Por Luciano Guimarães
Com a intenção de contribuir para
a discussão sobre a relação dicotômica ruptura x continuidade nos estudos da
mídia, abordamos as mudanças que as inovações tecnológicas provocaram na
organização espacial do jornalismo impresso e digital (on-line e off-line). As
implicações da organização espacial dos diversos elementos que compõem a
informação jornalística sobre a seleção e apresentação, processo de leitura e,
conseqüentemente, a produção de sentido das notícias, são também objetos dos
estudos em jornalismo visual, como são as cores, a tipografia, os formatos, o
fotojornalismo, a infografia, a ilustração etc.
Embora hoje já se considere senso
comum afirmar que o surgimento de uma nova mídia não provoca o desaparecimento
da anterior, como se observou no surgimento da fotografia em relação à pintura,
da televisão em relação ao cinema, do jornalismo on-line em relação ao
jornalismo impresso etc., o peso atribuído para a natureza de ruptura ou de
continuidade na relação de uma mídia com outra anterior é o que diferencia
vários estudos. Foi, por exemplo, marcadamente pautado nas transformações
operadas na passagem da cultura oral e manuscrita para a cultura tipográfica do
impresso que McLuhan desenvolveu sua obra Galáxia de Gutenberg: a formação do
homem tipográfico, em 1962 (McLuhan, 1972). E, 40 anos depois, é também com
ênfase nas transformações, sem descuidar da atenção à presença de continuidades
ou de retornos das mídias, que Asa Briggs e Peter Burke abordaram os contextos
sociais e culturais que envolvem a história da mídia em Uma história social da
mídia: de Gutenberg à Internet (Briggs & Burke, 2004).
No que se refere à organização
espacial dos elementos que constituem o jornalismo visual, pretendemos
demonstrar que seus princípios são o resultado de um processo de continuidade
afeito a adequações necessárias, tanto aquelas que respondem às inovações
tecnológicas quanto às reconfigurações sociais, culturais ou econômicas no uso
da mídia. Podemos observar que, à exceção de algumas experiências no universo
gráfico (particularmente tipográfico) das vanguardas européias das primeiras
décadas do século XX, ou em jornais rupturas são praticamente ausentes na
organização visual da informação mediada pelo jornalismo.
Na visita à sessão das
antiguidades egípcias no Museu do Louvre, em Paris, nos deparamos com um bom
exemplo de como pouco se modificou na estrutura fundamental da mídia impressa
(Figuras 1 a 3): a seqüência de imagens ilustrativas e de ideogramas em
fragmentos do Livro do Mortos, 1 – desenhado sobre papiro cerca de 2.000 anos
antes do início do desenvolvimento da imprensa por Gutenberg – já apresenta
organização similar aos que encontramos hoje nas revistas semanais. Ou seja,
provavelmente são mais de 2.500 anos que separam soluções gráficas tão
semelhantes. Vejamos quais são: o extenso rolo que forma o Livro dos Mortos é
uma seqüência de pedaços de papiro, coladas nas extremidades laterais e que,
portanto, já se assemelha a um agrupamento de páginas; a leitura por meio do
desenrolar do papiro segue a idéia de seqüência presente no ato de folhear uma
revista; o sentido de leitura é combinação de verticais organizadas em uma
seqüência horizontal; a seqüência de leitura é forçada ou direcionada para
colunas por meio de filetes ou de espaços entre colunas; filetes verticais,
horizontais ou desenhando quadros fechados ajudam a agrupar, organizar e
destacar algumas informações; na extremidade inicial do papiro há ilustrações
maiores, mais apuradas tecnicamente e coloridas, que correspondem às
composições das duplas de páginas na abertura das matérias principais das
revistas semanais; em outras seqüências do mesmo papiro há “páginas” com
ilustrações coloridas menores, “páginas” com ilustrações simples em traço
preto, ilustrações seqüenciais e desenho de tabelas, tal como nas edições de
revistas semanais atuais. Portanto, de forma geral, o grid (diagrama), a
organização espacial, o impacto e a função de cada imagem no desenho das
matérias principais das revistas atuais pouca ou quase nenhuma novidade
apresenta em relação ao desenho sobre papiro do Livro dos Mortos, da
antiguidade egípcia.
