segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Hackerativismo e midiatização: análise do hackeamento da página do deputado Marco Feliciano

LIRA, Isadora[1]

Resumo

Este trabalho examina a correlação de forças entre o hackerativismo e a midiatização, em razão do hackeamento praticado na página pessoal do deputado federal Marco Feliciano (SP-PSC), ocorrido em 7 de junho de 2015. Elegemos algumas noções de hackerativismo e midiatização, em particular dos autores Stig Hjarvard (2012), Jairo Ferreira (2007), Antônio Fausto Neto (2008, 2012), Lann Mendes Barros (2012) e Muniz Sodré (2002), para examinar esta ação hackerativista.  Interessa entender sob quais aspectos o site do deputado revela-se atraente à invasão, quais são as marcas ideológicas predominantes nessa “pichação” e a repercussão midiática que a ação consegue desencadear entre portais de notícias conhecidos, como Folha de S. Paulo, Carta Capital e G1.

Palavras-chave: hackerativismo; midiatização; Marco Feliciano.

            Entre bandeiras de arco-íris, cartazes, faixas, trios elétricos, plumas e paetês, caminhavam milhares de pessoas na principal avenida do país. Na 19ª Parada pelo Orgulho LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros), de São Paulo, realizada no dia 7 de junho de 2015,  pessoas de diferentes gêneros, sexualidades e credos saíram de suas casas para manifestar o apoio à causa LGBT. Entretanto, enquanto o convite para o evento circulava nas redes sociais e as pessoas se preparavam para a caminhada, outro ativismo chamou a atenção para o movimento nessa mesma data. Conhecido por suas declarações homofóbicas, o  deputado federal Marco Feliciano (PSC - SP) teve seu site pessoal hackeado no mesmo dia 7 de junho. A página inicial foi substituída por uma imagem de um Jesus Cristo negro, tendo como background as cores do arco-íris, além da música de fundo, Ai Wilson Vai, de Mc Grizante, uma paródia de I will survive, de Gloria Gaynor e uma mensagem dizendo: “Marco Feliciano, você acaba de tomar no aparelho excretor. Abaixo o Preconceito”. Naturalmente, vários portais reportaram o ocorrido e o fato estourou em redes sociais como Facebook e Twitter. Este trabalho pretende analisar a correlação de forças entre hackerativismo e midiatização a partir do caso do hackeamento da página pessoal do deputado, a fim de compreender o processo do ativismo hacker inserido na midiatização e sua repercussão na sociedade midiatizada.

O ethos e o bios midiáticos
            Entre a gravação de um áudio para um grupo de whatsapp e o taggeamento de uma pessoa em uma foto postada em rede social, o que há em comum? Essas práticas, dentre outras, denotam a chamada tecnomediação das relações, ora apontada como anjo, ora como demônio na contemporaneidade. No livro Networked: The New Social Operating System (2012), de Lee Rainie e Barry Wellman, as relações tecnomediadas são percebidas através do aparecimento do fenômeno chamado individualismo conectado, que possibilita a autonomia e o manuseio das redes criadas por cada indivíduo e as mudanças consequentes da comunicação no universo de hiperconexão. Para Rainie e Wellman, o individualismo conectado é uma espécie de sistema operacional possível graças à chamada Revolução Tripla, que é: surgimento e aperfeiçoamento das redes sociais (relações entre indivíduos se tornaram mais diversificadas); internet (acesso e busca de informações se tornou mais preciso e facilitado); e mobile (tecnologias comunicacionais, tornando-se extensões do homem e permitindo o acesso à pessoas e informações em qualquer lugar).
 Esse sistema operacional está inserido no contexto de uma sociedade midiatizada, ou seja, estruturada a partir de aparatos midiáticos. Para compreender o espaço-tempo dessas realizações sociais cotidianas tecnomediadas na contemporaneidade,  Muniz Sodré (2002) fala de um ethos midiatizado. Sendo Ethos:
                                              
A consciência atuante e objetiva de um grupo social - onde se manifesta a compreensão histórica do sentido da existência, onde tem lugar as interpretações simbólicas do mundo - e, portanto, a instância de regulação das identidades individuais e coletivas. (SODRÉ, 2002, p. 45)

