domingo, 17 de maio de 2015

Teorias do jornalismo - Resenha


“Este livro, destinado ao jovem que sonha ou ambiciona ser membro desta profissão, pretende fornecer uma compreensão teórica do jornalismo”. Com a clareza de quem está habituado ao exercício do jornalismo, Traquina resume e enuncia a finalidade desta sua obra em dois volumes, da qual será objeto de resenha o primeiro. Como proposta inicial do estudo, Traquina levanta a questão do que seja o jornalismo, sua finalidade e abrangência. Após constatar que o fato relatado hoje por um jornal de alguma maneira é a re-visão de um fato ancestral incorporado às figuras míticas, arquetípicas, do herói, do vilão ou da vítima inocente, afirma que os jornalistas modernos integram a longeva atividade de contar histórias, mesmo que sejam as histórias do cotidiano, cifradas pela forma jornalística de redigir.

As observações acima estão contidas no capítulo 1, O que é jornalismo?, onde o autor enfatiza um dado importante, ao relacionar o exercício do jornalismo com as práticas da democracia, lembrando a costumeira alusão ao jornalismo como um Quarto Poder, paralelo e socialmente legitimado a se inserir, opinativa e informacionalmente, nas esferas de atuação do Legislativo, Executivo e Judiciário. O livro, tido pelo autor como um manual introdutório, apresenta o jornalismo especialmente a estudantes, mas nem por isso descura de aprofundar apreciações críticas. Não assume uma posição idílica para com a profissão, ao lembrar que o jornalismo pode e é utilizado por agentes sociais para fazer valer seus interesses, muitas vezes de cunho econômico, o que inclui a empresa que produz e comercializa o jornal.

Ao deixar claro que as notícias estão claramente direcionadas para os acontecimentos, não para problemáticas, deixa registrado que o jornal não busca uma visão interpretativa dos acontecimentos de atualidade sobre os quais se debruça. Antes, fragmenta o mundo em recortes do que aconteceu, para assim o apresentar ao leitor. Como admite desde o início, definir o que seja jornalismo é missão que exige muito tempo e amplas abordagens. Encerra o capítulo, que é breve, sem formular uma definição do que seja jornalismo, mas dá ao leitor uma visão de quadro, simplificada, porém suficiente, para situarse a respeito do que está estudando.

No capítulo 2, A trajetória histórica do jornalismo na democracia, faz uma citação, recorrente em toda a sua obra, quando alude ao filósofo e político romano Cícero que dizia: “Desconhecer a história é permanecer criança para sempre.” A observação é feita para introduzir o leitor ao processo de surgimento, crescimento e consolidação do jornal como fenômeno de comunicação, especialmente a partir do século XIX, quando os processos de composição e impressão sofreram grandes inovações.

O autor faz uma abordagem com boa dose de detalhamento a respeito do desenvolvimento da imprensa, que se deu a par dos progressos tecnológicos típicos do jornalismo aliados ao crescimento da urbanização. Além disso, informa que com o passar do tempo foram abolidas as taxas que os governos cobravam para que as gazetas circulassem. Conjunções históricas levaram definitivamente o jornalismo a se inserir de maneira mais direta nos processos político-sociais, com as lutas contra a censura e o surgimento do espaço público, como os cafés, onde se discutia política.

O arrefecimento da censura permitiu ao jornalismo um ganho em representatividade, vindo sua imagem pública a ser associada ao exercício da própria democracia, uma vez que a exposição de idéias via jornal representava uma tomada de posição ante alguma forma de poder ou repressão. Daí o surgimento do jornal como artefato orgânico ao exercício da democracia, dado que se apresentava como elemento portador e portátil de idéias, o que o legitimou historicamente como elo entre a sociedade e a exposição de seus anseios.

O capítulo 3, que trata do jornalismo como profissão, remete ao questionamento do exercício da atividade, buscando enquadrá-la como marcantemente profissional, ou seja: ajustando-se a toda uma série de parâmetros que definem o que seja uma profissão, diferenciando-a de uma simples ocupação. Após lembrar que ao longo do século XIX o jornalismo não era tido como profissão, acentua o autor que, de qualquer maneira, todos os que ao jornal se sentiam ligados, pelo exercício opinativo ou necessidade de escrever para dali tirar o seu sustento, buscavam situar-se no âmbito profissional. Acrescenta-se a isso o surgimento de códigos deontológicos de conduta, como também e especialmente o fato de que o jornalista se inscrevia num dado grupal, numa comunidade que tinha a sociedade como seu objeto de atenção, formando com isso um laço identitário, auto-referencial e diferenciador de outras categorias.

O capítulo 3 permite ao leitor uma visão ampla, a respeito do que seja o entendimento do conceito do que seja sociologicamente uma profissão, com ênfase clara no jornalismo, afirmando, a respeito do tema que, sim, o jornalismo é uma profissão.

Em seqüência, o capítulo 4 aprofunda a questão do jornalismo enquanto profissão. Lembra que a atividade é vista pelos jornalistas como uma missão e enfatiza que desconhecer os 150 anos de luta dos jornalistas portugueses é inserir-se no entendimento de Cícero, de que isso é desconhecer a história e assim permanecer criança para sempre. O autor é de nacionalidade portuguesa e enfatiza sua visão a partir do jornalismo de Portugal, o que deixa uma lacuna para ao estudante brasileiro, que não tem como contextualizar a realidade da profissão no Brasil ao longo dos séculos XIX e XX. O capítulo traz informações adicionais a respeito da sociologia das profissões, o que enriquece o trabalho no que diz respeito à compreensão do tema.

No capítulo 5, voltado para O pólo ideológico do campo jornalístico, Traquina aborda questões como o avanço na imprensa, quando o conteúdo dos jornais passou a ser dividido entre informação e opinião, bem como questões comerciais versus compromissos profissionais com uma informação credível e uma autonomia relativa do jornalista, frente aos ditames da empresa.

Outro aspecto também valorizado é o ethos do profissional, sua visão de quais sejam seus compromissos para com o leitor. Traquina destaca que há entre o jornalismo e democracia uma relação simbiótica, colocando a liberdade no centro dessa relação. Não questiona, entretanto, a questão de serem os jornais propriedade privada, representando desta forma, de alguma maneira, os pontos de vistas e os interesses dos grupos detentores de poderio econômico, em contrafação com os princípios democráticos de liberdade de expressão e direito à informação confiável.

O capítulo 5 volta-se ainda para tratar da objetividade no jornalismo. Esta é tratada tanto no que diz respeito ao que se refere à condição de relato credível daquilo que efetivamente se passou, a homologia possível entre fato e relato, quanto ao que refere à objetividade enquanto ação organizacional, estandardização dos modos de produção, para que, desde o recolhimento da informação, até sua edição, passando pela redação, tudo esteja pronto para o leitor no exíguo período de 24 horas.

Quanto ao sexto capítulo, As teorias do jornalismo, é uma coletânea das principais formulações teóricas relativas ao tema. Há um breve enunciado a respeito de cada uma, como a teoria do espelho, a ação do gatekeeper, a teoria organizacional, as teorias de ação política, bem como as teorias cunstrucionistas, a teoria estruturalista e a teoria interacionista.

No todo, o livro permite ao estudante ter uma visão inicial sobre o jornalismo, apontando as principais características do arcabouço teorético que cerca essa questão. A lógica do texto do autor permite ter-se uma compreensão do que seja cada uma das teorias tratadas, como se o leitor estivesse seguindo num processo seqüencial. Há explicações a respeito dos contextos que permitiram seu surgimento e, cotejando-se as diversas proposições, tem-se uma compreensão do fenômeno jornalístico e os diversos níveis de dificuldade para sua compreensão e abrangência.


sábado, 9 de maio de 2015

O SEGREDO DA PIRÂMIDE: Para uma teoria marxista do jornalismo

Adelmo Genro Filho

         O jornalista Adelmo Genro Filho faz nesta obra uma ampla revisão das abordagens teóricas e práticas do jornalismo, desvendando as limitações dessa atividade tal como foi pensada até agora.

         Adelmo mostra que, até hoje, a prática do jornalismo, embora insinue potencialidades e alternativas, baseia-se num conjunto de impressões empíricas. Os profissionais, de um modo geral, não aprofundam uma reflexão sobre a prática jornalística: "eles colocam seu talento, honestidade e ingenuidade a serviço do capital, com a mesma naturalidade com que compram cigarros no bar da esquina.

         Mostra também que a teoria produzida sobre o tema, em certos enfoques, não vai muito além do simples reconhecimento do valor operativo das técnicas. Em outros, limita-se à crítica ideológica do jornalismo como instrumento de dominação. Na opinião do autor, tais abordagens não revelam, de forma consistente, a natureza do jornalismo.

         Além disso, segundo Adelmo, a impotência teórica não é exclusividade do jornalismo burguês, tal como se pratica nos países capitalistas. Também nos países do "socialismo real" a essência humanizadora do jornalismo não é compreendida, o que explica a manipulação e a pobreza do jornalismo praticado nesses países.

         Porém ao disparar suas críticas tanto ao jornalismo burguês como ao jornalismo do "socialismo real", o autor não está propondo uma "terceira via" no campo ideológico. Amparando-se numa sólida formação marxista e assumindo uma postura antidogmática e criativa, Adelmo atribui ao jornalismo um papel revolucionário: o de ser uma forma de conhecimento que, embora historicamente condicionada pelo capitalismo, apresenta potencialidades que ultrapassam esse modo de produção. Para o autor, o jornalismo deve ser encarado como uma nova "forma de conhecimento" que se distingue e complementa as mediações que a ciência e a arte proporcionam para a compreensão do mundo humano: "A consumação da liberdade humana exige, em especial, o desenvolvimento do jornalismo".

