O jornalista
Adelmo Genro Filho faz nesta obra uma ampla revisão das abordagens teóricas e
práticas do jornalismo, desvendando as limitações dessa atividade tal como foi
pensada até agora.
Adelmo mostra
que, até hoje, a prática do jornalismo, embora insinue potencialidades e
alternativas, baseia-se num conjunto de impressões empíricas. Os profissionais,
de um modo geral, não aprofundam uma reflexão sobre a prática jornalística:
"eles colocam seu talento, honestidade e ingenuidade a serviço do capital,
com a mesma naturalidade com que compram cigarros no bar da esquina.
Mostra também
que a teoria produzida sobre o tema, em certos enfoques, não vai muito além do
simples reconhecimento do valor operativo das técnicas. Em outros, limita-se à
crítica ideológica do jornalismo como instrumento de dominação. Na opinião do
autor, tais abordagens não revelam, de forma consistente, a natureza do
jornalismo.
Além disso,
segundo Adelmo, a impotência teórica não é exclusividade do jornalismo burguês,
tal como se pratica nos países capitalistas. Também nos países do
"socialismo real" a essência humanizadora do jornalismo não é
compreendida, o que explica a manipulação e a pobreza do jornalismo praticado
nesses países.
Porém ao
disparar suas críticas tanto ao jornalismo burguês como ao jornalismo do
"socialismo real", o autor não está propondo uma "terceira
via" no campo ideológico. Amparando-se numa sólida formação marxista e
assumindo uma postura antidogmática e criativa, Adelmo atribui ao jornalismo um
papel revolucionário: o de ser uma forma de conhecimento que, embora
historicamente condicionada pelo capitalismo, apresenta potencialidades que
ultrapassam esse modo de produção. Para o autor, o jornalismo deve ser encarado
como uma nova "forma de conhecimento" que se distingue e complementa
as mediações que a ciência e a arte proporcionam para a compreensão do mundo
humano: "A consumação da liberdade humana exige, em especial, o desenvolvimento
do jornalismo".
"O
Segredo da Pirâmide" culmina com a revelação de importantes conclusões que
a própria prática do jornalismo está exigindo - em relação ao uso do lead e da
"pirâmide invertida" - e que a teoria, até o momento, não explicava
adequadamente. Adelmo Genro Filho propõe essas explicações e, nesta ousada
obra, expõe concepções inovadoras sobre a natureza do fenômeno jornalístico.
Este trabalho
foi apresentado, inicialmente, como dissertaçâo de conclusão do Mestrado em
Ciências Sociais na Universidade Federal de Santa Catarina. Nessa ocasião,
foram orientadora e c-oorientadora as professoras Ilse Scherer-Warren e Maria
José Reis, às quais manifesto meu agradecimento pela sua permanente disposição
em colaborar. Cabe-me, no entanto, inteira responsabilidade pelo conteúdo
destas reflexões, bem como pelas premissas filosóficas e políticas que
nortearam este trabalho.
Em especial,
agradeço aos jornalistas Daniel Herz, Luiz AIberto Scotto, Pedro S. Osório e
Airton Kanitz, com os quais debati várias idéias aqui desenvolvidas. Ao Chefe
do Departamento de Comunicação da UFSC, Prof. Francisco Castilhos Karam, e ao
Coordenador do Curso de Jornalismo, Prof. Hélio Ademar Schuch, meu
reconhecimento pelo apoio recebido durante a elaboração deste trabalho.
Agradeço também à Profª. Cássia Corintha Pinto, que corrigiu os originais, e a
Albertina Buss, que realizou a tarefa de datilografia. Para a presente
publicação foram feitas pequenas modificações no texto final da tese.
Existe uma grande
defasagem entre a atividade jornalística e as teorizações que se fazem em torno
dela. Esse distanciamento se dá em tal grau que, inclusive, tem gerado falsas e
absurdas polêmicas opondo "teóricos" e "práticos".