            Atrelado a esse ethos, Sodré identifica um quarto bios para complementar a classificação aristotélica[2], que seria o bios midiático. Esse novo bios é uma forma de viver a realidade da mídia, definindo a existência humana como uma relação de extensão da informação, onde o meio sintoniza a mídia o sujeito, sobre a qual repousa uma nova forma de tecnointeração (Sodré, 2004, apud Neto, 2008). Uma correlação de mediações. **** procurar outras citações dele sobre bios
Implica de fato uma refiguração imaginosa da vida tradicional pela ‘narrativa’ do mercado capitalista. Frente a ele, é possível pensar no saber comunicacional como uma redescrição da realidade tradicional pelo pensamento que incorpore a nova ordem tecnológica, mas refigurando a experiência do indivíduo em seu relacionamento com o mundo virtual, experimentando por sua vez uma crítica da existência e buscando um sentido eticopolítico para o empenho ativo de reorganização do nosso estar no mundo. (SODRÉ, 2012, p. 255)

            Ou seja, a sociedade contemporânea está estruturada em uma lógica midiática que dá sustentação à consciência e à construção de identidades do indivíduo e do grupo, constituída numa nova ambiência, em uma cultura vertebrada pelas tecnologias da informação. É nessa ambiência que se forma a midiatização, algo além da mídia, em sua dimensão técnica.

Midiatização: conceito e contextualização
Em discussão há algumas décadas, o conceito de midiatização não apresenta um consenso para os pesquisadores de comunicação. Embora comumente atrelado à difusão da internet e a popularização de dispositivos de comunicação particulares e móveis, o termo já figurava nas pesquisas de comunicação correlacionado às mais diversas áreas da sociedade na era pré-World Wide Web (WWW). O dinamarquês Stig Hjarvard (2012) aponta que já em 1986, o pesquisador sueco Kent Asp investigava os efeitos da midiatização e política, percebendo o fenômeno como um processo  pelo qual “um sistema político é, em alto grau, influenciado pelas e ajustado às demandas dos meios de comunicação de massa em sua cobertura da política” (Asp, 1986 apud Hjarvard, 2012). Essa demanda, entretanto, se intensificou da década de 80 até os dias atuais, com forte contribuição do crescente acesso à internet, transformando, assim, mais do que a forma que interagimos com nós mesmos e com o mundo, mas também o modo pelo qual nossa sociedade se organiza.
            Mudam nossos hábitos (estamos em constante contato com dispositivos de comunicação), nossas práticas (como produzimos e divulgamos nossas informações), nossa linguagem (outras palavras são inseridas no vocabulário para atender a essa outra demanda). Fausto Neto (2008) percebe que essas alterações na constituição social provocam a “disseminação de novos protocolos técnicos em toda extensão da organização social, e de intensificação de processos que vão transformando tecnologias em meios de produção, circulação e recepção de discursos”, entretanto, sem uma subserviência para com os meios, ou para com a tecnologia.
Já não se trata mais de reconhecer a centralidade dos meios na tarefa de organização de processos interacionais entre os campos sociais, mas de constatar que a constituição e o funcionamento da sociedade – de suas práticas, lógicas e esquemas de codificação – estão atravessados e permeados por pressupostos e lógicas do que se denominaria a «cultura da mídia» (NETO, 2008, p.92)

            Para Neto, a diferença entre essa cultura midiática e cultura massiva reside na existência de um outro sujeito da primeira, porque sua importância não está meramente situada na tecnologia, mas na “sua conversão na forma de meios, segundo dinâmicas de operações de sentido, no âmbito das práticas sociais” (2008, p. 91).
Barros aponta que os inter-relacionamentos podem ser comparados ao conceito de mediação no que se refere a estar entre sujeitos ou ações diversas, organizando as relações entre eles (BRAGA, 2012).
Quando Williams argumenta que a cultura é perpassada pelas práticas sociais, cabe reconhecer que na sociedade contemporânea essas práticas são atravessadas por interações midiatizadas, que integram a estrutura social. (BARROS, 2012, p. 85)

No artigo Fragmentos de uma <<analítica>> da midiatização (2008), Antônio Fausto Neto faz um levantamento da compreensão de alguns teóricos sobre essa nova ordem comunicacional.

