quarta-feira, 15 de julho de 2015
domingo, 5 de julho de 2015
Jovens, pobres e malditos
Relato de uma perseguição policial tecnicamente perfeita
Por
Renan Antunes de Oliveira
Dona Suzana disse que o neto avisou um dia antes de morrer que todos os
problemas acabariam no feriado do Dia do Trabalho: “Acho que ele sabia o
que aconteceria”, conta ela, sem derrubar uma lágrima sequer pelo menino que
criou.
Maicon
morreu mesmo no dia anunciado, primeiro de maio. Sexta, perto das duas da
tarde. Sua morte virou notícia destacada na Zero Hora do sábado 2 de maio,
véspera do dia em que faria 19 anos. O texto da reportagem reproduzia as
informações oficiais do b-ó , como se diz para “boletim de
ocorrência”, o registro obrigatório de incidentes policiais.
Resumo:
“Um jovem e uma adolescente morreram durante perseguição na Cidade Baixa. A
dupla bateu num ônibus quando tentava fugir de motociclistas da PM numa moto
roubada”.
Maicon, numa cela da Febem
O
jovem era Maicon Gerônimo Cruz Teixeira de Ávila, lavador de carros,
jornaleiro, pé rapado. A adolescente, Fabiana Bitencourt, 17 anos, de
Livramento, filha de uruguaios. Faxineira, de mãe faxineira, neta de faxineira,
grávida de quatro meses.
Os
perseguidores eram dois PMs do 9º Batalhão. Quando iniciaram a perseguição eles
ainda não sabiam que a moto era roubada e muito menos que Maicon tivesse o que
a Polícia Civil depois divulgaria como sendo uma “extensa ficha criminal”.
Foi
um alívio para os PMs a revelação da ficha. Sem ela, eles teriam de alguma
forma provocado a morte de dois inocentes – a conta fica em apenas um inocente
porque Fabiana tinha 17 e ficha limpa. Ela (foto abaixo) estava na
carona na hora errada: é provável que não tenha tido tempo
de descer.
A
imediata revelação da ficha de Maicon pela polícia não o torna um criminoso,
como parece. Tratavam-se de infrações cometidas quando menor de idade – portanto,
deveriam ter sido mantidas com o sigilo determinado pelo Estatuto da
Criança e do Adolescente.
Por
que perseguir até a morte dois suspeitos ? As ações da Brigada Militar foram
corretas? Para responder estas perguntas a Polícia Civil abriu o inquérito de
praxe. Se foi rápida na cortesia profissional de revelar a ficha criminal do
guri, está lenta em apurar sua morte: passados 40 dias o inquérito ainda estava
parado.
A
única versão do incidente é a da Brigada Militar. Por ela, os soldados Junior
Rabelo e Kenni tentaram abordar Maicon na esquina da avenida Borges com a
Riachuelo, no Centro. Maicon dirigia uma Honda Twister amarela 250 cilindradas,
com Fabiana na garupa. Os PMs usavam motos menos potentes, duas Yamaha 225
cilindradas.
Os
PMs alegam que notaram que a placa da Honda estava dobrada, coisa que fazem
criminosos para impedir a identificação das roubadas – embora a maioria não o
faça porque ao dobrá-la apenas levanta suspeitas mais facilmente.
Os
soldados afirmam que quando deram ao motoqueiro “voz de abordagem” – seja lá o
que for este comando verbal - Maicon teria arrancado em disparada.
Não
se sabe qual dos PMs chamou o número 190 para verificar se a placa era de um
veículo roubado, mesmo porque a tal placa estaria dobrada. Nem quando eles chamaram:
se antes da abordagem ou depois que a moto disparou. O fato: quando Maicon
arrancou, os PMs saíram atrás no pega pega.
“A
Brigada existe para coibir delitos”, justificou o major Gelson Guarda, do 9º
BPM, que minutos mais tarde seria acionado por rádio e também participaria da
caçada mortal. “Se há um delito em andamento, e no caso era uma moto roubada, é
obrigação da PM tentar restituir o bem para seu dono. E quem foge, é porque tem
algo errado, é porque teme”.
O
jornal Diário Gaúcho relata o incidente exibindo uma ilustração com um PM de
arma na mão no momento da abordagem – se tal arma foi sacada, já daria motivo
para qualquer um fugir, culpado ou inocente. Só no ano passado, 168 pessoas se
queixaram à Corregedoria da Brigada de abordagens violentas de PMs contra
jovens pobres na periferia.