Recentemente, uma campanha movida no Brasil contra a obrigatoriedade do diploma
acadêmico para o exercício do jornalismo indicou até que ponto os pragmáticos
chegam em seu desprezo pela teoria. Eles consideram que a simplicidade das
técnicas jornalísticas dispensa uma abordagem teórica específica e uma formação
especializada.
Por outro
lado, é bem verdade que os "teóricos" não têm feito muito no sentido
de lançar uma ponte com mão dupla entre a teoria e a prática. Em geral, as
teorizações acadêmicas oscilam entre a obviedade dos manuais, que tratam apenas
operativamente das técnicas, e as críticas puramente ideológicas do jornalismo
como instrumento de dominação.
Assim, o
profissional que procura, realmente, refletir sobre o significado político e
social de sua atividade - cujas ambigüidades e contradições ele percebe em seu
dia-a-dia -, coloca-se num impasse. Ou ele vai tomar conhecimento das variações
em torno de um tema que já domina, ou buscar contato com enfoques teóricos que
desprezam as contradições e potencialidades críticas do jornalismo, com as
quais ele se depara na prática.
Por isso, a
indevida polarização entre "teóricos" e "práticos"
corresponde, no fundo, a uma incomunicabilidade real entre as teorizações
existentes e a riqueza da prática. Essa polarização torna-se a expressão de um
diálogo, não de surdos, mas de mudos: um não consegue falar ao outro. A
prática, por sua limitação natural, jamais soluciona a teoria. Ela apenas
insiste, através de suas evidências e contradições, que deve ser ouvida. Mas só
pode se expressar racionalmente atravésda teoria.
Responsabilidade maior, portanto, cabe à própria teoria que está muda em
relação às evidências e contradições da prática, quando deveria transformá-las
numa linguagem racional. Isto é, elucidar e direcionar a prática num sentido
crítico e revolucionário.
O objetivo
maior do presente trabalho é propor, certamente com limitações, um enfoque
teórico capaz de apreender racionalmente tanto as misérias quanto a grandeza da
prática que é seu objeto e critério. É a tentativa de iniciar um diálogo, tendo
presente que a responsabilidade integral pela iniciativa e pela fecundidade ou
não dos conceitos cabe à teoria.
Trata-se, a
rigor, de um ensaio que pretende fornecer elementos para uma teoria do
jornalismo, entendido este como uma forma social de conhecimento,
historicamente condicionada pelo desenvolvimento do capitalismo, mas dotada de
potencialidades que ultrapassam a mera funcionalidade a esse modo de produção.
O jornalismo que tratamos aqui, portanto, não é uma atividade ligada
exclusivamente ao jornal, embora tenha sido tipificado pelos diários que
nasceram a partir da segunda metade do século passado, já com características
empresariais e voltados para a diversificação crescente das informações.
O enfoque
teórico, situado na perspectiva da dialética marxista, está alicerçado nas
categorias do "singular", "particular" e
"universal" - noções de larga tradição no pensamento filosófico,
especialmente na filosofia clássica alemã - que atingiram sua plena riqueza de
determinações lógicas no pensamento de Hegel, apesar de inseridas dentro de seu
sistema idealista. Sob a inspiração da estética de Lukács, que definiu a arte
como uma forma de conhecimento cristalizada no "particular" (típico),
o jornalismo é caracterizado como uma forma de conhecimento centrada no
"singular". Uma forma de conhecimento que surge, objetivamente, com
base na indústria moderna, mas se torna indispensável ao aprofundamento da
relação entre o indivíduo e o gênero humano nas condições da sociedade futura.
Assim, a proposta de um "jornalismo informativo", ideologicamente
antiburguês, transforma-se numa possibilidade política efetiva.
Inicialmente,
são criticados alguns pressupostos do funcionalismo que estão subjacentes ao
tratamento pragmático que normalmente é dado ao problema das técnicas
jornalísticas e, igualmente, à questão da "objetividade e
imparcialidade" da informação. Incluída na mesma linhagem teórica do
funcionalismo, à chamada Teoria Geral dos Sistemas é apontada como inadequada
para a abordagem crítica da comunicação humana em geral e do jornalismo em
particular, à medida que reduz a antologia do ser social às propriedades
sistêmicas referidas pela cibernética.