Gomes fala de uma nova ambiência cujos processos midiáticos viriam a se constituir em novos operadores da inteligibilidade social (Gomes, 2006). Braga identifica o papel que têm as reformulações sócio-tecnológicas na passagem dos processos midiáticos gerando “processualidade interacional de referência” (Braga, 2006). Verón sublinha o status das mídias mesclando-se em todos os aspectos significativos do funcionamento social, mediante complexas interações entre mídias, instituições e indivíduos, daí resultando processos de afetações não-lineares (Verón, 1998). (NETO, 2008, p. 92)
Neto afirma que as mídias deixam seu papel de instrumento e se convertem em uma outra realidade. Aspecto também levantado por Maria Ângela Mattos e Ricardo Costa Villaça (2012) ao apontar que as recentes pesquisas sobre midiatização a colocam enquanto um processo que engloba todas as instâncias sociais, sugerindo uma “mudança de perspectiva em relação ao lugar ocupado pelas mídias no funcionamento das sociedades e na construção dos parâmetros pelos quais essas sociedades criam suas ‘realidades’.” (MATTOS, VILLAÇA, 2012 apud MEDEIROS, 2012). Ou, melhor dizendo, esse contexto desperta “a emergência das práticas midiáticas como um lugar autônomo que viria a se colocar como um dispositivo organizador das interações dos campos” (NETO, 2008, p. 93).
Como levantado anteriormente, cabe frisar que a midiatização é um processo que está inserido na proposta de uma nova sociabilidade, ambiência, que perpassa diversos processos sociais, estruturando a sociedade numa lógica midiática. E que, apesar de estar atrelada ao desenvolvimento tecnológico, não deve ser compreendida enquanto um fenômeno subjugado à tecnologia. Jairo Ferreira (2012) sugere que um conceito de midiatização a partir de mútua determinação de três pólos, a saber: processos sociais, processos comunicacionais e dispositivos, compreendendo o que o autor chama de matriz de midiatização.
            Para analisar a midiatização, Ferreira propõe que deixemos as ideologias de lado, em especial em relação à subordinação das relações e intersecções entre os pólos propostos à tecnologia, que é comumente considerada o centro do processo de midiatização.
É necessário compreender, na construção do conceito de midiatização, que essa é produzida, induzida(s) e regulada pelo conjunto das relações e intersecções entre processos sociais e processos de comunicação, incidindo sobre as materialidades dos dispositivos midiáticos em seu conjunto (espaço, tempo, agenciamentos signícos, técnica e tecnologia), e não apenas em uma de suas dimensões. (FERREIRA, 2012, p. 11)

Hackerativismo
            Considerada como uma das quatro camadas da construção da internet (Castells, 1999), a cultura hacker tem como protagonista entusiastas da informática que são equivocadamente atrelados ao estigma de criminosos virtuais[3]. Para compreender o amplo significado do que seriam os hackers, buscamos o significado da sua palavra original, hack, no dicionário Oxford 2005[4]:
-          1. Cortar com golpes pesados ​​2. Chutar aproximadamente ou sem controle 3. Encontrar  uma maneira secreta de olhar ou modificar uma informação no computador de alguém 4. Ser capaz ou não de gerenciar uma situação particular 5. Montar em um cavalo com prazer 6. Dirigir um táxi.

            Enquanto substantivo:
-          1. (pejorativo) Um escritor, especialmente de artigos de jornal, que faz trabalhos de má qualidade e não é bem pago 2. (pejorativo) Uma pessoa que faz o trabalho duro e muitas vezes chato para uma organização, especialmente política 3. Um cavalo para a equitação comum ou um que pode ser contratado 4. Um táxi 5. O ato de bater em algo, especialmente com uma ferramenta de corte.

Observamos que hack tem vários significados, e muitos não se referem nem ao espectro da informática. Já a sua derivação, hacker, de acordo com o Oxford, é referente ao 3º significado do verbo hack (uma pessoa que encontra  uma maneira secreta de olhar ou modificar uma informação no computador de alguém). Entretanto, outros teóricos apontam para diferentes direções. Por exemplo, existem indícios de que o termo hacker e se referia aos artesãos que usavam como principal ferramenta de trabalho, um machado (HELL, 2000 apud VILELA, 2006), ou então, um especialista em qualquer área. Steven Levy indica que a denominação era utilizada para designar técnicas criativas entre a década de 50, no Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT) e 80, no vale do Silício, atribuindo o termo para pessoas com perícias em programação e desenvolvimento de sistemas, fora a capacidade de resolver problemas de formas alternativas.

A cultura hacker, assim, ilustra bem a passagem do trabalho material ao imaterial e, por conseguinte, os conflitos desencadeados nas atuais estruturas de poder capitalista por causa dessa mutação produtiva. (ANTOUN, MALINI, 2013, p.30)