         "O Segredo da Pirâmide" culmina com a revelação de importantes conclusões que a própria prática do jornalismo está exigindo - em relação ao uso do lead e da "pirâmide invertida" - e que a teoria, até o momento, não explicava adequadamente. Adelmo Genro Filho propõe essas explicações e, nesta ousada obra, expõe concepções inovadoras sobre a natureza do fenômeno jornalístico.

         Este trabalho foi apresentado, inicialmente, como dissertaçâo de conclusão do Mestrado em Ciências Sociais na Universidade Federal de Santa Catarina. Nessa ocasião, foram orientadora e c-oorientadora as professoras Ilse Scherer-Warren e Maria José Reis, às quais manifesto meu agradecimento pela sua permanente disposição em colaborar. Cabe-me, no entanto, inteira responsabilidade pelo conteúdo destas reflexões, bem como pelas premissas filosóficas e políticas que nortearam este trabalho.

         Em especial, agradeço aos jornalistas Daniel Herz, Luiz AIberto Scotto, Pedro S. Osório e Airton Kanitz, com os quais debati várias idéias aqui desenvolvidas. Ao Chefe do Departamento de Comunicação da UFSC, Prof. Francisco Castilhos Karam, e ao Coordenador do Curso de Jornalismo, Prof. Hélio Ademar Schuch, meu reconhecimento pelo apoio recebido durante a elaboração deste trabalho. Agradeço também à Profª. Cássia Corintha Pinto, que corrigiu os originais, e a Albertina Buss, que realizou a tarefa de datilografia. Para a presente publicação foram feitas pequenas modificações no texto final da tese.

Prefácio

         Existe uma grande defasagem entre a atividade jornalística e as teorizações que se fazem em torno dela. Esse distanciamento se dá em tal grau que, inclusive, tem gerado falsas e absurdas polêmicas opondo "teóricos" e "práticos". Recentemente, uma campanha movida no Brasil contra a obrigatoriedade do diploma acadêmico para o exercício do jornalismo indicou até que ponto os pragmáticos chegam em seu desprezo pela teoria. Eles consideram que a simplicidade das técnicas jornalísticas dispensa uma abordagem teórica específica e uma formação especializada.

         Por outro lado, é bem verdade que os "teóricos" não têm feito muito no sentido de lançar uma ponte com mão dupla entre a teoria e a prática. Em geral, as teorizações acadêmicas oscilam entre a obviedade dos manuais, que tratam apenas operativamente das técnicas, e as críticas puramente ideológicas do jornalismo como instrumento de dominação.

         Assim, o profissional que procura, realmente, refletir sobre o significado político e social de sua atividade - cujas ambigüidades e contradições ele percebe em seu dia-a-dia -, coloca-se num impasse. Ou ele vai tomar conhecimento das variações em torno de um tema que já domina, ou buscar contato com enfoques teóricos que desprezam as contradições e potencialidades críticas do jornalismo, com as quais ele se depara na prática.

         Por isso, a indevida polarização entre "teóricos" e "práticos" corresponde, no fundo, a uma incomunicabilidade real entre as teorizações existentes e a riqueza da prática. Essa polarização torna-se a expressão de um diálogo, não de surdos, mas de mudos: um não consegue falar ao outro. A prática, por sua limitação natural, jamais soluciona a teoria. Ela apenas insiste, através de suas evidências e contradições, que deve ser ouvida. Mas só pode se expressar racionalmente atravésda teoria.

         Responsabilidade maior, portanto, cabe à própria teoria que está muda em relação às evidências e contradições da prática, quando deveria transformá-las numa linguagem racional. Isto é, elucidar e direcionar a prática num sentido crítico e revolucionário.

         O objetivo maior do presente trabalho é propor, certamente com limitações, um enfoque teórico capaz de apreender racionalmente tanto as misérias quanto a grandeza da prática que é seu objeto e critério. É a tentativa de iniciar um diálogo, tendo presente que a responsabilidade integral pela iniciativa e pela fecundidade ou não dos conceitos cabe à teoria.

         Trata-se, a rigor, de um ensaio que pretende fornecer elementos para uma teoria do jornalismo, entendido este como uma forma social de conhecimento, historicamente condicionada pelo desenvolvimento do capitalismo, mas dotada de potencialidades que ultrapassam a mera funcionalidade a esse modo de produção. O jornalismo que tratamos aqui, portanto, não é uma atividade ligada exclusivamente ao jornal, embora tenha sido tipificado pelos diários que nasceram a partir da segunda metade do século passado, já com características empresariais e voltados para a diversificação crescente das informações.

         O enfoque teórico, situado na perspectiva da dialética marxista, está alicerçado nas categorias do "singular", "particular" e "universal" - noções de larga tradição no pensamento filosófico, especialmente na filosofia clássica alemã - que atingiram sua plena riqueza de determinações lógicas no pensamento de Hegel, apesar de inseridas dentro de seu sistema idealista. Sob a inspiração da estética de Lukács, que definiu a arte como uma forma de conhecimento cristalizada no "particular" (típico), o jornalismo é caracterizado como uma forma de conhecimento centrada no "singular". Uma forma de conhecimento que surge, objetivamente, com base na indústria moderna, mas se torna indispensável ao aprofundamento da relação entre o indivíduo e o gênero humano nas condições da sociedade futura. Assim, a proposta de um "jornalismo informativo", ideologicamente antiburguês, transforma-se numa possibilidade política efetiva.

         Inicialmente, são criticados alguns pressupostos do funcionalismo que estão subjacentes ao tratamento pragmático que normalmente é dado ao problema das técnicas jornalísticas e, igualmente, à questão da "objetividade e imparcialidade" da informação. Incluída na mesma linhagem teórica do funcionalismo, à chamada Teoria Geral dos Sistemas é apontada como inadequada para a abordagem crítica da comunicação humana em geral e do jornalismo em particular, à medida que reduz a antologia do ser social às propriedades sistêmicas referidas pela cibernética.

         A Escola de Frankfurt, que nos legou uma importante herança teórica de crítica da cultura, da comunicação e da ideologia no capitalismo desenvolvido, é denunciada em sua unilateralidade ao abordar tais questões exclusivamente sob o ângulo da manipulação. Nessa perspectiva, são discutidas idéias do jovem Habermas a respeito do jornalismo e algumas posições de autores contemporâneos situados nessa tradição.

         Mais adiante, uma corrente que se pretende marxista, chamada por nós de "reducionismo ideológico" - que trabalha com as premissas naturalistas do stalinismo - é analisada em seu caráter manipulatório e conseqüências a éticas no terreno político.

         Os últimos capítulos, com base nos pressupostos formulados ao longo do balanço crítico, propõem uma rediscussão dos conceitos de lead, notícia e reportagem, assim como uma revisão do significado da "pirâmide invertida". Finalmente, numa abordagem das relações do jornalismo com a sociedade capitalista e, mais amplamente, com a perspectiva histórica de uma sociedade sem classes, são delineadas suas potencialidades socializantes e humanizadoras.

Adelmo Genro Filho

Introdução

         Este trabalho pretende fornecer alguns elementos e indicações para a construção de uma teoria do jornalismo. Não tem, evidentemente, o fôlego e a sistematicidade do projeto desenvolvido pelo pioneiro Otto Groth, cujo admirável esforço teórico reafirma a tradição do pensamento abstrato entre os alemães. Em 1910, o Dr. Groth começa a escrever sua primeira obra, Die zeitung (O jornalismo), uma enciclopédia do jornalismo em quatro tomos, publicada entre os anos de 1928 e 1930. Em 1948 publica sua segunda obra. A partir de 1960 aparece seu trabalho mais importante e sistemático: Díe unerkannte culturmacht. Gruddlegung der zeitungswiessenschft (O desconhecido poder da cultura. Fundamentação da ciência jornalística). Foram seis volumes produzidos até 1965, quando o autor morreu sem terminar o sétimo.

         Seu grande objetivo era obter o reconhecimento da "ciência jornalística" como disciplina independente. Essa meta hoje aparece como algo, no mínimo, duvidoso, considerando-se que a tendência atualmente dominante nas ciências sociais é a confluência de disciplinas e perspectivas. No entanto, o principal mérito de Groth, que consiste em ter estudado o jornalismo (ou os "periódicos") como um objeto autônomo entre os demais processos de comunicação social, não teve muitos herdeiros.

         As abordagens que predominaram nas últimas décadas giram em torno da comunicação de massa, da publicidade e das técnicas de informação, sem destacar o jornalismo como um objeto específico a ser desvendado. Em geral, o jornalismo tem sido considerado como simples modalidade da comunicação de massa e mero instrumento de reprodução da ideologia das classes dominantes.

         Otto Groth definiu claramente o objeto sobre o qual erigiu sua teoria:

         "Hay que advertir que para Groth la Ciencia Periodística debe investigar todas las publicaciones que aparezcam periodicamente como un solo fenómeno en sus elementos. Su obra tiene siempre presente la 'unidad confirmada historicamente de revistas y periódicos', por lo que Groth propone para los dos el nombre de ‘periodik’. Este término abarca no solo el periódico sino la prensa en conjunto".

         Suas reflexões estão dirigidas, fundamentalmente, para o jornalismo escrito. Mas sua teoria jornalística, segundo Belau, em muitos pontos é perfeitamente aplicável ao rádio e à TV.

         Seu método de análise - ao contrário do que afirmam alguns pesquisadores - não é funcionalista, mas tipicamente weberiano. Os periódicos, para ele, são uma obra cultural produzida por sujeitos humanos dotados de finalidades conscientes, como parte da totalidade das criações humanas. Vejamos as próprias palavras de Groth:

         "La obra cultural tiene como realización un sentido de realidad sensual y por lo tanto está teleologicamente determinado al hombre, al sujecto. Su estructura está en el todo, y en cada una de sus partes, objetiva y subjetivamente. De esto recibe lo característico de su ser, su autolegalidad. Los fines que fundan así la Cultura derivan de las diferentes demandas humanas y de las normas válidas".

