“Este livro, destinado ao jovem que sonha ou ambiciona ser
membro desta profissão, pretende fornecer uma compreensão teórica do
jornalismo”. Com a clareza de quem está habituado ao exercício do jornalismo,
Traquina resume e enuncia a finalidade desta sua obra em dois volumes, da qual
será objeto de resenha o primeiro. Como proposta inicial do estudo, Traquina
levanta a questão do que seja o jornalismo, sua finalidade e abrangência. Após
constatar que o fato relatado hoje por um jornal de alguma maneira é a re-visão
de um fato ancestral incorporado às figuras míticas, arquetípicas, do herói, do
vilão ou da vítima inocente, afirma que os jornalistas modernos integram a
longeva atividade de contar histórias, mesmo que sejam as histórias do
cotidiano, cifradas pela forma jornalística de redigir.
As observações acima estão contidas no capítulo 1, O que é
jornalismo?, onde o autor enfatiza um dado importante, ao relacionar o
exercício do jornalismo com as práticas da democracia, lembrando a costumeira
alusão ao jornalismo como um Quarto Poder, paralelo e socialmente legitimado a
se inserir, opinativa e informacionalmente, nas esferas de atuação do
Legislativo, Executivo e Judiciário. O livro, tido pelo autor como um manual
introdutório, apresenta o jornalismo especialmente a estudantes, mas nem por
isso descura de aprofundar apreciações críticas. Não assume uma posição idílica
para com a profissão, ao lembrar que o jornalismo pode e é utilizado por
agentes sociais para fazer valer seus interesses, muitas vezes de cunho
econômico, o que inclui a empresa que produz e comercializa o jornal.
Ao deixar claro que as notícias estão claramente
direcionadas para os acontecimentos, não para problemáticas, deixa registrado
que o jornal não busca uma visão interpretativa dos acontecimentos de
atualidade sobre os quais se debruça. Antes, fragmenta o mundo em recortes do
que aconteceu, para assim o apresentar ao leitor. Como admite desde o início,
definir o que seja jornalismo é missão que exige muito tempo e amplas
abordagens. Encerra o capítulo, que é breve, sem formular uma definição do que
seja jornalismo, mas dá ao leitor uma visão de quadro, simplificada, porém
suficiente, para situarse a respeito do que está estudando.
No capítulo 2, A trajetória histórica do jornalismo na
democracia, faz uma citação, recorrente em toda a sua obra, quando alude ao filósofo
e político romano Cícero que dizia: “Desconhecer a história é permanecer
criança para sempre.” A observação é feita para introduzir o leitor ao processo
de surgimento, crescimento e consolidação do jornal como fenômeno de
comunicação, especialmente a partir do século XIX, quando os processos de
composição e impressão sofreram grandes inovações.
O autor faz uma abordagem com boa dose de detalhamento a
respeito do desenvolvimento da imprensa, que se deu a par dos progressos
tecnológicos típicos do jornalismo aliados ao crescimento da urbanização. Além
disso, informa que com o passar do tempo foram abolidas as taxas que os
governos cobravam para que as gazetas circulassem. Conjunções históricas
levaram definitivamente o jornalismo a se inserir de maneira mais direta nos
processos político-sociais, com as lutas contra a censura e o surgimento do
espaço público, como os cafés, onde se discutia política.
O arrefecimento da censura permitiu ao jornalismo um ganho
em representatividade, vindo sua imagem pública a ser associada ao exercício da
própria democracia, uma vez que a exposição de idéias via jornal representava
uma tomada de posição ante alguma forma de poder ou repressão. Daí o surgimento
do jornal como artefato orgânico ao exercício da democracia, dado que se
apresentava como elemento portador e portátil de idéias, o que o legitimou
historicamente como elo entre a sociedade e a exposição de seus anseios.