 Lemos, Seara e Pérsio acrescentam ainda que os hackers são “responsáveis pelas principais tecnologias da cibercultura, alinhavando também as principais questões da cultura contemporânea, as questões morais e éticas da sociedade informacional (...), desenvolveram softwares de código aberto, criam senso de comunidade cooperativa, lutam pela liberdade de informação, pelo respeito à privacidade e contra a censura no ciberespaço” (2002, p. 27).
Dentro da área de pesquisa sobre ciberativismo[5], é perceptível uma variação pautada na ação hacker. Utilizamos aqui a terminologia hackerativismo, podendo ser também encontrado como hackativismo.
            Uma das primeiras vezes que o termo hackerativista foi utilizado foi numa troca de e-mails entre o coletivo The Cult of the dead cow[6], atrelado a ferramentas para ativistas poderem se comunicar entre países com segurança e livres de espionagens (BARROS, 2013). Tendo como característica o manuseio de linguagens e códigos em interação com as novas configurações da sociedade da informação (LEMOS, 2002), a crítica à opacidade dos códigos e o bloqueio do conhecimento, resultando em movimentos como software livre e enciclopédias colaborativas, a ação hacker se pauta não apenas no âmbito da computação, mas também na comunicação. Ao trazer como uma de suas bandeiras a difusão da informação livre, os hackerativistas transitam na sociedade midiática de forma a colaborar que o fluxo informacional se torne amplo, configurando novos movimentos de opinião pública (MALINI, 2009). Ainda que hajam “guerrilhas de contrainformação” associadas a movimentos sociais desempenhando um papel fundamental como alternativa frente a veículos de comunicação tradicionais, “as colaborações no compartilhamento de arquivos e bases de dados presentes no seio de comunidades hackers potencializaram uma nova fonte de circulação de conteúdos midiáticos” (LIRA, PEREIRA, 2014).
Na sociedade midiatizada e informatizada, são muitas as possibilidades de ação para o hackerativista - considerando o domínio técnico (do dispositivo) e social/simbólico, o hackerativista transita entre a matriz de midiatização na medida em que propõe novas perspectivas e novos fluxos comunicacionais.

Marco Feliciano
            Eleito deputado federal pelo Partido Social Cristão (PSC) em 2010 com 212 mil votos e reeleito com quase 400 mil em 2014[7], Marco Feliciano é um político brasileiro e também pastor neopentecostal da Catedral do Avivamento, uma igreja ligada à Assembleia de Deus. Além de político e pastor, Feliciano também é empresário[8] e autor de 18 livros, além da produção de seus DVDs com mensagens de autoajuda.
Com esse currículo nas costas, Feliciano também é responsável por uma série de declarações de teor racista e homofóbico no seu perfil da rede social Twitter, tais como: “Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato. O motivo da maldição é a polemica (sic). Não sejam irresponsáveis twitters. [...] A maldição que Noé lança sobre seu neto, canaã, respinga sobre continente africano, daí a fome, pestes, doenças, guerras étnicas!”[9] (2011); ou também "A podridão dos sentimentos dos homoafetivos levam (sic) ao ódio, ao crime, à rejeição. Amamos os homossexuais, mas abominamos suas práticas promíscuas" (2011).[10]
Marco Feliciano ainda tentou se explicar de suas declarações problemáticas.[11] O que não foi o suficiente para o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que instaurou um inquérito por discriminação no Supremo Tribunal Federal, entretanto, os ministros do STF absolveram o deputado, argumentando que a punição por homofobia só seria possível caso a lei tipificasse o crime de homofobia, como propunha o Projeto de Lei 122 (que, inclusive, após passar oito anos esperando ser aprovado pelo Senado, foi arquivado em janeiro de 2015). Além destas declarações, Feliciano já estrelava um vídeo icônico no portal Youtube no qual ele, em um de seus cultos, pede a senha do cartão de crédito de um de seus fiéis[12]. No meio de todas essas polêmicas, Feliciano foi eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) no dia 7 de março de 2013. A repercussão midiática foi intensa, gerando movimentos de personalidades segurando papéis com os dizeres Feliciano não me representa, ou a utilização da hashtag #forafeliciano no Twitter ou Instagram. Outra manifestação realizada nas redes foi o meme Beijos para Feliciano, na qual os usuários postavam fotos beijando pessoas do mesmo sexo, como forma de provocação a Feliciano.
No meio dessas manifestações nas redes sociais, sob a presidência de Feliciano na CDHM, foi aprovada no dia 18 de junho de 2013 o projeto de lei vulgarmente conhecido por “cura gay”. De autoria do deputado João Campos (PSDB - GO), o projeto sustava dois trechos da resolução instituída em 1999 pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), sendo um deles o que determinava que “os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades”[13].