A Escola de
Frankfurt, que nos legou uma importante herança teórica de crítica da cultura,
da comunicação e da ideologia no capitalismo desenvolvido, é denunciada em sua
unilateralidade ao abordar tais questões exclusivamente sob o ângulo da
manipulação. Nessa perspectiva, são discutidas idéias do jovem Habermas a
respeito do jornalismo e algumas posições de autores contemporâneos situados
nessa tradição.
Mais adiante,
uma corrente que se pretende marxista, chamada por nós de "reducionismo
ideológico" - que trabalha com as premissas naturalistas do stalinismo - é
analisada em seu caráter manipulatório e conseqüências a éticas no terreno
político.
Os últimos
capítulos, com base nos pressupostos formulados ao longo do balanço crítico,
propõem uma rediscussão dos conceitos de lead, notícia e reportagem, assim como
uma revisão do significado da "pirâmide invertida". Finalmente, numa
abordagem das relações do jornalismo com a sociedade capitalista e, mais
amplamente, com a perspectiva histórica de uma sociedade sem classes, são
delineadas suas potencialidades socializantes e humanizadoras.
Este trabalho
pretende fornecer alguns elementos e indicações para a construção de uma teoria
do jornalismo. Não tem, evidentemente, o fôlego e a sistematicidade do projeto
desenvolvido pelo pioneiro Otto Groth, cujo admirável esforço teórico reafirma
a tradição do pensamento abstrato entre os alemães. Em 1910, o Dr. Groth começa
a escrever sua primeira obra, Die zeitung (O jornalismo), uma enciclopédia do
jornalismo em quatro tomos, publicada entre os anos de 1928 e 1930. Em 1948
publica sua segunda obra. A partir de 1960 aparece seu trabalho mais importante
e sistemático: Díe unerkannte culturmacht. Gruddlegung der zeitungswiessenschft
(O desconhecido poder da cultura. Fundamentação da ciência jornalística). Foram
seis volumes produzidos até 1965, quando o autor morreu sem terminar o sétimo.
Seu grande
objetivo era obter o reconhecimento da "ciência jornalística" como
disciplina independente. Essa meta hoje aparece como algo, no mínimo, duvidoso,
considerando-se que a tendência atualmente dominante nas ciências sociais é a
confluência de disciplinas e perspectivas. No entanto, o principal mérito de
Groth, que consiste em ter estudado o jornalismo (ou os "periódicos")
como um objeto autônomo entre os demais processos de comunicação social, não
teve muitos herdeiros.
As abordagens
que predominaram nas últimas décadas giram em torno da comunicação de massa, da
publicidade e das técnicas de informação, sem destacar o jornalismo como um
objeto específico a ser desvendado. Em geral, o jornalismo tem sido considerado
como simples modalidade da comunicação de massa e mero instrumento de
reprodução da ideologia das classes dominantes.
Otto Groth
definiu claramente o objeto sobre o qual erigiu sua teoria:
"Hay que
advertir que para Groth la Ciencia Periodística debe investigar todas las
publicaciones que aparezcam periodicamente como un solo fenómeno en sus
elementos. Su obra tiene siempre presente la 'unidad confirmada historicamente
de revistas y periódicos', por lo que Groth propone para los dos el nombre de
‘periodik’. Este término abarca no solo el periódico sino la prensa en
conjunto".
Suas
reflexões estão dirigidas, fundamentalmente, para o jornalismo escrito. Mas sua
teoria jornalística, segundo Belau, em muitos pontos é perfeitamente aplicável
ao rádio e à TV.
Seu método de
análise - ao contrário do que afirmam alguns pesquisadores - não é
funcionalista, mas tipicamente weberiano. Os periódicos, para ele, são uma obra
cultural produzida por sujeitos humanos dotados de finalidades conscientes,
como parte da totalidade das criações humanas. Vejamos as próprias palavras de
Groth:
"La obra
cultural tiene como realización un sentido de realidad sensual y por lo tanto
está teleologicamente determinado al hombre, al sujecto. Su estructura está en
el todo, y en cada una de sus partes, objetiva y subjetivamente. De esto recibe
lo característico de su ser, su autolegalidad. Los fines que fundan así la
Cultura derivan de las diferentes demandas humanas y de las normas válidas".