         Para Groth, o exterior, a forma, a produção técnica, não possuem nenhum valor para a determinação do conceito e a delimitação do objeto da ciência do jornalismo. "Lo que vale en una obra cultural es su ser, su sentido". As edições e os exemplares de um periódico não são as peças das quais ele se compõe, mas a manifestação e materialização da idéia que é sua substância. De sua unidade imaterial resulta a continuidade de suas manifestações, pois essa idéia tem vida e destino próprios, colocando a seu serviço as máquinas, os homens, os edifícios, etc.

         Essa idéia cumpre uma finalidade, que é comunicar os acontecimentos em todos os ramos da cultura e da vida em geral ao indivíduo e à sociedade em seu conjunto. O significado do periódico, então, é a comunicação de bens imateriais de todos os tipos, desde que pertençam aos mundos presentes dos leitores, de um modo público e coletivo. O periódico deve servir de mediador, o que não implica apenas uma função social, mas também uma reciprocidade das relações entre os jornalistas, o periódico e os leitores.

         As quatro características fundamentais do jornalismo, apontadas por Groth - periodicidade, universalidade, atualidade e difusão -, consideradas numa perspectiva histórico-social, formam a dimensão que chamaríamos estrutural do fenômeno jornalístico. Não caracterizam a sua essência. Por outro lado, ao afirmar a significação do periódico como medíador na comunicação de bens imateriais, Otto Groth permanece num terreno excessivamente genérico e abstrato. O que é preciso definir é a especificidade desses bens imateriais produzidos por essa estrutura jornalística historicamente determinada. Noutras palavras, qual o tipo de conhecimento produzido pelo jornalismo?

         Aqui já temos, portanto, outra delimitação teórica do objeto, distinta daquela construída por Groth. E um outro método: já não se trata apenas de distinguir a racionalidade de uma comunidade subjetiva de indivíduos que trocam bens simbólicos, mas de compreender como as condições históricas - em primeiro lugar, as condições objetivas - produziram a necessidade dessa reciprocidade subjetiva e, sobretudo, a especificidade dos bens simbólicos que nasceram dela. Trata-se de, sob esse prisma, descobrir as ambigüidades e contradições do fenômeno jornalístico diante da dominação e da luta de classes no capitalismo, buscando inclusive perscrutar as potencialidades que se abrem ao futuro.

         Mas voltemos ao problema do método. É importante insistir sobre a bússola que vai nortear esse trabalho. Já é quase senso comum nas ciências, hoje em dia, a idéia de que o "objeto teórico" (ou "objeto do conhecimento") é distinto do "objeto real", entendido este apenas enquanto manifestação fenomênica. Não obstante, essa premissa é interpretada de maneiras diferentes, dependendo dos pressupostos filosóficos dos quais se parte.

         Há duas interpretações agnósticas sobre a questão que devem ser descartadas. A primeira delas, extrai dessa premissa uma conclusão de fundo neopositivista, isto é, a realidade é tomada simplesmente para efeitos operatórios, como um "construto" relativamente arbitrário. A segunda, a partir da distinção entre "objeto teórico" e "objeto real", assume uma postura francamente idealista, ou seja, o real é entendido como dotado de uma essência inacessível ao conhecimento.

         A posição assumida neste trabalho reconhece que, analiticamente, o "objeto teórico" é distinto do "objeto real" e interpreta essa sentença no sentido que foi claramente indicado por Marx em Para a crítica da economia política. Isso quer dizer que o real, para o conhecimento, não aparece imediatamente em sua concreticidade. Não é a objetividade evidenciada diretamente pelos sentidos que constitui o concreto, mas a síntese de suas múltiplas determinações enquanto concreto pensado, embora a concreticidade que o constitua seja o verdadeiro ponto de partida. O percurso do conhecimento vai do abstrato ao concreto, das abstrações mais gerais produzidas pelos conhecimentos anteriores, através das quais o sujeito para apreender a particularidade do objeto, até o momento da síntese realizada pelo conceito para apanhá-lo em suas determinações específicas, isto é, como concreto pensado. É o que afirma, numa linguagem hegeliana, Jean Ladrière:

         "Compreender o fenômeno é, de alguma maneira, efetuar o caminho da manifestação em sentido inverso, remontar o processo de vinda ao manifesto, vincular o manifesto ao seu princípio. Mas a caminhada não está separada do fenômeno, ela é a própria possibilidade mais interior, sempre presente no próprio ato de manifestação".

         Neste sentido, o "objeto real" é o próprio fenômeno, aquilo que aparece imediatamente aos sentidos e se anuncia na experiência presente, assimilada de forma isolada e fragmentária. E o "objeto teórico" (ou "objeto do conhecimento") é a realidade observada sob o ângulo dos conhecimentos acumulados preliminarmente, ou seja, nos limites em que isso foi possível já vinculada (a realidade) ao seu princípio.

         Assim, dois aspectos merecem ser ressaltados. Primeiro, que o "objeto teórico", tal como o "objeto real", não é algo dado de uma vez para sempre, alguma coisa fixa e inerte, mas um processo de construção paralelo à produção, da própria realidade humana. Segundo, que não existe um fosso intransponível entre um e outro, mas uma transformação constante e progressiva do "objeto real" em "objeto teórico" e vice-versa. É se apropriando do mundo que o homem vai realizando essa transformação e, através dela, revelando a verdade do objeto real por meio da teoria.

         O percurso da teoria, em conseqüência, não pode partir de um conceito exaustivo do objeto (no caso, o jornalismo), para em seguida derivar suas determinações, pois isso seria adiantar como premissa ideal aquilo que se pretende - embora com muitas limitações - desenvolver na totalidade da reflexão. É recomendável, ao que nos parece, que o percurso da exposição não violente a lógica da apreensão teórica, embora não deva ser coincidente com ela, a fim de evitar os tropeços e descaminhos que a teoria foi obrigada a percorrer. O melhor rumo da exposição parece ser um caminho lógico presidido pelas conclusões teóricas já obtidas, não reveladas inteiramente de antemão, embora delineadas previamente a fim de que sirvam como vetor para a compreensão.

         Avancemos, então, em direção ao nosso objeto pela via delicada da aproximação excludente. O objeto deste trabalho não é a comunicação em geral, o que poderia enfeixar todo um conjunto heterogêneo de processos físicos, biológicos e sociais, abordados sob a ótica da Cibernética e da Teoria da Informação. Tampouco se pretende dar conta do conjunto de relações humano-sociais indicado sob o título genérico de Comunicação Social, mas apenas de uma de suas determinações históricas, a saber, o "jornalismo informativo", tomado como modelo do próprio conceito de jornalismo.

         A escassez de estudos teóricos sobre o jornalismo (tendo presente a exceção de Otto Groth) nos obriga a discutir a questão no contexto de categorias e referências mais amplas. Assim, o critério usado para o balanço dos conhecimentos existentes está alicerçado em duas premissas: os pressupostos teóricos assumidos e a adoção privilegiada - para efeitos da crítica - de certas correntes de pensamento que, a nosso juízo, produziram conceitos relativamente abrangentes sobre o jornalismo. Discutiremos aspectos de três grandes correntes: o "funcionalismo norte-americano", a "Escola de Frankfurt" e uma espécie de concepção sobre o jornalismo que se autoproclama marxista, que será chamada de "reducionismo ideológico". Esta concepção está inserida na tradição stalinista e encontra seu complemento teórico nas teses de Althusser.

         A "escola francesa" de Jacques Kaiser, que seria considerada mais tarde como precursora do estruturalismo , e os estudos semiológicos inspirados na lingüística estrutural de Saussure, na lingüística de Jakobson, na lingüística transformacional de Chomsky, na psicanálise de Lacan e na antropologia de Lévi-Strauss não serão discutidos. A partir da década de 60, na Europa, e principalmente na França, esboçou-se nos pesquisadores universitários "o sonho megalômano de uma decodificação geral dos sistemas de signos; e como toda a manifestação humana é um sistema de signos... Imaginou-se uma ciência geral da narrativa, que se encaixaria numa ciência geral das artes, que se encaixaria numa ciência geral da linguagem, abarcando sociedade e inconsciente". Pela natureza desse enfoque, que privilegia o mundo enquanto "linguagem", "textos", "articulação de signos", o jornalismo é investigado, via de regra, como produção ideológica que emana das estruturas subjacentes em que se organiza a mensagem. Em conseqüência, para os objetivos do nosso trabalho que é situar o jornalismo como fenômeno histórico-social concreto e não apenas como organização formal da linguagem que manifesta conteúdos explícitos ou implícitos, tais enfoques apresentam um insanável vício de origem, que é a parcialidade na apreensão do fenômeno.

         Inicialmente faremos um balanço crítico no qual as nossas hipóteses irão sendo apresentadas. Os capítulos finais abordarão a "pirâmide invertida", o lead , as relações entre jornalismo e arte e, finalmente, as perspectivas históricas do jornalismo. Na questão das relações entre jornalismo e ideologia, por uma opção epistemológica, e também política, o conteúdo das notícias é tomado em seus opostos extremos ("funcional" ou "crítico-revolucionário"), embora seja necessário reconhecer que a dialética social estabelece todo um leque de gradações e ambigüidades. Para abordar o jornalismo como modalidade de conhecimento, são utilizadas três categorias de larga tradição no pensamento filosófico desde a Antigüidade e, em especial, na filosofia clássica alemã: o singular, o particular e o universal. Elas foram aplicadas por Lukács, com relativo êxito, na formulação de uma estética marxista. Nossa intenção é aplicá-las para a constituição de uma teoria do jornalismo.