Site pessoal
            Ao digitar www.marcofeliciano.com.br, o navegador redireciona para www.marcofeliciano2010.com.br, o que causa um certo estranhamento, já que o deputado foi reeleito em 2014. Mas isso é irrelevante. Ao acessar o site de Feliciano, é possível avistar uma imagem que ocupa quase a tela toda: no lado esquerdo uma foto do deputado até o busto, usando terno e exibindo um meio sorriso, embora não dê para ver, aparentemente está com os braços cruzados; ao lado direito está escrito: Pastor Marco Feliciano Deputado Federal Em defesa da família brasileira. Na barra superior, as opções para navegação da página: home, biografia, agenda, notícias, discursos e fotos. Ainda na página inicial, descendo a barra de rolagem, estão os últimos três discursos em destaque. Abaixo, há um banner que tem escrito: Conheça todos os projetos do Dep. Pastor Marco Feliciano, mas não está linkado com nenhuma outra página. Ao continuar descendo a barra de rolagem, na espera de ver tais projetos, pode-se encontrar as notícias relevantes do portal (que não têm necessariamente relação com religião ou congresso), e, por fim, e-mail e telefone para contato.
            A página não é alimentada com frequência. Durante o período observado (20 de junho a 20 de julho de 2015), só foram acrescentados dois discursos (Duvivier, por que não te calas?; e Contenda entre católicos e evangélicos)  e uma notícia (Campeonato Europeu de Football). Todas postadas no dia 24 de junho. No total, são 27 discursos, 35 notícias, 1 vídeo e 6 fotos. Todas as fotos têm a mensagem Feliciano me representa, em oposição à campanha viralizada em 2013. O site é, aparentemente, pouco atualizado, mas foi alvo de uma ação hacker no dia 7 de junho de 2015, data em que foi realizada a 19ª Parada LGBT de São Paulo.

Hacked by ProtoWave
Quem acessou o site de Feliciano no primeiro domingo de junho, ao invés de se deparar com o rosto do deputado, encontrou a imagem abaixo: 
hackmarcofeliciano.jpg
(Figura 1)
            Na imagem é possível identificar os seguintes elementos:
1.      As cores de background fazem referência ao arco-íris, símbolo da bandeira LGBT.
2.      Acima da imagem está escrito: Hacked by ProtoWave. Trata-se da assinatura do grupo que cometeu a ação.
3.      No centro da figura há uma imagem representando Jesus Cristo, entretanto com algumas particularidades: seu rosto é negro, em referência à declaração racista de Feliciano; na mão  direita está a cabeça do deputado; na mão esquerda está um frasco de perfume do Boticário[14].
4.      No canto direito, ainda na imagem central, há o ícone d’O Boticário sendo iluminado pelo coração de Cristo, como se recebesse uma bênção - ou, quem sabe, um patrocínio.
5.      Abaixo da imagem está a seguinte mensagem: Marco Feliciano, você acabou de tomar no aparelho excretor Abaixo o preconceito. A mensagem faz referência à declaração do então presidenciável Levy Fidelix (PRTB). No debate realizado no dia 2 de outubro de 2014 na Rede Record, Fidelix disse que “aparelho excretor não reproduz”, quando questionado a respeito de sua opinião sobre casais homoafetivos.
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            Podemos perceber que embora Feliciano não estivesse envolvido em nenhuma polêmica recente relacionada à causa LGBT, sua imagem permanece atrelada à homofobia. A ação hackerativista analisada faz menção a outros fenômenos fortemente midiatizados como a) a própria imagem do Feliciano relacionada à homofobia; b) a marca O Boticário, que teve forte repercussão midiática com sua publicidade em celebração ao dia dos namorados; c) a expressão pejorativa proferida por Levy Fidelix no debate com presidenciáveis realizado em outubro de 2014. Para dar impacto à ação, o grupo escolheu o dia da maior Parada LGBT do país. E, de fato, funcionou. Vários portais noticiaram o hackeamento realizado pelo grupo intitulado ProtoWave. Dentre eles estavam a Folha de S. Paulo, G1, UOL e Terra. Em resposta, Feliciano postou em sua conta no Twitter que: “O q + esperar deste País? A imprensa divulgando 1 crime e apoiando, incentivando a trolagem? Parabéns a @UOLNoticias @folha @portaljovempan”. Feliciano também postou: “Parabéns tbem aos hackers-gays financiados por ONGs que se alimentam dos cofres públicos, por destilarem sua intolerância e seu preconceito”. E mencionou que não tinha ligação alguma com a marca Boticário. “A intolerância dessa patrulhada é tão grande q mal perceberam q nunca toquei no assunto BOTICÁRIO. Ñ falei nada, Ñ RT nada, ñ postei Nada!”.
            As matérias da Folha de S. Paulo e do G1 traziam a Figura 1, contextualizando os símbolos escolhidos pelo grupo hacker, além das  retaliações do Feliciano em seu twitter pessoal. Embora o site tenha sido recuperado no próprio dia 7, o deputado não publicou nenhum texto ou discurso em sua página. A única postagem referente à parada LGBT fazia menção à performance da atriz Viviany Beleboni [15].
O portal da revista Carta Capital publicou no dia 10 de junho uma suposta entrevista realizada com o grupo que se disse responsável pelo hackeamento. De acordo com a matéria, o grupo ProtoWave é composto por adolescentes. Um dos autores da ação se identifica como Prestus Hood, e, segundo ele, “Da mesma forma que uns são contra a homofobia, como foi o caso do ataque ao Feliciano, cada um de nós tem seus próprios ideais e agimos individualmente”. A motivação para o hackeamento não foi uma defesa à causa LGBT (aspecto que pode ser percebido pelo teor duvidoso da mensagem e da escolha da música que fazia trilha para a ação), mas, sim, mostrar que havia uma falha de segurança no portal, sem danificar o mesmo.
Um hacker, que mereça esse nome, jamais destrói nenhuma informação dos sítios invadidos, eles realizam as invasões seja para alertar contra a (não) segurança do provedor, seja para ganhar destaque no cenário, seja para publicar alguma mensagem ou realizar algum protesto, jamais apagam nenhum arquivo. No caso dos crackers, o objetivo é justamente o contrário. (LEMOS, SEARA, PÉRSIO, 2001, p. 35)
           