Para Groth, o
exterior, a forma, a produção técnica, não possuem nenhum valor para a
determinação do conceito e a delimitação do objeto da ciência do jornalismo.
"Lo que vale en una obra cultural es su ser, su sentido". As edições
e os exemplares de um periódico não são as peças das quais ele se compõe, mas a
manifestação e materialização da idéia que é sua substância. De sua unidade
imaterial resulta a continuidade de suas manifestações, pois essa idéia tem
vida e destino próprios, colocando a seu serviço as máquinas, os homens, os
edifícios, etc.
Essa idéia
cumpre uma finalidade, que é comunicar os acontecimentos em todos os ramos da
cultura e da vida em geral ao indivíduo e à sociedade em seu conjunto. O
significado do periódico, então, é a comunicação de bens imateriais de todos os
tipos, desde que pertençam aos mundos presentes dos leitores, de um modo
público e coletivo. O periódico deve servir de mediador, o que não implica
apenas uma função social, mas também uma reciprocidade das relações entre os
jornalistas, o periódico e os leitores.
As quatro
características fundamentais do jornalismo, apontadas por Groth -
periodicidade, universalidade, atualidade e difusão -, consideradas numa
perspectiva histórico-social, formam a dimensão que chamaríamos estrutural do
fenômeno jornalístico. Não caracterizam a sua essência. Por outro lado, ao
afirmar a significação do periódico como medíador na comunicação de bens
imateriais, Otto Groth permanece num terreno excessivamente genérico e
abstrato. O que é preciso definir é a especificidade desses bens imateriais
produzidos por essa estrutura jornalística historicamente determinada. Noutras
palavras, qual o tipo de conhecimento produzido pelo jornalismo?
Aqui já
temos, portanto, outra delimitação teórica do objeto, distinta daquela
construída por Groth. E um outro método: já não se trata apenas de distinguir a
racionalidade de uma comunidade subjetiva de indivíduos que trocam bens
simbólicos, mas de compreender como as condições históricas - em primeiro
lugar, as condições objetivas - produziram a necessidade dessa reciprocidade
subjetiva e, sobretudo, a especificidade dos bens simbólicos que nasceram dela.
Trata-se de, sob esse prisma, descobrir as ambigüidades e contradições do
fenômeno jornalístico diante da dominação e da luta de classes no capitalismo,
buscando inclusive perscrutar as potencialidades que se abrem ao futuro.
Mas voltemos
ao problema do método. É importante insistir sobre a bússola que vai nortear
esse trabalho. Já é quase senso comum nas ciências, hoje em dia, a idéia de que
o "objeto teórico" (ou "objeto do conhecimento") é distinto
do "objeto real", entendido este apenas enquanto manifestação
fenomênica. Não obstante, essa premissa é interpretada de maneiras diferentes,
dependendo dos pressupostos filosóficos dos quais se parte.
Há duas
interpretações agnósticas sobre a questão que devem ser descartadas. A primeira
delas, extrai dessa premissa uma conclusão de fundo neopositivista, isto é, a
realidade é tomada simplesmente para efeitos operatórios, como um
"construto" relativamente arbitrário. A segunda, a partir da
distinção entre "objeto teórico" e "objeto real", assume
uma postura francamente idealista, ou seja, o real é entendido como dotado de
uma essência inacessível ao conhecimento.
