um vínculo entre a atuação da força da gravidade que impõe sobre os objetos e seres a organização horizontal e a horizontalidade dos dispositivos de numeração lineares a que se refere Leroi-Gourhan. Portanto, de alguma forma, a horizontalidade da escrita linear é resultado da maior acomodação visual ao desenho do horizonte, embora tanto dispositivos de numeração quanto algumas escritas primitivas tivessem encontrado soluções técnicas verticalizadas. Temos que considerar que a noção de linearidade horizontalizada também é resultado do movimento panorâmico do olhar sobre os seres em movimento sobre o solo, acrescentando a noção de tempo à linearidade dos dispositivos de numeração. Antes dos meios de comunicação em massa, por exemplo, era por meio das procissões (como deslocamentos diacrônicamente discursivos) que as religiões contavam suas histórias a fim de manter uma memória viva dos feitos bíblicos.

A narrativa visual em que o leitor “lê” os episódios normalmente da esquerda para a direita e de cima para baixo já era conhecida na Idade Média, mas sua importância cresceu com o surgimento da xilogravura, no Renascimento. Produziram-se xilogravuras em longas tiras para registrar eventos, como o percurso de procissões nas ruas. Essas tiras, equivalente aos rolos medievais, davam aos leitores a impressão de ver a procissão passar (Briggs & Burke, 2004: 49).

O fato da linguagem da imagem e da linguagem do texto remontar a duas origens diferentes – gestos e sons, respectivamente – (Leroi-Gourhan, 1990: 193), predetermina a natureza bidimensional de uma e unidimensional de outra. Flusser (1998: 27) considera a imagem o resultado planificado da abstração de duas das quatro dimensões espacio-temporais do objeto.

O significado da imagem encontra-se na superfície e pode ser captada por um golpe de vista. No entanto, tal método de deciframento produzirá apenas o significado superficial da imagem. Quem quiser “aprofundar” o significado e restituir as dimensões abstraídas, deve permitir à sua vista vaguear pela superfície da imagem (Flusser, 1998: 27).

No entanto, como alerta Flusser, restituir as dimensões abstraídas não significa ter acesso ao mundo representado pela imagem, pois, como superfície produzida para representar o mundo, as imagens “passam a ser biombos” que “entrepõem-se entre mundo e homem” (Flusser, 1998: 29). É importante lembrar que, para Flusser, as imagens tradicionais “imaginam” o mundo, enquanto as imagens técnicas (as produzidas por aparelhos e aparatos técnicos) “imaginam textos que concebem imagens que imaginam o mundo”. (Flusser, 1998: 33). Na relação entre imaginação (fruto da imagem) e conceitualização (fruto do texto), a imagem técnica do jornalismo poderia adquirir seu estatuto de representação de um real, mesmo que agregando valores pouco transparentes para o espectador/leitor.

Os formatos de leitura de dupla velocidade (Hidalgo, 2003: 64) adotados hoje por muitos jornais combinam algumas formas adequadas e outras equivocadas das possibilidades de composição de textos e imagens. Como o formato de dupla leitura implica na possibilidade de o leitor escolher entre uma leitura superficial, a partir dos elementos que mais se destacam na página, e uma leitura mais detalhada de determinadas partes do jornal que provocaram seu interesse, a produção mais adequada é aquela em que as imagens também possibilitem dois tempos de leitura (pela presentidade ou pela discursividade), sem prejuízo para a correção da informação que se pretende transmitir. Deve-se atentar que a leitura rápida favorecerá mais a agregação de valores à notícia, pois o tempo de recepção será mais fortemente vinculado à linearização da escrita, algo semelhante ao que ocorre com o telejornalismo e sua linearidade produzida pela oralidade e rápida sucessão de imagens, sem o devido tempo para reflexão. Para Baitello Junior (2005: 35), esse tempo de leitura e de decifração “é necessário para o confronto e o diálogo com as nossas imagens interiores”. Segundo a “teoria do meio segundo a menos” de Hertha Sturm, a continuidade de sentido na televisão é comprometida pela supressão desse tempo pois “a verbalização interna é necessária para a lembrança, a compreensão e o acompanhamento do acontecido”(Wrobel, apud Marcondes Filho, 2002: 159). Ou seja, na leitura aprofundada é permitida a percepção discursiva da imagem e sua relativa liberdade em relação à linearidade do texto ou mesmo à sua incorporação como parte e valor de validação da informação redigida.

Atualmente, nos últimos anos, estamos vivendo mais um momento de incorporação de novas tecnologias. A televisão digital e os mecanismos de comunicação móvel redesenham a tela de exposição das informações. Os displays e monitores a cada dia ficam mais finos e, se ainda não alcan- çaram a pouca espessura de uma folha de papel, pode-se dizer que uma revista como a alemã Der Spiegel na tela de um PDA ou de um smartphone já é mais fina que uma de suas edições impressas. Se na tela para móbile os recursos do jornalismo visual mais uma vez são limitados, continuam algumas pesquisas com o papel digital. Isso porque a tela do jornalismo on-line sonha ser mais fina, sonha ter menos interferência dos reflexos da luz externa, sonha ser dobrável, enfim, sonha ser papel. Se não estivermos atentos aos legados do texto e da imagem, quando alcançar seus sonhos e a tela se assemelhar a uma folha de papel, poderemos nos arrepender de termos desaprendido a planejar uma boa e inventiva página, não só tecnicamente bem resolvida mas também inteligentemente informativa