            O grupo também se preocupou em deixar a sua marca bem registrada na ação, característica apontada em ações hackers.
O hacker busca o reconhecimento social, o que torna o seu principal instrumento de valoração do próprio trabalho. Quanto maior é o seu reconhecimento social, maior é o seu acúmulo de capital humano, o que obviamente é traduzido em ofertas crescentes de oportunidades de trabalho. (ANTOUN, MALINI, 2013, p. 30-31)

De acordo com a tipologia proposta por Lemos, Seara e Person (2001) acerca das formas de discurso mais relevantes utilizadas pelos hackers brasileiros, podemos observar que a ação do grupo “ProtoWave” se enquadra no âmbito das ações políticas despojadas envolvidas com a construção de situações humorísticas. No caso em questão, a iniciativa hacker aparenta problematizar politicamente a homofobia e sua representatividade na imagem do deputado marco Feliciano de forma genérica, caracterizando manifestações de protesto onde estariam presentes ambiguidades em termos do real objeto contestado. Neste sentido, a intervenção se apropria de ferramentas midiatizadoras através de um descompromisso com formas clássicas de política, na qual hora reflete engajamento, ora mero divertimento. Enquandrando-se na matriz proposta por Jairo Ferreira: ao se apropriar de um dispositivo, houve um processo comunicacional (a transmissão da mensagem), que gerou um processo social (um ato político), que, ainda assim, gerou outros processos comunicacionais (a reverberação midiática do conteúdo nos demais propostos).
            Assim, o hackerativismo proposto, inserido dentro da matriz de midiatização, medeia as discussões sobre a homofobia com um caráter dúbio, trazendo o humor de conotações indefinidas para o questionamento de preconceitos em torno da sexualidade (embora hajam questões sobre o teor da mensagem). Sob esta perspectiva, a apropriação dos processos midiáticos, os quais constituem a inteligibilidade social, envolvidas na presente iniciativa hack estariam dando a seriedade necessária ao debate acerca da luta contra os preconceitos associados à causa LGBT no Brasil, legitimadas em nível parlamentar na pessoa de Feliciano?   Embora com teor questionável, a proposta hackerativista atingiu seu objetivo (visibilidade), inclinando-se menos para uma ação política e mais para um “deboche grafiteiro” (LEMOS, SEARA, PÉRCIO, 2001).
Durante a elaboração do presente artigo, uma nova invasão ao site do deputado Marco Feliciano foi registrada, no dia 16 de julho de 2015. A ação foi realizada pelo grupo ASORHackTeam (associado à rede Anonymous), na qual a página foi reprogramada para a exibição de um texto publicado sobre um fundo de cor preta. O conteúdo da mensagem fez referência ao conceito de laicidade e como sua deturpação estaria sendo praticada pela bancada evangélica a qual integra o deputado Feliciano, além de realizar denúncias sobre a promoção de cultos ecumênicos em espaços legislativos e elaboração projetos que incitam a homofobia. Tais acusações são feitas com base numa consulta ao site Transparência Brasil, uma organização autônoma e independente dedicada a combater a má administração pública.
O exemplo citado faz referência ao deputado João Campos (PSDB - GO) e seu pedido para impedir a realização de cerimônias homoafetivas em igrejas, o qual o texto refuta: “Isso nunca foi ameaçado por nenhum projeto até então, mas verifica-se um esforço de confundir a opinião pública contra o direito civil, como se ele apresentasse de fato algum perigo à liberdade religiosa”. Entretanto, apesar de conotar maior engajamento político e maior reflexão sobre a problemática exposta, a ação hackerativista de julho não obteve o mesmo êxito na repercussão midiática. O que levanta a questão a respeito da midiatização do conteúdo (ou viralização). As duas ações hackerativistas estavam diretamente relacionadas ao que defende o deputado Marco Feliciano, mas, talvez, apesar do mesmo se identificar (inclusive politicamente) enquanto “pastor”, a (não) laicidade do governo não está tão atrelada à sua personalidade quanto suas declarações homofóbicas. Além disso, a segunda ação não teve em seu conteúdo um deboche escancarado como a realizada pelo grupo ProtoWave. Apesar da segunda ação hackerativista ter sido realizada no dia em que foi divulgada a notícia que a Câmara dos deputados pretendia votar a PEC 99[16], a repercussão desta notícia não teve o impacto que às relacionadas à causa LGBT. Inclusive, cabe aqui uma reflexão sobre como, mesmo o deputado João Campos sendo um óbvio antagonista à causa LGBT, e um membro muito ativo da bancada evangélica (autor da proposta da cura gay e da PEC 99), não foi ele o político escolhido como alvo das ações hackerativistas. Será que teria a ver com sua imagem pouco midiatizada ou por não ser tão atuante em redes sociais como o Marco Feliciano e, por isso, não haver tanta reverberação de suas declarações? São indagações para posteriori. Voltando para a segunda ação hackerativista, realizada pelo grupo ProtoWave, podemos perceber que  o hack apresenta um maior engajamento político para discutir a perseguição parlamentar em todo da luta do movimento LGBT com a explanação de conceitos de fatos que refletem tais atitudes e presentes em grupos específicos de representantes legislativos.