Se imaginarmos a situação de
leitura, considerando a materialidade do suporte e sua conseqüente ergonomia, o
rolo de papiro egípcio (com pouco menos de 50 cm de altura e largura que
poderia variar em alguns metros) deveria ser lido como um jornal, embora o peso
maior provavelmente solicitasse o apoio de uma mesa ou púlpito. Podemos
considerar que a seqüência de páginas ligadas por uma das extremidades, que já
encontramos na organização dos manuscritos da Idade Média, não configura uma
ruptura na forma de organização da matéria escrita, mas uma adequação
tecnológica às necessidades de registro e memória de acesso mais fácil, assim
como facilitador da catalogação e armazenamento, considerando certamente a
economia do espaço. Cabe ressaltar que a organização in folio é muito adequada
ao esforço padronizador da produção industrial que priorizou a proporção
retangular cada vez mais econômica. Páginas avulsas de periódicos, já eram
produzidas na Roma Antiga, séc II a.C.: as tábuas de pedra das edições da Acta
Populi (ou Acta Diurna) já apresentavam a noção de páginas que se
complementavam e de continuidade do texto, de seqüencialidade linear.
qüencialidade linear. O
desenrolar do papiro só foi retomado recentemente, como princípio de leitura,
com a organização da tela das páginas da internet por meio da barra de rolagem,
que, com a limitada dimensão da parte da tela disponível para a distribuição
dos textos e imagens, tornou-se mais utilizada do que a substituição de páginas
ao modo de slides que prevaleceu nas primeiras produções multimídia em CD-Rom.
Nessa comparação, também a verticalidade de cada “página” do papiro do Livro
dos Mortos assemelha-se à organização de vários jornais diários on-line atuais,
cujas colunas são organizadas também em faixas verticais, assim como os jornais
diários do início do século XX.
Como podemos identificar escolhas
tão semelhantes na organiza- ção visual entre publicações separadas por mais de
dois milênios, procuraremos inicialmente entender o peso das transformações
operadas pelas inovações tecnológicas e sociais nos meios e nas mediações. É
importante registrar que, segundo nossa abordagem, a organização espacial dos
produtos do jornalismo visual é estabelecida na relação entre o estatuto linear
e contínuo da escrita com o estatuto de presentidade circular da imagem. E
esses estatutos remontam ao próprio desenvolvimento da imagem e da escrita como
formas de comunicação, ou seja, estão na filogênese da imagem e da escrita as
características que até então têm predeterminado os padrões visuais da mídia em
todas as épocas. Dessa forma, não tratamos especificamente de cada uma e de
todas as alterações pelas quais a mídia tem organizado e reorganizado seus
elementos sobre cada suporte, mas optamos por reafirmar as estruturas que
garantem o continuum de uma das características do jornalismo visual que é a
relação espaço-tempo. Isso não deve significar que após o surgimento da escrita
não reconhecemos a importância do surgimento da imprensa de Gutenberg,
redesenhando o panorama da transmissão de conhecimento e o impacto sobre os
modos de comunicação, ou até mesmo as mais recentes e continuamente mutáveis
inovações após o surgimento da internet, mas, como aponta Muniz Sodré, em
nenhum caso é conveniente o uso exagerado do termo “revolução”:
Mesmo do ponto de vista estritamente material, mutação tecnológica
parece-nos expressão mais adequada do que “revolução”, já que não se trata
exatamente de descobertas linearmente inovadoras, e sim da maturação
tecnológica do avanço científico, que resulta em hibridização e rotinização de
processos de trabalho e recursos técnicos já existentes sob outras formas
(telefonia, televisão, computação) há algum tempo. Hibridizam-se igualmente as
velhas formações discursivas (texto, som, imagem), dando margem ao aparecimento
de hipertexto ou de hipermídia (Sodré, 2002: 13).