O capítulo 3, que trata do jornalismo como profissão, remete
ao questionamento do exercício da atividade, buscando enquadrá-la como
marcantemente profissional, ou seja: ajustando-se a toda uma série de
parâmetros que definem o que seja uma profissão, diferenciando-a de uma simples
ocupação. Após lembrar que ao longo do século XIX o jornalismo não era tido
como profissão, acentua o autor que, de qualquer maneira, todos os que ao
jornal se sentiam ligados, pelo exercício opinativo ou necessidade de escrever
para dali tirar o seu sustento, buscavam situar-se no âmbito profissional.
Acrescenta-se a isso o surgimento de códigos deontológicos de conduta, como
também e especialmente o fato de que o jornalista se inscrevia num dado grupal,
numa comunidade que tinha a sociedade como seu objeto de atenção, formando com
isso um laço identitário, auto-referencial e diferenciador de outras
categorias.
O capítulo 3 permite ao leitor uma visão ampla, a respeito
do que seja o entendimento do conceito do que seja sociologicamente uma
profissão, com ênfase clara no jornalismo, afirmando, a respeito do tema que,
sim, o jornalismo é uma profissão.
Em seqüência, o capítulo 4 aprofunda a questão do jornalismo
enquanto profissão. Lembra que a atividade é vista pelos jornalistas como uma
missão e enfatiza que desconhecer os 150 anos de luta dos jornalistas
portugueses é inserir-se no entendimento de Cícero, de que isso é desconhecer a
história e assim permanecer criança para sempre. O autor é de nacionalidade
portuguesa e enfatiza sua visão a partir do jornalismo de Portugal, o que deixa
uma lacuna para ao estudante brasileiro, que não tem como contextualizar a
realidade da profissão no Brasil ao longo dos séculos XIX e XX. O capítulo traz
informações adicionais a respeito da sociologia das profissões, o que enriquece
o trabalho no que diz respeito à compreensão do tema.
No capítulo 5, voltado para O pólo ideológico do campo
jornalístico, Traquina aborda questões como o avanço na imprensa, quando o
conteúdo dos jornais passou a ser dividido entre informação e opinião, bem como
questões comerciais versus compromissos profissionais com uma informação
credível e uma autonomia relativa do jornalista, frente aos ditames da empresa.
Outro aspecto também valorizado é o ethos do profissional,
sua visão de quais sejam seus compromissos para com o leitor. Traquina destaca
que há entre o jornalismo e democracia uma relação simbiótica, colocando a
liberdade no centro dessa relação. Não questiona, entretanto, a questão de
serem os jornais propriedade privada, representando desta forma, de alguma
maneira, os pontos de vistas e os interesses dos grupos detentores de poderio
econômico, em contrafação com os princípios democráticos de liberdade de
expressão e direito à informação confiável.
O capítulo 5 volta-se ainda para tratar da objetividade no
jornalismo. Esta é tratada tanto no que diz respeito ao que se refere à
condição de relato credível daquilo que efetivamente se passou, a homologia
possível entre fato e relato, quanto ao que refere à objetividade enquanto ação
organizacional, estandardização dos modos de produção, para que, desde o
recolhimento da informação, até sua edição, passando pela redação, tudo esteja
pronto para o leitor no exíguo período de 24 horas.
Quanto ao sexto capítulo, As teorias do jornalismo, é uma
coletânea das principais formulações teóricas relativas ao tema. Há um breve enunciado
a respeito de cada uma, como a teoria do espelho, a ação do gatekeeper, a
teoria organizacional, as teorias de ação política, bem como as teorias
cunstrucionistas, a teoria estruturalista e a teoria interacionista.
No todo, o livro permite ao estudante ter uma visão inicial
sobre o jornalismo, apontando as principais características do arcabouço
teorético que cerca essa questão. A lógica do texto do autor permite ter-se uma
compreensão do que seja cada uma das teorias tratadas, como se o leitor estivesse
seguindo num processo seqüencial. Há explicações a respeito dos contextos que
permitiram seu surgimento e, cotejando-se as diversas proposições, tem-se uma
compreensão do fenômeno jornalístico e os diversos níveis de dificuldade para
sua compreensão e abrangência.
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