         Nossa abordagem postula a aplicação do método dialético-materialista, tomada esta expressão não no sentido do "reducionismo economicista" ou do "naturalismo dialético" - o que conduz a um enfoque de matiz positivista - mas numa perspectiva marxista que toma as relações práticas de produção e reprodução da vida social como ponto nodal da autoprodução humana na história. Ou seja, trata-se de uma maneira de considerar a realidade histórico-social que compreende as determinações subjetivas como algo real e ativo, uma dimensão constituinte da sociedade, mas que só pode ser apanhada logicamente em sua dinâmica como momentos de uma totalidade que tem na objetivação seu eixo central. Em síntese, um enfoque que toma a práxis como categoria fundamental.

         A dificuldade maior é que inexiste uma tradicão teórica integrada e solidamente constituída sobre o jornalismo, como já foi indicado, em que pesem alguns avanços significativos em problemáticas paralelas ou áreas limítrofes. A Teoria da Informação, por um lado, e a Comunicação de Massa, por outro, envolvem investigações relativamente recentes e bastante desencontradas. O fundamento comum, enunciado e discutido pelos estudiosos de ambas as áreas, é ainda por demais incipiente para que se possa reconhecer a existência de uma inequívoca unidade teórica. Persiste, entre a Teoria da Informação e as investigações filosóficas, sociológicas e semiológicas da comunicação humana, uma terra de ninguém, um vácuo atormentado por dúvidas e imprecisões.

         Entre o formalismo da primeira e a generalidade dos demais enfoques, não é de se admirar, portanto, que o jornalismo - fenômeno que nasceu no bojo da comunicação de massa - seja tão carente de explicações teóricas e tão farto em considerações empiristas e moralizantes. O que tem acontecido é que as abordagens sociológicas ou filosóficas contornam, ou simplesmente ignoram, as questões formais propostas pela Teoria da Informação. Esta, por seu lado, tende a exercer uma espécie de "redução ontológica" da sociedade para inseri-la em seus modelos.

         A chamada "Teoria Geral dos Sistemas", pela metodologia abrangente e reducionista que propõe, é um dos pólos desse dilema teórico. Os mal-entendidos que se produziram com a participação de Lucien Goldmann num debate com cientistas de diversas áreas sobre "o conceito de informação na ciência contemporânea" , indicam o reverso da medalha, isto é, a dificuldade dos enfoques "humanistas" em incorporar o aspecto objetivo e matemático implicado no conceito de informação.

         Assim, pode-se perceber que a ausência de uma teorização axiomática sobre o jornalismo não ocorre por acaso, mas num contexto de reflexões heterogêneas e até paradoxais sobre o problema da comunicação. Tampouco essa lacuna é destituída de conseqüências políticas e sociais: em geral, os posicionamentos nascidos dessa indigência teórica capitulam diante do empirísmo estreito - caminho mais curto até a apologia - ou assumem o distanciamento de uma crítica supostamente radical que resume tudo no engodo e na manipulação.

         A ingenuidade dessas propostas, que desprezam as mediações especificamente jornalísticas e propõem a panacéia de "devolver a palavra ao povo", denuncia a inconsistência teórica das premissas. É certo que a ideologia burguesa está embutida na justificação teórica e ética das regras e técnicas jornalísticas adotadas usualmente. Mas isso não autoriza, como muitos parecem imaginar, que se possa concluir que as técnicas jornalísticas são meros epifenômenos da dominação ideológica. Essa conclusão não é legítima nem do ponto de vista lógico nem histórico.

         Um enfoque verdadeiramente dialético-materialista deve buscar a concreticidade histórica do jornalismo, captando, ao mesmo tempo, a especificidade e a generalidade do fenômeno. Deve estabelecer uma relação dialética entre o aspecto histórico-transitório do fenômeno e sua dimensão histórico-ontológica. Quer dizer, entre o capitalismo (que gestou o jornalismo) e a totalidade humana em sua autoprodução. Dito de outro modo, o jornalismo não pode ser reduzido às condições de sua gênese histórica, nem à ideologia da classe que o trouxe à luz. Parafraseando Sartre: a notícia é uma mercadoria, mas não é uma mercadoria qualquer. O capitalismo não é um acidente no processo histórico, mas um momento da totalidade em seu devir. Suas determinações culturais (no sentido amplo do termo) envolvem uma dialética entre a particularidade dos interesses da classe dominante e a constituição da universalidade do gênero humano. A quem pertencem, hoje, as obras de Balzac, Flaubert, Zola e tantos outros? A ambivalência do jornalismo decorre do fato de que ele é um fenômeno cuja essência ultrapassa os contornos ideológicos de sua gênese burguesa, em que pese seja uma das formas de manifestação e reprodução da hegemonia das classes dominantes.

         O que faremos nas reflexões subseqüentes é discutir o jornalismo como produto histórico da sociedade burguesa, mas um produto cuja potencialidade a ultrapassa e se expressa desde agora de forma contraditória, à medida que se constituiu como uma nova modalidade social de conhecimento cuja categoria central é o singular. Porém, o conceito de conhecimento não deve ser entendido na acepção vulgar do positivismo, e sim como momento da práxis, vale dizer, como dimensão simbólica da apropriação social do homem sobre a realidade. Nosso ponto de partida, portanto, pode ser ilustrado pela assertiva final do livro de Nilson Lage. Ele intuiu corretamente o caminho a seguir e o expressou de modo incisivo:

         "Os jornais, em suma, não têm saída: são veículos de ideologias práticas, mesquinharias. Mas têm saída: há neles indícios da realidade e rudimentos de filosofia prática, crítica militante, grandeza submetida, porém insubmissa". Orações imponentes de um jornalista talentoso. Talvez o lead de uma nova abordagem.

Notas de Rodapé

1)BELAU, Angel Faus. La ciencia periodística de Otto Groth. Pamplona, Instituto de Periodismo de la Universidad de Navarra, 1966. (A síntese do pensamento de Groth apresentada aqui, bem como alguns dados biográficos, foram baseados principalmente na presente obra).
2)BELAU, Angel Faus. Op. cit., p.17.
3)José Marques de Melo afirma que Groth adotou a perspectiva funcionalista para o estabelecimento das leis do jornalismo. Cf.: Sociologia da imprensa brasileira. Petrópolis, Vozes, 1973. (coleção Meios de Comunicação Social; 10, Série Pesquisas; 2) p.20.
4)GROTH, Otto. Apud:BELAU, Angel Faus. Op.cit., p.26.
5)Idem, p.29
6)Marx, Karl. In: Karl Marx. 3. Ed. São Paulo, Abril Cultural, 1985. (Col. Os Pensadores) p. 116-7.
7)LADRIÈRE, Jean. Filosofia e práxis científica. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1978. p.23.
8)O "jornalismo informativo" produzido em qualquer veículo, especialmente aquele que apresenta uma periodicidade pelo menos diária, é o fenômeno que tipifica nosso objeto. Trata-se da manifestação mais característica do fenômeno que pretendemos analisar, servindo como principal referência do nosso "objeto real" no sentido já apontado.
9)Mais adiante veremos que as idéias de Althusser, mais harmônicas com a concepção que denominamos "reducionismo ideológico", também influenciaram as análises do belga Armand Mattelart, embora estas, no seu conjunto, estejam mais identificadas com a tradição de "Frankfurt".
10)CASASÚS, José Maria. Ideologia y análisis de medios de comunicación. Barcelona. DOPESA, 1972. p.20.
11)MOISÉS, Leila Perrone. Roland Barthes. São Paulo, Brasiliense, 1983. (Col. Encanto radical; 23) p.43.
12)Mesmo sendo expressões usuais no dia a dia dos jornalistas, cabe informar o seu significado aos leitores de outras áreas. A "pirâmide invertida" é a representação gráfica de que a notícia deve ser elaborada pela ordem decrescente de importância das informações. O lead designa "o parágrafo sintético, vivo, leve, com que se inicia a notícia, na tentativa de fisgar a atenção do leitor".
13)Para quem não estiver familiarizado com tais categorias, seria interessante iniciar a leitura pelo capítulo VII, onde se discute o sentido que elas adquirem em Hegel e Marx, e onde são apresentadas algumas reservas ao uso que delas fez Lukács em sua estética.
14)GENRO FILHO, Adelmo. Introdução à crítica do dogmatismo. In: Teoria e Política. São Paulo, Brasil Debates, 1980. n.1.
15)Cf. BUCKLEY, Walter. A sociologia e a moderna teoria dos sistemas. 2.ed. São Paulo, Cultrix, s/d.
16)GOLDMANN, Lucien. Sobre o conceito de consciência possível. In: O conceito de informação na ciência contemporânia. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1970. (Série Ciência e Informação; 2).
17)"Valéry es un intelectual pequeño-burgués, no cabe la menor duda. Pero todo intelectual pequeño-burgués no es Valéry". In: SARTRE, Jean-paul. Crítica de la razón dialéctica. Buenos Aires, Losada, 1979. Libro I. p.53.
18)LAGE, Nilson. Ideologia e técnica da notícia. Petrópolis, Vozes, 1979, p. 112 (Violette Morin aponta no mesmo sentido: "Parece que el tratamiento periodístico, em su versión actual, encierra alguna 'virtud' cuya intensidad, aún mal definida, podría un día rivalizar con la ya reconocida de sus 'vícios'. Es éste, en todo caso, el sentimiento que este trabajo contribuye a sugerir". Ver: El tratamiento periodístico de la informacion. Madrid, A.T.E., 1974. (Col. Libros de Comunicación Social). p.10.