E é no contexto das mais recentes
formatações da mídia que real- çamos a dicotomia entre ruptura e continuidade,
pois ainda prevalece um discurso voltado para a produção desses formatos
hipermidiáticos que defende a ruptura com a tradição dos formatos impressos.
Como veremos adiante, ao contrário da ruptura apregoada, as deficiências que
dificultam o desenvolvimento de linguagens específicas para esses formatos
surgem ao ignorar todo o sistema milenar que coordena leitura, imagens e
organização espacial. Note-se, por exemplo, que apenas em outubro de 2006 um
grande jornal on-line – o espanhol El País (www.elpais.com) – redesenhou sua
estrutura diagramática (figura 4) favorecendo a organização das diversas
matérias ao recuperar a hierarquia que 50 antes já era praticado nas páginas
dos jornais impressos.
Neste sentido, deveríamos propor
identificar padrões de continuidade para compreender as relações já fortemente
estabelecidas na formatação da mídia e, desta forma e a partir delas, propor
formatos inovadores. Caso contrário, e por desconhecimento, o novo tende a
nascer mal resolvido. Embora tenhamos vários exemplos de processos que se
aprimoraram durante o tempo, por vezes o retorno ao passado recupera
informações que, em nome da inovação, foram descartadas, esquecidas,
“superadas”. A idéia de aprimoramento ou aperfeiçoamento das tecnologias da mídia
devem ser cuidadosamente revistas, como propõe Siegfried Zielinski em sua
Arqueologia da Mídia:
A passagem dos séculos apenas aprimora e aperfeiçoa as grandes idéias
arcaicas. Esse ponto de vista constitui pedagogia primitiva, que é maçante, e
suga a energia do trabalho relativo às mudanças tão desesperadamente
necessárias. Então, se deliberadamente alterarmos a ênfase, virarmos de
ponta-cabeça e experimentarmos, o resultado vale a pena: não procuremos o velho
no novo, mas encontremos algo novo no velho. (Zielinski, 2006: 19)
Mudança e ruptura diferem-se no
sentido de que mudança, ao contrário de ruptura, não designa necessariamente
uma fratura, mas uma remodelagem da continuidade. Segundo Briggs e Burke (2004:
17), “a mídia precisa ser vista como um sistema, um sistema em contínua
mudança, no qual elementos diversos desempenham papéis de maior ou menor
destaque”.
Para dar conta da idéia da
continuidade permeada por mudanças – ou de resgates que, observados em grandes
intervalos de tempo, suprimem tais mudanças, por mais significativas que tenham
sido em determinados momentos no trajeto de construção dos meios de comunicação
–, podemos entender que o sistema da organização visual da mídia corresponde ao
modelo de sistemas fechados com margens de indeterminação, de Niklas Luhmann
(Marcondes Filho, 2004: 426-7). Para tratar das relações do sistema com o
“mundo circundante” e de como se produzem alterações de um sistema, Marcondes
Filho explica, sobre a teoria de Luhmann:
Somente as próprias estruturas do sistema podem determinar suas
operações. Os dados do ambiente não podem determinar aquilo que se passa no
interior do sistema, mas de qualquer forma o sistema precisa de “pressupostos
práticos” do ambiente em que se insere, que constituem seu continuum de
materialidade, base real imprescindível à sua existência. Nesse contínuo de
materialidade estão inseridos os seus próprios limites. Assim, o sistema reage
ao mundo externo sem estar necessariamente ligado a ele (Marcondes Filho, 2004:
433).