A posição
assumida neste trabalho reconhece que, analiticamente, o "objeto
teórico" é distinto do "objeto real" e interpreta essa sentença
no sentido que foi claramente indicado por Marx em Para a crítica da economia
política. Isso quer dizer que o real, para o conhecimento, não aparece
imediatamente em sua concreticidade. Não é a objetividade evidenciada
diretamente pelos sentidos que constitui o concreto, mas a síntese de suas
múltiplas determinações enquanto concreto pensado, embora a concreticidade que
o constitua seja o verdadeiro ponto de partida. O percurso do conhecimento vai
do abstrato ao concreto, das abstrações mais gerais produzidas pelos
conhecimentos anteriores, através das quais o sujeito para apreender a
particularidade do objeto, até o momento da síntese realizada pelo conceito
para apanhá-lo em suas determinações específicas, isto é, como concreto
pensado. É o que afirma, numa linguagem hegeliana, Jean Ladrière:
"Compreender o fenômeno é, de alguma maneira, efetuar o caminho da
manifestação em sentido inverso, remontar o processo de vinda ao manifesto,
vincular o manifesto ao seu princípio. Mas a caminhada não está separada do
fenômeno, ela é a própria possibilidade mais interior, sempre presente no
próprio ato de manifestação".
Neste
sentido, o "objeto real" é o próprio fenômeno, aquilo que aparece
imediatamente aos sentidos e se anuncia na experiência presente, assimilada de
forma isolada e fragmentária. E o "objeto teórico" (ou "objeto
do conhecimento") é a realidade observada sob o ângulo dos conhecimentos
acumulados preliminarmente, ou seja, nos limites em que isso foi possível já
vinculada (a realidade) ao seu princípio.
Assim, dois aspectos merecem ser
ressaltados. Primeiro, que o "objeto teórico", tal como o
"objeto real", não é algo dado de uma vez para sempre, alguma coisa
fixa e inerte, mas um processo de construção paralelo à produção, da própria
realidade humana. Segundo, que não existe um fosso intransponível entre um e
outro, mas uma transformação constante e progressiva do "objeto real"
em "objeto teórico" e vice-versa. É se apropriando do mundo que o
homem vai realizando essa transformação e, através dela, revelando a verdade do
objeto real por meio da teoria.
O percurso da
teoria, em conseqüência, não pode partir de um conceito exaustivo do objeto (no
caso, o jornalismo), para em seguida derivar suas determinações, pois isso
seria adiantar como premissa ideal aquilo que se pretende - embora com muitas
limitações - desenvolver na totalidade da reflexão. É recomendável, ao que nos
parece, que o percurso da exposição não violente a lógica da apreensão teórica,
embora não deva ser coincidente com ela, a fim de evitar os tropeços e
descaminhos que a teoria foi obrigada a percorrer. O melhor rumo da exposição
parece ser um caminho lógico presidido pelas conclusões teóricas já obtidas,
não reveladas inteiramente de antemão, embora delineadas previamente a fim de
que sirvam como vetor para a compreensão.
Avancemos,
então, em direção ao nosso objeto pela via delicada da aproximação excludente.
O objeto deste trabalho não é a comunicação em geral, o que poderia enfeixar
todo um conjunto heterogêneo de processos físicos, biológicos e sociais,
abordados sob a ótica da Cibernética e da Teoria da Informação. Tampouco se
pretende dar conta do conjunto de relações humano-sociais indicado sob o título
genérico de Comunicação Social, mas apenas de uma de suas determinações
históricas, a saber, o "jornalismo informativo", tomado como modelo
do próprio conceito de jornalismo.
A escassez de
estudos teóricos sobre o jornalismo (tendo presente a exceção de Otto Groth)
nos obriga a discutir a questão no contexto de categorias e referências mais
amplas. Assim, o critério usado para o balanço dos conhecimentos existentes
está alicerçado em duas premissas: os pressupostos teóricos assumidos e a
adoção privilegiada - para efeitos da crítica - de certas correntes de
pensamento que, a nosso juízo, produziram conceitos relativamente abrangentes
sobre o jornalismo. Discutiremos aspectos de três grandes correntes: o
"funcionalismo norte-americano", a "Escola de Frankfurt" e
uma espécie de concepção sobre o jornalismo que se autoproclama marxista, que
será chamada de "reducionismo ideológico". Esta concepção está
inserida na tradição stalinista e encontra seu complemento teórico nas teses de
Althusser.