Source: http://www.adelmo.com.br/bibt/t196-int.htm

sábado, 18 de abril de 2015

gatekeeper

Apesar disso, pensadores do jornalismo pós-industrial, como C.W. Anderson et al (2013) da Columbia Univerty, avaliam que o cenário é propício para tentar fazer algo melhor com a criação de uma nova instituição. Raras são empresas de comunicação que incentivam a ruptura, espera mudanças e considera que nada está gravado em pedras. O mesmo relatório evidencia o que parece óbvio: todo jornalista tem - aliás, sempre teve - uma rede que para criá-la e mantê-la eficaz requer tato, mas também a imposição de limites bem concretos. Exige tempo reflexão e processo. Exige critério, até porque uma rede implica proximidade e o jornalismo exige distância. Logo, garantir ambas é difícil. A discussão não visa, em primeiro momento, a neutralidade do jornalismo. Mas o que C. W. anderson et al (2013) ressalta é uma isenção, certo distanciamento dos fatos que uma reportagem, por exemplo, pode não dar conta de manter, já que a profundidade do acontecimento exige também aproximações. Em rede isso se torna ainda mais difícil. O relatório exemplifica como as mídias sociais digitais se propagam, gerando conteúdos e informações.
Todo indivíduo, assunto ou lugar tem o potencial de contar com uma rede visível a seu redor. Diariamente, serviços como Facebook, YouTube, Twitter, Orkut e Weibo publicam muito mais conteúdo do que a produção somada da mídia profissional no mundo todo. Logo, garimpar relacionamentos, conversas e história será cada vez mais importante para a coleta de informações. A ferramenta de agregação storify e o projeto irlandês de jornalismo Storyful, que vasculha a atividade em redes sociais para buscar notícias e buscar fatos, são como agências de notícias sociais: garantem mais proteção e filtro jornalístico do que as plataformas em sua base, sempre tentando imprimir algum sentido a informações dispersas e não raro confusas (ANDERSON et al, 2013, p. 48).
Conforme o relatório, à medida que indivíduos, empresas e governos vão criando e soltando dados em volumes cada vez maiores, vemos que disponibilidade e acessibilidade, no caso de dados, são coisas distintas. Entender a natureza daquilo que conjuntos imensos de dados oferecem, saber compor narrativas e tirar conclusões que deem sentido a informações talvez falhas ou parciais, é um trabalho importante. Assim como precisa de gente com um conhecimento de tecnologias da comunicação e ciência da informação, o jornalismo precisa converter cientistas de dados e estatísticos em competências centrais dentro de seu campo de atuação.
Eli pariser (2013) fala em curadoria de conteúdo, aquele agente da internet, seja veículo ou internauta que seleciona as informações e publicações disponíveis na rede e edita para republicação renovada nas plataformas de difusão online. A ferramenta Storify, citada pelo relatório, rastreia as manifestações na rede sobre determinado assunto, hoje, comumente tratado como “tag” e converte em uma linha do tempo com os principais links, mídias, sendo evidentemente eficaz para o jornalismo. É possível verificar, ainda que superficialmente, sem explorar tanto, que a utilização desse tipo de ferramentas permite aos webjornais a republicação desses conteúdos, mas sem a devida informação da onde o encontrou. Ou seja, o veículo insiste em tomar para si uma informação que está livre. Dou como exemplo a publicação da notícia das inscrições para o Enem, que tem um Portal oficial de informações, sobre o qual o webjornal não menciona. O veículo converte as informações para seu espaço “oficial” para que o internauta tenha todas as informações e ali navegue o maior tempo possível. São raros os webjornais que fazem essa referência ao trabalho original, ao endereço oficial, embora seja uma ação que amplia a informação ao internauta.
Em uma recente qualificação de banca para as monografias em julho deste ano (2014), fui convidado a considerar também o contrário: quando os buscadores e outras formas de mídia, nem sempre noticiosas ou com produções próprias de notícias, também se apropriam dos conteúdos produzidos por jornalistas. A Associação Nacional de Jornais (ANJ) instituiu aos jornais que bloqueiem o conteúdo das buscas para que sejam compradas pelos buscadores, assim como ocorre com a imprensa na França. Essa reflexão permite vários direcionamentos, principalmente pensar na censura e o acesso livre de conteúdo na internet, que pode estar se desenhando para ser cerceado.
Essa forma de filtrar as informações, notícias e conteúdos aos internautas/leitores sem citar nem mesmo outros webjornais, algo inadmissível por esses veículos, quem dirá de outros grupos ou conglomerados de comunicação, se configura, aparentemente, como uma questão meramente comercial para não anunciar nenhum concorrente. São resquícios da competição dos meios de comunicação inseridos em um ambiente completamente projetado para compartilhamento e troca. O sistema capitalista tenta dominar esse espaço online que tem outra configuração.
Convém observar que, para além das ferramentas mencionadas capazes de auxiliar o jornalismo em uma reconfiguração da apuração, forma narrativa e prática profissional, o ciberespaço é uma plataforma altamente mutável e que ainda permitirá novos avanços para o jornalismo. Os autores do relatório da Columbia University entendem que a conversão da informação em estatísticas e sites especializados em temas segmentados, em vez da velha reportagem, estão em conflitos com as prioridades de muita redação. Tais avanços são verossímeis no atual percurso da rede.

Embora a reportagem seja o pilar do jornalismo, o Homicide Watch mostra que ferramentas de reportagem podem ser usadas das mais variadas formas. Um banco de dados que converte cada detalhe apurado pelo repórter em informação estruturada com o intuito de produzir mais conteúdo é um bom exemplo disso. Um sistema de comentários que permite ao usuário destacar e filtrar observações úteis é outro exemplo. Nem todo jornalista terá domínio de toda área de trabalho. Por reconhecer a centralidade da reportagem, nossa atenção aqui se concentra em recursos novos que já exigidos para um trabalho melhor de reportagem, mas que ainda são escassos (ANDERSON et al, 2013, p. 48).

Cabe destacar, ainda, que a participação no VII Simpósio Nacional da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber) em setembro de 2013 proporcionou novos direcionamentos para o projeto de pesquisa e permitiu, diante dos debates nas apresentações dos grupos de trabalhos, com a indicação de bibliografias, afinar um recorte mais próximo ainda do jornalismo. Parte-se da provocação de Eli Pariser (2012) ao constatar a existência da bolha dos filtros em seu livro “O filtro invisível” para estabelecer o recorte de pesquisa entre as relações que existem com os filtros de informações por algorítimo dos filtros realizados pela edição de jornalistas em redações tradicionais e, inclusive, do ciberjornalismo sob o alicerce da teoria jornalística do gatekeeper. O guardião do portão surge no século XVIII com a reconfiguração industrial da produção da notícia, com o jornalista estabelecendo quais as informações de interesse público deveriam ser publicadas. Com a revolução virtual, esse portão ficou livre para que o público leitor, em especial, o cibernauta, pudesse encontrar outros assuntos, interesses e informações. O cenário atual da comunicação multimidiática se caracteriza pela customização da internet por meio dos algoritmos e de camadas mais profundas da rede, especialmente conhecidos como robôs de busca, configura perfis de acordo com informações depositadas na rede, formando uma bolha que cerca esse usuário de conteúdos que estejam dentro das características definidas, não raro despercebida pelos cibernautas.
A teoria do gatekeeper, ou guardião do portão, vem de encontro com o controle da informação e do acesso a dados. As definições de notícia quando o jornalismo era o guardião da informações eram pautadas em critérios noticiosos, éticos, linha editorial e ainda são mas quais são os critérios estabelecidos para esse novo tipo de filtro e edição que a própria bolha da internet cria? Em que medida a filtragem da internet interfere na edição do conteúdo jornalístico? De que maneira o jornalismo é pautado e editado por características de perfis/cibernautas? Novos critérios de noticiabilidade estão atuando no ciberjornalismo com a repercussão em redes sociais, por exemplo? Por que diálogos e interações em rede social acabam virando manchetes? São estas algumas questões norteadoras para compreender e estudar o recorte de pesquisa que confere essa transformação do gatekeeper no jornalismo.
A preocupação é reforçada pelos autores do relatório de pesquisa da Columbia University a respeito do jornalismo pós-industrial. Anderson, Bill e Shirky traçam as principais diferenças da circulação da notícia no jornalismo tradicional e a obtenção de informações nas novas mídias:

O fato de que o público chega a notícias cada vez mais por meio de links compartilhados em redes sociais, e não por agregadores de notícias tem implicação para repórteres e editores. A ignorância geral sobre o modo como o público consumia a informação não era um problema durante o reinado do modelo industrial do jornalismo. Já no mundo fragmentado e solto de hoje, saber como o público consome a informação, e se o que você escreve, grava ou fotografa chega a quem deveria chegar, é algo crucial (ANDERSON, C.W. et al, 2013, p. 50)


Ciberespaço: vigilância e apropriação de dado

Luis Gustavo Varela

A Web 2.0 torna-se um ambiente que sobrevive dos ideais de compartilhamento, de liberdade; a facilitação de acesso às informações, de transação de dados e a ideia de troca com o fim da propriedade intelectual. Nesse sentido, muitas empresas que operavam as mesmas funções por outros meios de comunicação que não fossem através do computador, viram na rede mais um espaço para se apropriar.

Logo, um espaço que é publico pode estar sendo desenhado para cercar territórios virtuais. A privacidade na rede é uma questão delicada, pois ao mesmo tempo que as informações e dados postados são de caráter pessoal, estão disponíveis para uma determinada rede de perfis que pode se apropriar, monitorar, visualizar. E, por um momento, pensamos na segurança desse sistema de compartilhamento, que se desenha na Web 2.0. Mas se nos privilegiarmos de segurança, teremos que abrir mão da liberdade da publicação de conteúdo, que vai totalmente contra os princípios e funcionalidades fundamentais da Internet. Afinal, aparenta-me uma reivindicação de lugares privados em um espaço que é e nasceu público.