A partir desta noção (chamada de
acoplamento por Luhmann), podemos entender o procedimento fechado, mas não
rigoroso, em que o surgimento de cada mídia não pôde até então reescrever
radicalmente a estrutura em que se organizam textos e imagens, cada um com seu
legado. Assim, deveremos buscar algumas raízes desse continuum de materialidade
ou continuum tecnológico, considerando que, em nome da tecnologia e de seu
desenvolvimento, os processos comunicacionais regridem sensivelmente e, por
vezes, assim que são resolvidas algumas das limitações técnicas das fases
iniciais na implantação de determinada novidade tecnológica, esquece-se de
retomar as linguagens que haviam sido abandonadas.
Aceleração do tempo, economia de
sinais e de processos, padroniza- ção excessiva e desqualificação profissional
(que significa também redução de custos na indústria da mídia) têm levado a uma
grande limitação na construção das notícias. Dentro deste contexto, ainda é
muito pouco o que se explora do potencial informativo do jornalismo visual. É
visível, por exemplo, que nos últimos anos não só os grandes jornais, mas
também os jornais de pequeno e médio porte, têm feito importantes reformas
gráficas e editoriais sem, no entanto, avançar para além da simples
reorganização das mesmas informações e sem incluir diretrizes para fazer com
que imagens e textos venham a compor realmente um mesmo conjunto, mais
informativo, coerente e transparente.
Os jornais brasileiros, por
exemplo, apenas recentemente reincorporaram em suas reformas gráficas as pequenas
variações no espaço entre as colunas para separar blocos de textos, ou matérias
diferentes, sem necessitar do desenho de fios ou de caixas. É surpreendente
como um detalhe como esse é capaz de dar mais clareza para a organização das
páginas e para a orientação da leitura. Essa característica de incorporação
funcional dos espaços brancos na página tinha sido uma marca histórica das
reformas gráficas dos jornais brasileiros já a partir de 1956, quando o artista
plástico Amílcar de Castro redesenhou o Jornal do Brasil (do Rio de Janeiro)
tendo como referências o Concretismo da década de 1950 (Lessa, 2005: 75-6).
Considerada pioneira, a reforma do JB inovou ao romper com a estrutura baseada
na simetria e remodelar o diagrama e a distribuição de fotos, títulos e fotos e
espaços em branco, em nome da funcionalidade (Figura 5). No entanto, foi pelo
mesmo princípio de funcionalidade, aliada à necessidade de reduzir os gastos e
o tempo para a produção de cada edição, que tornou as páginas dos jornais cada vez
mais padronizadas.
Podemos constatar que o
jornalismo visual é resultado da freqüente intercalação entre o que é novo na
linguagem gráfica, as pequenas rupturas, e o que retoma padrões limitados
impostos pelos recursos disponíveis pelas inovações tecnológicas. Desta forma,
os anos de chumbo da imprensa durante séculos impuseram ao jornalismo uma série
de limitações técnicas da mesma forma que os primeiros anos do jornalismo
on-line partiram inicialmente da tela de fósforo verde para uma tela cinza de
leitura predominantemente vertical, sem colunagem. Pois se não fosse necessário
limitar os recursos a cada vez que uma inovação tecnológica fosse introduzida,
a apresentação de uma página do Jornal do Brasil desenhada por Amilcar de Castro
não seria considerada tão inovadora quando comparada, por exemplo, com uma
página manuscrita do Renascimento. Observando a página do manuscrito de
Gregório IX (Figura 6), podemos ilustrar bem o espírito da proposta de
“procurar o novo no velho” de Zielinski (2006).