A
"escola francesa" de Jacques Kaiser, que seria considerada mais tarde
como precursora do estruturalismo , e os estudos semiológicos inspirados na
lingüística estrutural de Saussure, na lingüística de Jakobson, na lingüística
transformacional de Chomsky, na psicanálise de Lacan e na antropologia de
Lévi-Strauss não serão discutidos. A partir da década de 60, na Europa, e
principalmente na França, esboçou-se nos pesquisadores universitários "o
sonho megalômano de uma decodificação geral dos sistemas de signos; e como toda
a manifestação humana é um sistema de signos... Imaginou-se uma ciência geral
da narrativa, que se encaixaria numa ciência geral das artes, que se encaixaria
numa ciência geral da linguagem, abarcando sociedade e inconsciente". Pela
natureza desse enfoque, que privilegia o mundo enquanto "linguagem",
"textos", "articulação de signos", o jornalismo é
investigado, via de regra, como produção ideológica que emana das estruturas
subjacentes em que se organiza a mensagem. Em conseqüência, para os objetivos
do nosso trabalho que é situar o jornalismo como fenômeno histórico-social
concreto e não apenas como organização formal da linguagem que manifesta
conteúdos explícitos ou implícitos, tais enfoques apresentam um insanável vício
de origem, que é a parcialidade na apreensão do fenômeno.
Inicialmente
faremos um balanço crítico no qual as nossas hipóteses irão sendo apresentadas.
Os capítulos finais abordarão a "pirâmide invertida", o lead , as
relações entre jornalismo e arte e, finalmente, as perspectivas históricas do
jornalismo. Na questão das relações entre jornalismo e ideologia, por uma opção
epistemológica, e também política, o conteúdo das notícias é tomado em seus
opostos extremos ("funcional" ou "crítico-revolucionário"),
embora seja necessário reconhecer que a dialética social estabelece todo um
leque de gradações e ambigüidades. Para abordar o jornalismo como modalidade de
conhecimento, são utilizadas três categorias de larga tradição no pensamento
filosófico desde a Antigüidade e, em especial, na filosofia clássica alemã: o
singular, o particular e o universal. Elas foram aplicadas por Lukács, com
relativo êxito, na formulação de uma estética marxista. Nossa intenção é
aplicá-las para a constituição de uma teoria do jornalismo.
Nossa
abordagem postula a aplicação do método dialético-materialista, tomada esta
expressão não no sentido do "reducionismo economicista" ou do
"naturalismo dialético" - o que conduz a um enfoque de matiz
positivista - mas numa perspectiva marxista que toma as relações práticas de produção
e reprodução da vida social como ponto nodal da autoprodução humana na
história. Ou seja, trata-se de uma maneira de considerar a realidade
histórico-social que compreende as determinações subjetivas como algo real e
ativo, uma dimensão constituinte da sociedade, mas que só pode ser apanhada
logicamente em sua dinâmica como momentos de uma totalidade que tem na
objetivação seu eixo central. Em síntese, um enfoque que toma a práxis como
categoria fundamental.
A dificuldade
maior é que inexiste uma tradicão teórica integrada e solidamente constituída
sobre o jornalismo, como já foi indicado, em que pesem alguns avanços
significativos em problemáticas paralelas ou áreas limítrofes. A Teoria da
Informação, por um lado, e a Comunicação de Massa, por outro, envolvem investigações
relativamente recentes e bastante desencontradas. O fundamento comum, enunciado
e discutido pelos estudiosos de ambas as áreas, é ainda por demais incipiente
para que se possa reconhecer a existência de uma inequívoca unidade teórica.
Persiste, entre a Teoria da Informação e as investigações filosóficas,
sociológicas e semiológicas da comunicação humana, uma terra de ninguém, um
vácuo atormentado por dúvidas e imprecisões.
Entre o
formalismo da primeira e a generalidade dos demais enfoques, não é de se
admirar, portanto, que o jornalismo - fenômeno que nasceu no bojo da
comunicação de massa - seja tão carente de explicações teóricas e tão farto em
considerações empiristas e moralizantes. O que tem acontecido é que as
abordagens sociológicas ou filosóficas contornam, ou simplesmente ignoram, as
questões formais propostas pela Teoria da Informação. Esta, por seu lado, tende
a exercer uma espécie de "redução ontológica" da sociedade para
inseri-la em seus modelos.