Considerações finais
Em uma sociedade midiatizada, os aspectos estruturantes perpassam, necessariamente, as mídias, atravessando também a comunicação.  Vários âmbitos sociais podem ser pensados sob uma lógica da midiatização, mas percebemos que o hackerativismo pode se beneficiar nesse sentido, afinal, os hackers construíram (e constroem) o ciberespaço mesmo antes desse se compreender assim, porque eles possuem fluência entre os códigos que estruturam essa sociedade midiatizada.
Claro que essa facilidade está relacionada com o pólo dos “dispositivos”, portanto, há uma relação com a tecnologia - mas a ação hackerativista não depende exclusivamente de avanços tecnológicos, numa perspectiva hacker, as ações dependem de uma mudança de perspectiva, de um ajuste de foco - seja pelo discurso ou seja pela apropriação de ferramentas. Tal iniciativa, reconfigurando os processos comunicacionais e sociais, assim como orientado pela ética hacker compromissada com o livre compartilhamento de informações, acaba questionando o estigma de crime e pondo em pauta a retomada de assuntos de interesse público, muitas vezes acobertados entre as ferramentas midiáticas.
Assim, acreditamos que a compreensão da postura hacker dentro do processo de midiatização fortalece o entendimento sobre a conjuntura da democracia informacional e contribui para emancipações em termos de exercício político. Essa postura, contudo, ainda se apresenta muito dúbia em algumas intervenções propostas por grupos hackers brasileiros, os quais parecem transitar suas ações entre interesses pessoais ou “pixos” descompromissados com a atenção para a seriedade em discutir determinados assuntos. Cabem, pois, novas análises e discussões sobre a singularidade dos ciberativismos propostos, e como cada um deles repercute no imaginário virtual e social da população brasileira.

Referências
BARROS, Laura. Anonymousbrasil, ago. 2013. Disponível em: <http://www.anonymousbrasil.com/coluna/o-hacktivismo-no-desenvolvimento-da-internet>. Acesso em: 13 mar. 2014.

FERREIRA, Jairo. Midiatização: dispositivos, processos sociais e de comunicação, Compós 2012.

HJARDARD, Stig. Midiatização: teorizando a mídia como agente de mudança social e cultural. Revista MATRIZes:  Ano 5 – nº 2 jan./jun. 2012 - São Paulo - Brasil.