Além do conteúdo verbal das
informações publicadas pelo jornalismo, parte da discursividade de uma página
impressa ou de uma tela (da televisão ou do monitor de um computador) é
constituída por características herdadas do grafismo do texto impresso ou das
imagens figurativas, mais ou menos realistas. Na relação entre as duas residem
as principais formas de se coordenar as informações e incorporar valores a
elas. Em outra oportunidade, pautados nos estudos de Harry Pross, Ivan Bystrina
e Vilém Flusser, demonstramos como o sentido de leitura tem interferido nos
valores incorporados às informações visuais da mídia. Ou seja, a linearidade da
escrita e a bilateralização especializada do cérebro humano têm interferido na
forma como as imagens são “lidas”, após serem percebidas, e nessa leitura toda
uma sorte de valores assimé- tricos são agregados. São valores derivados dos
conceitos e das percepções de “esquerda” e “direita”, “nós” e “os outros”,
“aqui” e “ali”, “primeiro” e “segundo”, “ação” e “reação” etc. (Guimarães,
2006).
Como definido por MacLuhan (1972:
41), “uma criança em qualquer meio ocidental está cercada por uma tecnologia
visual abstrata e explícita de tempo uniforme e de espaço contínuo e também
uniforme, em que a ‘causa’ é eficiente e contínua e as coisas se movimentam e
acontecem em planos distintos e em ordens sucessivas”. Esta afirmação que está
de acordo com o conceito de acoplamento de Luhmann, é também resultado da
tecnologia da organização da escrita linear, ampliada pelos meios de
comunicação de massa.
Para entender o que a linearidade
do texto e da sua interferência sobre as imagens significou na manutenção de
uma estrutura similar na organização visual da mídia, devemos também procurar
as suas raízes filogênicas.
Alguns fatores culminaram na
linearização da escrita:
Segundo Leroi-Gourhan (1990:
189), o grafismo teve origem não na reprodução figurativa, mas no abstrato, a
partir da expressão de ritmo, o que pode ter facilitado a apropriação do
grafismo pela linguagem falada, para fins de registro:
Particularmente interessante é o fato de o grafismo não ter começado
por uma expressão “servil” e fotográfica do real, mas organizando-se, numa
dezena de mil anos, a partir de sinais que parecem ter exprimido primeiramente
os ritmos e não as formas. (Leroi-Gourhan, 1990: 190).
Ainda segundo Leroi-Gourhan
(1990: 193), “a linearização alfabé- tica poder ter implicado, desde sua
origem, relações com dispositivos de numeração, que eram forçosamente lineares”.
Podemos deduzir que há um vínculo entre a atuação da força da gravidade que
impõe sobre os objetos e seres a organização horizontal e a horizontalidade dos
dispositivos de numeração lineares a que se refere Leroi-Gourhan. Portanto, de
alguma forma, a horizontalidade da escrita linear é resultado da maior
acomodação visual ao desenho do horizonte, embora tanto dispositivos de
numeração quanto algumas escritas primitivas tivessem encontrado soluções
técnicas verticalizadas. Temos que considerar que a noção de linearidade
horizontalizada também é resultado do movimento panorâmico do olhar sobre os
seres em movimento sobre o solo, acrescentando a noção de tempo à linearidade
dos dispositivos de numeração. Antes dos meios de comunicação em massa, por
exemplo, era por meio das procissões (como deslocamentos diacrônicamente
discursivos) que as religiões contavam suas histórias a fim de manter uma
memória viva dos feitos bíblicos.
A narrativa visual em que o leitor “lê” os episódios normalmente da
esquerda para a direita e de cima para baixo já era conhecida na Idade Média,
mas sua importância cresceu com o surgimento da xilogravura, no Renascimento.
Produziram-se xilogravuras em longas tiras para registrar eventos, como o
percurso de procissões nas ruas. Essas tiras, equivalente aos rolos medievais,
davam aos leitores a impressão de ver a procissão passar (Briggs & Burke,
2004: 49).
O fato da linguagem da imagem e
da linguagem do texto remontar a duas origens diferentes – gestos e sons,
respectivamente – (Leroi-Gourhan, 1990: 193), predetermina a natureza
bidimensional de uma e unidimensional de outra. Flusser (1998: 27) considera a
imagem o resultado planificado da abstração de duas das quatro dimensões
espacio-temporais do objeto.