O
major Gelson não vê importância na forma da abordagem: “A perseguição foi uma
operação policial tecnicamente perfeita”. Ele disse que várias viaturas
espalhadas pelo centro foram acionadas para “acompanhamento” – por alguma
razão, o major não queria que a reportagem usasse a palavra “perseguição”.
Mais
do major Gelson: “Não tem como perseguir de outra forma, não há como fazer
alguém que está fugindo da polícia parar, a não ser atirando, derrubando da
moto, e isso nós não fizemos. A gente não atira, não derruba”. Na tese dele,
“Maicon provocou a própria morte e a da menina na garupa”.
A
perseguição que começou perto das duas da tarde na Borges acabou quase 15
minutos depois na esquina da José do Patrocínio com Joaquim Nabuco. A moto
bateu num ônibus da linha Cruzeiro.
O
motorista Otoniel Araújo conta que estava saindo da parada, na segunda marcha,
quando ouviu o estrondo: “Eu nem quis saber e nem quero saber quem era o
menino. Ele tinha roubado a moto. Então morreu alguém que só fazia mal para os
outros” – como fica óbvio, Otoniel não teve nenhuma problema de consciência
porque deu entrevista depois de ser informado pela polícia que Maicon seria do
mal.
Maicon
morreu na hora. Fabiana foi socorrida pelos PMs que a perseguiam. Recolhida
pelo SAMU, foi levada pro HPS, inconsciente desde a queda. Morreu às 16h05, com
fraturas na coluna cervical e na bacia. Os médicos constataram gravidez e a
morte do feto.
Aos
médicos, a polícia, ainda sem identificar Fabiana, disse que a adolescente
seria uma mulher assaltante. Uma assistente social do HPS repassou a informação
à família de Fabiana. A mãe protestou, reclamando mais da insensibilidade do
que da acusação falsa, mas a assistente firmou posição pró-polícia: “Tem mãe
que é cega”.
A
moto foi mesmo roubada. Na noite de 28 de abril, em Ipanema. “Eu a comprei para
minha filha”, diz o dono, o barbeiro Arno Manfroi, 62 anos. “Dois homens a
renderam quando ela chegava da faculdade” – o capacete da filha foi
encontrado com Maicon.
O
barbeiro contou que por três dias chegou “a desejar a morte dos ladrões, mas
quando soube do acidente fiquei com pena”. Uma moto vale duas vidas ? Seu Arno
pensa um pouco. Em seguida, reage indignado: “Pensando bem, a gente não pode
ter pena. Fiquei com 18 prestações para pagar, quase 12 mil”.
Um
pouco de Maicon e Fabiana, além do boletim de ocorrência
Maicon
era filho do romance de dois adolescentes. Pai e mãe não viveram juntos,
nem com ele. Foi criado pela avó materna num bairro barra pesada.
No
geral era um cara pra cima, mas nos últimos tempos andava com o papo de ser
amaldiçoado e que iria morrer cedo.
Seus
azares começaram quando largou o colégio na sexta série. Na era da
Internet, ele só era bom em cuidar de bicicletas. Autodidata, estava
estudando mecânica de motos - ao que tudo indica, nas motos de outros.
Tinha
três fotos conhecidas. Numa, de roupinha amarela, é um bebê loiro e
gordinho. Nas outras duas já estava interno na Febem.
Ele
foi parar lá aos 16, depois que participou de um assalto com um bandido adulto.
O homem pegou cadeia. Ele passou dois anos internado, saiu em novembro, em
liberdade assistida.
Maicon
só conheceu o pai em fevereiro. Seu Flávio é empregado de um lavajato lá perto
do Hospital Conceição. Disse que antes não tinha podido falar com o menino
porque a família da mãe não gostava dele – talvez porque a única coisa que deu
pra Maicon em vida foi, como admitiu, um pacote de fraldas e um creme para
assaduras, isto em 1991.
Apesar
de uma vida separados, pai e filho estavam começando a se dar bem. O pai lhe
deu trabalho, mas Maicon parece que não gostava do batente. Ficava olhando seu
Flávio lavar os carros e não atinava nem em passar uma água com a mangueira.