Assim, Manuel Castells colabora na discussão ao evidenciar que a transformação da liberdade e da privacidade na internet é um resultado direto de sua comercialização. A necessidade de assegurar e identificar a comunicação na internet para ganhar dinheiro com ela, e a necessidade de proteger direitos de propriedade intelectual nela, levaram ao desenvolvimento de novas arquiteturas de software que permitem o controle da comunicação por computador. (CASTELLS, 2003, 140-1)

Dentro do contexto de produção de informações, controle de vigilância e como esse controle tem influenciado comercialmente irá determinar a maneira como o internauta interage na rede e definir o comportamento do algoritmo, que se torna dispositivo de controle e vigilância. Desta forma, o objetivo desse estudo propõe entender os mecanismos pelos quais os provedores de serviços na internet se apropriam das informações e dados publicados na rede para fins comerciais de personalização de produtos ofertados aos internautas em suas redes sociais.

Podemos discutir também como as redes sociais transformam a ideia do panóptico, criando situações onde não mais um vigia todos, mas onde todos vigiam todos. Dados pessoais servem para fins comerciais, por exemplo. E os internautas produzem essas informações sem ter consciência de que suas postagens podem servir para uma vigilância, seja de sua própria rede de amigos ou para uma rede corporativa que adquire serviços virtuais de servidores que fornecem dados com combinação de perfis.

Monitoramento de perfis e mapeamento de características

Se existem ordem e disciplina para não ser punido na sociedade comum das relações pessoais, na sociedade em rede não é diferente. Existe o “passo-a-passo”, por exemplo, pra o novo internauta fazer parte da rede. Primeiro, o indivíduo deve fornecer suas informações pessoais como nome, senhas, região, foto. Uma série dessas informações primeiras direcionarão os caminhos da navegação na rede. É uma forma de troca e um momento em que se sede para usufruir de um serviço gratuito. As conta no Facebook, por exemplo, ainda são consideradas legítimas, já que elas se constituem de uma seriedade nas informações, partindo do pressuposto de que os perfis são verdadeiros. Ou seja, minimamente, o perfil do internauta por trás da máquina se expõe como sujeito. Diferente do que acontece no Orkut, por exemplo, rede social onde é mais comum perfis falsos.

Até mesmo para se tornar um usuário dos serviços do Google essas informações são cruzadas. Por exemplo, ao enviar emails para os quais você cria uma lista breve de contatos para a mesma mensagem. Em um dado momento a discussão se encerra, por qualquer motivo. E, na criação de uma nova mensagem de email, se você citar um contato que estivesse naquela pequena lista, o Gmail (serviço de correio eletrônico do Google) te aconselha a considerar a inserção daquelas pessoas, sendo que, às vezes, é uma coisa específica para aquele contato.

O que se quer propor é que existe uma vigilância, mesmo que por parte de comandos algorítmicos, mas que acessa esses conteúdos e tem permissão legitimada para se apropriar deles. O acesso aos dados pessoais dos internautas facilitou o monitoramento dessas empresas para saber dos gostos de cada perfil. Seguindo o pensamento de Foucault, podemos tomar a rede social como um espaço, onde as divisões, se é que existem, são envidraçadas, permitindo o monitoramento do ambiente.

Fundamentação teórica: a adoção do panóptico foucaultiano

A revisão bibliográfica da obra Vigiar e Punir, de Foucault, pretende problematizar a ideia do Panóptico na estrutura das redes sociais, onde não mais um vigia a todos, mas onde todos vigiam a todos com muito mais artifícios do que os utilizados nos campos periféricos e torres do pensamento elaborado pelo autor.

À medida que o aparelho de produção se torna mais importante e mais complexo, à medida que aumentam o número de operários e a divisão do trabalho, as tarefas de controle se fazem mais necessárias e mais difíceis. Vigiar torna-se, então, uma função definida, mas deve fazer parte integrante do processo de produção; deve duplicá-lo em todo o seu comprimento. A vigilância torna-se um operador econômico decisivo, na medida em que é, ao mesmo tempo, uma peça interna no aparelho de produção e uma engrenagem específica do poder disciplinar (FOUCAULT, 2002, p. 146-7).

O poder disciplinar está em toda a parte e sempre alerta, pois em princípio não deixa nenhuma parte às escuras e controla continuamente os mesmos que estão encarregados de controlar; é absolutamente “discreto”, pois funciona permanentemente e em grande parte em silêncio (FOUCAULT, 2002, p. 148). Foucault exemplifica a definição da conduta ameaçada por punições:

“na oficina, na escola, no exército funciona como repressora toda uma micropenalidade do tempo (atrasos, ausências, interrupções das tarefas), da atividade, (desatenção, negligência, falta de zelo), dos discursos (tagarelice, insolência), do corpo (atitudes “incorretas”, gestos não conformes, sujeira), da sexualidade (imodéstia, indecência). Ao mesmo tempo é utilizada, a título de punição, toda uma série de processos sutis, que vão do castigo leve a privações ligeiras e a pequenas humilhações. Trata-se ao mesmo tempo de tornar penalizáveis as frações mais tênues da conduta, e de dar uma função punitiva aos aparelhos aparentemente indiferentes do aparelho disciplinar: levando ao extremo, que tudo possa servir para punir a mínima coisa; que cada indivíduo se encontre preso numa universalidade punível-punidora” (FOUCAULT, 2002, p. 149).

A forma como o autor propõe leva-nos a refletir que quando publicamos informações ou geramos conteúdo na rede, estamos cientes de que tais atividades virtuais podem gerar medidas punitivas. Isso pode ser identificado tanto em represálias da rede de contatos com a qual compartilho informações como do próprio sistema da rede, em suas camadas mais profundas, que podem bloquear as atividades por determinado tempo.

Diante disso, podemos nos apropriar da ideia de Foucault quando se adota o Panoptismo. Por isso, Bentham, citado por Foucault, colocou o princípio de que o poder devia ser visível e inverificável. Visível: sem cessar, o detento terá diante dos olhos a alta silhueta da torre central de onde é espionado. Inverificável: o detento nunca deve saber se está sendo observado; mas deve ter certeza de que sempre pode sê-lo. (...) O Panóptico é uma máquina de dissociar o par ver-ser visto: no anel periférico se é totalmente visto, sem nunca ver; na torre central vê-se tudo, sem nunca ser visto. O Panóptico é um lugar privilegiado por se tornar possível a experiência com homens, e para analisar com toda a certeza as transformações que se pode obter neles. O Panóptico pode até constituir-se em aparelho de controle sobre seus próprios mecanismos. (FOUCAULT, 2002, p. 167-9)

A disciplina de oficina, sem deixar de ser uma maneira de fazer respeitar os regulamentos e as autoridades, de impedir os roubos ou a dissipação, tende a fazer crescer as aptidões, as velocidades, os rendimentos e, portanto, os lucros; ele continua a moralizar as condutas, mas cada vez mais ela modela os comportamentos e faz os corpos entrar numa máquina, as forças numa economia. (FOUCAULT, 2002, p. 173-4)

Desta forma, a disciplina também está inserida no contexto do ciberespaço ao definir certos tipos de conduta dos usuários, ainda pouco esclarecidos sobre as penalidades da interação social em rede. Embora isso seja mais uma implicação para que ele promova seu próprio policiamento no que diz respeito a seus percursos na rede. O internauta sabe que está público ao divulgar, por exemplo: “Boa noite, Brasil”. Mesmo que ele não tenha uma lista superior a de mil conexões de perfis, esse número pode se expandir em progressão geométrica, sendo potencializado dependendo dos tipos de perfis que estão conectados à sua rede e da prolongação da interação e exposição da mensagem. O que, certamente, não representa um país inteiro visualizando a mensagem, mas dá o tom de que os perfis se percebem projetados publicamente.

Interação nas redes: a vigilância desejada

Partimos do princípio que a vigilância é esperada pelos internautas. Uma vez que a produção de conteúdos é pensada em atingir determinado público na rede e obter determinada “audiência”.

Existe, portanto, uma racionalidade em se expor que talvez não calcule certas consequências que estão por trás desse monitoramento e vigilância que se apropria de conteúdos para estabelecer características de perfis. Existe, por parte do internauta criador de conteúdos e fornecedor de informações, um desejo em ser vigiado

Conseguimos enxergar, com a leitura de Manuel Castells, o surgimento de uma sociedade em rede que também possui suas normas de conduta, mecanismos de vigilância e métodos de punição que são ostensivamente utilizados para alavancar mercadologicamente os produtos designados para determinados perfis na rede.

Questionamos, por exemplo, a maneira como se configura a time line de um perfil no Facebook. Temos as opções da conta nos dois lados do menu, a linha de informações e ao seu lado sugestões de compras, lojas, marcas. E, o mais interessante, os anúncios são sempre personalizados de acordo com cada perfil. Ou seja, são raras as ofertas pelas quais o perfil não se interesse. Uma coisa é eu sair para procurar as ofertas e/ou anúncios. Outra é receber, sem que se peça, na time line

A preocupação em se expor nem sempre é medida no ato diário da interação na rede social. O que nos chama a atenção é que deva existir uma porção da rede com a qual o internauta se relaciona diretamente, mas que, ao mesmo tempo, esse perfil não enxergue outras camadas mais profundas da rede que tem livre apropriação dessas informações para fins comerciais.

Isso nos leva a duas possíveis reflexões: i) existe uma naturalização com a interface, por parte do internauta, que acham comum que os gostos sugeridos se personifiquem em anúncios, ou; ii) o internauta pensa essa interface como uma perversidade de mecanismos mais profundos da rede.