O significado da imagem encontra-se
na superfície e pode ser captada por um golpe de vista. No entanto, tal método
de deciframento produzirá apenas o significado superficial da imagem. Quem
quiser “aprofundar” o significado e restituir as dimensões abstraídas, deve
permitir à sua vista vaguear pela superfície da imagem (Flusser, 1998: 27).
No entanto, como alerta Flusser,
restituir as dimensões abstraídas não significa ter acesso ao mundo
representado pela imagem, pois, como superfície produzida para representar o
mundo, as imagens “passam a ser biombos” que “entrepõem-se entre mundo e homem”
(Flusser, 1998: 29). É importante lembrar que, para Flusser, as imagens
tradicionais “imaginam” o mundo, enquanto as imagens técnicas (as produzidas
por aparelhos e aparatos técnicos) “imaginam textos que concebem imagens que
imaginam o mundo”. (Flusser, 1998: 33). Na relação entre imaginação (fruto da
imagem) e conceitualização (fruto do texto), a imagem técnica do jornalismo
poderia adquirir seu estatuto de representação de um real, mesmo que agregando
valores pouco transparentes para o espectador/leitor.
Os formatos de leitura de dupla
velocidade (Hidalgo, 2003: 64) adotados hoje por muitos jornais combinam
algumas formas adequadas e outras equivocadas das possibilidades de composição
de textos e imagens. Como o formato de dupla leitura implica na possibilidade
de o leitor escolher entre uma leitura superficial, a partir dos elementos que
mais se destacam na página, e uma leitura mais detalhada de determinadas partes
do jornal que provocaram seu interesse, a produção mais adequada é aquela em
que as imagens também possibilitem dois tempos de leitura (pela presentidade ou
pela discursividade), sem prejuízo para a correção da informação que se pretende
transmitir. Deve-se atentar que a leitura rápida favorecerá mais a agregação de
valores à notícia, pois o tempo de recepção será mais fortemente vinculado à
linearização da escrita, algo semelhante ao que ocorre com o telejornalismo e
sua linearidade produzida pela oralidade e rápida sucessão de imagens, sem o
devido tempo para reflexão. Para Baitello Junior (2005: 35), esse tempo de
leitura e de decifração “é necessário para o confronto e o diálogo com as
nossas imagens interiores”. Segundo a “teoria do meio segundo a menos” de
Hertha Sturm, a continuidade de sentido na televisão é comprometida pela
supressão desse tempo pois “a verbalização interna é necessária para a
lembrança, a compreensão e o acompanhamento do acontecido”(Wrobel, apud Marcondes
Filho, 2002: 159). Ou seja, na leitura aprofundada é permitida a percepção
discursiva da imagem e sua relativa liberdade em relação à linearidade do texto
ou mesmo à sua incorporação como parte e valor de validação da informação
redigida.
Atualmente, nos últimos anos,
estamos vivendo mais um momento de incorporação de novas tecnologias. A
televisão digital e os mecanismos de comunicação móvel redesenham a tela de
exposição das informações. Os displays e monitores a cada dia ficam mais finos
e, se ainda não alcan- çaram a pouca espessura de uma folha de papel, pode-se
dizer que uma revista como a alemã Der Spiegel na tela de um PDA ou de um
smartphone já é mais fina que uma de suas edições impressas. Se na tela para
móbile os recursos do jornalismo visual mais uma vez são limitados, continuam
algumas pesquisas com o papel digital. Isso porque a tela do jornalismo on-line
sonha ser mais fina, sonha ter menos interferência dos reflexos da luz externa,
sonha ser dobrável, enfim, sonha ser papel. Se não estivermos atentos aos
legados do texto e da imagem, quando alcançar seus sonhos e a tela se
assemelhar a uma folha de papel, poderemos nos arrepender de termos
desaprendido a planejar uma boa e inventiva página, não só tecnicamente bem
resolvida mas também inteligentemente informativa