LEMOS, André. Cibercultura: tecnologia e vida social na cultura contemporânea. Porto Alegre: Sulina, 2002.

LIRA, Isadora, PEREIRA, Thobias. Práticas colaborativas, imersão e infiltração: as contribuições do hackerativismo no webjornalismo, 2014.

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NETO, Antônio Fausto. Fragmentos de uma «analítica» da midiatização (2008). Disponível em:http://200.144.189.42/ojs/index.php/MATRIZes/article/view/5236/5260

RAINIE, Lee, WELLMAN, Barry. Networked: The new social operating system. Cambridge: MIT Press, 2012.

SODRÉ, Muniz. Antropológica do espelho: uma teoria da comunicação linear e em rede. Vozes, 2002.

VILELA, Geraldo Majela. O uso do termo hacker nas notícias veiculadas na internet brasileira, 2006. Orientadora: Kátia Cilene Amaral Uchôa. Disponível em: http://www.ginux.ufla.br/files/mono-GeraldoVilela.pdf

http://www.ebc.com.br/cidadania/2015/01/projeto-de-lei-contra-a-homofobia-deve-ser-arquivado-no-congresso

http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/06/pagina-de-marco-feliciano-na-internet-e-hackeada.html






[1] Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGC) pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). E-mail: isadoratlira@gmail.com
[2] Na classificação aristotélica são registrados três gêneros de existência: a vida contemplativa, a vida política e a vida prazerosa.
[3] O termo designado para quem utiliza a programação para prejudicar alguém (roubar senhas, apropriar-se de informações pessoais com propósitos maléficos) é cracker. Lemos, Seara e Pérsio apontam que a diferença entre cracker e hacker é que o primeiro é uma pessoa invade e danifica os sistemas (2002, p. 30).
[4] Do original: 1. to cut with rough, heavy blows to kick 2 roughly or without control. 3 to secretly find a way of looking at and/or changing information on somebody else’s computer 4. to be able/not able to manage in a particular situation. 5 to ride a horse for pleasure. 6 to drive a taxi. Ou como substantivo: 1 (disapproving) a writer, especially of newspaper articles, who does a lot of low quality work and does not get paid much 2 (disapproving) a person who does the hard and often boring work for an organization, especially a politician: a party hack 3 a horse for ordinary riding or one that can be hired 4 a taxi 5 an act of hitting sth, especially with a cutting tool.
[5] Compreendido aqui como o ativismo que utiliza a internet e outras hipermídias em movimentos engajados politicamente. E tendo como algumas características: a ecologia das ações e suas múltiplas localidades; ações não-lineares; valorização do anonimato e isenção de uma identidade política; recusa pela institucionalização.
[6] Grupo estadunidense de hackers e uma organização de divulgação de mídia Faça você mesmo (Do it yoursef), fundada em 1984 em Lubbock, no estado do Texas. http://www.cultdeadcow.com
[7] Marco Feliciano foi o terceiro deputado mais votado no estado de São Paulo.
[8] Informação do site oficial de Marco Feliciano, embora não especifique no que consiste sua atividade enquanto empresário.
[9]O Ministério Público Federal (MPF) abriu uma acusação contra Feliciano no Supremo Tribunal Federal pelo crime de induzir ou incitar discriminação ou preconceito de raça, cor e religião. Apesar de reprovar a conduta de Feliciano, a ação acabou por ser arquivada pela maioria dos ministros do Supremo, que entendeu que não há como tipificar as mensagens como crime. Em entrevista ao programa Agora é Tarde, da emissora de televisão Bandeirantes, Feliciano disse estar sendo utilizado como bode expiatório, que não era racista, argumentando que já tinha até feito trabalhos na África.
[10] Disponível em: http://migre.me/qTrao
[11] Disponível em:  http://migre.me/qTrbZ
[12] Disponível em: http://migre.me/qTrdc
[13] Disponível em: http://migre.me/qTrdY
[14] A marca de perfume O Boticário veiculou uma propaganda para a data comemorativa do dia dos namorados com casais homoafetivos, o que gerou uma repercussão nas redes sociais elogiando a atitude pró-LGBT. Mas nem todos viram a propaganda com bons olhos. A vereadora Eliza Virgínia (PSDB - João Pessoa), por exemplo, propôs um boicote à marca.
[15] Na postagem, o deputado questiona a performance da atriz, que fez uma representação da crucificação, indicando o elevado índice de mortes da população LGBT.
[16] A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 99, de autoria do deputado João Campos (PSDB-GO), permitiria que associações como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e convenções de denominações evangélicas também tenham condição de questionar o Supremo Tribunal Federal. 

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