A chamada
"Teoria Geral dos Sistemas", pela metodologia abrangente e
reducionista que propõe, é um dos pólos desse dilema teórico. Os mal-entendidos
que se produziram com a participação de Lucien Goldmann num debate com
cientistas de diversas áreas sobre "o conceito de informação na ciência
contemporânea" , indicam o reverso da medalha, isto é, a dificuldade dos
enfoques "humanistas" em incorporar o aspecto objetivo e matemático implicado
no conceito de informação.
Assim,
pode-se perceber que a ausência de uma teorização axiomática sobre o jornalismo
não ocorre por acaso, mas num contexto de reflexões heterogêneas e até
paradoxais sobre o problema da comunicação. Tampouco essa lacuna é destituída
de conseqüências políticas e sociais: em geral, os posicionamentos nascidos
dessa indigência teórica capitulam diante do empirísmo estreito - caminho mais
curto até a apologia - ou assumem o distanciamento de uma crítica supostamente
radical que resume tudo no engodo e na manipulação.
A ingenuidade
dessas propostas, que desprezam as mediações especificamente jornalísticas e
propõem a panacéia de "devolver a palavra ao povo", denuncia a
inconsistência teórica das premissas. É certo que a ideologia burguesa está
embutida na justificação teórica e ética das regras e técnicas jornalísticas
adotadas usualmente. Mas isso não autoriza, como muitos parecem imaginar, que
se possa concluir que as técnicas jornalísticas são meros epifenômenos da
dominação ideológica. Essa conclusão não é legítima nem do ponto de vista
lógico nem histórico.
Um enfoque
verdadeiramente dialético-materialista deve buscar a concreticidade histórica
do jornalismo, captando, ao mesmo tempo, a especificidade e a generalidade do
fenômeno. Deve estabelecer uma relação dialética entre o aspecto
histórico-transitório do fenômeno e sua dimensão histórico-ontológica. Quer
dizer, entre o capitalismo (que gestou o jornalismo) e a totalidade humana em
sua autoprodução. Dito de outro modo, o jornalismo não pode ser reduzido às
condições de sua gênese histórica, nem à ideologia da classe que o trouxe à
luz. Parafraseando Sartre: a notícia é uma mercadoria, mas não é uma mercadoria
qualquer. O capitalismo não é um acidente no processo histórico, mas um momento
da totalidade em seu devir. Suas determinações culturais (no sentido amplo do
termo) envolvem uma dialética entre a particularidade dos interesses da classe
dominante e a constituição da universalidade do gênero humano. A quem pertencem,
hoje, as obras de Balzac, Flaubert, Zola e tantos outros? A ambivalência do
jornalismo decorre do fato de que ele é um fenômeno cuja essência ultrapassa os
contornos ideológicos de sua gênese burguesa, em que pese seja uma das formas
de manifestação e reprodução da hegemonia das classes dominantes.
O que faremos
nas reflexões subseqüentes é discutir o jornalismo como produto histórico da
sociedade burguesa, mas um produto cuja potencialidade a ultrapassa e se
expressa desde agora de forma contraditória, à medida que se constituiu como
uma nova modalidade social de conhecimento cuja categoria central é o singular.
Porém, o conceito de conhecimento não deve ser entendido na acepção vulgar do
positivismo, e sim como momento da práxis, vale dizer, como dimensão simbólica
da apropriação social do homem sobre a realidade. Nosso ponto de partida,
portanto, pode ser ilustrado pela assertiva final do livro de Nilson Lage. Ele
intuiu corretamente o caminho a seguir e o expressou de modo incisivo:
"Os jornais, em suma, não têm
saída: são veículos de ideologias práticas, mesquinharias. Mas têm saída: há
neles indícios da realidade e rudimentos de filosofia prática, crítica
militante, grandeza submetida, porém insubmissa". Orações imponentes de um
jornalista talentoso. Talvez o lead de uma nova abordagem.
1)BELAU, Angel Faus. La ciencia periodística de Otto Groth.