Conforme já evidencia Castells, aplicações de software podem ser superpostas em camadas e protocolos da internet, tornando possível identificar rotas de comunicação e conteúdo. Com o uso dessas tecnologias, é possível violar a privacidade, e uma vez que se torna possível relacionar indivíduos com processos específicos de comunicação em contextos institucionais específicos, todas as formas tradicionais de controle político e organizacional podem ser lançados sobre o indivíduo em rede.

Manuel Castells explica o que acontece nas camadas mais profundas da rede:

“as tecnologias de identificação incluem o uso de senhas, “cookies” e procedimento de autenticação. Os “cookies” são marcadores digitais automaticamente inseridos por websites nos discos rígidos computadores que se conectam com eles. Uma vez que um cookie foi inserido num computador, este passa a ter todos os seus movimentos online automaticamente registrado pelo servidor do website que fez a inserção. Procedimentos de autenticação usam assinaturas digitais para permitir que outros computadores verifiquem a origem e as características dos correspondentes que interagem com eles. Baseiam-se frequentemente em tecnologia de criptografia. A autenticação opera muitas vezes em camadas, com usuários individuais sendo identificados por servidores que são eles próprios identificados por redes. Um dos primeiros exemplos de protocolos de segurança na internet foi a „camada de soquetes segura‟ (SSL, de Secure Socket Layer) introduzida pela Netscape” (CASTELLS, 2003, 141).

Uma vez que os dados são coletados em forma digital, todos os itens de informação contidos no banco de dados podem ser agregados, desagregados, combinados e identificados de acordo com o objetivo e o poder legal. Por vezes, trata-se simplesmente de fazer perfis agregados, como em pesquisa de mercado, seja para o comércio ou para a política. (CASTELLS, 2003, 142)

Essas tecnologias operam seus controles sob duas condições básicas. Primeiro, os controladores conhecem os códigos da rede, o controlado, não. O software é confidencial e patenteado, só podendo ser modificado por seu dono. Uma vez na rede, o usuário médio torna-se prisioneiro de uma arquitetura que não conhece. Segundo, os controles são exercidos com base num espaço definido na rede, por exemplo a rede em torno de um provedor de serviços da internet, ou a intra-rede de uma companhia, uma universidade ou uma agência governamental. Sim, a internet é uma rede global, mas os pontos de acesso a ela não o são. Se há filtros instalados nesse acesso, o preço da liberdade global é a submissão local (CASTELLS, 2003, 142). Mesmo assim, cabe a ressalva de não subestimar o internauta que, em muitos casos também pode saber operar sistemas e entender como funcionam as camadas de filtro e processamento de dados por trás da interface da internet.

Nos Estados Unidos, 92% dos websites coletam dados pessoais de seus usuários e os processam segundo seus interesses comerciais (Lessig, 1999, p.153 apud Castells, 2003, p.143) Contudo, valendo-me da afirmativa de Manuel Castells, o problema passa a ser, então, a troca de dados pelo privilégio de acesso aos serviços online. “A maioria das pessoas abre mão de seus direitos à privacidade para ter condições de usar a internet. Uma vez que se renunciou a esse direito à proteção da privacidade, os dados pessoais tornam-se propriedade legítima das firmas de internet e de seus clientes” (CASTELLS, 2003, 144). E, nesse sentido, é contraditório reivindicar uma privacidade num espaço que é público para o compartilhamento de dados. E, parece que nunca vamos nos equilibrar na linha tênue entre liberdade e segurança. Ora, quando desejo que haja segurança, estou cobrando vigilância dos conteúdos e informações. Mas a segurança que se tem é que ao invés das informações estarem sob posse de uns, estarão sob posse de outros. De qualquer forma, andamos desarmados. Se desejamos liberdade, também haverá a liberdade de visualizar conteúdos de terceiros, abrindo mão também da minha privacidade. Me lembra até uma opção de configuração de segurança da rede social nos tempos de Orkut: “para visualizar quem te procurou você deve permitir que terceiros também possam ver que perfis você acessou”.

A criação potencial de um sistema de vigilância está no horizonte. A ironia é que, em geral, foram as firmas da internet, de ideologia ardorosamente libertária, que forneceram a tecnologia para a quebra do anonimato e a redução da privacidade, e foram as primeiras usá-la. Assim fazendo, deixaram a vigilância do governo voltar a rugir com furor redobrado no espaço de liberdade que fora laboriosamente construído pelos pioneiros da internet, tirando proveito da indiferença ignorante das burocracias tradicionais. (CASTELLS, 2003, 145)

A comunicação continuará fluindo imperturbável porque essa é arquitetura da internet. Mas redefinir o espaço de acesso, através do controle dos provedores de serviços da internet e ao estabelecer protocolos especiais de vigilância dispostos em camadas sobre a internet para redes específicas, permite o exercício de controle (e da punição) ex post facto. A nova arquitetura da internet, o novo código, torna-se a ferramenta fundamental de controle, possibilitando o exercício da regulação e do policiamento por formas tradicionais do poder do Estado (CASTELLS, 2003, 147)

Identidade: construção de perfis e interações

O que aparece do sujeito é só uma parte. Mas é uma parte performática. O sujeito edita seus conteúdos para que as pessoas o vejam e compreendam de uma determinada maneira, a medida que o perfil se constrói. E isso vale para todo o tipo de relação social. As informações que eu compartilho nas páginas têm uma forma mais consciente, uma racionalidade de um conjunto de relações que eu estabeleço ali. A identidade precisa ser coerente, precisa ter coesão. Quando nos posicionamos ou nos caricaturamos de alguma maneira, isso não significa dizer que é assim só nas redes sociais. No monitoramento de perfis que englobam nossa rede social na internet, geralmente amigos, pessoas próximas, existe a curiosidade de acompanhar seus posicionamentos, posturas, postagens. Mas quando um determinado perfil compartilha conteúdos inesperados, que não são comuns aquele sujeito, a reação da rede que os liga é de estranhamento. Ou, no mínimo a cogitação de uma invasão no perfil.
A liberdade de expressão era a essência do direito à comunicação irrestrita na época em que a maior parte das atividades diárias não era relacionada à expressão na esfera pública. Mas em nosso tempo, uma proporção significativa da vida cotidiana, inclusive o trabalho, o lazer, a interação pessoal, tem lugar na rede. A maior parte da atividade econômica, social e política é de fato um híbrido de interação online e física. Em muitos casos, uma não pode existir sem a outra. Assim, viver num panóptico eletrônico equivale a ter metade das nossas vidas permanentemente expostas a monitoramento. Como vivemos existências compósitas, essa exposição pode nos levar a um eu esquizofrênico, dividido entre o que somos offline e a imagem que temos de nós mesmo online, que assim internaliza a censura (CASTELLS, 2003, 148).

Deste modo, as interações na rede online deixam de ser uma prática marcada pelo anonimato, como sugerem muitos autores. Sobre isto, Hermílio Santos argumenta que “embora as formas interativas mediadas pela internet pareçam ser propícias à tentativa de falsificação da identidade, seu sucesso é apenas parcial, uma vez que não é capaz de encobrir os elementos fundamentais caracterizadores da identidade, já que a interação no ciberespaço depende de uma habilidade bastante reveladora: a linguagem escrita” (SANTOS, 2005, p. 45). Portanto, ainda que os perfis estejam disfarçados sob um pseudônimo ou uma “falsa” identidade, ele é visto por um grupo mais ou menos delimitado que legitima sua prática e que compartilha com ele de um sistema de linguagem específico.

Por que as empresas de tecnologia da informação colaboram com tanto entusiasmo na reconstrução do velho mundo de controle e da repressão? Há duas razões principais, afora atitudes oportunistas ocasionais. A primeira que diz respeito sobretudo às firmas ponto.com, é que elas precisam quebrar a privacidade de seus clientes para poder vender os dados deles. A segunda é que elas precisam de apoio do governo para preservar seus direitos de propriedade na economia baseada na internet. (CASTELLS, 2003, 149)

Para impor essa proteção, o negócio da produção de informação precisa controlar o acesso e a identidade na internet, onde a maior parte da informação é distribuída. Assim, tem especial interesse em apoiar os esforços governamentais para restaurar o controle, construindo uma casa de vidro com base numa arquitetura de software controlado (CASTELLS, 2003, 150).

Espaço de troca ou ceder para ter: quando só uma parte sai ganhando

Para Eli Pariser, autor de O filtro invisível – o que a internet está escondendo de você, a preocupação além da vigilância está na personalização dos perfis e das buscas e a customização das informações de acordo com cada usuário. Pariser exemplifica a partir de navegações corriqueiras:

“A maior parte das pessoas imagina que, ao procurar um termo no Google, todos obtemos os mesmos resultados – aqueles que o PageRank, famoso algoritmo da companhia, classifica como mais relevantes, com base nos links feitos por outras páginas. No entanto, desde dezembro de 2009, isso já não é verdade. Agora, obtemos o resultado que o algoritmo do Google sugere ser melhor para cada usuário específico – e outra pessoa poderá encontrar resultados completamente diferentes. Em outras palavra, já não existe Google único. Se compartilharmos um artigo sobre culinária na ABC News, seremos perseguidos por toda a rede por anúncios de panelas revestidas de Teflon. Se abrirmos – por um mero instante – uma página que liste sinais para identificar se nosso conjugue está nos traindo, logo seremos assombrados por anúncios de testes de paternidade por DNA. A nova internet não só já sabe que você é um cachorro – ela conhece a sua raça e quer lhe vender um saco de ração premium" (PARISER, 2012, p.08-12).