Maicon
trabalhou algumas semanas como jornaleiro, vendendo Zero Hora. Com o dinheiro
obtido nas vendas comprou uma casa no Jardim Ipê. A avó não é boba e logo
intuiu que ele estava roubando – drogas ele usava desde os 14.
A
partir de então, cada vez que o neto entrava em casa ela o revistava: “Ele
ficou intratável, dizia que já era um homem e não queria mais dar satisfações”,
diz a senhora, resignada.
Ninguém
da família sabia direito o que ele fazia, mas uma pista está numa frase dele
mesmo: “Quando eu saio pra fazer as minhas tretas posso não voltar”.
O
intratável e cada vez mais desregrado Maicon tinha um primo trabalhador,
Rudinho,18 anos, porteiro de um edifício na Independência. Os dois cresceram na
mesma rua, mas tomaram rumos diferentes na adolescência: “Ele tinha a turma
dele, eu a minha”, disse Rudinho, demonstrando desprezo.
Enquanto
Maicon foi para a Febem, Rudinho vivia o melhor dos mundos - levou para morar
com ele uma menina que tinha largado a sétima série, de apenas 16 anos:
Fabiana.
No
ano passado Fabiana engravidou, mas perdeu o bebê. Depois disto, as
coisas entre eles desandaram. Ela se queixava para as irmãs que ele trabalhava
muito, que estava sempre cansado. Rudinho era de ficar em casa – ela, de sair à
noite.
Rudinho, Fabiana, a irmã Fiama e um amigo de Rivera
Dos
tempos bons ela guardou uma foto onde aparece com Rudinho, a irmã Fiama e um
amigo de Rivera. Quando Maicon saiu da Febem, no final do ano passado, Fabiana
começou a sair com ele.
Pouco
depois do Carnaval Fabiana deixou a casa de Rudinho. Foi pra mãe, numa pensão
fuleira na avenida Salgado Filho. Dona Mariela, faxineira do
Unibanco, a acolheu no quarto já dividido com as irmãs Vitória, bebê, Mariele,
11, e Fiama,16.
No
dia da morte de Fabiana, as irmãs experimentaram blusas, tentaram diferentes
maquiagens. Estavam se divertindo. Em momentos assim a mãe sempre ironizava
delas: “Vocês são as legítimas PPs”. Patricinhas pobres.
Às
duas da tarde as três irmãs estavam de saída da pensão para o show do Padre Marcelo
na Praia de Belas quando tocou o celular de Fabiana. Sabe-se agora que era
Maicon. “Vão na frente que eu alcanço vocês lá”, disse, sem saber que sua vida
já estava amaldiçoada.
“Eu
olhei pela janela e vi o carinha na moto, mas não sabia quem era”, conta dona
Mariela. “Perguntei, a Fabi disse pra mim não me preocupar e saiu voando”.
Vestia calça jeans, blusa verde listrada, tênis Fila e prendia o cabelo com uma
pequena piranha rosa. A mãe ainda viu a menina colocar um capacete preto antes
de partir em direção à avenida Borges.
Minutos
depois, na Borges, se deu a abordagem da moto pelos brigadianos.
Enquanto
isto, Fiama e Mariele caminharam até a Praia de Belas. Quando o Skank começou a
tocar elas decidiram ir embora: “Não gosto do rock deles”, resumiu Mariele.
“Liguei
pra Fabiana pra avisá-la”, lembra Fiama. Um dos PMs que tinha feito a
perseguição atendeu o celular. Eram quase três e meia da tarde. O soldado fez
várias perguntas. Queria identificar Fabiana – sinal que só então a polícia
soube quem era a moça na garupa da “moto roubada” por aquele bandidinho de
“extensa ficha criminal”.
O
PM avisou Fiama que Fabiana tinha sido levada pro HPS. Lá, a assistente social
insensível deu pra família aquela versão policial de que Fabiana era cúmplice
de Maicon em assaltos, acrescentando ofensa à dor.
Na pensão: Fiama, Mirele com Vitória, uma vizinha e dona Mariela
Fiama
queria ver a irmã acidentada. Uma médica pediu que descrevesse a roupa,
pra saber se era a mesma pessoa que ela atendera. Fiama tinha o figurino
patricinha pobre na ponta da língua: calça jeans, blusa verde, tênis Fila,
piranha rosa. A resposta foi em tom delicado: “Ela já não está entre nós, seu coraçãozinho
parou de bater”.
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