Pamplona, Instituto de Periodismo de la Universidad de Navarra, 1966. (A
síntese do pensamento de Groth apresentada aqui, bem como alguns dados
biográficos, foram baseados principalmente na presente obra).
2)BELAU, Angel Faus. Op. cit., p.17.
3)José Marques de Melo afirma que Groth adotou a perspectiva
funcionalista para o estabelecimento das leis do jornalismo. Cf.: Sociologia da
imprensa brasileira. Petrópolis, Vozes, 1973. (coleção Meios de Comunicação
Social; 10, Série Pesquisas; 2) p.20.
4)GROTH,
Otto. Apud:BELAU, Angel Faus. Op.cit., p.26.
6)Marx,
Karl. In: Karl Marx. 3. Ed. São Paulo, Abril Cultural, 1985. (Col. Os
Pensadores) p. 116-7.
7)LADRIÈRE, Jean. Filosofia e práxis científica. Rio de
Janeiro, Francisco Alves, 1978. p.23.
8)O "jornalismo informativo" produzido em qualquer
veículo, especialmente aquele que apresenta uma periodicidade pelo menos diária,
é o fenômeno que tipifica nosso objeto. Trata-se da manifestação mais
característica do fenômeno que pretendemos analisar, servindo como principal
referência do nosso "objeto real" no sentido já apontado.
9)Mais adiante veremos que as idéias de Althusser, mais
harmônicas com a concepção que denominamos "reducionismo ideológico",
também influenciaram as análises do belga Armand Mattelart, embora estas, no
seu conjunto, estejam mais identificadas com a tradição de
"Frankfurt".
10)CASASÚS, José Maria. Ideologia y análisis de medios de
comunicación. Barcelona. DOPESA, 1972. p.20.
11)MOISÉS, Leila Perrone. Roland Barthes. São Paulo,
Brasiliense, 1983. (Col. Encanto radical; 23) p.43.
12)Mesmo sendo expressões usuais no dia a dia dos
jornalistas, cabe informar o seu significado aos leitores de outras áreas. A
"pirâmide invertida" é a representação gráfica de que a notícia deve
ser elaborada pela ordem decrescente de importância das informações. O lead
designa "o parágrafo sintético, vivo, leve, com que se inicia a notícia,
na tentativa de fisgar a atenção do leitor".
13)Para quem não estiver familiarizado com tais categorias,
seria interessante iniciar a leitura pelo capítulo VII, onde se discute o
sentido que elas adquirem em Hegel e Marx, e onde são apresentadas algumas
reservas ao uso que delas fez Lukács em sua estética.
14)GENRO FILHO, Adelmo. Introdução à crítica do dogmatismo.
In: Teoria e Política. São Paulo, Brasil Debates, 1980. n.1.
15)Cf. BUCKLEY, Walter. A sociologia e a moderna teoria dos
sistemas. 2.ed. São Paulo, Cultrix, s/d.
16)GOLDMANN, Lucien. Sobre o conceito de consciência
possível. In: O conceito de informação na ciência contemporânia. Rio de
Janeiro, Paz e Terra, 1970. (Série Ciência e Informação; 2).
17)"Valéry es un intelectual pequeño-burgués, no cabe
la menor duda. Pero todo intelectual pequeño-burgués no es Valéry". In:
SARTRE, Jean-paul. Crítica de la razón dialéctica. Buenos Aires, Losada, 1979.
Libro I. p.53.
18)LAGE, Nilson. Ideologia e técnica da notícia. Petrópolis,
Vozes, 1979, p. 112 (Violette Morin aponta no mesmo sentido: "Parece que
el tratamiento periodístico, em su versión actual, encierra alguna 'virtud'
cuya intensidad, aún mal definida, podría un día rivalizar con la ya reconocida
de sus 'vícios'. Es éste, en todo caso, el sentimiento que este trabajo
contribuye a sugerir". Ver: El tratamiento periodístico de la informacion.
Madrid, A.T.E., 1974. (Col. Libros de Comunicación Social). p.10.
Source:
http://www.adelmo.com.br/bibt/t196-int.htm