Como explica Chris Palmer, da Electronic Frontier Foundation a Pariser: “Recebemos um serviço gratuito, e o custo são informações sobre nós mesmos. E o Google e o Facebook transformam essas informações em dinheiro de uma forma bastante direta”. Embora o Gmail e o Facebook sejam ferramentas úteis e gratuitas, também são mecanismos extremamente eficazes e vorazes de extração de dados, nos quais despejamos os detalhes mais íntimos de nossas vidas. O nosso belo iPhone novo sabe exatamente aonde estamos, para quem ligamos, o que lemos; com seu microfone, giroscópio e GPS embutidos, sabe se estamos caminhando, se estamos no carro ou numa festa. (PARISER, 2012, p.12)

Se analisarmos que a apropriação das informações que os internautas inserem na rede, sejam elas de conteúdos publicados, a fotos, endereços, pessoas ou compartilhamentos pode ser utilizada para fins comerciais de empresas que compram serviços da Google para ter acesso ao monitoramento, ou vigilância, vamos de encontro ao fator que desperta o interesse das empresas de produção. Por exemplo, uma empresa quer vender seus produtos e não pagar para anunciá-los em grandes veículos de mídia que chegam até as massas. A internet é um meio que as empresas conseguiram para falar diretamente com o cliente, sem que haja a mediatização de um veículo, ou a intermediação.

Compartilhando do pensamento de Chris Anderson, desde 2000 existe um enfraquecimento do monopólio de produtos que vendem muito no grande mercado. Esses são os chamados “hits” que irão disputar o mercado do século XXI com milhares de produtos de nicho. Se já não interessa às empresas que vendem produtos de massa investir em um veículo para anunciar sua marca, imagina para as empresas de produtos segmentados. E é, desde então, que o jornalismo vem perdendo seu principal financiamento. As empresas criam sites, fan pages, aplicativos, contratam jornalistas e essas medidas, possibilitadas pelas benesses da internet, impactam em uma nova reformulação de financiamento do jornalismo. Seja ele ainda por meio impresso e, agora, pelo digital. Claro que as pessoas não abrem mão das informações noticiadas pela imprensa, mas exigem, cada vez mais, o acesso gratuito às notícias

A fórmula dos gigantes da internet para essa estratégia de negócios é simples: quanto mais personalizadas forem suas ofertas de informação, mais anúncios eles conseguirão vender e maior será a chance de que você compre os produtos oferecidos. E a fórmula funciona. A Amazon vende bilhões de dólares em produtos prevendo o que cada cliente procura e colocando esses produtos na página principal de sua loja virtual. Até 60% dos filmes alugados pela Netflix vêm de palpites personalizados feitos pelo site sobre as preferências dos clientes – a esta altura, a Netflix consegue prever o quanto iremos gostar de certo filme com margem de erro de aproximadamente meia estrela. A personalização é uma estratégia fundamental para os cinco maiores sites da internet – Yahoo, Google, Facebook, YouTube e Microsoft Live – e também para muitos outros. (PARISER, 2012, p.13)

O vice-presidente do Yahoo, Tapan Bhat, em declaração a Pariser, afirma que o futuro da internet é a personalização. O Google Instant, funcionalidade lançada no outono de 2010, que adivinha o que estamos procurando enquanto digitamos, é apenas o começo. O presidente do Google, Eric Schmidt, acredita que o que os clientes esperam do Google é que o site lhes diga o que deverão fazer a seguir.

Talvez, os internautas também já percebam essa perseguição de seus passos na rede, ao sempre se deparar com ofertas ou promoções de gostos pessoais que, antes, nunca foram anunciados. Talvez os usuários dos serviços gratuitos já se atentem para uma possível perversidade da rede por parte dessa apropriação de dados. Eli Pariser aponta algumas consequências:

“Na melhor das hipóteses, se uma empresa souber que artigos você lê ou que ânimo está, poderá apresentar anúncios relacionados aos seus interesses. Na pior, poderá tomar decisões que afetem negativamente a sua vida. Se você visitar uma página para mochileiros sobre viagens em países de terceiro mundo, uma companhia de seguros que tenha acesso ao seu histórico online poderá decidir aumentar a sua franquia, como sugere o professor de direito Jonathan Zittrain a Pariser” (PARISER, 2012, p.20).

Considerações finais e apontamentos para estudos futuros

Contudo, as reflexões levantadas nessa produção nos munem de mais entendimento sobre como se configuram a troca de informações e, nesse sentido, revelam uma aproximação com a prática do jornalismo. Em que essas informações e dados podem contribuir para a transformação das apurações e produções de notícias e como o profissional repórter deve se comportar no ciberespaço. Mesmo com a cogitação de que o sistema de vigilância e apropriação de dados na rede seja perverso, ainda assim não conseguimos medir sua real interferência, tanto benéfica quanto prejudicial na interação social online. Mas se a publicidade e propaganda e o marketing se aproveitam desse sistema, o questionamento proposto é de que maneira o jornalismo também pode se reconfigurar na forma em que obtém informações por meio desse novo canal de interação, tornando-se um sistema de monitoramento que auxilia a apuração jornalística e possibilita novos métodos para o exercício da profissão. Um estudo levantado pela Columbia University e publicado na edição especial da Revista ESPM Jornalismo (mai/2013), e escrito por C. W. Anderson, Emily Bell e Clay Shirky aponta reflexões sobre o jornalismo pós-industrial.

O relatório aponta que a máquina é capaz de garimpar com rapidez grandes volumes de dados melhor que o homem. A automação de processos e conteúdos é o território mais subaproveitado para derrubar o custo do jornalismo e melhorar a produção editorial. E profetizam que no prazo de cinco a dez anos, teremos informações produzidas a baixo custo e monitoradas em redes de aparelhos sem fio. Vão servir para várias cosias – informar às pessoas qual o melhor momento de usar a água para evitar a poluição dos rios, por exemplo, ou quando atravessar a rua – e levantam questões de ética, posse e uso da informação.

Nesse sentido, as possibilidades infinitas abertas pela coleta de dados já permitem a empresas do setor de tecnologia, como por exemplo a Narrative Science, a automatização da produção de textos padronizados como resultados financeiros de empresas e resultados de competições esportivas.

Khris Hammond, diretor de tecnologia da empresa explica em entrevista à revista Wired que, no futuro, algo como 80% a 90% das matérias sejam geradas por algum algoritmo. As matérias poderão ser produzidas por máquinas à medida que mais dados de caráter local e pessoal forem sendo coletados e lançados na rede. Esse tipo de reportagem será viável sempre e quando houver dados disponíveis nesse formato digital. E sempre e quando não houver dados nesse formato, como em uma audiência pública realizada por algum poder da União, será preciso um repórter para registrar os dados.

Essa previsão pode ser consolidada já em nossa contemporaneidade por meio dos apontamentos de Eli Pariser quando destaca que a personalização está moldando os fluxos de informação muito além do Facebook, pois sites como o Yahoo Notícias ou o News.me – financiado pelo New York Times – estão passando a nos fornecer manchetes segundo nossos interesses e desejos pessoais. A personalização influencia os vídeos a que assistimos no YouTube e numa dúzia de concorrentes menores, além das postagens de blogs que acompanhamos. Podemos observar que não só matérias podem ser produzidas pelos filtros, mas como também a sua seleção editorial e definição de qual conteúdo é do interesse público personalizado.

No fim das contas, Pariser manifesta-se no sentido de que os defensores da personalização nos oferecem um mundo feito sob medida, adaptado à perfeição para cada um de nós.

Na verdade, somos aprisionados dentro de uma rede personificada que não nos permite conhecer outros gostos, acessar outros conteúdos. Aproprio-me do pensamento da socióloga Danah Boyd citada em Pariser quando menciona uma dieta de informações, não no sentido de que vamos acabar consumindo um conteúdo nada benéfico para nós mesmos e para a sociedade como um todo. Mas, sim, que deixamos de consumir esse conteúdo. É uma dieta que limita nosso acesso aos conteúdos, por exemplo, artigos em outras línguas. Nessas buscas, o idioma é filtrado e podemos deixar de obter conhecimentos mais avançados ou mais recentes porque os filtros atuam para nos trazer o que mais se enquadra ao perfil do internauta perseguindo seus passos na rede.

Como diz Pariser, se a Amazon pensar que estou interessado em livros de culinária, é pouco provável que me mostre livros de metalurgia. Com isso o ciberespaço se caracteriza ainda pelo ambiente de troca e compartilhamento, mesmo que surjam as tentativas de se demarcar territórios ou domínios tecnológicos. Nesse sentido, o jornalismo e as interações na rede se reconfiguram na tentativa de se fortalecerem na utilização dos recursos virtuais que hoje interferem na vida social, na forma de se comunicar, lançar dados na internet e receber informações

Ryan Calo, professor de Direito em Stanfor, disse a Pariser que toda a tecnologia tem uma interface, um ponto em que nós terminamos e a tecnologia começa. E quando a tecnologia passa a nos mostrar o mundo, acaba por se colocar entre nós e a realidade, como a lente de uma câmera. São muitas maneiras pelas quais ela pode deformar a nossa percepção do mundo. E é exatamente o que faz a bolha dos filtros.

Os filtros impedem que nossas ideias se confrontem com outras opiniões e conteúdos, por isso nos apresentam informações homogêneas com as quais o perfil se identifica, impedindo novas percepções e aprendizagens. Isso, em parte, iniciou com a navegação “logada” a um perfil, a um endereço de email, a um sistema de validação das características do usuário. Impedem até a inclusão de usuários à rede pessoal do perfil que não tenham contatos ou características em comum. Em uma reflexão mais distante, o que se percebe é uma ilusão ao acesso de conteúdos dos mais diversos e a concentração do perfil em um circuito vicioso que o mantém sempre no mesmo limite de acessos e contatos. A bolha dos filtros, como sugere Pariser, pode ser um caminho sem volta. E a internet se torna, a cada dia, um espaço onde os atores não são mais meros usuários e, sim, potenciais consumidores.